Lesão Renal Aguda no crítico
Definir e estadiar (KDIGO 2026), ler a urina, proteger o rim — e dialisar pela indicação, não pelo número
Esta página adota o vocabulário e a estrutura do rascunho KDIGO 2026 de LRA/DRA (AKI/AKD), a pedido da revisão clínica: ATI (lesão tubular aguda) no lugar de "NTA", LRA hemodinâmica no lugar de "pré-renal", definição por função ou estrutura, estadiamento com eixo de biomarcador e o continuum LRA → DRA → DRC. Como é um documento em revisão pública (não finalizado), toda conduta segue rascunho até a revisão do Cesar e deve ser confirmada na versão publicada e no protocolo do serviço.
Fluxograma — abordagem à LRA
As LRA intrínsecas — e por que "ATI" tomou o lugar de "NTA"
Excluído o pós-renal e corrigida a perfusão sem resposta, a lesão está no parênquima — e o rim tem quatro compartimentos que podem adoecer, cada um com uma pista e uma conduta. Saber em qual você está é o que separa "esperar recuperar" de "tratar uma doença específica agora".
Um ponto de vocabulário que confunde o plantão: o que a maioria aprendeu como NTA (necrose tubular aguda) hoje se chama ATI — lesão tubular aguda (acute tubular injury), termo que o KDIGO 2026 adota. A troca não é cosmética: reconhece que, na maioria dos casos, existe um espectro de lesão tubular sublethal — estresse metabólico, desdiferenciação e apoptose das células tubulares — e não necrose franca, como o nome antigo sugeria. Na prática, ATI e NTA são a mesma entidade; usamos ATI por ser o termo atual e mais fiel ao que a biópsia mostra. Já a NIA (nefrite intersticial aguda, ou AIN) é outra coisa — inflamação do interstício, quase sempre imunoalérgica e ligada a droga — e não deve ser confundida com ATI. E há ainda o glomérulo e o vaso: quatro endereços, quatro raciocínios.
| Compartimento | Entidade | Pistas | A conduta que muda |
|---|---|---|---|
| Túbulo | ATI (ex-NTA) — isquêmica ou tóxica | Cilindros granulosos pigmentados ("muddy brown") + células epiteliais; FeNa > 2%; contexto de sepse, hipotensão, nefrotóxico, contraste, rabdomiólise, lise | Suporte e tempo; retirar o agressor. Não há droga que reverta. |
| Interstício | NIA (nefrite intersticial aguda) | Leucocitúria estéril, cilindros leucocitários, ± eosinofilúria (baixa sensibilidade); relação temporal com droga; ± rash, febre, eosinofilia | Suspender o fármaco culpado; considerar corticoide; às vezes biópsia. |
| Glomérulo | Glomerulonefrite / vasculite | Hematúria dismórfica, cilindros hemáticos, proteinúria (nefrótica ou nefrítica), hipertensão, sinais sistêmicos | Nefrologia urgente, sorologias, biópsia — pode exigir imunossupressão. |
| Vaso | Microangiopatia trombótica, ateroembolismo, trombose | Esquistócitos + plaquetopenia (MAT); livedo/embolia após cateterismo (ateroembolismo); dor/assimetria (trombose) | Depende: plasmaférese (MAT primária), suporte, anticoagulação. |
A nefrite intersticial aguda é a grande imitadora tratável: LRA que sobe dias a semanas após um fármaco novo, com sedimento inflamatório (leucocitúria estéril, cilindros leucocitários) e, às vezes, proteinúria tubular leve. A tríade clássica — febre, rash, eosinofilia — aparece na minoria; não espere por ela. Suspender o culpado é o que mais muda o desfecho; corticoide precoce entra nos casos confirmados/persistentes. Culpados frequentes na UTI: AINE, IBP, betalactâmicos, sulfas, alopurinol, inibidores de checkpoint.
Fisiopatologia — as fases da ATI (e por que a sepse não é só isquemia)
Entender o que acontece no túbulo explica quase toda a conduta: por que a ATI não responde a "mais volume", por que leva dias a semanas para recuperar, e por que há uma fase poliúrica perigosa na saída.
A ATI evolui em quatro fases. Na iniciação, a queda de perfusão (ou a toxina) estressa as células tubulares — as do túbulo proximal S3 e da alça ascendente medular, metabolicamente ávidas e na região de menor tensão de oxigênio, sofrem primeiro. Na extensão, inflamação, lesão endotelial e congestão da microcirculação medular ampliam o dano mesmo depois de a perfusão global melhorar — por isso restaurar a pressão não "liga" o rim de volta na hora. Na manutenção (dias a 1–2 semanas), a TFG fica baixa e estável: cilindros e células mortas obstruem a luz, o filtrado vaza pelo epitélio desnudo (backleak) e o feedback tubuloglomerular — a mácula densa detectando sódio distal em excesso — vasoconstringe a arteríola aferente e derruba a filtração de propósito. Na recuperação, o epitélio se redifferencia e a TFG volta; como a reabsorção tubular se recupera depois da filtração, surge a fase poliúrica — o rim urina muito, mas ainda regula mal volume, sódio, potássio e magnésio.
A grande revisão conceitual das últimas décadas é a LRA associada à sepse, a causa nº 1 na UTI. Ela não é predominantemente necrose por hipofluxo: o fluxo renal pode estar normal ou até aumentado, e o dano histológico costuma ser focal e modesto diante da queda de função. O entendimento atual é um trio — disfunção microcirculatória (shunt e heterogeneidade de perfusão apesar de fluxo global preservado), inflamação (padrões moleculares de dano e de patógenos ativando a célula tubular) e uma resposta adaptativa em que a célula tubular "baixa o metabolismo" para sobreviver, reduzindo a função de propósito. A implicação é enorme: encharcar de volume um rim séptico normo/hiperperfundido não recupera função — congestiona, e a congestão venosa renal é hoje reconhecida como agravante. Perfusão adequada, sim; excesso, não.
1) Corrigida a hipovolemia e a pressão, se o rim não responde em horas, a lesão já se estabeleceu — mude a chave de "repor" para "sustentar e proteger". 2) Volume não trata ATI; passado o ponto de responsividade, ele vira congestão que piora o rim. 3) A recuperação leva dias a semanas — e a fase poliúrica de saída pede vigilância de balanço e eletrólitos, não comemoração precoce.
Definir e estadiar — o que o KDIGO 2026 muda
A grande virada do rascunho KDIGO 2026 é reconhecer que a creatinina, sozinha, chega tarde e mente. A LRA passa a ser definida por função ou estrutura: aos critérios funcionais somam-se a cistatina C (marcador de filtração que independe da massa muscular) e um biomarcador de dano tubular — permitindo diagnosticar mais cedo e classificar mesmo antes de a creatinina se mexer.
| Critério | LRA — qualquer um, em ≤ 7 dias |
|---|---|
| Funcional | ↑ creatinina ≥ 0,3 mg/dL em 48 h · ou ↑ creatinina ≥ 1,5× a basal (7 d) · ou ↑ cistatina C ≥ 1,5× a basal (7 d) · ou débito urinário < 0,5 mL/kg/h por ≥ 6 h |
| Estrutural | Elevação de um biomarcador de dano renal (usado na sua indicação validada) surgida nos últimos 7 dias |
O estadiamento ganhou um terceiro eixo. Além da creatinina (C1–C3) e do débito urinário (U1–U3), há agora o eixo do biomarcador de dano (B0/B1): um paciente pode estar "C1" pela creatinina, mas "B1" por já ter dano tubular detectável — informação que muda a vigilância. Os cortes de creatinina e diurese seguem os de sempre; o que mudou foi acrescentar a dimensão do dano.
| Estágio | Creatinina (C) | Débito urinário (U) | Biomarcador (B) |
|---|---|---|---|
| 1 | ↑ ≥ 0,3 mg/dL ou 1,5–1,9× basal | < 0,5 mL/kg/h por 6–12 h | B1 = biomarcador de dano positivo · B0 = negativo (aplica-se a qualquer estágio C/U) |
| 2 | 2,0–2,9× basal | < 0,5 mL/kg/h por ≥ 12 h | |
| 3 | ≥ 3,0× basal ou ≥ 4,0 mg/dL ou início de TRS | < 0,3 mL/kg/h por ≥ 24 h ou anúria ≥ 12 h |
Nova no KDIGO 2026: a LRA é transitória quando a alteração (creatinina/cistatina ou diurese) dura ≤ 48 h e persistente quando dura > 48 h até 7 dias. A persistente tem pior prognóstico e reforça a busca por causa estrutural.
A LRA é o começo (≤ 7 dias) de um espectro: se a alteração persiste até 3 meses, é doença renal aguda (DRA/AKD); além disso, DRC. O sentido prático: quem teve LRA não recebe alta do problema quando a creatinina para de subir — precisa de seguimento (função, albuminúria, PA) porque o risco de evoluir para DRC é real.
Todo o estadiamento depende de uma basal. O KDIGO 2026 propõe uma hierarquia: usar uma creatinina ambulatorial representativa dos últimos 8–365 dias; na falta dela, a da admissão (salvo se já houver LRA na entrada); depois, o menor valor da internação; e, em último caso, estimar a basal assumindo TFG de 75 mL/min/1,73 m² (CKD-EPI). Sem basal, você não sabe se está diante de um crônico estável ou de uma catástrofe aguda.
Investigar à beira do leito — história, exame e volume
Antes de qualquer exame, duas perguntas orientam mais que qualquer índice: a que o rim foi exposto? (agressores e susceptibilidades) e como está a volemia? — o divisor de águas entre LRA hemodinâmica e ATI.
A história caça agressores e terreno: hipotensão/choque, sepse, cirurgia de grande porte, contraste, drogas (AINE, IECA/BRA, aminoglicosídeo, vancomicina, anfotericina, IBP), rabdomiólise, lise tumoral — sobre um terreno de idade, DRC, diabetes, IC ou cirrose. O exame foca a volemia e as pistas sistêmicas: hipovolemia × congestão, globo vesical (pós-renal), rash/livedo (NIA, ateroembolismo), estigmas de hepatopatia (síndrome hepatorrenal). A avaliação de volume é decisiva, e o KDIGO 2026 valoriza o POCUS (para separar LRA volume-responsiva de intrínseca) e o Doppler renal / índice resistivo como auxiliares. Há ainda uma ferramenta prognóstica nova — o teste de estresse com furosemida (seção 08) — para antecipar quem vai progredir.
| Eixo da investigação | O que procurar |
|---|---|
| Exposições (agressores) | Hipotensão/sepse, contraste, nefrotóxicos (AINE, aminoglicosídeo, vancomicina, anfotericina, IBP), rabdomiólise, lise tumoral, obstrução |
| Susceptibilidades (terreno) | DRC, diabetes, idade avançada, IC, cirrose, hipovolemia, sepse |
| Exame e volume | Hipovolemia × congestão, globo vesical, rash/livedo/febre; POCUS e Doppler renal (índice resistivo) |
A avaliação da volemia não é um detalhe do exame — é ela que define a estratégia. Diante de uma LRA hemodinâmica, a conduta se bifurca: se o paciente está hipovolêmico e fluido-responsivo (VCI colabável, elevação de pernas ou variação de pressão de pulso positivas, perdas em curso), a resposta é volume dirigido, em alíquotas com reavaliação; se está congesto (VExUS positivo, VCI distendida, linhas B, edema), volume piora — a resposta é diurético (ou ultrafiltração no refratário). O erro clássico é tratar os dois cenários igual: dar volume ao congesto (que já está afogando o rim na congestão venosa) ou espremer com diurético o hipovolêmico (que precisa de perfusão). E como o balanço muda de hora em hora — o paciente sai de hipovolêmico na ressuscitação para congesto após a reposição —, a volemia se reavalia a cada evolução, ajustando entre repor e retirar. É por isso que a pergunta "dar volume ou tirar?" está no fluxograma: ela muda a conduta mais do que qualquer índice urinário.
Ler a urina — EQU, sedimento, osmolaridade e índices
Antes de qualquer biomarcador caro, a urina de rotina responde muito. O KDIGO 2026 sugere a microscopia urinária como parte da avaliação da LRA, sobretudo quando a causa não está clara ou se suspeita de doença intrínseca — e coloca as químicas urinárias (FeNa, FeUreia) como ferramentas de segunda linha, reservadas para diferenciar LRA hemodinâmica de ATI em cenários selecionados, porque a utilidade geral delas é limitada. Elas ajustam a probabilidade; não fecham diagnóstico.
O EQU (urina tipo 1) é o exame mais barato e mais subutilizado da UTI. A fita dá proteína, sangue, leucócitos, glicose e densidade; o sedimento é o que separa os grandes grupos de LRA intrínseca. Vale pedir microscopia fresca e olhar (ou pedir para o laboratório olhar) os cilindros: eles são a "biópsia sem agulha" do túbulo.
| Achado no sedimento | Aponta para | Leitura |
|---|---|---|
| Cilindros granulosos pigmentados ("muddy brown") + células epiteliais tubulares | ATI | Distingue ATI de LRA hemodinâmica e prediz progressão para estágio grave (KDIGO 2026). |
| Cilindros hemáticos · hemácias dismórficas · proteinúria | Glomerular (GN, vasculite) | Foge do padrão séptico/isquêmico — chamar nefrologia, pensar em biópsia. |
| Leucocitúria estéril · cilindros leucocitários · eosinofilúria | Nefrite intersticial aguda (droga), pielonefrite | Eosinófilos têm baixa sensibilidade — não excluem NIA (KDIGO 2026). |
| Sedimento limpo / cilindros hialinos | LRA hemodinâmica, pós-renal | Reforça teste terapêutico de perfusão / procurar obstrução. |
| Cristais (ácido úrico, oxalato, fármacos) | Nefropatia por cristais / lise tumoral / toxinas | Aciclovir, metotrexato, etilenoglicol, síndrome de lise. |
Osmolaridade urinária — e como estimá-la. A osmolaridade urinária diz se o rim está concentrando (túbulo íntegro respondendo ao ADH) ou isostenúrico (túbulo lesado, "perdeu a régua"). Quando o laboratório não mede na hora, dá para estimar a partir do próprio EQU e das químicas:
| Cenário | Osmolaridade urinária | Leitura |
|---|---|---|
| LRA hemodinâmica | > 500 mOsm/kg | Rim concentrando bem — túbulo íntegro, ávido por água e sódio. |
| ATI | ~ 300 (isostenúrica) | Perdeu a capacidade de concentrar — dano tubular estabelecido. |
| Hiponatremia | < 100 × > 100 | < 100 = ADH apropriadamente suprimido (potomania, baixa oferta de soluto); > 100 = ADH agindo (SIADH, hipovolemia) — ver sódio. |
Relação ureia/creatinina — a pista mais rápida (e a mais fácil de superinterpretar). Na LRA hemodinâmica, a avidez por sódio arrasta água e ureia de volta desproporcionalmente à creatinina, elevando a razão. Use com contexto: sobe também em hemorragia digestiva, corticoide, dieta hiperproteica e catabolismo; cai na desnutrição e hepatopatia.
| Índice | Hemodinâmica ("pré-renal") | ATI | Ressalva |
|---|---|---|---|
| Ureia/creatinina (ambos mg/dL) | > ~40 | < ~40 | Equivale a BUN:creatinina > 20:1 (BUN = ureia ⁄ 2,14). Confundido por HDA, corticoide, catabolismo. |
| Sódio urinário (amostra única) | < 20 mEq/L | > 40 mEq/L | Reflete a avidez por sódio do rim hipoperfundido. Perde valor sob diurético. |
| FeNa | < 1% | > 2% | Baixo mesmo em ATI: contraste, sepse precoce, GN, SHR. Alto sem ATI: diurético, DRC. |
| FeUreia | < 35% | > 50% | Preferir quando o paciente usa diurético — a ureia se reabsorve independente da alça. |
FeNa e FeUreia — como calcular. Ambas se obtêm de uma amostra única de urina + o sangue colhido junto, sem coleta de 24 h. A fração de excreção compara quanto de sódio (ou ureia) o rim está jogando fora versus quanto filtrou — usando a creatinina como referência do que foi filtrado:
Preencha sódio e creatinina do plasma e da urina (amostra única) para a FeNa. Para a FeUreia — útil sob diurético —, preencha também a ureia do plasma e da urina (mesma unidade nos dois). As unidades se cancelam: use mEq/L para o sódio e mg/dL (ou mmol/L) para creatinina e ureia, desde que consistentes.
FeNa e FeUreia ajustam a probabilidade, não decidem sozinhas. FeNa é baixa em ATI por contraste, sepse precoce, glomerulonefrite e síndrome hepatorrenal; é alta sem ATI sob diurético e na DRC. Sob diurético de alça, confie na FeUreia. O teste terapêutico (otimizar perfusão e reavaliar) e o sedimento valem mais que qualquer índice isolado. Confirme conduta e valores no protocolo do seu serviço.
Proteinúria e albuminúria — quantificar e o que fazer
A proteinúria não é só marcador diagnóstico — é fator de risco e alvo de tratamento. O KDIGO 2026 reconhece que a albuminúria basal (medida por relação albumina/creatinina, UACR, ou até por fita) acrescenta valor prognóstico à TFG para o risco de LRA. Na prática do intensivista, o passo é quantificar em amostra única e reconhecer quando aquilo vira indicação de terapia que preserva rim a longo prazo.
Não é preciso coletar 24 h: a relação proteína/creatinina (RPC) e a relação albumina/creatinina (UACR) em amostra isolada estimam a excreção diária. Como regra prática, uma RPC de 1 mg/mg ≈ 1 g de proteinúria/24 h; RPC > 3–3,5 sugere faixa nefrótica. A albuminúria estratifica o risco em A1 (UACR < 30 mg/g), A2 (30–300) e A3 (> 300). Hematúria dismórfica + proteinúria em faixa nefrótica muda o eixo do raciocínio para glomerular — e pede nefrologia.
Dá para quantificar no hospital sem urina de 24 h. O KDIGO prefere a relação albumina/creatinina (UACR) em amostra — mais sensível e padronizada para a doença glomerular precoce. Quando o interesse é a proteinúria total (suspeita de mieloma, proteinúria tubular ou de cadeia leve) ou a UACR não está disponível, a relação proteína/creatinina (RPC) em amostra é aceitável e substitui bem a coleta de 24 h; a primeira urina da manhã é a ideal, e as 24 h ficam reservadas a casos selecionados. Como ambas usam a creatinina urinária como referência, aproximam a excreção diária — daí a regra da RPC ≈ g/24 h.
| Categoria | UACR (mg/g) | RPC / proteína (mg/g) | Proteína em 24 h |
|---|---|---|---|
| A1 — normal a leve | < 30 | < 150 | < 150 mg/dia |
| A2 — moderada | 30–300 | 150–500 | 150–500 mg/dia |
| A3 — grave | > 300 | > 500 | > 500 mg/dia |
| Faixa nefrótica | — | > 3000–3500 | > 3,5 g/dia |
| Pilar (KDIGO 2024/2026) | Quando | Alvo / cuidado |
|---|---|---|
| IECA ou BRA (bloqueio do SRAA) | Albuminúria A3 (recomendado) ou A2 (sugerido); com diabetes, A2–A3 recomendado; e na hipertensão | Titular até a dose máxima tolerada. Vigiar K e creatinina (queda ≤ 30% é esperada e aceitável). |
| SGLT2i (dapagliflozina, empagliflozina) | TFG ≥ 20 com UACR ≥ 200 mg/g ou insuficiência cardíaca (recomendado, mesmo sem diabetes); DM2 + DRC com TFG ≥ 20 (recomendado) | Reduz progressão e desfecho cardiovascular (DAPA-CKD, EMPA-KIDNEY). Suspender na doença aguda (risco de cetoacidose euglicêmica e depleção). |
| Finerenona (antagonista não-esteroide do receptor mineralocorticoide) | DM2, TFG > 25, potássio normal, albuminúria persistente apesar de IECA/BRA em dose máxima | Vigiar hipercalemia. Decisão longitudinal, não de UTI. |
Estes são pilares crônicos, e a fase aguda instável costuma ser hora de segurar, não de iniciar: SGLT2i sai (cetoacidose euglicêmica, depleção); IECA/BRA muitas vezes é pausado na instabilidade hemodinâmica ou hipercalemia — embora o KDIGO 2026 não recomende suspendê-lo de rotina só por causa de contraste ou de cirurgia. O papel do intensivista é documentar a proteinúria, conciliar a medicação e deixar o plano de reintrodução: o KDIGO 2026 recomenda iniciar ou reassumir IECA/BRA (e avaliar SGLT2i/GLP-1/finerenona) no seguimento pós-LRA, na alta e em até 3 meses. Não deixe o paciente sair da UTI sem esse plano.
Prevenir e sustentar — o que o KDIGO 2026 sustenta
Não existe droga que "trate" a ATI: dopamina em dose renal, diurético para "proteger" e manitol de rotina não previnem nem revertem LRA. O que funciona é boring — perfusão, remoção do agressor e ajuste de dose —, e o KDIGO 2026 amarra isso em recomendações claras.
| Frente | Conduta (KDIGO 2026) |
|---|---|
| Fluido | Cristaloide sobre coloide (1B); cristaloide balanceado sobre salina 0,9% na ausência de TCE (1B). Amido (HES) proscrito. |
| Pressão | Alvo de PAM > 65 mmHg (2C); individualizar mais alto no hipertenso crônico. Contra dopamina em dose baixa (1A). |
| Diurético | Só para sobrecarga volêmica (2B), em bólus intermitente em vez de infusão contínua; preferir diurético à remoção extracorpórea de fluido quando não há outra indicação de TRS (1C). |
| Acidose | Acidose metabólica grave com pH < 7,20 → bicarbonato IV em vez de TRS, salvo outra indicação urgente (2C). |
| Glicemia | Alvo 140–180 mg/dL; evitar metas mais agressivas. |
| Nutrição | Preferir via enteral; não restringir proteína para adiar a diálise; evitar excesso proteico. |
| Contraste | Não adiar exame necessário; usar contraste de baixa/iso-osmolaridade e menor dose; hidratar o alto risco com salina 0,9% (1B). NAC, bicarbonato e HD peri-contraste não ajudam (HD peri-contraste pode ser deletéria). Não suspender IECA/BRA de rotina. |
Dopamina em dose baixa — recomendação KDIGO contra (1A). Diurético não previne nem acelera recuperação; serve para tratar sobrecarga, e insistir nele para "fazer o rim urinar" só atrasa a diálise e mascara o balanço. N-acetilcisteína e bicarbonato de rotina para contraste não se sustentam. Confirme condutas no protocolo do seu serviço.
Ferramenta nova no KDIGO 2026 (sugerida, 2C) para prever progressão na LRA estágio 1–2 em paciente euvolêmico/hipervolêmico: administra-se 1,0–1,5 mg/kg de furosemida e mede-se a diurese das 2 horas seguintes. Diurese robusta = túbulo com reserva, menor risco de evoluir para estágio 3/TRS; resposta pobre = alerta. Não é tratamento — é prognóstico.
Diálise no crítico — quando começar, qual método, quanto
Duas decisões independentes: quando iniciar e como dialisar. Sobre o quando, o KDIGO 2026 é explícito e alinhado à melhor evidência: fora de indicação emergente, prefira a estratégia diferida à precoce (pré-emptiva).
Na presença de indicação emergente, não se discute timing — dialisa. Fora dela, antecipar a diálise não melhora o desfecho: o STARRT-AKI (NEJM 2020, ~3.000 pacientes) mostrou que a estratégia acelerada não reduziu a mortalidade em 90 dias e se associou a maior dependência de diálise; AKIKI (2016) e IDEAL-ICU (2018, choque séptico) confirmaram; AKIKI-2 (2021) mostrou que retardar ainda mais também não ajuda e pode piorar. O único ensaio com benefício na estratégia precoce, o ELAIN (2016), foi monocêntrico e não se replicou. A síntese, hoje endossada pelo KDIGO 2026 (Rec 5.1.1): sem AEIOU, observar e reavaliar.
| Indicação emergente — "AEIOU" | O gatilho |
|---|---|
| A — Acidose | Acidose metabólica grave refratária ao tratamento clínico |
| E — Eletrólitos | Hipercalemia grave/refratária (ou de progressão rápida) apesar do manejo |
| I — Intoxicação | Substância dialisável: metanol, etilenoglicol, lítio, salicilato, metformina (acidose láctica) |
| O — Overload | Sobrecarga volêmica refratária a diurético, com edema pulmonar / hipoxemia |
| U — Uremia | Sintomática: encefalopatia, pericardite, sangramento urêmico |
A escolha do método segue a hemodinâmica. No paciente instável (vasopressor, choque), o KDIGO 2026 sugere CRRT ou diálise peritoneal aguda sobre a hemodiálise intermitente convencional (Rec 5.2.1); no risco de edema cerebral (lesão neurológica aguda, ↑PIC, insuficiência hepática com encefalopatia grau ≥ 2) a CRRT é preferível, e pode-se iniciar CRRT para hiperamonemia mesmo sem indicação convencional. A PIRRT/SLED é alternativa aceitável no instável. No paciente estável, a hemodiálise intermitente é eficiente e libera o leito. Esmagamento/rabdomiólise com hipercalemia recorrente frequentemente pede sessões diárias.
KDIGO 2026 (Rec 5.3.1): entregar efluente de 20–25 mL/kg/h na CRRT, ou Kt/V de 3,9/semana na intermitente/PIRRT. Prescreve-se ~25 para entregar 20–25, porque interrupções (coagulação do filtro, exames, transporte) descontam a dose real. Contra a hemofiltração de alto volume na sepse (1B). Na CRRT, anticoagulação com citrato regional preferível à heparina (1B); buffer de bicarbonato no choque/hepatopatia/acidose láctica.
A recuperação se anuncia pela diurese que volta. O KDIGO 2026 aponta preditores de desmame bem-sucedido em adultos: débito > 450 mL/24 h sem diurético (ou > 2300 mL/24 h com diurético) e um clearance de creatinina de 2 h ≥ 23 mL/min. Sinais de recuperação também pesam contra iniciar diálise "só pelo número".
Para TRS aguda usa-se cateter de diálise; o KDIGO 2026 lembra que fístulas/enxertos existentes podem servir para a intermitente, mas devem ser evitados na CRRT (canulação prolongada arrisca deslocamento de agulha e dano ao acesso). No paciente com DRC que já dialisa, o braço da fístula é intocável.
Evolução e acompanhamento — recuperar, reajustar, seguir
A LRA não termina quando a creatinina para de subir. O desfecho depende tanto do que se faz depois — reajustar doses conforme a função volta, reconhecer a fase poliúrica e não perder o paciente de vista, porque quem teve LRA carrega risco aumentado de DRC.
Conforme a função recupera, a armadilha se inverte: os fármacos ajustados "para baixo" na fase de disfunção passam a ser subdosados quando a TFG sobe — reavaliar antibióticos, anticoagulantes e antivirais pela função atual, guiando-se pela tendência da creatinina (e pela KeGFR, quando útil) em vez de um valor congelado. A fase poliúrica pós-ATI ou pós-obstrução pede reposição de volume e eletrólitos com dosagem seriada — o rim urina muito, mas ainda não regula. E toda LRA não resolvida em 7 dias já é, por definição, DRA (doença renal aguda): acompanhar até 3 meses, porque é aí que se decide entre recuperação e cronificação.
| Momento | O que vigiar | Conduta |
|---|---|---|
| Recuperação | Creatinina caindo, diurese voltando | Rebaixar/retirar TRS; reajustar doses para cima; documentar resolução completa × parcial (KDIGO) |
| Fase poliúrica | Diurese > 3 L/dia; Na, K, Mg | Repor perdas com controle seriado; não deixar desidratar nem hipocalêmico |
| Alta / seguimento | Função, albuminúria, PA, medicações | Resumo de alta com o episódio; reintroduzir IECA/BRA no tempo certo; estratificar risco de DRC (KDIGO 2026); nefrologia se alto risco |
Ter tido LRA — mesmo revertida — aumenta o risco de DRC, de nova LRA e de eventos cardiovasculares. O KDIGO 2026 recomenda seguimento coordenado, com avaliação de PA, volume, função e albuminúria após a alta e reassunção de IECA/BRA conforme indicação. Não deixe o paciente sair da UTI sem um plano de reavaliação renal — é a parte mais negligenciada e a que mais muda o desfecho de longo prazo.
A hipercalemia da LRA anúrica é a emergência mais comum: o passo-a-passo está no potássio. Quando o rim agudo é, na verdade, um crônico agudizado, o raciocínio muda — veja a doença renal crônica no crítico. O fluxograma do módulo amarra tudo. A camada de prescrição — doses, diluições e vazões prontas — está nas prescrições comentadas.
Prescrição comentada da hipercalemia Voltar ao Nefro Guide