Exacerbação aguda de DPOC
O alvo de oxigênio aqui é deliberadamente mais baixo, o corticoide dura cinco dias e o antibiótico depende do escarro — não da dispneia. E a VNI é o que mais muda mortalidade.
Serve para a exacerbação aguda de DPOC no adulto. Não cobre DPOC estável, asma (que tem alvo de oxigênio e esquema de corticoide diferentes — ver asma) nem bronquiectasia como doença de base, que tem microbiologia própria.
Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.
A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".
Item por item
A exacerbação de DPOC é diagnóstico de exclusão parcial: a mesma dispneia com sibilos pode ser edema agudo, TEP ou pneumotórax num pulmão já hiperinsuflado. Tratar tudo como broncoespasmo atrasa o que realmente importa.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar.O alvo mais baixo tem base em desfecho: oxigênio titulado reduziu mortalidade comparado ao oxigênio liberal no transporte de pacientes com DPOC exacerbado. E vale corrigir a explicação que ainda circula: a retenção de CO₂ com oxigênio alto se deve principalmente à redistribuição da perfusão pulmonar e ao efeito Haldane — a supressão do drive é parte menor.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar.O ipratrópio agrega mais no DPOC do que na asma, pelo componente colinérgico da obstrução. E a apresentação varia muito entre serviços — por isso a dose nebulizada aparece aqui como "a padronizada", não como número único.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar.Cinco dias bastam — os estudos que compararam curso curto com prolongado não mostraram diferença de recaída. O corticoide de duas ou três semanas que ainda aparece em prescrição é herança, e cobra em glicemia e miopatia num paciente que já tem fraqueza muscular.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar. · Via oral × venosa: de Jong YP, Uil SM, Grotjohan HP, et al. Oral or IV Prednisolone in the Treatment of COPD Exacerbations: a randomized, controlled, double-blind study. Chest. 2007;132(6):1741–1747 — prednisolona 60 mg VO não inferior à mesma dose EV, com preferência pela oral por custo · Lindenauer PK, Pekow PS, Lahti MC, et al. Association of Corticosteroid Dose and Route of Administration With Risk of Treatment Failure in Acute Exacerbation of COPD. JAMA. 2010;303(23):2359–2367 — em 414 hospitais, corticoide EV em dose alta sem benefício detectável sobre o oral em dose baixa · Dose e duração: Leuppi JD, et al. REDUCE. JAMA. 2013;309(21):2223–2231 — 5 dias não inferiores a 14 · O esquema histórico de metilprednisolona 125 mg 6/6 h vem de Niewoehner DE, et al. N Engl J Med. 1999;340(25):1941–1947 (SCCOPE), e não se mostrou superior às doses baixas orais nos estudos posteriores · Equivalências de potência conforme tabela farmacológica clássica.A regra dos escarros purulentos vem dos estudos clássicos de Anthonisen e continua sendo o melhor discriminador de bancada: purulência é o marcador que se correlaciona com carga bacteriana. Prescrever por dispneia isolada Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report e Pocket Guide 2026 (goldcopd.org) — exacerbação definida como piora da dispneia e/ou tosse e escarro instalada em até 14 dias, graduada em leve, moderada e grave pela proposta de Roma; antibióticos recomendados por 5 dias em pacientes com escarro purulento e história prévia de infecção pulmonar; corticoide sistêmico por até 5 dias na exacerbação moderada/grave; SABA com ou sem anticolinérgico de curta duração como broncodilatador inicial; metilxantinas não recomendadas; VNI e alto fluxo indicados na insuficiência respiratória aguda. Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar · Critérios de Anthonisen (dois de três, com purulência obrigatória) — base histórica da indicação de antibiótico, mantida na diretriz atual.
| Combinação LABA + LAMA | Apresentação usual | Posologia |
|---|---|---|
| Indacaterol + glicopirrônio | 110/50 mcg (DPI) | 1 inalação 1×/dia |
| Umeclidínio + vilanterol | 62,5/25 mcg (DPI) | 1 inalação 1×/dia |
| Olodaterol + tiotrópio | 2,5/2,5 mcg por jato (névoa suave) | 2 jatos 1×/dia |
| Formoterol + aclidínio | 12/400 mcg (DPI) | 1 inalação 12/12 h |
| Sem combinação disponível: tiotrópio 18 mcg 1×/dia (ou 2,5 mcg × 2 jatos) + formoterol 12 mcg 12/12 h ou salmeterol 50 mcg 12/12 h, em dispositivos separados | ||
| Eosinófilos no sangue | O que fazer com o ICS | Por quê |
|---|---|---|
| ≥ 300 células/µL | Favorece adicionar — é onde o benefício em reduzir exacerbação é maior | inflamação tipo 2, responsiva a corticoide |
| 100 a 300 células/µL | Zona intermediária — considerar se houver exacerbações repetidas apesar da dupla | benefício menor, mas presente |
| < 100 células/µL | Desfavorece — o ganho é pequeno e o risco de pneumonia pesa mais | pouca inflamação eosinofílica para tratar |
| Tripla em dispositivo único (ICS + LABA + LAMA) | Apresentação usual | Posologia |
|---|---|---|
| Budesonida + glicopirrônio + formoterol | 160/9/4,8 mcg por jato (pMDI) | 2 jatos 12/12 h |
| Beclometasona + glicopirrônio + formoterol | 87/9/5 mcg por jato (partícula extrafina) | 2 jatos 12/12 h |
| Fluticasona furoato + umeclidínio + vilanterol | 100/62,5/25 mcg (DPI) | 1 inalação 1×/dia |
| Sem tripla disponível: ICS-LABA + LAMA em dois dispositivos — budesonida-formoterol 160/4,5 (2 jatos 12/12 h) ou fluticasona-salmeterol 250/50 (1 inalação 12/12 h), somados ao tiotrópio | ||
Vale entender por que o eosinófilo virou o critério, porque isso muda como se lê o exame. O corticoide inalatório não trata obstrução — ele trata inflamação eosinofílica. Num DPOC neutrofílico clássico, o ICS entrega pouco benefício e cobra um preço concreto: aumento de pneumonia. Nos pacientes com eosinofilia, a mesma droga reduz exacerbação de forma consistente. O exame, então, não está medindo gravidade — está identificando quem tem o alvo do remédio.
A armadilha oposta é igualmente comum e mais silenciosa: o paciente que sai da internação com corticoide inalatório iniciado "porque exacerbou", sem eosinófilo nenhum documentado, e o mantém por anos. Se o número não foi olhado, a decisão não foi tomada — foi herdada. E o outro erro clássico é de classe: manter ipratrópio de horário junto do tiotrópio, o que é a mesma droga duas vezes.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report e Pocket Guide 2026 (goldcopd.org) — manutenção com broncodilatador de longa duração iniciada o quanto antes, e adição de corticoide inalatório à dupla broncodilatação a considerar na alta em pacientes com ≥ 1 exacerbação moderada ou grave e eosinófilos sanguíneos elevados; limiar de ≥ 300 células/µL favorecendo o ICS, faixa intermediária de 100–300 e < 100 desfavorecendo, conforme as categorias adotadas pela diretriz; consideração de biológicos (dupilumabe, mepolizumabe) em quem segue exacerbando sob tripla terapia com eosinófilos ≥ 300. Conteúdo parafraseado — conferir a versão vigente.A VNI no DPOC hipercápnico é uma das intervenções com melhor efeito em mortalidade da terapia intensiva — e o erro não costuma ser indicá-la, é insistir nela. A janela para intubar com segurança fecha enquanto a equipe espera "mais um pouquinho".
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar.A exacerbação que interna é marcador de mortalidade nos meses seguintes, e a alta é o único momento em que a equipe tem a atenção do paciente. Técnica inalatória conferida e reabilitação encaminhada mudam mais o próximo ano do que qualquer ajuste de dose da crise.
Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease — GOLD 2026 Report (goldcopd.org). Conteúdo parafraseado; conferir a versão vigente antes de publicar.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Aminofilina ou teofilina EV — saíram por dano e falta de benefício. Oxigênio liberal — a hipercapnia é iatrogênica. Antibiótico por dispneia isolada. Corticoide prolongado além dos 5 dias sem razão. Mucolítico, opioide ou sedativo como prescrição padrão. Amoxicilina/clavulanato 875 mg com ClCr abaixo de 30. E insistir na VNI enquanto o paciente se esgota.
Reavaliar com gasometria em 30–60 min se houver risco de hipercapnia, e em 1–2 h após iniciar VNI. A alta é o item de maior alavanca: técnica inalatória, adesão, cessação do tabagismo, reabilitação e oxigênio domiciliar avaliado em estabilidade. Se a exacerbação foi grave o bastante para VNI, o antibiótico entra — essa é uma das indicações formais.
Levar o caso ao assistente de conduta