Antimicrobianos · Cenários por foco

Infecção intra-abdominal e das vias biliares

Controle de foco, comunitária versus nosocomial, colangite, colecistite e peritonite bacteriana espontânea

Antes de prescrever.

As condutas desta página seguem as diretrizes de referência para o doente crítico e não substituem o protocolo do seu serviço, a padronização da farmácia nem a avaliação da infectologia. Confira dose, ajuste renal e sensibilidade local antes de cada prescrição. A dose e o ajuste por ClCr de cada droga estão em PK/PD e dose.

01

A flora define o espectro

A flora é mista e previsível: enterobactérias (E. coli, Klebsiella) e anaeróbios do grupo B. fragilis em toda infecção intra-abdominal; enterococo, Pseudomonas e Candida entram quando a origem é pós-operatória, nosocomial ou associada a cuidados. Cobrir Gram-negativo e anaeróbio é obrigatório em todos.

02

Cenário a cenário

A coluna do meio é o esquema empírico da admissão; a da direita é o descalonamento e a duração.

CenárioEsquema empírico (opções)Descalonamento e duração
Comunitária leve a moderada
apendicite, diverticulite, colecistite
Ceftriaxona 2 g de 24/24 h + metronidazol 500 mg de 8/8 h; ou ertapenem 1 g de 24/24 h, que poupa o meropenem sem choque; ou ciprofloxacino ou levofloxacino + metronidazol na alergia grave a beta-lactâmico. Não se cobre enterococo nem Candida aqui. Duração: 4 dias após o controle do foco, se ele foi efetivo (ensaio STOP-IT).
Comunitária grave ou de alto risco
idoso, imunossuprimido, controle tardio
Piperacilina-tazobactam 4,5 g de 8/8 h em 4 h; ou meropenem 1 a 2 g de 8/8 h em 3 h; ou cefepime 2 g de 8/8 h + metronidazol. Considere cobrir enterococo no muito grave. Estreite pelo antibiograma assim que a fonte estiver controlada. Duração curta — 4 a 7 dias após o controle do foco.
Pós-operatória, nosocomial ou com choque Piperacilina-tazobactam 4,5 g de 8/8 h em 4 h, ou meropenem 1 a 2 g de 8/8 h em 3 h — o carbapenêmico se houver risco de ESBL. Acrescente enterococo (ampicilina 2 g de 4/4 h, ou vancomicina no E. faecium de risco) na prótese valvar, na imunossupressão grave ou no pós-operatório recorrente. Não some metronidazol a nenhum dos dois: a cobertura anaeróbia já está incluída. Antifúngico (equinocandina ou fluconazol) se Candida crescer, ou de forma empírica na perfuração do trato alto, na cirurgia recorrente e no imunossuprimido.
Colangite aguda Mesmo espectro Gram-negativo + anaeróbio: ceftriaxona + metronidazol, ou piperacilina-tazobactam no grave. O que resolve é a drenagem biliar (CPRE ou percutânea) — o antibiótico não desobstrui. Duração: 4 a 7 dias após a drenagem efetiva.

Vale entender por que o anaeróbio importa tanto aqui. B. fragilis é aerotolerante — tem catalase e superóxido-dismutase — e consome o oxigênio residual do tecido, criando ele mesmo a hipóxia local que o protege e que favorece o abscesso. E clindamicina não substitui metronidazol nesse cenário: a resistência do grupo B. fragilis à clindamicina é alta demais.

Se a cultura voltar ESBL, AmpC ou carbapenemase, a droga dirigida está em resistência que muda a conduta; se voltar Pseudomonas DTR, em os multirresistentes. A candidíase intra-abdominal segue a lógica de candidemia.

Mazuski JE, Tessier JM, May AK, et al. The Surgical Infection Society revised guidelines on the management of intra-abdominal infection. Surg Infect (Larchmt). 2017;18(1):1–76. Sawyer RG, Claridge JA, Nathens AB, et al. Trial of short-course antimicrobial therapy for intraabdominal infection (STOP-IT). N Engl J Med. 2015;372(21):1996–2005. Tamma PD, Heil EL, Justo JA, et al. Infectious Diseases Society of America 2024 guidance on the treatment of antimicrobial-resistant Gram-negative infections. Clin Infect Dis. 2024;ciae403:1–56. Pappas PG, Kauffman CA, Andes DR, et al. Clinical practice guideline for the management of candidiasis: 2016 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2016;62(4):e1–e50.