Resistência que muda a conduta: ESBL, AmpC e CRE
Ler o mecanismo antes do resultado e escolher a droga que não falha
Quem produz cada mecanismo — o mapa antes do laudo
Antes de o antibiograma ou o teste genotípico voltarem, o par espécie isolada + foco já antecipa o mecanismo provável — e, com ele, a droga. Reconhecer o padrão é o que permite acertar a primeira dose.
| Mecanismo | Espécies mais associadas | Focos clínicos típicos | Pistas do paciente |
|---|---|---|---|
| ESBL hidrolisa cefalosporinas |
Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, K. oxytoca, Proteus mirabilis. Clone pandêmico comunitário: E. coli ST131 (CTX-M). | ITU alta e bacteremia de origem urinária; intra-abdominal; corrente sanguínea. | Fluoroquinolona ou cefalosporina recente; internação ou manipulação de via urinária. Pode ser comunitário. |
| AmpC cefalosporinase induzível |
Risco moderado a alto de AmpC clinicamente relevante: Enterobacter cloacae, Klebsiella aerogenes, Citrobacter freundii. Demais portadores, de menor risco de desrepressão: Serratia marcescens, Morganella morganii, Providencia, Hafnia. | PAV; trato biliar e abscesso intra-abdominal; corrente sanguínea associada a cateter. | UTI prolongada; exposição a ceftriaxona/ceftazidima. Falha por desrepressão em 3–7 dias apesar de laudo sensível. |
| CRE carbapenemase |
Klebsiella pneumoniae (clone ST258, KPC), Escherichia coli, Enterobacter cloacae complexo. | Infecções graves em UTI (PAV, bacteremia, sepse); ferida operatória e partes moles. | Internação prolongada, ventilação mecânica, hemodiálise, carbapenêmico prévio, colonização prévia (swab retal). |
ESBL — o carbapenêmico ganha, e o ertapenem tem um porém
Em infecção grave por Enterobacterales produtor de ESBL, a pergunta de plantão é "beta-lactâmico com inibidor serve?". A resposta veio de um ensaio.
O ensaio clínico randomizado MERINO comparou piperacilina-tazobactam a um carbapenêmico em bacteremia por E. coli ou Klebsiella pneumoniae resistente à ceftriaxona, e mostrou superioridade do carbapenêmico na mortalidade em 30 dias. Traduzindo para a beira do leito: em infecção grave por ESBL, o carbapenêmico é o tratamento — não a piperacilina-tazobactam, mesmo que o antibiograma a marque como sensível.
O ertapenem tem altíssima ligação a proteína. Quando a albumina cai (hipoalbuminemia < 2,5 g/dL, regra no doente crítico), a fração livre da droga aumenta e é depurada mais rápido pelo rim — o nível despenca abaixo do alvo justamente em quem menos pode falhar. A coorte de Zusman associou hipoalbuminemia a maior mortalidade com ertapenem versus outros carbapenêmicos. No crítico e no hipoalbuminêmico, prefira um carbapenêmico do grupo 2 (meropenem), não o ertapenem.
AmpC — o gene que a droga acorda
A AmpC é uma beta-lactamase cromossômica. O problema não é só ela existir — é que certas drogas a induzem, selecionando resistência estável no meio do tratamento.
Ceftriaxona e ceftazidima (e a pressão de outras cefalosporinas) podem selecionar desrepressão cromossômica estável do ampC em cerca de 20% dos casos durante o tratamento nos produtores de alto risco — classicamente Enterobacter cloacae, Klebsiella aerogenes e Citrobacter freundii. O paciente começa sensível e emerge resistente. O cefepime é a escolha: é fraco indutor e estável à hidrólise pelo complexo acil-enzima. A piperacilina-tazobactam deve ser evitada em infecção grave por AmpC pela proteção insuficiente.
CRE — o tratamento se decide pelo gene
Aqui muda a régua: na Enterobacterales resistente a carbapenêmico, a diferenciação genotípica é o pilar. Não se trata "CRE" — trata-se KPC, OXA-48 ou metalo-beta-lactamase, e cada uma tem sua droga.
| Carbapenemase | Escolha dirigida | Por quê |
|---|---|---|
| KPC classe A |
Meropenem-vaborbactam, ceftazidima-avibactam ou imipenem-relebactam | Os três inibidores modernos neutralizam a KPC. |
| OXA-48 classe D |
Ceftazidima-avibactam | Vaborbactam e relebactam não cobrem OXA-48 — só o avibactam. |
| Metalo-β-lactamase MBL / NDM · classe B |
Ceftazidima-avibactam + aztreonam (infusão simultânea em Y) | O aztreonam escapa da MBL; o avibactam protege o aztreonam das outras beta-lactamases. Falcone demonstrou eficácia em bacteremia por MBL. |
| Resgate falha / pan-resistência |
Cefiderocol | Sideróforo estável às três classes de carbapenemase — alternativa de resgate. |
O esquema: qual droga para qual mecanismo
Tudo o que está acima, condensado no sentido do plantão: você tem o mecanismo na mão — do laudo ou da suspeita — e precisa da droga. A coluna que mais salva não é a primeira: é a última, a do que não usar, porque quase toda falha nesse terreno é uma droga que o antibiograma dizia sensível.
| Mecanismo | Primeira linha | Alternativa dirigida | Não usar |
|---|---|---|---|
| ESBL Enterobacterales · infecção grave ou bacteremia |
Meropenem carbapenêmico do grupo 2 |
Ertapenem só no descalonamento — paciente estável e albumina preservada. | Piperacilina-tazobactam, mesmo com o antibiograma sensível (MERINO). E ertapenem empírico no choque ou na hipoalbuminemia. |
| AmpC de alto risco E. cloacae · K. aerogenes · C. freundii |
Cefepime fraco indutor, estável à hidrólise |
Carbapenêmico se houver ESBL co-produzida — sugerida por MIC de cefepime na faixa sensível dose-dependente. | Ceftriaxona e ceftazidima (desreprimem o ampC em cerca de 20% durante o tratamento) e piperacilina-tazobactam na infecção grave — IDSA 2024. |
| CRE — KPC classe A |
Meropenem-vaborbactam ou ceftazidima-avibactam | Imipenem-relebactam — os três inibidores modernos neutralizam a KPC. | Polimixina B como primeira linha, tendo inibidor dirigido disponível. |
| CRE — OXA-48 classe D |
Ceftazidima-avibactam escolha, não alternativa |
Cefiderocol como resgate, se houver falha. | Meropenem-vaborbactam e imipenem-relebactam — nem o vaborbactam nem o relebactam inibem a OXA-48. Aqui trocar de inibidor é trocar por nada. |
| CRE — metalo-β-lactamase MBL / NDM · classe B |
Ceftazidima-avibactam + aztreonam infusão simultânea em Y |
Cefiderocol — resgate na falha ou na indisponibilidade. | Ceftazidima-avibactam sozinha (o avibactam não inibe MBL) e aztreonam sozinho (as beta-lactamases acompanhantes o destroem). A dupla só funciona junta. |
Repare no fio que atravessa a tabela: nas três linhas de CRE, o que muda a droga não é a bactéria nem o sítio — é qual enzima ela carrega. Por isso a pergunta ao laboratório não é "é CRE?", e sim "qual carbapenemase?". Sem essa resposta, você está escolhendo entre drogas que se excluem mutuamente. E se a droga da primeira coluna não existir no seu serviço — o caso mais comum no Brasil —, a seção seguinte é a que vale para o seu plantão.
Quando o inibidor dirigido não está na farmácia
A tabela acima descreve o alvo, não o inventário. Em boa parte dos serviços brasileiros, meropenem-vaborbactam, imipenem-relebactam e cefiderocol simplesmente não existem, e a ceftazidima-avibactam depende de solicitação — que leva dias. Isso não muda qual é a droga certa. Muda o que você faz nas 48 horas até ela chegar.
São dois movimentos no mesmo dia, não um depois do outro. O pedido sai junto com o resultado do gene — solicitar é parte da conduta, não burocracia para depois do plantão. E, enquanto o pedido corre, sustenta-se com combinação: pelo menos dois agentes com sensibilidade documentada no antibiograma, nunca um só. É a mesma lógica do CRAB — quando nenhuma droga é confortavelmente ativa, a monoterapia seleciona resistência antes de curar.
| Mecanismo | O pedido que sai hoje | Como sustentar até chegar |
|---|---|---|
| CRE — KPC classe A |
Ceftazidima-avibactam pela via disponível (secretaria estadual, compra especial). | Combinação de dois agentes ativos no antibiograma: polimixina B como espinha dorsal, mais amicacina ou gentamicina se o laudo mostrar sensibilidade. Meropenem em infusão estendida só entra se o MIC estiver na faixa baixa — e sempre dentro da combinação, nunca sozinho. |
| CRE — OXA-48 classe D |
Ceftazidima-avibactam — aqui o pedido é mais urgente, porque não existe segunda opção dirigida. | Mesma combinação. Trocar por outro inibidor moderno não adianta: vaborbactam e relebactam não inibem a OXA-48. |
| CRE — metalo-β-lactamase MBL / NDM · classe B |
Ceftazidima-avibactam e aztreonam — os dois, porque a dupla só funciona junta. | Mesma combinação, com o agravante de que aqui não há atalho: aztreonam sozinho é destruído pelas beta-lactamases que acompanham a MBL. |
Esta página é sobre qual droga e por que o mecanismo a exige. Dose de ataque, infusão prolongada e ajuste por função renal — que aqui fazem toda a diferença — têm página própria.
Antibióticos, doses e ajuste renalSe o germe ainda não voltou, o raciocínio começa antes daqui, na terapia empírica por foco. Se voltou Pseudomonas, Acinetobacter ou enterococo, a lógica é outra e está nos multirresistentes. E, escolhida a droga, falta o que decide o desfecho tanto quanto ela: a dose, a infusão e o ajuste renal.
Levar o caso ao assistente de conduta