Antimicrobianos · Pensar antes do antibiograma

Terapia empírica: do foco ao espectro

Escolher o antibiótico antes do antibiograma — pelo foco, pelo hospedeiro e pela ecologia local

A pergunta certaQue foco
ComeçarLargo e certo
DepoisEstreitar cedo
Conceito: terapia empírica é uma aposta feita antes da prova. O antibiograma chega em dois a três dias; o paciente em choque não espera. A aposta não é um chute — ela se decide por três coordenadas: o foco provável (que órgão, que porta de entrada), o hospedeiro (imunidade, órgãos que ajustam a dose, alergia, colonização prévia) e a ecologia (o que circula no seu serviço e o que este paciente já cultivou antes). A régua que aperta ou afrouxa a escolha é uma só: a gravidade. No choque séptico, a primeira dose adequada é a intervenção com maior impacto no desfecho — não o ajuste fino que virá depois do resultado.
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Antecipar, não esperar

No round da UTI, o erro inicial costuma ser o último. Se a conduta espera o "S" de sensível aparecer no sistema para agir, o paciente em choque já perdeu a janela. O laboratório confirma a terapia — ele não a inicia. Escolher bem no empírico é antecipar a ecologia provável e a estabilidade da droga frente aos mecanismos de resistência esperados, antes de o resultado liberar.

A armadilha do "descalonar depois". Começar errado e corrigir na cultura não é simétrico a começar largo e estreitar: no choque, a terapia empírica inadequada nas primeiras horas se associa a maior mortalidade, e nenhum acerto no terceiro dia desfaz isso. Largueza inicial bem indicada é segurança; estreitamento guardado para quando há informação é estewardship — os dois convivem.
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Quatro perguntas antes de prescrever

Antes de escolher a molécula, responda quatro coisas. Elas transformam "qual antibiótico" na pergunta que de fato define a escolha — e cada uma muda o espectro numa direção previsível.

PerguntaO que ela muda na escolha
Qual o foco provável?Define os patógenos esperados e a penetração exigida (pulmão, urina, SNC, abdome, corrente sanguínea têm floras e barreiras diferentes).
Quem é o hospedeiro?Imunossupressão amplia o espectro; alergia grave a beta-lactâmico redireciona a classe; função renal e hepática mudam a dose e a segurança; idade e fragilidade mudam a apresentação.
Qual a ecologia?Comunitário versus nosocomial, o antibiograma local do serviço e — decisivo — o que este paciente já colonizou ou cultivou nas internações recentes.
Quão grave está?Choque séptico aperta a régua: cobre-se o pior cenário plausível com a primeira dose, em vez de escalonar depois.
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Escolha empírica por foco

Respondidas as quatro perguntas, o foco provável aponta a flora esperada e, com ela, o esquema empírico. A tabela resume o raciocínio por sítio para os focos que mais chegam à UTI. As doses, a infusão prolongada e o ajuste renal ficam na página de PK/PD — aqui o que importa é a escolha e a armadilha de cada foco.

FocoFlora provávelEscolha empíricaA armadilha
Pneumonia comunitária grave
sem fator de risco para DRSP
Pneumococo, H. influenzae e atípicos (Legionella, Mycoplasma) Cefalosporina de 3ª geração (ceftriaxona) + macrolídeo (azitromicina) No idoso ou coronariopata, prefira este esquema à fluoroquinolona respiratória — QTc, neurotoxicidade e colite por C. difficile.
Pneumonia nosocomial / PAV
por Pseudomonas
Pseudomonas aeruginosa e Gram-negativos nosocomiais Beta-lactâmico antipseudomonas em dose maximizada e infusão prolongada (cefepime estendido; ceftolozana-tazobactam em dose pulmonar dobrada) A penetração alveolar é 30–50% do soro: a dose padrão falha. Nunca fosfomicina, tigeciclina ou eravaciclina em monoterapia para o pulmão.
Intra-abdominal comunitária
baixo risco
Enterobactérias entéricas + anaeróbios (B. fragilis) Cobertura de Gram-negativo entérico + metronidazol; enterococo não de rotina B. fragilis é aerotolerante — anaeróbio mandatório desde a 1ª hora. Metronidazol, não clindamicina (resistência proibitiva).
Intra-abdominal nosocomial
pós-operatória / alto risco
MDR (ESBL, AmpC), Pseudomonas, Enterococcus Amplo espectro antipseudomonas + cobertura enterocócica (ampicilina ou vancomicina) nos critérios de alto risco Antibiótico não cura foco não controlado. Após controle adequado, o STOP-IT mostra que 4 dias bastam.
Corrente sanguínea
bacteremia por Gram-negativo
Enterobacterales, Pseudomonas, Acinetobacter Cobrir agressivamente o pior cenário plausível na primeira dose, guiado pela ecologia do paciente Terapia empírica inadequada mais que dobra o risco de óbito. Hemocultura de controle não é rotina; 7 dias bastam na não complicada; step-down oral com fluoroquinolona ou SMX-TMP.
Partes moles graves
pé diabético grave
Polimicrobiano; avaliar ESBL e Pseudomonas se houver fator de risco Combinação que cubra o espectro resistente + debridamento / drenagem O controle cirúrgico decide o desfecho. Step-down para ciprofloxacina ou SMX-TMP quando estável.
As doses ficam na página de PK/PD. Esta tabela é sobre qual classe e por quê. Os valores exatos, a dose de ataque, a infusão prolongada e o ajuste por função renal têm página própria — porque no crítico o número muda, e ele merece ser lido com calma, não decorado de uma linha de tabela.
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Quando cobrir cada germe empiricamente

A cobertura empírica é uma aposta calculada na admissão, para ser estreitada no time-out de 48 a 72 h quando a cultura responde. Cobrir a mais custa toxicidade e resistência; cobrir a menos custa o paciente. Os gatilhos abaixo são os que a evidência sustenta.

GermeQuando cobrir empiricamenteObservação
Pseudomonas aeruginosa Isolamento prévio em via respiratória; doença estrutural pulmonar (bronquiectasia, fibrose cística); PAV/PAH com ATB IV nos últimos 90 dias, internação prolongada, choque/SDRA ou TSR aguda; neutropenia; prevalência local alta. Na PAC, só com isolamento prévio ou fator de risco validado localmente — não de rotina.
MRSA Isolamento ou colonização prévia por MRSA; PAC grave com necrose/cavitação, empiema ou pós-influenza; internação + ATB IV nos últimos 90 dias com fator de risco local. Suspender no time-out se cultura e/ou PCR nasal de MRSA negativos — o valor preditivo negativo é alto.
Enterobacterales ESBL Colonização/infecção prévia por ESBL; ATB recente (cefalosporina/fluoroquinolona) nos últimos 90 dias; exposição a serviço de saúde; viagem a região de alta prevalência. Infecção grave/bacteremia: carbapenêmico (piperacilina-tazobactam é inferior — ensaio MERINO). Cistite: nitrofurantoína ou SMX-TMP.
Acinetobacter (CRAB) UTI/internação prolongada, ventilação mecânica, ATB de amplo espectro recente, colonização prévia, feridas ou queimaduras extensas. Tratamento com sulbactam em alta dose, preferencialmente sulbactam-durlobactam ou associações — evitar monoterapia.
Enterococo Infecção intra-abdominal associada a cuidados de saúde ou pós-operatória; imunossuprimido; valvopatia ou prótese valvar; colonização conhecida; exposição prévia a cefalosporina. Não cobrir de rotina na infecção intra-abdominal comunitária de baixo risco.
Legionella Cobertura de atípicos é padrão em toda PAC. Suspeição alta na PAC grave/UTI, imunossuprimido, viagem ou surto, falha de beta-lactâmico, hiponatremia, LDH elevado, sintomas gastrointestinais. Antígeno urinário detecta L. pneumophila sorogrupo 1; um resultado negativo não exclui.
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Começar largo e certo, depois estreitar

Espectro largo não é sinônimo de bom antibiótico — é uma ferramenta com custo (resistência, toxicidade, Clostridioides difficile). A boa terapia empírica é larga no começo pela dúvida, e fica estreita assim que a informação chega.

  1. 1Colher antes de tratar. Hemoculturas e culturas do foco antes da primeira dose — desde que colher não atrase o antibiótico no choque. É a colheita que torna o descalonamento possível depois.
  2. 2Cobrir o cenário plausível, não o improvável. A largura acompanha o risco real do paciente (colonização por multirresistente, imunossupressão, gravidade), não o medo genérico.
  3. 3Reavaliar em 48–72 h. Com a cultura e a evolução, estreitar para o agente e voltar ao espectro mais focado que ainda cobre o germe identificado.
  4. 4Definir a duração desde já. Tempo de tratamento é decisão, não inércia. Biomarcadores como a procalcitonina ajudam a sustentar a suspensão, e vários cenários hoje têm cursos curtos validados — o tema é tratado nas páginas de cada cenário.
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O antibiótico não drena abscesso

A intervenção que mais muda o desfecho em muitas infecções graves não é a molécula — é o controle de foco. Coleção drenada, cateter infectado removido, tecido necrótico desbridado. Antibiótico em foco não controlado é dose que sobe, cultura que persiste e resistência que seleciona, sem a causa nunca sair de cena. Antes de escalonar a cobertura por "falha", a pergunta é se o foco foi de fato controlado.

Confirme no protocolo do seu serviço. Esta página é raciocínio de apoio à beira do leito, não uma prescrição. O espectro empírico, as doses e a duração dependem do antibiograma local, da microbiologia do seu serviço e do julgamento clínico diante do paciente — e não substituem o protocolo institucional nem a avaliação individual.
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