Nefro Guide · Distúrbios hidroeletrolíticos

Sódio — hiponatremia e hipernatremia

Distúrbio da água, não do sal — e a velocidade de correção decide o desfecho

Grave sintomáticaNaCl 3% em bolus
Teto de correção≤ 8–10 mEq/L/24 h
ControleNa a cada 2–4 h
Conceito: o sódio sérico é uma razão — soluto dividido por água. Quase toda disnatremia é um problema no denominador: hiponatremia é excesso relativo de água (quase sempre ADH agindo onde não devia), hipernatremia é déficit de água livre (quase sempre alguém que não bebeu). O cérebro se adapta em ~48 h ao novo tônus; a correção rápida do distúrbio crônico destrói essa adaptação — para dentro (edema, na hiper corrigida rápido) ou para fora (desmielinização osmótica, na hipo corrigida rápido). Por isso a pergunta "agudo ou crônico?" vale mais que o número absoluto.

Toda disnatremia se resolve com três perguntas na ordem certa — e trocar a ordem é a origem de quase todo erro grave. Primeira: há sintoma neurológico grave agora? Convulsão, coma, rebaixamento importante são edema (na hipo) ou desidratação (na hiper) do cérebro, e tratam-se antes de saber a causa. Segunda: é agudo ou crônico? — porque a velocidade de correção segura depende inteiramente disso, não do valor absoluto. Terceira: qual o mecanismo (volemia, ADH, água ofertada)? — que dá o tratamento definitivo.

A razão de a cronologia mandar é fisiológica: o cérebro leva cerca de 48 horas para reequilibrar seus osmóis ao novo tônus do plasma. Na disnatremia aguda (< 48 h), essa adaptação ainda não ocorreu, o cérebro está no meio da mudança e corrigir rápido é seguro — às vezes urgente. Na crônica, o cérebro já se adaptou, e corrigir depressa arranca essa adaptação: na hiponatremia crônica corrigida rápido demais vem a desmielinização osmótica (dias depois, irreversível); na hipernatremia crônica corrigida rápido demais vem o edema cerebral. Por isso os tetos de correção existem, e por isso a dosagem seriada de sódio vale mais que qualquer fórmula: a fórmula abre a prescrição, a dosagem a cada 2–4 h é quem conduz — inclusive porque o distúrbio pode se autocorrigir quando a causa desliga (o ADH cai, o rim despeja água) e estourar o teto sem ninguém prescrever nada.

01

Fluxograma — hiponatremia

·Na < 135 mEq/L
Duas perguntas em paralelo: é hipotônica de verdade? e há sintoma grave agora? A segunda manda — sintoma grave trata antes de investigar.
1Confirmar que é hipotônica
Osmolalidade sérica < 275 mOsm/kg confirma. Se normal ou alta, o sódio baixo é outra coisa.
Translocacional
Osm normal/alta
Hiperglicemia puxa água para o plasma: corrigir ~+1,6–2,4 mEq/L por 100 mg/dL de glicose acima de 100. Manitol e contraste fazem o mesmo.
Pseudo-hiponatremia
Osm normal
Artefato de laboratório por hiperlipidemia grave ou paraproteinemia. Nada a corrigir.
Hipotônica confirmada
Osm < 275
Seguir o fluxo
Agora sim: gravidade primeiro, causa depois.
Sintoma grave? — a decisão que não espera
Convulsão, coma, rebaixamento importante ou vômitos incoercíveis atribuíveis à hiponatremia = edema cerebral. Tratar já, qualquer que seja a causa.
Sim — grave
NaCl 3%: 100–150 mL IV em 10–20 min
Repetir até 2–3 vezes se o sintoma persistir, mirando subir 4–6 mEq/L — o suficiente para descomprimir o cérebro. Depois, parar e reavaliar: a meta do bolus é o sintoma, não o número.
Não — leve/assintomática
Investigar antes de corrigir
Sem urgência: classificar volemia e ADH, tratar a causa, corrigir devagar dentro do teto diário.
2Classificar: volemia + urina
A urina é o interrogatório do ADH: osmolalidade urinária diz se ele está agindo; o sódio urinário diz por quê.
Hipovolêmica
Na urinário < 30 (extrarrenal)
Cristaloide isotônico
Perda GI, terceiro espaço, diurético (Na urinário alto se tiazídico). Restaurada a volemia, o ADH desliga — cuidado: o sódio pode disparar sozinho (diurese aquosa).
Euvolêmica
Osm urinária > 100 · Na urinário > 30
Restrição hídrica + causa
SIADH (dor, náusea, pulmão, SNC, drogas) é diagnóstico de exclusão: antes, excluir hipotireoidismo e insuficiência adrenal.
Hipervolêmica
edema · Na urinário < 30
Restrição + tratar a doença de base
IC e cirrose: volume circulante efetivo baixo com corpo cheio de água. Diurético de alça ajuda; salina piora o edema.
3Corrigir dentro do teto — e vigiar a autocorreção
Teto diário
≤ 8–10 mEq/L em 24 h
Alto risco de desmielinização (Na ≤ 105, hipocalemia, desnutrição, etilismo, hepatopatia): ficar em ≤ 8. Diretrizes divergem no teto exato — o consenso é: crônica corrige devagar.
Passou do teto?
Reabaixar ativamente
Água livre (glicosado 5%) ± desmopressina para frear a diurese aquosa. Overcorrection é emergência silenciosa — a desmielinização aparece dias depois.
Controle
Na sérico a cada 2–4 h
Durante correção ativa ou risco de autocorreção. A fórmula abre a prescrição; quem manda é a dosagem seriada.
↻ Sintoma controlado e teto respeitado? Voltar à causa — a hiponatremia que não se explica volta.
Prescrição comentada da hiponatremia
02

Fluxograma — hipernatremia

·Na > 145 mEq/L
Hipernatremia é sempre déficit relativo de água livre — e, como a sede protege quem pode beber, no hospital ela quase sempre denuncia água que não foi ofertada: o sedado, o intubado, o idoso dependente.
1De onde saiu a água?
Perda insensível / GI
Febre, taquipneia, queimadura, diarreia. Urina concentrada (rim respondendo certo).
Diurese osmótica
Glicosúria, ureia alta, manitol. Poliúria com urina isotônica.
Diabetes insipidus
Poliúria com urina diluída (Osm urinária baixa) apesar do Na alto. Central (neurocirurgia, TCE) responde a desmopressina; nefrogênico (lítio) não.
2Repor o déficit — e as perdas que continuam
Déficit de água livre
ACT × (Na/140 − 1)
ACT ≈ 0,6 × peso (homem) ou 0,5 × peso (mulher/idoso). Repor VO/SNG quando possível; IV: glicosado 5% ou NaCl 0,45%.
Velocidade
Baixar ~10–12 mEq/L/24 h (clássico)
Na crônica, o teto clássico evita edema cerebral; na aguda documentada (< 48 h) a correção pode ser mais rápida. Somar as perdas em curso ao cálculo — senão o Na não desce.
Se hipovolêmico
Volemia primeiro
Instável: cristaloide isotônico até perfundir; depois a água livre. DI central: desmopressina + repor.
↻ Na a cada 4–6 h durante a correção — e perguntar todo dia: a água de manutenção está prescrita?
Prescrição comentada da hipernatremia
03

Causas que o plantão vê — em uma tabela

PadrãoPistasCausas típicasPrimeira conduta
Hipo hipovolêmicaNa ur < 30Perda GI, diurético, sangramentoCristaloide isotônico; vigiar autocorreção
Hipo euvolêmicaOsm ur > 100 · Na ur > 30SIADH, hipotireoidismo, insuf. adrenal, drogas (ISRS, carbamazepina)Restrição hídrica; excluir endócrinas; tratar causa
Hipo hipervolêmicaedema · Na ur < 30IC, cirrose, nefroseRestrição + alça; tratar a base
Hiper com urina concentradaOsm ur altaÁgua não ofertada, perdas insensíveis/GIRepor água livre + manutenção
Hiper com poliúria diluídaOsm ur baixaDI central (neuro) ou nefrogênico (lítio)Teste/uso de desmopressina; repor
04

Infusão na prática — via e cuidado

NaCl 3% — via e modo

Bolus de 100–150 mL em veia periférica calibrosa é aceitável — estudos observacionais mostram baixa incidência de flebite/extravasamento com uso periférico de curta duração; infusões contínuas prolongadas pedem preferencialmente CVC, sempre em bomba de infusão, conforme protocolo institucional. O ensaio SALSA mostrou que bolus intermitente é ao menos tão seguro quanto infusão contínua lenta — e operacionalmente mais simples de controlar.

O momento de maior risco não é o começo

É quando a causa desliga: volemia restaurada, cortisol reposto, tiazídico suspenso — o ADH cai e o rim despeja água livre (diurese aquosa > 100 mL/h é o alarme). É aí que o sódio estoura o teto sem ninguém prescrever nada. Vigiar diurese e re-dosar; se disparar, água livre ± desmopressina. Toda correção respeita o protocolo do seu serviço.

05

A urina na disnatremia — osmolaridade e sódio

Na hiponatremia, dois números da urina fazem quase todo o trabalho de classificar: a osmolaridade urinária — que diz se o ADH está agindo — e o sódio urinário — que diz por quê. São o interrogatório do hormônio: pergunte à urina antes de repor qualquer coisa.

A osmolaridade urinária separa dois mundos. Se ela está baixa (< 100 mOsm/kg), o ADH está apropriadamente desligado e o rim despeja água livre: pense em polidipsia primária, potomania da cerveja ou dieta pobre em soluto ("tea and toast") — o corpo recebeu mais água do que consegue excretar, mas o rim está fazendo o certo. Se está alta (> 100), o ADH está agindo onde não devia (SIADH) ou porque a volemia efetiva caiu (hipovolemia, IC, cirrose). Quando o laboratório não mede na hora, dá para estimar a osmolaridade a partir do próprio EQU:

Osmu estimada (mOsm/kg) ≈ 2 × (Nau + Ku) + ureiau(mg/dL) ⁄ 6 + glicoseu(mg/dL) ⁄ 18
Osm urináriaNa urinárioCenário provávelPrimeira conduta
< 100variávelADH suprimido: polidipsia primária, potomania, baixa oferta de solutoRestringir água; corrigir devagar (risco de autocorreção rápida)
> 100< 30Hipovolemia (perda GI, terceiro espaço) ou hipervolemia (IC, cirrose)Volemia: cristaloide isotônico se hipovolêmico; restrição + alça se hipervolêmico
> 100> 30SIADH (excluir hipotireoidismo e insuficiência adrenal antes)Restrição hídrica; tratar a causa

Na hipernatremia, a mesma osmolaridade urinária responde outra pergunta: com o sódio alto, o rim deveria concentrar ao máximo. Se a urina está concentrada (Osm alta), o rim responde certo — a água simplesmente não foi ofertada ou se perdeu (insensível, GI). Se está diluída apesar do sódio alto, é diabetes insipidus (central, se responde à desmopressina; nefrogênico, se não). O EQU completa o quadro: glicosúria aponta diurese osmótica; densidade baixa fixa acompanha o DI.

O número da urina não substitui a cronologia

Osmolaridade e sódio urinário classificam a disnatremia, mas não definem a velocidade de correção — quem define é "agudo ou crônico?". E cuidado com a armadilha: quando a causa da hiponatremia hipovolêmica desliga (volemia restaurada), o ADH cai, a urina despeja água e o sódio dispara sozinho — reavaliar Osm e diurese urinárias é o que antecipa a autocorreção. Confirme condutas no protocolo do seu serviço.

Fechou o sódio — e agora?

O potássio é o próximo — e o único que mata mais rápido que a água. O fluxograma do módulo amarra os cinco eletrólitos no mesmo raciocínio. A camada de prescrição — soluções prontas, vazões em mL/h e diluições por via — está nas prescrições comentadas, uma página por distúrbio.

Levar o caso ao assistente de conduta
Spasovski G, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Intensive Care Med. 2014;40(3):320–331 (NaCl 3% 150 mL em sintomática grave; alvo +5 mEq/L; tetos de correção). Verbalis JG, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42 (alvo 4–6 mEq/L; limites por risco de desmielinização). Baek SH, et al. Risk of overcorrection in rapid intermittent bolus vs slow continuous infusion therapies of hypertonic saline for symptomatic hyponatremia (SALSA). JAMA Intern Med. 2021;181(1):81–92. Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589. · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(20):1493–1499. Sterns RH. Disorders of plasma sodium — causes, consequences, and correction. N Engl J Med. 2015;372(1):55–65 (adaptação cerebral e desmielinização osmótica). UpToDate — Overview of the treatment of hyponatremia in adults; Treatment of hypernatremia in adults.