Antimicrobianos · Ler a resistência

Resistência que muda a conduta: ESBL, AmpC e CRE

Ler o mecanismo antes do resultado e escolher a droga que não falha

ESBL graveCarbapenêmico
AmpCCefepime
CREPelo gene
Conceito: resistência em Gram-negativo entérico não é uma coisa só — são três mecanismos enzimáticos com lógicas diferentes e drogas diferentes. A ESBL hidrolisa cefalosporinas; a AmpC é um gene cromossômico que a própria droga pode acordar; a carbapenemase (CRE) quebra até o carbapenêmico. Reconhecer qual está em jogo — muitas vezes antes de o laboratório fechar o resultado — é o que separa cobrir de curar. E, nos resistentes de verdade, é o gene, não só a categoria do antibiograma, que aponta a droga.
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Quem produz cada mecanismo — o mapa antes do laudo

Antes de o antibiograma ou o teste genotípico voltarem, o par espécie isolada + foco já antecipa o mecanismo provável — e, com ele, a droga. Reconhecer o padrão é o que permite acertar a primeira dose.

MecanismoEspécies mais associadasFocos clínicos típicosPistas do paciente
ESBL
hidrolisa cefalosporinas
Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, K. oxytoca, Proteus mirabilis. Clone pandêmico comunitário: E. coli ST131 (CTX-M). ITU alta e bacteremia de origem urinária; intra-abdominal; corrente sanguínea. Fluoroquinolona ou cefalosporina recente; internação ou manipulação de via urinária. Pode ser comunitário.
AmpC
cefalosporinase induzível
Risco moderado a alto de AmpC clinicamente relevante: Enterobacter cloacae, Klebsiella aerogenes, Citrobacter freundii. Demais portadores, de menor risco de desrepressão: Serratia marcescens, Morganella morganii, Providencia, Hafnia. PAV; trato biliar e abscesso intra-abdominal; corrente sanguínea associada a cateter. UTI prolongada; exposição a ceftriaxona/ceftazidima. Falha por desrepressão em 3–7 dias apesar de laudo sensível.
CRE
carbapenemase
Klebsiella pneumoniae (clone ST258, KPC), Escherichia coli, Enterobacter cloacae complexo. Infecções graves em UTI (PAV, bacteremia, sepse); ferida operatória e partes moles. Internação prolongada, ventilação mecânica, hemodiálise, carbapenêmico prévio, colonização prévia (swab retal).
Estratificação do risco de AmpC (produtores de alto risco: E. cloacae, K. aerogenes, C. freundii; demais portadores com menor risco de desrepressão) conforme Tamma PD, et al. IDSA 2024 (doi:10.1093/cid/ciae403). Associações espécie–mecanismo: microbiologia clínica padrão e IDSA 2024.
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ESBL — o carbapenêmico ganha, e o ertapenem tem um porém

Em infecção grave por Enterobacterales produtor de ESBL, a pergunta de plantão é "beta-lactâmico com inibidor serve?". A resposta veio de um ensaio.

O ensaio clínico randomizado MERINO comparou piperacilina-tazobactam a um carbapenêmico em bacteremia por E. coli ou Klebsiella pneumoniae resistente à ceftriaxona, e mostrou superioridade do carbapenêmico na mortalidade em 30 dias. Traduzindo para a beira do leito: em infecção grave por ESBL, o carbapenêmico é o tratamento — não a piperacilina-tazobactam, mesmo que o antibiograma a marque como sensível.

A armadilha do ertapenem no paciente crítico

O ertapenem tem altíssima ligação a proteína. Quando a albumina cai (hipoalbuminemia < 2,5 g/dL, regra no doente crítico), a fração livre da droga aumenta e é depurada mais rápido pelo rim — o nível despenca abaixo do alvo justamente em quem menos pode falhar. A coorte de Zusman associou hipoalbuminemia a maior mortalidade com ertapenem versus outros carbapenêmicos. No crítico e no hipoalbuminêmico, prefira um carbapenêmico do grupo 2 (meropenem), não o ertapenem.

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AmpC — o gene que a droga acorda

A AmpC é uma beta-lactamase cromossômica. O problema não é só ela existir — é que certas drogas a induzem, selecionando resistência estável no meio do tratamento.

Ceftriaxona e ceftazidima (e a pressão de outras cefalosporinas) podem selecionar desrepressão cromossômica estável do ampC em cerca de 20% dos casos durante o tratamento nos produtores de alto risco — classicamente Enterobacter cloacae, Klebsiella aerogenes e Citrobacter freundii. O paciente começa sensível e emerge resistente. O cefepime é a escolha: é fraco indutor e estável à hidrólise pelo complexo acil-enzima. A piperacilina-tazobactam deve ser evitada em infecção grave por AmpC pela proteção insuficiente.

Quando o cefepime não basta. Se houver co-produção de ESBL — sugerida por um MIC de cefepime na faixa "sensível dose-dependente" — o cefepime falha, com mortalidade proibitiva. Nesse cenário, trate como ESBL: carbapenêmico.
A diretriz IDSA 2024 contraindica formalmente piperacilina-tazobactam e cefalosporinas de 3ª geração para AmpC em infecção grave.
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CRE — o tratamento se decide pelo gene

Aqui muda a régua: na Enterobacterales resistente a carbapenêmico, a diferenciação genotípica é o pilar. Não se trata "CRE" — trata-se KPC, OXA-48 ou metalo-beta-lactamase, e cada uma tem sua droga.

CarbapenemaseEscolha dirigidaPor quê
KPC
classe A
Meropenem-vaborbactam, ceftazidima-avibactam ou imipenem-relebactam Os três inibidores modernos neutralizam a KPC.
OXA-48
classe D
Ceftazidima-avibactam Vaborbactam e relebactam não cobrem OXA-48 — só o avibactam.
Metalo-β-lactamase
MBL / NDM · classe B
Ceftazidima-avibactam + aztreonam (infusão simultânea em Y) O aztreonam escapa da MBL; o avibactam protege o aztreonam das outras beta-lactamases. Falcone demonstrou eficácia em bacteremia por MBL.
Resgate
falha / pan-resistência
Cefiderocol Sideróforo estável às três classes de carbapenemase — alternativa de resgate.
As polimixinas saíram da primeira linha. A polimixina B foi associada a maior nefrotoxicidade e mortalidade, sem benefício comprovado em associação. A IDSA 2024 desloca o tratamento da CRE para os inibidores de beta-lactamase dirigidos pelo gene, reservando polimixina para exceções. Confirme o mecanismo com o laboratório e a infectologia/CCIH — aqui o gene define, e chutar custa caro.
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O esquema: qual droga para qual mecanismo

Tudo o que está acima, condensado no sentido do plantão: você tem o mecanismo na mão — do laudo ou da suspeita — e precisa da droga. A coluna que mais salva não é a primeira: é a última, a do que não usar, porque quase toda falha nesse terreno é uma droga que o antibiograma dizia sensível.

MecanismoPrimeira linhaAlternativa dirigidaNão usar
ESBL
Enterobacterales · infecção grave ou bacteremia
Meropenem
carbapenêmico do grupo 2
Ertapenem só no descalonamento — paciente estável e albumina preservada. Piperacilina-tazobactam, mesmo com o antibiograma sensível (MERINO). E ertapenem empírico no choque ou na hipoalbuminemia.
AmpC de alto risco
E. cloacae · K. aerogenes · C. freundii
Cefepime
fraco indutor, estável à hidrólise
Carbapenêmico se houver ESBL co-produzida — sugerida por MIC de cefepime na faixa sensível dose-dependente. Ceftriaxona e ceftazidima (desreprimem o ampC em cerca de 20% durante o tratamento) e piperacilina-tazobactam na infecção grave — IDSA 2024.
CRE — KPC
classe A
Meropenem-vaborbactam ou ceftazidima-avibactam Imipenem-relebactam — os três inibidores modernos neutralizam a KPC. Polimixina B como primeira linha, tendo inibidor dirigido disponível.
CRE — OXA-48
classe D
Ceftazidima-avibactam
escolha, não alternativa
Cefiderocol como resgate, se houver falha. Meropenem-vaborbactam e imipenem-relebactam — nem o vaborbactam nem o relebactam inibem a OXA-48. Aqui trocar de inibidor é trocar por nada.
CRE — metalo-β-lactamase
MBL / NDM · classe B
Ceftazidima-avibactam + aztreonam
infusão simultânea em Y
Cefiderocol — resgate na falha ou na indisponibilidade. Ceftazidima-avibactam sozinha (o avibactam não inibe MBL) e aztreonam sozinho (as beta-lactamases acompanhantes o destroem). A dupla só funciona junta.

Repare no fio que atravessa a tabela: nas três linhas de CRE, o que muda a droga não é a bactéria nem o sítio — é qual enzima ela carrega. Por isso a pergunta ao laboratório não é "é CRE?", e sim "qual carbapenemase?". Sem essa resposta, você está escolhendo entre drogas que se excluem mutuamente. E se a droga da primeira coluna não existir no seu serviço — o caso mais comum no Brasil —, a seção seguinte é a que vale para o seu plantão.

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Quando o inibidor dirigido não está na farmácia

A tabela acima descreve o alvo, não o inventário. Em boa parte dos serviços brasileiros, meropenem-vaborbactam, imipenem-relebactam e cefiderocol simplesmente não existem, e a ceftazidima-avibactam depende de solicitação — que leva dias. Isso não muda qual é a droga certa. Muda o que você faz nas 48 horas até ela chegar.

São dois movimentos no mesmo dia, não um depois do outro. O pedido sai junto com o resultado do gene — solicitar é parte da conduta, não burocracia para depois do plantão. E, enquanto o pedido corre, sustenta-se com combinação: pelo menos dois agentes com sensibilidade documentada no antibiograma, nunca um só. É a mesma lógica do CRAB — quando nenhuma droga é confortavelmente ativa, a monoterapia seleciona resistência antes de curar.

MecanismoO pedido que sai hojeComo sustentar até chegar
CRE — KPC
classe A
Ceftazidima-avibactam pela via disponível (secretaria estadual, compra especial). Combinação de dois agentes ativos no antibiograma: polimixina B como espinha dorsal, mais amicacina ou gentamicina se o laudo mostrar sensibilidade. Meropenem em infusão estendida só entra se o MIC estiver na faixa baixa — e sempre dentro da combinação, nunca sozinho.
CRE — OXA-48
classe D
Ceftazidima-avibactam — aqui o pedido é mais urgente, porque não existe segunda opção dirigida. Mesma combinação. Trocar por outro inibidor moderno não adianta: vaborbactam e relebactam não inibem a OXA-48.
CRE — metalo-β-lactamase
MBL / NDM · classe B
Ceftazidima-avibactam e aztreonam — os dois, porque a dupla só funciona junta. Mesma combinação, com o agravante de que aqui não há atalho: aztreonam sozinho é destruído pelas beta-lactamases que acompanham a MBL.
Quatro regras que não dobram quando falta acesso. 1) Nunca monoterapia com polimixina ou tigeciclina — a falta de opção não transforma uma droga fraca em suficiente. 2) "Agente ativo" é o que o antibiograma diz sensível, não o que sobrou na farmácia; sem sensibilidade documentada, aquilo não conta como um dos dois agentes. 3) A tigeciclina não cobre bacteremia nem foco urinário — a concentração sérica e urinária dela é baixa; reserve-a para foco abdominal ou de partes moles. 4) Essa é decisão compartilhada com a infectologia/CCIH, com o pedido formal registrado — não escolha isolada de plantão.
Por que polimixina B, e não colistimetato, na infecção sistêmica. A polimixina B é a droga ativa; o colistimetato é uma pró-droga de conversão lenta e errática, que demora a atingir concentração terapêutica justamente no paciente que não pode esperar. Some-se a isso que a polimixina B se dosa por peso real e sem ajuste para função renal — o que a torna mais previsível à beira do leito. As duas nefrotoxicam; a diferença é a previsibilidade. Doses na página de PK/PD.
O que está na prateleira muda de serviço para serviço. Esta seção assume o cenário mais comum: carbapenêmico, cefepime, piperacilina-tazobactam, polimixina B, colistimetato, amicacina, gentamicina, tigeciclina, vancomicina e daptomicina disponíveis; inibidores de beta-lactamase de nova geração, não. Confirme a sua lista com a farmácia e a CCIH antes de precisar dela às 3 da manhã — o momento de descobrir que a droga não existe não é o da prescrição.
As doses ficam na página de PK/PD.

Esta página é sobre qual droga e por que o mecanismo a exige. Dose de ataque, infusão prolongada e ajuste por função renal — que aqui fazem toda a diferença — têm página própria.

Antibióticos, doses e ajuste renal
Leu o mecanismo — e agora?

Se o germe ainda não voltou, o raciocínio começa antes daqui, na terapia empírica por foco. Se voltou Pseudomonas, Acinetobacter ou enterococo, a lógica é outra e está nos multirresistentes. E, escolhida a droga, falta o que decide o desfecho tanto quanto ela: a dose, a infusão e o ajuste renal.

Levar o caso ao assistente de conduta
Harris PNA, et al. Effect of Piperacillin-Tazobactam vs Meropenem on 30-Day Mortality for Patients With E coli or Klebsiella pneumoniae Bloodstream Infection and Ceftriaxone Resistance (MERINO). JAMA. 2018;320(10):984–994. Zusman O, et al. Association between hypoalbuminemia and mortality among subjects treated with ertapenem versus other carbapenems: prospective cohort study. Clin Microbiol Infect. 2015;21(1):54–58. Tamma PD, et al. Infectious Diseases Society of America 2024 Guidance on the Treatment of Antimicrobial-Resistant Gram-Negative Infections. Clin Infect Dis. 2024 (doi:10.1093/cid/ciae403). Falcone M, et al. Efficacy of Ceftazidime-avibactam Plus Aztreonam in Patients With Bloodstream Infections Caused by Metallo-β-lactamase–Producing Enterobacterales. Clin Infect Dis. 2021;72(11):1871–1878.