Antimicrobianos · Pensar antes do antibiograma

PK/PD e dose no paciente crítico

Ataque, infusão prolongada, ajuste renal e descalonamento — a dose que decide o desfecho depois que a droga já foi escolhida

AtaqueSempre cheio
ManutençãoPelo ClCr
Time-out48 a 72 h
Conceito: escolher a droga certa e prescrevê-la errado dá o mesmo resultado que escolher a droga errada. No paciente crítico a farmacocinética muda de lugar: o extravasamento capilar dilui a droga hidrofílica num volume de distribuição que dobrou, a albumina cai e libera fração livre, e o rim ora hiperfiltra ora para. Por isso a regra da UTI se divide em duas metades que quase nunca andam juntas — o ataque não se ajusta nunca, e a manutenção se ajusta sempre. Esta página é o que fazer com essas duas metades, droga por droga, e o que fazer com o resultado quando a cultura volta.
Antes de prescrever qualquer coisa desta página.

As doses aqui reunidas seguem as diretrizes internacionais de referência para o doente crítico. Elas não substituem o protocolo do seu serviço, a padronização da sua farmácia nem a avaliação da infectologia/CCIH. Confirme apresentação, diluição, compatibilidade e dose antes de cada prescrição — e leve ao seu serviço qualquer divergência entre esta página e a tabela institucional, em vez de resolvê-la sozinho no plantão.

01

Três relógios: como a droga mata define como se prescreve

Antes de qualquer tabela, uma pergunta só: esta droga mata por tempo de exposição, por pico ou por área sob a curva? A resposta determina se você mexe na dose, no intervalo ou no tempo de infusão — e as três coisas são diferentes.

Padrão de morte bacterianaO alvoQuem éO que se otimiza na prescrição
Tempo-dependente
%fT > MIC
Manter a concentração livre acima da MIC pela maior fração possível do intervalo Beta-lactâmicos: carbapenêmicos, cefalosporinas, penicilinas, monobactâmicos Estender a infusão e encurtar o intervalo. Aumentar a dose isolada ajuda pouco: o que conta é o tempo acima da MIC, não a altura do pico.
Concentração-dependente
Cmax/MIC ≥ 8 a 10
Atingir um pico alto o suficiente para esterilizar de uma vez Aminoglicosídeos (amicacina, gentamicina, tobramicina); polimixinas Dose cheia e intervalo estendido. Na disfunção renal se espaça o intervalo — nunca se reduz a miligramagem, porque isso destrói o pico que é o mecanismo da droga.
AUC-dependente
AUC24/MIC
Exposição total ao longo de 24 horas Vancomicina (alvo 400 a 600), fluoroquinolonas (alvo > 125, até 250 no crítico) Dose diária total, distribuída conforme a depuração. É a família em que a dosagem sérica muda a conduta.
Por que a infusão estendida virou padrão no beta-lactâmico.

A mesma dose diária, infundida em 3 ou 4 horas em vez de 30 minutos, passa muito mais tempo acima da MIC — sem consumir mais droga e sem custo adicional. É a intervenção de PK/PD mais barata que existe na UTI, e o ensaio BLING III sustentou a infusão contínua de beta-lactâmico na sepse. Duas ressalvas práticas: a primeira dose (o ataque) corre rápido, em 30 minutos, porque o objetivo dela é o tempo até a concentração e não o tempo acima dela; e o meropenem não vai para infusão contínua de 24 horas na mesma bolsa por instabilidade térmica em temperatura ambiente — nele o padrão é a infusão estendida de 3 horas.

02

O ataque é sagrado

Se você levar uma única frase desta página para o plantão, leve esta: a dose de ataque não se ajusta por função renal, por diálise, por anúria nem por idade. Ela se ajusta por peso, e só.

A dose de ataque não existe para tratar — existe para encher o compartimento. No choque séptico o extravasamento capilar expande o volume de distribuição das drogas hidrofílicas (beta-lactâmicos, aminoglicosídeos, vancomicina, polimixinas), e a mesma miligramagem que produzia nível terapêutico no paciente estável produz um nível diluído no paciente chocado. Reduzir a primeira dose "porque a creatinina está alta" é o erro mais comum e mais caro da admissão: o rim que se quis proteger continua exposto à infecção não tratada, e o paciente perde as horas em que o antibiótico ainda decidia o desfecho.

A função renal entra no cálculo a partir da dose de manutenção — e, nas primeiras 24 a 48 horas de choque, mesmo a manutenção deve ser mantida plena enquanto o paciente estiver em ressuscitação ativa. O ajuste renal é uma conversa para o segundo dia, não para a primeira hora.

As três formas de subdosar na primeira hora.

1) Reduzir o ataque pela creatinina — a creatinina de hoje não descreve o rim de hoje (seção 03).
2) Reduzir o ataque porque o paciente está em diálise — a diálise depura durante a sessão, não antes dela.
3) Prescrever o ataque em infusão prolongada — o ataque corre em 30 minutos justamente para chegar rápido ao alvo; quem corre em 3 ou 4 horas é a manutenção.

03

O clearance calculado mente na UTI

Cockcroft-Gault e MDRD foram derivados de pacientes ambulatoriais em estado estável. O doente crítico não está em estado estável — e as duas direções do erro são igualmente perigosas.

O fenômenoO que acontecePara onde o erro empurra
Atraso da creatinina
lesão renal aguda em instalação
A creatinina sérica leva 24 a 48 horas para subir e refletir a queda real da filtração. No paciente que está perdendo função agora, a fórmula devolve um clearance que já não existe. Superdosagem da manutenção e nefrotoxicidade — sobretudo com aminoglicosídeo, vancomicina e colistina, que se ajustam pela função renal. A polimixina B não se ajusta e não entra aqui.
Clearance renal aumentado (ARC)
ClCr ≥ 130 mL/min
Jovens, trauma, grande queimado e a fase hiperdinâmica inicial da sepse hiperfiltram e depuram a droga hidrofílica em velocidade fora da tabela. Subdosagem crítica com intervalo padrão — a falha aparece justamente nas primeiras horas do choque.

A conduta prática não é abandonar a fórmula: é lê-la junto com a tendência. Creatinina subindo em rampa, diurese caindo e balanço positivo dizem "a filtração já caiu, ajuste antes que o número conte". Paciente jovem, febril, sem comorbidade renal e com creatinina baixa demais para a idade diz "isto aqui é ARC, e o intervalo padrão vai subdosar". Nas drogas com dosagem sérica disponível, essa discussão termina no laboratório e não na fórmula.

04

Diálise: por que a CRRT pede mais, e não menos

O erro conceitual aqui é tratar "diálise" como uma coisa só. Hemodiálise intermitente e terapia contínua são regimes de depuração opostos, e a dose que serve para uma mata na outra.

MétodoComo depuraO que isso faz com a dose
Hemodiálise intermitente
iHD · sessões de 3 a 4 h
Depuração maciça durante a sessão e praticamente nula nas outras 20 horas do dia. Doses baixas e espaçadas, e a regra que não se negocia: administrar sempre após o término da sessão nos dias de diálise, para não dialisar a própria dose.
Terapia contínua
CRRT · 24 h por dia
Convecção e difusão contínuas que imitam uma função renal moderada estável, com clearance equivalente a algo em torno de 30 a 50 mL/min. Doses maiores e intervalos menores do que na insuficiência renal grave sem diálise. O paciente em CRRT não é um anúrico: é um paciente com rim médio funcionando o tempo todo.
Nunca prescreva meropenem de 24 em 24 horas na CRRT.

Este é o exemplo canônico do erro. Aplicar à CRRT o ajuste de "insuficiência renal grave" leva a níveis subterapêuticos em poucas horas, porque o circuito remove a droga de forma contínua e linear. Na CRRT o meropenem é 1 a 2 g de 12 em 12 horas, e o cefepime 2 g de 12 em 12 horas. O mesmo raciocínio vale para piperacilina-tazobactam e ampicilina-sulbactam, que na CRRT voltam ao intervalo de 8 em 8 horas.

05

A tabela mestra: dose e ajuste renal do que existe na farmácia

Esta é a tabela de plantão. A coluna do ataque só fica vazia quando a droga não tem dose de ataque definida; onde houver número, ele vale integralmente na primeira hora, com qualquer creatinina e em qualquer máquina de diálise. O ajuste começa sempre na dose seguinte.

As manutenções de beta-lactâmico abaixo pressupõem infusão estendida: o tempo de infusão está escrito ao lado da dose porque, nesta classe, ele faz parte da prescrição. Sem o tempo correto, a dose certa vira dose errada.

DrogaAtaqueManutenção padrãoAjuste por ClCr (mL/min)iHD e CRRT
Meropenem 1 a 2 g IV em 30 min. 2 g se choque, SNC ou MIC limítrofe. 1 a 2 g de 8/8 h, cada dose em 3 h. ClCr 50 ou mais: 1 a 2 g de 8/8 h
ClCr 25 a 49: 1 a 2 g de 12/12 h
ClCr 10 a 24: 500 mg a 1 g de 12/12 h
ClCr abaixo de 10: 500 mg a 1 g de 24/24 h.
iHD: 500 mg a 1 g de 24/24 h, sempre após a sessão. CRRT: 1 a 2 g de 12/12 h, nunca de 24/24 h.
Cefepime 2 g IV em 30 min. 2 g de 8/8 h, cada dose em 3 a 4 h. ClCr 50 ou mais: 2 g de 8/8 h
ClCr 30 a 49: 2 g de 12/12 h
ClCr 15 a 29: 1 g de 12/12 h
ClCr abaixo de 15: 1 g de 24/24 h.
iHD: 1 g de 24/24 h após a sessão. CRRT: 2 g de 12/12 h.
Piperacilina-tazobactam 4,5 g IV em 30 min. 4,5 g de 8/8 h, cada dose em 4 h. ClCr acima de 20: 4,5 g de 8/8 h
ClCr 20 ou menos: 3,375 g ou 4,5 g de 12/12 h.
iHD: 2,25 a 4,5 g de 12/12 h após a sessão. CRRT: 3,375 g ou 4,5 g de 8/8 h.
Ampicilina-sulbactam em alta dose
esquema de CRAB
9 g IV em 30 min, o que entrega 3 g de sulbactam. 9 g de 8/8 h, cada dose em 4 h. O alvo é 9 g/dia de sulbactam ativo, o que equivale a 27 g/dia da associação 2:1. ClCr 30 ou mais: 9 g de 8/8 h
ClCr 15 a 29: 6 g de 8/8 h
ClCr abaixo de 15: 6 g de 12/12 h.
iHD: 6 g de 12/12 h após a diálise. CRRT: 9 g de 8/8 h. Alternativa aceita: 27 g/dia em infusão contínua nas 24 h.
Ertapenem Não é droga de ataque no choque. 1 g de 24/24 h em 30 min. ClCr acima de 30: 1 g de 24/24 h
ClCr 30 ou menos: 500 mg de 24/24 h.
iHD: 500 mg de 24/24 h após a sessão. CRRT: 1 g de 24/24 h.
Imipenem-cilastatina 1 g IV em 30 a 60 min. 500 mg de 6/6 h ou 1 g de 8/8 h. ClCr acima de 70: 500 mg de 6/6 h ou 1 g de 8/8 h
ClCr 41 a 70: 500 a 750 mg de 8/8 h
ClCr 21 a 40: 250 a 500 mg de 8/8 h
ClCr 20 ou menos: 250 a 500 mg de 12/12 h.
iHD: 250 a 500 mg de 12/12 h após a sessão. CRRT: 500 mg de 6/6 a 8/8 h. Proscrito em infecção do SNC.
Aztreonam 2 g IV em 30 min. 2 g de 8/8 h, cada dose em 2 a 3 h. Meningite com alergia a beta-lactâmico: 2 g de 6/6 h. ClCr 30 ou mais: 2 g de 8/8 h
ClCr 10 a 30: 1 g de 8/8 h
ClCr abaixo de 10: 500 mg de 8/8 h.
iHD: ataque de 2 g e depois 500 mg de 8/8 h após a sessão. CRRT: ataque de 2 g e depois 1 g de 8/8 h ou 1 a 2 g de 12/12 h.
Ceftriaxona A própria dose plena já é o ataque. 2 g de 24/24 h em 30 min. Meningite: 2 g de 12/12 h, ou seja, 4 g/dia. Nenhum ajuste, em nenhuma faixa de clearance. A eliminação é renal e biliar. Nenhum ajuste em iHD nem em CRRT, mesmo no paciente anúrico. A atenção fica na disfunção hepática grave.
Cefazolina A própria dose plena. 1 a 2 g de 8/8 h. Função normal: 1 a 2 g de 8/8 h
ClCr 30 a 50: 1 a 2 g de 12/12 h
ClCr 11 a 29: 1 g de 12/12 h
ClCr 10 ou menos: 1 g de 24/24 h.
iHD: 1 g de 24/24 h após a sessão.
Cefalotina
cefalosporina de 1ª geração
A própria dose plena. 1 a 2 g IV de 6/6 h. A meia-vida curta exige o intervalo de 6/6 h, mais estreito que o da cefazolina — é a alternativa a ela na celulite. ClCr acima de 50: 1 a 2 g de 6/6 h
ClCr 25 a 50: 1,5 g de 6/6 h
ClCr 10 a 25: 1 g de 6/6 h
ClCr abaixo de 10: 0,5 g de 6/6 a 8/8 h, após ataque de 1 a 2 g.
iHD: é dialisável; use a menor dose da faixa e complemente após a sessão.
Ampicilina A própria dose plena. 2 g de 4/4 h em endocardite e na cobertura de Listeria. ClCr 15 a 29: 2 g de 8/8 a 12/12 h
ClCr abaixo de 15: 2 g de 12/12 a 24/24 h.
iHD: 2 g de 12/12 a 24/24 h após a sessão.
Amoxicilina-clavulanato
via oral
Não se aplica. 500/125 mg VO de 8/8 h ou 875/125 mg VO de 12/12 h. ClCr 10 a 29: 500/125 mg de 12/12 h
ClCr abaixo de 10: 500/125 mg de 24/24 h
Não use o comprimido de 875/125 mg se o ClCr estiver abaixo de 30 — ele não pode ser partido sem quebrar a proporção do clavulanato.
iHD: 500/125 mg de 24/24 h.
DrogaAtaqueManutenção padrãoAjuste por ClCr (mL/min)iHD e CRRT
Vancomicina 20 a 35 mg/kg de peso real, máximo de 3 g no choque séptico. Nunca reduzido pela função renal. 15 a 20 mg/kg por dose, com o intervalo definido pelo clearance. Detalhe na seção 07. A dose por kg não muda; muda só o intervalo:
ClCr acima de 100: 15 mg/kg de 8/8 h
ClCr 60 a 99: 15 mg/kg de 12/12 h
ClCr 40 a 59: 15 mg/kg de 18/18 h
ClCr 20 a 39: 15 mg/kg de 24/24 h
ClCr 10 a 19 (sem HD): 15 mg/kg de 48/48 h. Início empírico; ajuste fino pela vancocinemia (seção 07).
iHD e CRRT: intervalo guiado por nível sérico. Ver as seções 07 e 09.
Amicacina 15 a 20 mg/kg IV em 60 min. Peso real; peso ajustado se a obesidade passar de 120% do peso ideal. 15 mg/kg em dose única diária, em intervalo estendido. Detalhe na seção 08. ClCr 60 ou mais: de 24/24 h
ClCr 40 a 59: de 36/36 h
ClCr 20 a 39: de 48/48 h
ClCr abaixo de 20: apenas a dose de ataque.
iHD e anúria: apenas a dose de ataque; nova dose só quando o vale estiver seguro.
Gentamicina e tobramicina 5 a 7 mg/kg IV em 60 min. Mesma lógica de intervalo estendido da amicacina. Mesmas faixas da amicacina, ajustando o intervalo e nunca o miligrama. Mesma regra: ataque cheio, redose guiada pelo vale.
Linezolida Não se aplica. 600 mg IV ou VO de 12/12 h, infusão em 60 min. Nenhum ajuste. A eliminação não é renal. Nenhum ajuste em iHD nem em CRRT. Acima de 10 a 14 dias: hemograma diário, pelo risco de plaquetopenia grave e neuropatia periférica.
Daptomicina A própria dose plena. 6 mg/kg de 24/24 h como dose padrão; 8 a 10 mg/kg em casos selecionados — bacteremia e endocardite, sobretudo por enterococo resistente à vancomicina. Nunca em pneumonia — o surfactante pulmonar a inativa. ClCr abaixo de 30: a mesma dose, de 48/48 h. iHD: de 48/48 h após a sessão. CRRT: de 48/48 h.
Tigeciclina 200 mg IV. 100 mg de 12/12 h. A dose de bula, de 50 mg de 12/12 h, falha no paciente crítico. Nenhum ajuste. A eliminação é biliar e fecal. Nenhum ajuste. Não atinge nível urinário e não serve como monoterapia em pneumonia nem em bacteremia.
Ciprofloxacina A própria dose plena. 400 mg IV de 8/8 h, aceitável de 8/8 a 12/12 h, ou 750 mg VO de 12/12 h. Infusão em 60 min. ClCr 30 a 50: 400 mg IV de 8/8 a 12/12 h, ou 250 a 500 mg VO de 12/12 h
ClCr abaixo de 30: 200 a 400 mg IV de 12/12 a 24/24 h, ou 500 mg VO de 24/24 h.
iHD: 200 a 400 mg IV de 24/24 h após a sessão — é pouco dialisável. CRRT: 200 a 400 mg IV de 8/8 a 12/12 h; reserve 400 mg de 8/8 h para MIC alta. SLED: 400 mg de 12/12 h após a sessão.
Levofloxacina A primeira dose de 750 mg funciona como ataque. 750 mg IV ou VO de 24/24 h, infusão em 60 min. ClCr 50 ou mais: 750 mg de 24/24 h
ClCr 20 a 49: 750 mg no primeiro dia e depois 500 mg de 48/48 h
ClCr abaixo de 20: o mesmo esquema.
iHD e CRRT: 750 mg no primeiro dia e depois 500 mg de 48/48 h, após a sessão na iHD.
Sulfametoxazol-trimetoprim Não se aplica. 10 a 15 mg/kg/dia do componente trimetoprim, IV ou VO, divididos de 8/8 h ou de 12/12 h. ClCr 15 a 30: reduzir a dose diária em 50%
ClCr abaixo de 15: evitar; se for inevitável, reduzir de 50 a 75% em tomada única diária.
iHD: reduzir 75%, após a sessão. CRRT: reduzir 50%.
Fosfomicina Não se aplica. IV: 6 a 8 g de 8/8 h. Cistite não complicada: 3 g VO em dose única, e não 8 g. ClCr abaixo de 50: ajustar estritamente ao clearance calculado. Em diálise, o ajuste também é estrito ao método.
Polimixina B 20.000 a 25.000 UI/kg de peso real, o que equivale a 2,0 a 2,5 mg/kg, em 1 a 2 h. 12.500 a 15.000 UI/kg de 12/12 h, ou seja, 1,25 a 1,5 mg/kg de 12/12 h. Nenhum ajuste, em nenhuma faixa. A eliminação é predominantemente não renal. Nenhum ajuste. Não é removida por diálise, nem em iHD nem em CRRT, nem no anúrico.
Colistimetato
polimixina E, CMS
9.000.000 UI em 1 a 2 h, equivalentes a 300 mg de colistina base ativa. 4.500.000 a 5.500.000 UI de 12/12 h, o que dá 9 a 11 milhões de UI/dia, ou 300 a 360 mg de base ativa por dia. Ajuste rígido e recalculado todos os dias contra o clearance calculado. É o oposto exato da polimixina B. Ajuste diário também em diálise. É a única polimixina com eficácia urinária.
Metronidazol Não se aplica. 500 mg IV de 8/8 h. A cobertura anaeróbia já vem embutida em meropenem e em piperacilina-tazobactam — não associe a eles. Sem ajuste pela função renal. A eliminação é hepática. iHD: é dialisável; administre após a sessão nos dias de diálise. CRRT: sem ajuste.
Clindamicina Não se aplica. 600 a 900 mg IV de 8/8 h. Não substitui o metronidazol contra B. fragilis — a resistência do grupo é alta. Nenhum ajuste. A eliminação é hepática. Nenhum ajuste; não é removida por diálise. Vigie diarreia por C. difficile.
Azitromicina Não se aplica. 500 mg IV ou VO de 24/24 h. Na pneumonia comunitária grave soma-se ao beta-lactâmico pela cobertura de atípicos. Nenhum ajuste. A eliminação é biliar. Nenhum ajuste; não é dialisável.
Nitrofurantoína Não se aplica. 100 mg VO de 12/12 h por 5 dias, apenas na cistite não complicada. Não atinge nível sérico nem tecidual — não serve para pielonefrite nem para infecção sistêmica. ClCr abaixo de 30: contraindicada — não concentra na urina e acumula metabólitos tóxicos. Contraindicada em diálise.
Duas armadilhas de prescrição que costumam aparecer juntas.

A primeira: não associe metronidazol a meropenem nem a piperacilina-tazobactam — a cobertura anaeróbia já está dentro da própria droga, e a associação só acrescenta toxicidade e custo. A segunda: vancomicina somada a piperacilina-tazobactam eleva o risco de lesão renal aguda de forma sinérgica. Quando as duas forem necessárias, vigie a creatinina diariamente e reavalie a dupla no time-out de 48 a 72 h.

A candidemia entra aqui porque no doente crítico ela se comporta como uma bacteremia de alto risco, e a lógica de ataque e ajuste renal é a mesma. Duas drogas resolvem quase tudo: a equinocandina como empírico e o fluconazol como step-down.

DrogaAtaqueManutenção padrãoAjuste por ClCr (mL/min)iHD e CRRT
Micafungina
equinocandina
Não se aplica — a micafungina não tem dose de ataque, diferente da caspofungina e da anidulafungina. 100 mg IV de 24/24 h. É a primeira linha na candidemia do paciente crítico. Nenhum ajuste, em nenhuma faixa. A eliminação não é renal. Nenhum ajuste em iHD nem em CRRT; não é dialisável. Também não se ajusta na disfunção hepática leve a moderada. Não cobre urina, olho nem SNC.
Fluconazol 800 mg (12 mg/kg) IV no primeiro dia. 400 mg (6 mg/kg) IV ou VO de 24/24 h. Biodisponibilidade oral quase total. ClCr 50 ou menos: metade da dose de manutenção, mantido o ataque cheio. iHD: dose plena após cada sessão, que remove parte da droga. CRRT: dose plena — a CRRT depura o fluconazol e não se reduz.
06

As que não se ajustam, e o erro que mata

Existe um reflexo quase automático à beira do leito: creatinina alta, então reduza tudo. Em quatro drogas desta lista esse reflexo é um erro, e em uma delas ele é letal.

A lógica vale a pena ser guardada inteira: só se ajusta o que o rim elimina. Ceftriaxona tem eliminação renal e biliar, e não precisa de ajuste em nenhuma faixa, nem no anúrico. Tigeciclina sai por via biliar e fecal. Linezolida tem eliminação não renal e atravessa a hemodiálise e a CRRT sem mudança de dose. E polimixina B tem eliminação predominantemente não renal e não é removida por diálise nenhuma.

Reduzir polimixina B pela creatinina é subdosar um paciente que já está morrendo. A polimixina B costuma ser a última droga ativa contra o germe que o paciente tem. Ela não se ajusta em nenhum clearance, não se ajusta na hemodiálise intermitente, não se ajusta na CRRT e não se ajusta no anúrico. O ajuste "preventivo" não protege o rim — ele apenas garante concentração subterapêutica contra um pan-resistente. A nefrotoxicidade da polimixina se maneja com vigilância e com discussão de suporte dialítico, nunca com redução de dose.
O par que confunde: polimixina B e polimixina E não são intercambiáveis.

A polimixina B já é a molécula ativa e vai direto para o sangue, sem passar pelo rim — por isso não se ajusta, e por isso não serve para infecção urinária. O colistimetato é uma pró-droga hidrofílica que precisa ser ativada e excretada por via renal — por isso se ajusta rigidamente todo dia, e por isso é a única das duas que atinge nível urinário. Na prática: cistite por enterobactéria resistente a carbapenêmico pede colistimetato; infecção sistêmica pede polimixina B.

Ver os mecanismos de resistência que levam até aqui
07

Vancomicina: alvo, ataque, manutenção e quando pedir a vancocinemia

A vancomicina é a droga desta página em que a dose empírica menos se sustenta sozinha. Ela tem eliminação puramente renal, janela terapêutica estreita, e um alvo que não se enxerga pela clínica.

O alvo farmacodinâmico é a razão AUC24/MIC entre 400 e 600. Como poucos serviços calculam AUC à beira do leito, a tradução prática que se usa é o vale entre 15 e 20 mcg/mL para infecção grave. São duas formas de perseguir a mesma coisa: exposição suficiente para matar, sem exposição excessiva para o rim.

O ataque é de 20 a 35 mg/kg de peso real, com teto de 3 g no choque séptico, e ele não se reduz por função renal. O rim define a velocidade com que a droga sai, não o volume que ela precisa ocupar. Infunda a no máximo 10 a 15 mg por minuto: acima disso aparece a síndrome do homem vermelho, que é liberação de histamina pela velocidade da infusão, e não alergia.

A manutenção parte de 15 a 20 mg/kg por dose, e o clearance define apenas o intervalo: de 12 em 12 horas com função renal normal, abrindo para 24, 48 ou 72 horas conforme a insuficiência avança. A partir da segunda ou da terceira dose, quem manda deixa de ser a fórmula e passa a ser o nível sérico.

Quando pedir e como coletar a vancocinemia.

Colha o vale imediatamente antes da quarta dose, ou seja, já em regime, e não antes disso — dosar fora do equilíbrio gera um número que não significa nada e leva a ajustes errados. O alvo é de 15 a 20 mcg/mL na infecção grave. Se o serviço dispuser de ferramenta bayesiana, duas coletas permitem estimar a AUC24 diretamente, e isso é superior ao vale isolado. Repita a dosagem a cada 3 a 5 dias no paciente estável, e sempre que a função renal se mover, que o paciente entrar ou sair de diálise, ou que a resposta clínica não acompanhar o esperado.

Três situações que exigem vancocinemia mesmo onde o serviço "não costuma pedir". Função renal instável, com creatinina subindo ou caindo entre dois dias. Uso concomitante de outro nefrotóxico, com destaque para a associação com piperacilina-tazobactam. E terapia prolongada, acima de 5 a 7 dias. Nesses três cenários, o erro de estimativa da fórmula é maior que a margem da droga.
08

Aminoglicosídeos: ataque cheio, intervalo estendido, pico e vale

Aminoglicosídeo é a classe em que a intuição de "diminuir a dose" causa mais dano. A morte bacteriana é concentração-dependente, e quem produz nefrotoxicidade é o tempo de exposição acumulada, não o pico.

Daí a regra que organiza toda a prescrição: ajusta-se o intervalo, nunca o miligrama. Reduzir a dose derruba o pico, perde-se o alvo de Cmax/MIC de 8 a 10, e a exposição acumulada continua a mesma — o pior dos dois mundos: não mata e ainda intoxica.

O ataque de amicacina é de 15 a 20 mg/kg em 60 minutos, por peso real, usando peso ajustado quando o paciente estiver acima de 120% do peso ideal. Gentamicina e tobramicina, 5 a 7 mg/kg. Esse ataque é integral mesmo no anúrico e mesmo em quem está dialisando — a diferença entre o rim que funciona e o que não funciona aparece na segunda dose, não na primeira.

ClCr (mL/min)Intervalo da amicacinaO que muda na prática
60 ou mais 15 mg/kg de 24/24 h. Regime padrão de dose única diária.
40 a 59 15 mg/kg de 36/36 h. Mesma dose em miligramas, com o horário andando um turno por dia.
20 a 39 15 mg/kg de 48/48 h. Dose em dias alternados; confira o horário na prescrição para não dobrar.
Abaixo de 20, iHD ou anúria Somente a dose de ataque. Nova dose apenas quando o vale voltar a nível seguro. Sem dosagem sérica, ver a seção 09.
Como coletar o pico e o vale.

Pico: 30 minutos após o término da infusão. Alvo de 35 a 60 mcg/mL para a amicacina — é o número que diz se a droga vai matar. Vale: 30 minutos antes da próxima dose. Alvo abaixo de 2,5 a 4 mcg/mL, preferencialmente abaixo de 2 — é o número que diz se o rim e a cóclea vão aguentar. Para a gentamicina, o vale precisa ficar abaixo de 1 mcg/mL. Se o vale vier acima de 4, segure a dose, estenda o intervalo em 12 a 24 horas e recolha.

Amicacina isolada só trata bexiga.

O rim concentra a droga na urina, e por isso a amicacina em monoterapia é aceitável em cistite e em infecção urinária baixa. Nunca use aminoglicosídeo sozinho em infecção de corrente sanguínea ou sistêmica: a penetração tecidual é baixa e a monoterapia falha. Nesses cenários ela entra sempre associada a um beta-lactâmico ativo, como parceira e não como espinha dorsal do esquema.

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Sem vancocinemia e sem amicacinemia: como conduzir

A maior parte dos serviços brasileiros não dosa amicacina, e uma parte relevante também não dosa vancomicina em tempo útil. Isso não autoriza subdosar, e também não autoriza prescrever no escuro. O que muda é o método.

O primeiro passo é o mesmo nos dois casos: o ataque não depende de exame nenhum. Ele se calcula pelo peso, se infunde na primeira hora e não se discute. A ausência de dosagem sérica só afeta a manutenção.

Sem vancocinemia, a manutenção vira uma estimativa vigiada. Calcule o intervalo pelo clearance, recalcule o clearance todo dia com a creatinina do dia e não com a da admissão, e vigie três coisas em conjunto: creatinina e diurese, resposta clínica, e tempo total de terapia. Havendo qualquer instabilidade renal, prefira o intervalo mais largo e reavalie em 24 horas, em vez de manter um esquema fixo por uma semana. E quando a vancocinemia existir no serviço, mas com resultado demorado, colha assim mesmo antes da quarta dose: um resultado que chega no dia seguinte ainda muda a prescrição do quinto dia.

Sem amicacinemia, a decisão mais segura é usar o aminoglicosídeo como terapia adjuvante curta — tipicamente de 3 a 5 dias dentro de um esquema combinado, para ampliar a cobertura empírica e a sinergia na fase inicial do choque —, e não como espinha dorsal de um tratamento longo. O ataque cheio na primeira hora entrega o pico de que a droga precisa; a suspensão precoce evita a exposição acumulada que produz a nefrotoxicidade. Se o clearance estiver abaixo de 20 mL/min, ou o paciente for anúrico ou dialítico, e o serviço não dosar nível sérico, administre apenas a dose de ataque e não repita: mantenha a cobertura com o beta-lactâmico ou com a polimixina do esquema.

O que não fazer quando falta a dosagem sérica. Não reduza o miligrama do ataque para "compensar" a ausência do exame — isso perde o alvo sem proteger ninguém. Não mantenha aminoglicosídeo por mais de 5 a 7 dias às cegas. Não repita dose de aminoglicosídeo em anúrico sem nível sérico. E não substitua a dosagem pela creatinina isolada: a creatinina de hoje descreve a filtração de anteontem no paciente crítico.
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As de reserva: a dose certa desde o primeiro dia

Estas drogas não estão na farmácia do plantão. Elas chegam por solicitação, às vezes dias depois do pedido, e chegam exatamente no momento em que já não há margem para errar a primeira dose. Por isso a dose delas entra aqui.

Enquanto o inibidor dirigido não chega, o paciente é tratado com o que existe — e os esquemas-ponte montados com o estoque real estão descritos na página de resistência. O que esta seção acrescenta é a outra metade: quando a droga finalmente chegar, ela precisa ser prescrita na dose plena e com o tempo de infusão correto desde a primeira ampola.

DrogaDose padrãoAjuste por ClCr (mL/min)iHD e CRRT
Ceftazidima-avibactam
KPC e OXA-48
2,5 g de 8/8 h, cada dose em 3 h. ClCr acima de 50: 2,5 g de 8/8 h
ClCr 31 a 50: 1,25 g de 8/8 h
ClCr 16 a 30: 0,94 g de 12/12 h
ClCr 6 a 15: 0,94 g de 24/24 h.
iHD ou ClCr 5 ou menos: 0,94 g de 48/48 h após a sessão. CRRT: 1,25 g de 8/8 h.
Ceftazidima-avibactam + aztreonam
metalo-beta-lactamase
2,5 g + 2 g, ambos de 8/8 h, em Y e cada dose em 3 h. ClCr 30 ou mais: esquema pleno
ClCr 10 a 29: 0,94 g de 12/12 h + 1 g de 8/8 a 12/12 h
ClCr abaixo de 10: 0,94 g de 24/24 a 48/48 h + 2 g de 24/24 h.
CRRT: 1,25 g de 8/8 h + 2 g de 12/12 h.
Ceftolozana-tazobactam
Pseudomonas DTR
3 g de 8/8 h em 3 h na pneumonia; 1,5 g de 8/8 h em foco urinário ou abdominal. ClCr acima de 50: dose plena
ClCr 30 a 50: 1,5 g de 8/8 h
ClCr 15 a 29: 750 mg de 8/8 h
ClCr abaixo de 15: ataque de 1,5 g e depois 375 mg de 8/8 h.
iHD: ataque de 1,5 g e depois 375 mg de 8/8 h. CRRT: 1,5 g de 8/8 h.
Meropenem-vaborbactam
KPC
4 g de 8/8 h em 3 h. ClCr 50 ou mais: 4 g de 8/8 h
ClCr 30 a 49: 2 g de 8/8 h
ClCr 15 a 29: 2 g de 12/12 h
ClCr abaixo de 15: 1 g de 12/12 h.
iHD: 1 g de 12/12 h após a sessão. CRRT: 2 g de 8/8 h.
Imipenem-relebactam 1,25 g de 6/6 h. ClCr 90 ou mais: 1,25 g de 6/6 h
ClCr 60 a 89: 1 g de 6/6 h
ClCr 30 a 59: 750 mg de 6/6 h
ClCr 15 a 29: 500 mg de 6/6 h.
CRRT: 500 a 750 mg de 8/8 h.
Cefiderocol 2 g de 8/8 h. Se houver clearance aumentado, com ClCr de 120 ou mais: 2 g de 6/6 h. ClCr 60 a 119: 2 g de 8/8 h
ClCr 30 a 59: 1,5 g de 8/8 h
ClCr 15 a 29: 1 g de 8/8 h
ClCr abaixo de 15: 750 mg de 12/12 h.
iHD: 750 mg de 12/12 h após a sessão. CRRT: 1,5 g de 12/12 h. O estudo CREDIBLE-CR mostrou sinal de mortalidade maior no subgrupo de Acinetobacter.
Sulbactam-durlobactam
CRAB
1 g + 1 g de 6/6 h. Com clearance aumentado, ClCr de 130 ou mais: de 4/4 h. ClCr 45 a 129: de 6/6 h
ClCr 30 a 44: de 8/8 h
ClCr 15 a 29: de 12/12 h.
Abaixo de 15 e iHD: de 12/12 h por três doses e depois de 24/24 h.
Enquanto a droga de reserva não chega.

Os esquemas-ponte montados com o que existe no estoque — polimixina B em dose plena, tigeciclina em alta dose, amicacina com ataque cheio, ampicilina-sulbactam 9 g de 8/8 h para Acinetobacter, e o meropenem mantido apenas se a MIC for de 8 mcg/mL ou menos — estão descritos caso a caso na página de resistência. As doses de cada componente são as das tabelas das seções 05 e 06 desta página.

Ver os esquemas-ponte por perfil de resistência
Colistimetato não é a escolha para infecção sistêmica, e polimixina B não é a escolha para urina. Vale repetir aqui porque é o erro mais comum quando o esquema-ponte é montado às pressas: em cistite por enterobactéria resistente a carbapenêmico, use colistimetato. Em ventriculite nosocomial, a penetração liquórica sistêmica das polimixinas fica abaixo de 5%, e a via intraventricular por derivação externa é obrigatória — colistimetato 125.000 UI de 24/24 h, o que corresponde a 10 mg de colistina base ativa por dia, ou polimixina B 5 mg de 24/24 h.
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Descalonamento: o time-out de 48 a 72 horas

O esquema empírico é uma aposta feita com informação incompleta, e uma aposta feita sob pressão de tempo. Ele não foi desenhado para durar sete dias. O descalonamento não é um gesto de economia — é a segunda metade da mesma decisão terapêutica.

A pressa da primeira dose é justificada: cada hora de atraso na antibioticoterapia adequada custa sobrevida, e a terapia empírica inadequada dobra o risco de óbito. Mas o mesmo raciocínio que exige largueza na primeira hora exige estreitamento na segunda decisão. Manter o espectro largo depois que a cultura respondeu não é prudência: é seleção de resistência, é toxicidade, e é a próxima infecção do próprio paciente.

Por isso o time-out de 48 a 72 horas precisa ser um horário marcado na visita, e não uma intenção. Quatro gatilhos objetivos mostram que a janela abriu: desmame de vasopressor em curso, cultura com antibiograma disponível, procalcitonina em queda, e relação PaO2/FiO2 em melhora.

Pergunta do time-outO que se olhaPara onde a resposta empurra
A cultura respondeu? Hemocultura, cultura do sítio e antibiograma completo, incluindo a MIC quando disponível. Germe identificado e sensível ao espectro estreito: descalone imediatamente, mesmo que o paciente ainda esteja em vasopressor.
O foco foi controlado? Drenagem feita, cateter retirado, coleção abordada, tecido desbridado. Foco controlado encurta o tempo total. Foco não controlado não se compensa com espectro mais largo — se compensa com nova abordagem cirúrgica.
O paciente virou a curva? Vasopressor, lactato, temperatura, PaO2/FiO2, nível de consciência. Melhora clínica com cultura negativa sugere que a infecção era do sítio tratado, ou que não havia infecção — e nesse caso a pergunta é sobre suspender, não sobre trocar.
Ainda preciso da cobertura extra? A cobertura de MRSA, de enterococo, de Pseudomonas ou de fungo que foi somada empiricamente. Sem isolamento e sem fator de risco persistente, cada camada empírica extra sai. Cobertura de enterococo só se mantém em pós-operatório, exposição prévia a cefalosporina, imunossupressão ou prótese valvar.
A história do próprio paciente é o melhor preditor empírico que existe.

Antes de escolher o esquema, procure as culturas dos últimos 12 meses no prontuário. ESBL isolada nos últimos 6 a 12 meses justifica carbapenêmico empírico. História de enterobactéria resistente a carbapenêmico empurra para o inibidor dirigido. Nenhum escore substitui esse dado. Exemplo prático: choque séptico de foco urinário em paciente com ESBL há 3 meses recebe meropenem 2 g de ataque, e não piperacilina-tazobactam — e se em 48 h a E. coli vier sensível à ceftriaxona, o carbapenêmico sai no mesmo dia.

Rever a escolha empírica por foco

Para decidir a suspensão, a procalcitonina seriada de 24 em 24 ou de 48 em 48 horas é útil como critério de parada: queda de 80% ou mais em relação ao pico, ou valor absoluto abaixo de 0,25 mcg/L, sustenta suspender. Ela serve para parar, não para começar nem para manter. E a imagem não decide tempo de tratamento: o infiltrado radiológico se resolve com atraso de até 30 dias, e prolongar antibiótico por imagem residual é erro clássico.

CenárioDuraçãoCondição
Pneumonia adquirida na comunidade (PAC) 5 dias. Mínimo de 5 dias, desde que afebril por 48 a 72 h e clinicamente estável. Sobe para 7 dias se MRSA ou Pseudomonas.
Pneumonia hospitalar / associada à VM 7 dias. Vale inclusive para bacilos Gram-negativos não fermentadores, com boa resposta. Prolongar só se o foco não estiver controlado.
Bacteremia por Gram-negativo, não complicada 7 dias. Paciente estável, defervescência precoce, foco controlado, sem disseminação metastática e sem endocardite. Nesses casos, 7 dias não são inferiores a 14.
Bacteremia por S. aureus (SAB) 14 dias a 4 a 6 semanas. Exceção — não se encurta. 14 dias na não complicada; 4 a 6 semanas se endocardite, foco metastático, prótese ou bacteremia persistente. Sempre com ecocardiograma e avaliação de foco.
Bacteremia complicada 14 dias ou mais. Instabilidade persistente, foco não controlado, material protético, foco endovascular ou metastático.
Infecção intra-abdominal complicada 4 dias após o controle do foco. Contado a partir da drenagem ou da cirurgia, e não a partir do primeiro antibiótico. Sem controle de foco, o tempo não corre.
Pielonefrite / ITU complicada 5 a 7 dias. 5 dias com fluoroquinolona (levofloxacino), 7 dias com a maioria dos demais. Até 10 a 14 dias se bacteriemia ou resposta lenta.
Celulite / partes moles não purulenta 5 dias. Estender apenas se não houver melhora em 48 a 72 h. Coleção ou abscesso: drenar é o principal.

O step-down oral fecha o ciclo. Drogas de alta biodisponibilidade — fluoroquinolonas e sulfametoxazol-trimetoprim — alcançam nível sérico equivalente ao endovenoso e permitem terminar o tratamento fora da UTI, com ciprofloxacino de 500 a 750 mg de 12/12 h como exemplo típico. O critério é trato gastrointestinal funcionante, estabilidade hemodinâmica e foco controlado.

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A conduta por foco

Esta página é sobre dose. A escolha do esquema e o descalonamento foco a foco — germe provável, opções de tratamento e duração — ficam nas páginas de cenário por foco, cada uma com suas referências.

Cenários por foco.

Conduta completa por foco: urossepse e ITU, abdome e vias biliares, pneumonia, bacteremia, cateter e endocardite, pele e partes moles, sistema nervoso central e candidemia. Se a dúvida ainda é qual antibiótico começar, veja a escolha empírica por foco; se o antibiograma trouxe um mecanismo, os mecanismos de resistência e os germes multirresistentes.

Levar o caso ao assistente de conduta
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