Nefro Guide · Ácido-base

Distúrbios ácido-base no crítico

Ler a gasometria em passos, achar o distúrbio (e o segundo escondido) e chegar à conduta

Passo 1pH: acidemia ou alcalemia?
SempreÂnion gap (corrigir albumina)
CuidadoCompensação ≠ 2º distúrbio
Conceito: o pH do sangue é governado por um único par — bicarbonato e gás carbônico — na equação de Henderson-Hasselbalch. O que determina o pH não é o valor de nenhum dos dois isolado, e sim a razão entre eles: pH ∝ HCO₃ ⁄ PCO₂. O pulmão controla o PCO₂ (minuto a minuto) e o rim controla o HCO₃ (em horas a dias). Um distúrbio metabólico mexe primeiro no HCO₃; um distúrbio respiratório mexe primeiro no PCO₂. E cada distúrbio primário desencadeia uma compensação — que empurra o outro componente na mesma direção para atenuar a variação do pH, mas nunca corrige o pH totalmente (exceto na alcalose respiratória crônica). Guardar isso resolve quase toda a leitura de gasometria: a compensação é esperada, não é um segundo distúrbio — e quando ela foge do esperado, aí sim há um distúrbio misto.
Como usar esta página

O fluxograma (seção 01) e a abordagem em 5 passos com a calculadora (seção 03) são o método. As seções 04 a 07 destrincham cada um dos quatro distúrbios — causas na prática e conduta com posologia — e a seção 08 fecha com os mistos. Conteúdo de apoio ao raciocínio: confirme sempre doses e condutas no protocolo do seu serviço.

01

Fluxograma — lendo a gasometria

·pH, PCO₂ e HCO₃ em mãos
Duas das três variáveis bastam (a terceira se calcula). A pergunta de largada é sempre o pH: para que lado o sangue foi?
1pH — acidemia ou alcalemia?
pH < 7,35 — acidemia
O distúrbio dominante é uma acidose. Ver quem a explica: HCO₃ baixo (metabólica) ou PCO₂ alto (respiratória).
pH > 7,45 — alcalemia
O distúrbio dominante é uma alcalose. HCO₃ alto (metabólica) ou PCO₂ baixo (respiratória).
pH normal (7,35–7,45)
Não relaxe: se HCO₃ e PCO₂ estão ambos alterados, há distúrbio misto com pH "falsamente" normal. Calcular o ânion gap sempre.
2Quem explica o pH? — o distúrbio primário
Acidose metabólica
HCO₃ ↓ · pH ↓
Compensa baixando o PCO₂ (hiperventila).
Alcalose metabólica
HCO₃ ↑ · pH ↑
Compensa subindo o PCO₂ (hipoventila).
Acidose respiratória
PCO₂ ↑ · pH ↓
Compensa subindo o HCO₃ (rim, dias). Agudo × crônico.
Alcalose respiratória
PCO₂ ↓ · pH ↑
Compensa baixando o HCO₃ (rim, dias). Agudo × crônico.
A compensação bate com o esperado?
Calcule a compensação esperada (seção 03). Compensação é esperada, não é um 2º distúrbio — mas se ela for insuficiente ou exagerada, existe um segundo distúrbio escondido.
Dentro do esperado
Distúrbio simples
Um distúrbio primário com a compensação apropriada. Seguir para a causa.
Fora do esperado
Distúrbio misto
Compensação a menos ou a mais = 2º distúrbio. Ex.: PCO₂ mais baixo que o de Winters na acidose metabólica = alcalose respiratória associada.
3Ânion gap — e o delta-delta
Se há acidose metabólica, calcular o ânion gap corrigido pela albumina. Se o AG está alto, comparar o quanto ele subiu com o quanto o HCO₃ caiu (delta-delta) — é como se acha um terceiro distúrbio.
AG alto
> 12 (corrigido)
Ácidos retidos: lactato, cetoácidos, uremia, toxinas (GOLDMARK). Ver seção 04.
AG normal
hiperclorêmica
Perda de bicarbonato (diarreia), ATR, salina. Ânion gap urinário separa GI × renal.
Delta-delta
ΔAG ⁄ ΔHCO₃
< 0,8: soma acidose hiperclorêmica · 0,8–2: AG alto pura · > 2: soma alcalose metabólica (ou resp. crônica).
4Fechar o diagnóstico clínico — e a causa
Identificado(s) o(s) distúrbio(s), a última etapa é achar e tratar a causa de cada um — a gasometria diz o "quê", a história diz o "porquê".
↻ A história e o exame desempatam o que a gasometria deixa ambíguo (agudo × crônico; misto) — reavaliar a cada gasometria nova
02

A gasometria — o que medir e os valores normais

A gasometria mede diretamente pH e PCO₂; o bicarbonato é calculado. A arterial é o padrão para firmar o diagnóstico e avaliar a troca gasosa; a venosa serve bem para acompanhar pH e bicarbonato à beira do leito, com as devidas correções.

AmostrapHPCO₂HCO₃ / "CO₂ total"
Arterial7,35–7,4535–45 mmHg21–27 mEq/L
Venosa periférica~0,03–0,04 menor~3–8 mmHg maior~2–3 mEq/L maior
Venosa central~0,03–0,05 menor~4–5 mmHg maior≈ igual
Arterial ou venosa?

Para rastrear e acompanhar acidose/alcalose (pH e HCO₃), a venosa costuma bastar e poupa punção arterial. Para definir com precisão um distúrbio respiratório (o PCO₂ exato) ou avaliar oxigenação, a arterial é necessária. Uma venosa com pH e HCO₃ normais praticamente exclui distúrbio ácido-base relevante; se alterada, confirmar com arterial quando o PCO₂ importa.

03

A abordagem em 5 passos — e a calculadora

Um método fixo evita erro: (1) o pH aponta o lado; (2) HCO₃ e PCO₂ apontam o distúrbio primário; (3) a compensação esperada confirma se é simples ou misto; (4) o ânion gap (e o delta-delta) revela acidoses somadas; (5) a clínica fecha a causa. Os passos 3 e 4 dependem de contas — é o que a calculadora faz.

Distúrbio primárioCompensação esperadaLimite
Acidose metabólicaPCO₂ = 1,5 × HCO₃ + 8 ± 2 (Winters)PCO₂ não cai abaixo de ~8–12 mmHg
Alcalose metabólicaPCO₂ sobe ~0,7 por mEq de HCO₃ acima de 24PCO₂ raramente > 55 mmHg
Acidose respiratória — agudaHCO₃ sobe ~1 por 10 de ↑PCO₂
Acidose respiratória — crônicaHCO₃ sobe ~3,5–4 por 10 de ↑PCO₂3–5 dias para se completar
Alcalose respiratória — agudaHCO₃ cai ~2 por 10 de ↓PCO₂
Alcalose respiratória — crônicaHCO₃ cai ~4–5 por 10 de ↓PCO₂pode normalizar o pH
Qual "esperado" calcular — e quando

A regra é direta e resolve o passo 3: calcule sempre a resposta do outro sistema e compare com o medido.
· Distúrbio metabólico (o HCO₃ mudou primeiro) → calcule o PCO₂ esperado. Bateu com o medido = compensação adequada (simples); PCO₂ medido mais alto = acidose respiratória somada; mais baixo = alcalose respiratória somada.
· Distúrbio respiratório (o PCO₂ mudou primeiro) → calcule o HCO₃ esperado, nas versões aguda e crônica. A comparação com o medido diz se é agudo, crônico, agudo-sobre-crônico — ou se há um distúrbio metabólico somado (HCO₃ fora das duas faixas).
Regra de ouro: igual ao esperado = simples; diferente = misto. A calculadora abaixo faz essas contas e mostra o valor esperado ao lado do medido.

O ânion gap mede os ânions "não medidos": AG = Na − (Cl + HCO₃), normal ~8–12 mEq/L (varia com o analisador). O ajuste mais importante é pela albumina — ela é o maior ânion não medido, então a hipoalbuminemia do crítico mascara um AG alto: some 2,5 ao AG para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,0. Na acidose de AG alto, o delta-delta (quanto o AG subiu ÷ quanto o HCO₃ caiu) denuncia um distúrbio metabólico somado.

Calculadora ácido-base Winters · ânion gap corrigido · delta-delta

Informe pH, PCO₂ e HCO₃ (obrigatórios): a calculadora identifica o distúrbio primário e mostra o PCO₂ esperado (nos distúrbios metabólicos) ou o HCO₃ esperado (nos respiratórios, agudo × crônico) — comparado com o medido para flagrar um distúrbio misto. Acrescente Na, Cl e albumina para o ânion gap corrigido e o delta-delta. Unidades: PCO₂ em mmHg; HCO₃, Na, Cl em mEq/L; albumina em g/dL.

esperado
ânion gap (corr.)
ΔAG ⁄ ΔHCO₃

Preencha pH, PCO₂ e HCO₃ para começar.

A calculadora orienta — a história decide

As fórmulas de compensação assumem valores prévios normais e um único distúrbio primário; em quem já tinha DRC, DPOC ou disnatremia, elas erram. O agudo × crônico do distúrbio respiratório não se lê na gasometria isolada — precisa da história. Use a calculadora para não errar conta, mas feche o diagnóstico com o quadro clínico. Confirme condutas no protocolo do seu serviço.

04

Acidose metabólica — do ânion gap à conduta

Acidose metabólica é queda do bicarbonato. O primeiro corte é o ânion gap: acidose de AG alto (ácido acumulado) ou de AG normal / hiperclorêmica (bicarbonato perdido). O corte muda a investigação e a conduta.

Na AG alto, o mnemônico moderno é o GOLDMARK: Glicóis (etilenoglicol, propilenoglicol), Oxoprolina (5-oxoprolina — paracetamol crônico em desnutrido), L-lactato (a mais comum na UTI: choque, hipoperfusão, "choque críptico", metformina, disfunção mitocondrial), D-lactato (síndrome do intestino curto), Metanol, Aspirina (salicilato), Renal (uremia — sulfato, fosfato), Ketoacidose (diabética, alcoólica, jejum). Na AG normal, é perda de bicarbonato (diarreia, fístula, derivação urinária) ou falha renal em excretar ácido (ATR tipos 1, 2 e 4) — e o ânion gap urinário [(Na + K) − Cl na urina] separa: negativo = perda GI / amônio apropriado; positivo = defeito renal (ATR).

AG alto (GOLDMARK)AG normal (hiperclorêmica)
Lactato (choque, sepse, metformina, mitocondrial)Diarreia, fístula, derivação urinária
Cetoacidose (diabética, alcoólica, jejum)ATR distal (tipo 1), proximal (tipo 2), tipo 4 (hipoaldo)
Uremia (LRA/DRC avançada)Salina 0,9% em excesso (acidose dilucional)
Toxinas: metanol, etilenoglicol, salicilato, paracetamol crônicoGeradores de HCl (NH₄Cl); DRC inicial

A conduta primeira é sempre tratar a causa — restaurar perfusão (lactato), insulina e volume (cetoacidose), antídoto e diálise (metanol/etilenoglicol), diálise na uremia refratária. Os ânions de lactato e cetoácidos são "bicarbonato em potencial": revertida a causa, o fígado os metaboliza e regenera bicarbonato — repor álcali demais aí gera alcalose de rebote.

Bicarbonato de sódio — quando (e a controvérsia)

Na acidose metabólica orgânica (lactato, cetoácidos), o bicarbonato não é rotina — os ensaios em UTI (BICAR-ICU, BICAR-ICU2, SODa-BIC) não mostraram benefício de mortalidade, embora o BICAR-ICU tenha reduzido necessidade de diálise e, no subgrupo com LRA moderada-grave, a mortalidade. Uso mais aceito: acidemia grave com pH < 7,1 e HCO₃ ≤ 6 mEq/L (e considerar entre pH 7,1–7,2 / HCO₃ 6–13, sobretudo com LRA). Solução típica: bicarbonato de sódio a 4,2–5% (500–600 mEq/L) IV, mirando pH ≥ 7,2. Cuidados: se pH < 7,1 com HCO₃ > 6, o PCO₂ está > 20 (ventilação inadequada — componente respiratório): infusão rápida (> 15 mEq/min) piora a acidose respiratória; pode precisar de ventilação. Na acidose hiperclorêmica e na acidose da DRC, o álcali (inclusive oral) tem papel maior. Confirme dose e indicação no protocolo do serviço.

Álcool tóxico? Calcule o gap osmolar

Diante de acidose de AG alto sem causa óbvia (sem lactato, sem cetoácidos, sem uremia), pense em metanol / etilenoglicol e calcule o gap osmolar = osmolaridade medidacalculada, com calculada = 2 × Na + glicose⁄18 + ureia⁄6 (mg/dL). Gap > 10 mOsm/kg sugere osmóis não medidos (os álcoois). Conduta: fomepizol (ou etanol), hemodiálise e cofatores — sem esperar o nível sérico. Cuidado: um gap osmolar já normal não exclui — ele cai conforme o álcool vira ácido (e o AG sobe). Confirme no protocolo do serviço.

Prescrição comentada da cetoacidose diabética
05

Alcalose metabólica — cloreto-responsiva × resistente

Alcalose metabólica é elevação do bicarbonato. Ela precisa de duas coisas: algo que gera o bicarbonato (perda de H⁺/Cl⁻, diurético, mineralocorticoide) e algo que impede o rim de excretá-lo (hipovolemia, depleção de cloreto, hipocalemia, TFG baixa). Por isso o divisor prático é o cloreto urinário.

Cloreto-responsiva (Cl urinário < 25)Cloreto-resistente (Cl urinário > 40)
Vômito / aspiração nasogástrica (perda de HCl)Hiperaldosteronismo primário, Cushing
Diuréticos (efeito remoto), alcalose de contraçãoAlcaçuz, síndrome de Liddle
Pós-hipercapnia; adenoma vilosoBartter / Gitelman; hipocalemia grave
Costuma haver hipovolemia + hipocloremiaCostuma haver hipertensão (mineralocorticoide)

A cloreto-responsiva é a do plantão: vômito, sonda nasogástrica, diurético. Trata-se restaurando volume e cloreto com soro fisiológico 0,9% (que corrige a volemia e o déficit de cloreto e "libera" o rim para excretar o bicarbonato) e repondo potássio como KCl — nunca como citrato/acetato, que viram bicarbonato e perpetuam a alcalose. Somar medidas contra a fonte: antiemético, IBP ou bloqueador H2 para reduzir a perda de HCl gástrico; suspender/reduzir o diurético. A cloreto-resistente (hipertensa, por mineralocorticoide) não responde a salina: trata-se a causa (espironolactona/eplerenona, retirar alcaçuz) e corrige-se o potássio.

Conduta na alcalose metabólicaPosologia / observação
Volume + cloreto (cloreto-responsiva)SF 0,9% ~100 mL/h acima das perdas, até euvolemia/Cl urinário subir
Potássio (KCl)10–20 mEq 2–4×/dia (20–80 mEq/dia); IV se grave/sintomática. Sempre KCl (não citrato/acetato)
Reduzir a fonteAntiemético; IBP/bloqueador H2 na perda gástrica; suspender diurético
Edemaciado (IC/cirrose), salina contraindicadaKCl + poupador de potássio (espironolactona/eplerenona/amilorida); acetazolamida 250–500 mg 1–2×/dia se precisa de diurese (vigiar K; evitar em alergia a sulfa, DPOC grave, hipocalemia)
Grave e refratária (HCO₃ > 50 ou pH > 7,55) com rim que não excretaHCl 0,1 N em cateter central (raro); diálise com banho de baixo bicarbonato / ajuste do efluente na CRRT
Prescrição comentada da hipocalemia — o K que sustenta a alcalose
06

Acidose respiratória — hipoventilação

Acidose respiratória é PCO₂ alto por ventilação alveolar insuficiente. A pergunta que organiza as causas: o paciente não respira (queda do drive), não consegue respirar (bomba: nervo, músculo, caixa torácica) ou tem espaço morto alto (doença pulmonar)? E é aguda ou crônica — porque a compensação renal (dias) muda a leitura.

MecanismoCausas na prática
Não respira (drive ↓)Opioides, benzodiazepínicos, AVC/lesão de tronco, encefalite; apneia do sono, hipoventilação da obesidade
Não consegue (bomba)Guillain-Barré, miastenia, ELA, lesão medular alta (> C3), miopatia do doente crítico; hipofosfatemia/hipomagnesemia graves; cifoescoliose, tórax instável
Espaço morto ↑ (pulmão)DPOC (a clássica crônica), asma grave, pneumonia extensa, fibrose, doença vascular pulmonar
Produção de CO₂ ↑Febre, sepse, tireotoxicose, hiperalimentação — só causa hipercapnia se a ventilação não pode subir

A conduta é garantir ventilação e tratar a causa. A ventilação não invasiva (VNI/BiPAP) é primeira linha na exacerbação de DPOC com acidose respiratória (pH ~7,25–7,35) e no edema agudo cardiogênico; a intubação entra quando a VNI falha ou é contraindicada. Reverter o reversível: naloxona no opioide, broncodilatador e corticoide na DPOC/asma, corrigir hipofosfatemia/hipomagnesemia. No paciente ventilado com ARDS ou asma grave, aceita-se hipercapnia permissiva (deixar o CO₂ subir para poupar o pulmão), mantendo o pH acima de ~7,20.

Oxigênio no DPOC — nem de menos, nem de mais

O oxigênio pode piorar a hipercapnia no DPOC (perda da vasoconstrição pulmonar hipóxica → mais desperdício V/Q; efeito Haldane; pequena queda do drive) — mas não se nega O₂ ao hipoxêmico: hipóxia mata mais rápido. A saída é O₂ controlado, com alvo de SpO₂ 88–92%, titulado. E não corrigir o PCO₂ crônico rápido demais: derrubar o CO₂ bruscamente com um bicarbonato "compensatório" ainda alto gera alcalose pós-hipercápnica e alcalinização abrupta do SNC.

Prescrição comentada da exacerbação de DPOC
07

Alcalose respiratória — hiperventilação

Alcalose respiratória é PCO₂ baixo por hiperventilação. Raramente perigosa por si — mas é a alteração ácido-base mais comum no crítico e, muitas vezes, o primeiro aviso de algo grave (sepse, embolia pulmonar, salicilato). Tratá-la é tratar a causa.

GrupoCausas
HipoxemiaPneumonia, embolia pulmonar, edema, asma, altitude — o pulmão hiperventila para oxigenar
Estímulo centralDor, ansiedade (síndrome de hiperventilação), febre, AVC, tumor/lesão do SNC
Sistêmico / drogasSepse (precoce), insuficiência hepática, gravidez (progesterona), salicilato, catecolaminas, teofilina
IatrogênicaHiperventilação no ventilador

A conduta é identificar e tratar a causa: analgesia na dor, oxigênio e tratamento da hipoxemia, antibiótico e ressuscitação na sepse, anticoagulação na embolia. Na síndrome de hiperventilação por ansiedade (diagnóstico de exclusão), tranquilizar e orientar a respiração; a técnica do saco de papel é desencorajada (risco de hipóxia). Atenção redobrada ao salicilato, em que a alcalose respiratória vem misturada com acidose metabólica de AG alto (seção 08) — e à alcalose respiratória de novo no crítico, que exige buscar sepse ou embolia antes de considerá-la benigna.

08

Distúrbios mistos — quando há mais de um

O crítico raramente tem um distúrbio só. O misto se anuncia de três formas: compensação fora do esperado, delta-delta desviado e um pH normal com HCO₃ e PCO₂ ambos muito alterados. Reconhecer o segundo (ou terceiro) distúrbio muda a conduta.

PistaO que significa
PCO₂ acima do Winters na acidose metabólicaAcidose respiratória associada (ventilação inadequada) — pode precisar de VM
PCO₂ abaixo do Winters na acidose metabólicaAlcalose respiratória associada (dor, sepse, salicilato)
ΔAG ⁄ ΔHCO₃ < 0,8Acidose de AG alto + acidose hiperclorêmica
ΔAG ⁄ ΔHCO₃ > 2Acidose de AG alto + alcalose metabólica (ou resp. crônica prévia)
pH ~7,40 com HCO₃ e PCO₂ muito alteradosDistúrbio triplo ou dois opostos se "cancelando" — não relaxar

Três combinações merecem estar na ponta da língua. Salicilato: acidose metabólica de AG alto somada a alcalose respiratória — pH que pode ser normal com PCO₂ e HCO₃ baixos. Cetoacidose diabética com vômito: acidose de AG alto (cetoácidos) + alcalose metabólica (perda de HCl) — o HCO₃ pode estar "enganosamente" normal e o delta-delta > 2 entrega o segundo distúrbio. DPOC descompensado em uso de diurético: acidose respiratória crônica + alcalose metabólica de contração — o pH quase normal esconde os dois. Em todos, a regra é a mesma: a compensação e o delta-delta apontam o distúrbio escondido; a história confirma; trata-se cada componente.

Fechou a gasometria — e agora?

A acidose e a alcalose conversam direto com o potássio (pH ↔ K) e com o sódio; a acidose da LRA e a acidose crônica da DRC têm suas próprias páginas. O fluxograma do módulo amarra o raciocínio dos eletrólitos. A camada de prescrição (soluções, diluições, vazões) está em construção no Consulte.

Voltar ao Nefro Guide
Berend K, de Vries APJ, Gans ROB. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med. 2014;371(15):1434–1445 (abordagem sistemática, compensações e mistos). Rose BD, Post TW. Clinical Physiology of Acid-Base and Electrolyte Disorders. 5ª ed. Nova York: McGraw-Hill; 2001 (referência de base para definições, compensação e ânion gap). Albert MS, Dell RB, Winters RW. Quantitative displacement of acid-base equilibrium in metabolic acidosis. Ann Intern Med. 1967;66(2):312–322 (equação de Winters). Mehta AN, Emmett JB, Emmett M. GOLD MARK: an anion gap mnemonic for the 21st century. Lancet. 2008;372(9642):892. · Emmett M, Narins RG. Clinical use of the anion gap. Medicine (Baltimore). 1977;56(1):38–54. Kraut JA, Madias NE. Metabolic acidosis: pathophysiology, diagnosis and management. Nat Rev Nephrol. 2010;6(5):274–285. Jaber S, Paugam C, Futier E, et al. Sodium bicarbonate therapy for patients with severe metabolic acidaemia in the intensive care unit (BICAR-ICU). Lancet. 2018;392(10141):31–40. Weinberger SE, Schwartzstein RM, Weiss JW. Hypercapnia. N Engl J Med. 1989;321(18):1223–1231. · West JB. Causes of carbon dioxide retention in lung disease. N Engl J Med. 1971;284(22):1232–1236. · Malhotra A, Schwartz DR, Ayas N, et al. Treatment of oxygen-induced hypercapnia. Lancet. 2001;357(9259):884–885.