Os multirresistentes: Pseudomonas, Acinetobacter e Enterococos
As novas beta-lactamases, a combinação obrigatória e as armadilhas de dose
Pseudomonas aeruginosa DTR
DTR — resistência difícil de tratar — é a Pseudomonas não-sensível a todos os principais beta-lactâmicos e às fluoroquinolonas antipseudomonas ao mesmo tempo. A definição foi estabelecida por Kadri em 2018 e adotada pelo consenso da IDSA.
Nesse cenário, as antigas drogas caem por terra e entram as novas combinações. A ceftolozana-tazobactam tem superioridade estrutural e maior estabilidade frente à AmpC pró-derreprimida, sendo preferencial em muitos casos de DTR; ceftazidima-avibactam, imipenem-relebactam e cefiderocol completam o arsenal dirigido, escolhidos conforme o perfil. As doses e a infusão prolongada — decisivas aqui — estão na página de PK/PD, e a dose pulmonar dobrada da ceftolozana está na página de pneumonia.
Acinetobacter baumannii (CRAB)
A bacteremia ou PAV por Acinetobacter resistente a carbapenêmico é um dos maiores desafios de sobrevivência da UTI. E a lógica é diferente da CRE.
A resistência aqui não é KPC nem MBL: são oxacilinases de classe D (OXA-23-like, OXA-24/40-like e a superexpressão da OXA-51-like cromossômica intrínseca), que clivam meropenem e imipenem e os inviabilizam como monoterapia. O ponto que muitos erram: no Acinetobacter, o sulbactam não entra só pela ampicilina — ele tem atividade bactericida direta, ligando-se com alta avidez às PBP1a/1b e PBP3. Nas cepas CRAB, porém, as enzimas OXA degradam o sulbactam na dose habitual — por isso ele exige dose alta do componente sulbactam ativo (o valor está na página de PK/PD).
A virada de prognóstico veio com o sulbactam-durlobactam (SUL-DUR): o durlobactam é um inibidor diazabiciclo-octano que bloqueia potentemente beta-lactamases de classe A, C e D — inclusive as oxacilinases — deixando o sulbactam chegar intacto à PBP3. Pela IDSA 2024, o SUL-DUR é usado em combinação com meropenem ou imipenem.
| Cenário | Esquema (combinação) |
|---|---|
| Com SUL-DUR disponível | Sulbactam-durlobactam + meropenem ou imipenem |
| Sem SUL-DUR | Ampicilina-sulbactam em alta dose + um segundo agente ativo (tigeciclina ou minociclina) |
Enterococos resistentes (VRE e HLAR)
Enterococo em hemocultura pede leitura do laudo antes da droga: qual espécie, qual gene, qual perfil de aminoglicosídeo. Cada resposta muda a conduta.
A resistência à vancomicina do E. faecium VRE vem dos operons vanA/vanB, que trocam o precursor de parede de D-Ala-D-Ala por D-Ala-D-Lac — uma troca sutil que derruba a afinidade da vancomicina em mais de mil vezes. Não confunda com o fenótipo VanC, intrínseco de E. gallinarum e E. casseliflavus (baixa virulência, precursor D-Ala-D-Ser, resistência apenas de baixo nível): aí não se escalona para drogas de resgate caras.
| Situação | Escolha | Por quê |
|---|---|---|
| VRE endovascular bacteremia, endocardite |
Daptomicina em dose otimizada (alta) | Bactericida. A dose de bula falha e seleciona resistência — a dose alta é regra no grave. Nunca no pulmão: o surfactante a inativa. |
| VRE pulmonar ou de partes moles | Linezolida 600 mg de 12/12h | Bacteriostática, excelente penetração pulmonar e tecidual. Acima de 10–14 dias: mielossupressão, acidose lática e neuropatia — hemograma diário. |
| E. faecalis HLAR endocardite, não-VRE, ampi-sensível |
Ampicilina + ceftriaxona | Com alta resistência a aminoglicosídeo (HLAR), a gentamicina perde o sinergismo — abandone-a. O duplo beta-lactâmico satura PBPs complementares com toxicidade renal nula. |
Escolha rápida por droga
O raciocínio acima no sentido inverso, para o plantão: dada a droga, qual é o caso em que ela entra. A dose exata fica na página de PK/PD.
| Droga | Quando usar |
|---|---|
| Ampicilina-sulbactam (alta dose) | CRAB — pela atividade bactericida direta do sulbactam; sempre em combinação. |
| Sulbactam-durlobactam | CRAB — a escolha moderna, com meropenem ou imipenem. |
| Ceftolozana-tazobactam | Pseudomonas DTR (dose pulmonar dobrada na PAV). |
| Ceftazidima-avibactam | CRE por KPC e por OXA-48. |
| Ceftazidima-avibactam + aztreonam | CRE por metalo-β-lactamase (MBL / NDM). |
| Cefiderocol | Resgate na CRE; no CRAB, nunca em monoterapia. |
| Daptomicina (dose alta) | VRE endovascular (bacteremia, endocardite) — nunca no pulmão. |
| Linezolida | VRE pulmonar ou de partes moles. |
| Polimixina B | Reserva / resgate — só quando não há inibidor dirigido disponível; associa-se a mais nefrotoxicidade e mortalidade, sem benefício em combinação. |
A escolha está aqui; o número está lá. Dose de ataque, dose alta de sulbactam, dose otimizada de daptomicina, infusão prolongada e o ajuste por função renal ficam na página de antibióticos e doses.
Antibióticos, doses e ajuste renalO be·aside fecha o raciocínio em três tempos: você entendeu por que cada mecanismo pede cada droga; confere a dose e o ajuste renal na página própria; e, diante do caso concreto — com o antibiograma, a função renal e o foco do seu paciente — leva tudo ao assistente de conduta, que raciocina sobre o conteúdo validado do próprio site. Entender, dosar, decidir.
Levar o caso ao assistente de conduta