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Cetoacidose diabética

A ordem das operações é o tratamento: fluido, potássio, e só então insulina. E a crise acaba quando a cetose acaba — não quando a glicemia fica bonita.

Serve para a cetoacidose diabética do adulto, do pronto-socorro à UTI. Não cobre pediatria, gestação e cenários toxicológicos, que exigem protocolo próprio — e a CAD da gestante tem alvos e riscos distintos.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

Os três componentes — e a CAD que não tem glicose alta
glicose ≥ 200 (ou diabetes conhecido) + cetonemia + acidose. Faltando um, não é CAD
Glicose ≥ 200 mg/dL ou diabetes já conhecido
Ânion gap, corrigido e delta-delta achar o distúrbio misto Fórmula de Winter a PaCO₂ que denuncia a exaustão
Beta-hidroxibutirato ≥ 3,0 mmol/L ou cetonúria ≥ 2+
pH venoso < 7,3 e/ou bicarbonato < 18 mmol/L
CAD euglicêmica existe — inibidor de SGLT2, jejum prolongado, álcool, gestação. Não exclua CAD por glicose abaixo de 250: dose a cetonemia
Procurar o precipitante: omissão de insulina, infecção, IAM/AVC, pancreatite, fármaco novo, falha de bomba — antibiótico não é automático, é por foco
Por quê & armadilhas

A tríade importa porque cada componente sozinho engana. Glicose alta sem cetose é hiperglicemia; cetose sem acidose é jejum ou cetose alcoólica; acidose sem cetona é outra coisa. E a armadilha moderna tem nome: quem usa inibidor de SGLT2 pode chegar em CAD franca com glicose de 180, e o rastreio "glicemia normal, não é CAD" atrasa horas de tratamento.

O beta-hidroxibutirato é o exame que resolve — a cetonúria mede acetoacetato, que sobe durante o tratamento bem-sucedido e dá a impressão de piora.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Quem vai para a UTI — e quando o protocolo subcutâneo cabe
CAD grave, alteração mental, choque, sepse ou K perigoso não ficam na enfermaria
UTI/unidade intensiva: CAD grave, alteração do sensório, choque, sepse, distúrbio grave de potássio ou comorbidade crítica
Protocolo de insulina subcutânea só na CAD leve a moderada, não complicada, em unidade com equipe e monitorização próprias para isso
Não misturar os dois fluxos — quem entrou no protocolo EV segue no EV até a resolução
Por quê & armadilhas

A escolha do fluxo é uma decisão de segurança, não de conveniência de leito. O protocolo subcutâneo funciona em populações selecionadas e com vigilância dedicada; aplicado ao paciente grave ou a uma enfermaria sem monitorização, ele vira subtratamento.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Cristaloide primeiro — e reavaliado, não em volume cego
o déficit costuma ser de vários litros; a velocidade é individual
Sem IC ou DRC avançada: cristaloide isotônico (SF 0,9% ou balanceado) 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 h · o balanceado (Ringer lactato, Plasmalyte) resolve a CAD mais rápido, encurta internação e evita a acidose hiperclorêmica do SF em grande volume
Quando trocar por SF 0,45% — e por que quase nunca é pelo sódio
A subida inicial do sódio NÃO indica hipotônico. Ela é esperada e é sinal de que o tratamento está funcionando: cada 100 mg/dL de glicose que cai devolve água para dentro da célula e sobe o sódio em ~1,6 mEq/L. Trocar para 0,45% nesse momento acelera a queda da osmolalidade — que é justamente o mecanismo do edema cerebral
O gatilho correto é a osmolalidade, não o sódio: o hipotônico entra apenas se a osmolalidade não estiver caindo apesar de balanço hídrico positivo adequado e insulina correndo direito. É uma exceção, não uma etapa do protocolo
Qual sódio olhar, e quando: use o sódio medido para conduzir a hidratação e acompanhar a tendência — é ele que a fórmula do consenso usa. Use o sódio corrigido para interpretar: ele responde "há hiponatremia verdadeira por baixo da hiperglicemia?" e evita tratar como hiponatremia o que é só diluição pela glicose. O corrigido informa o raciocínio; ele não é o gatilho da troca de soro
Tetos de segurança: sódio não deve cair mais de 10 mEq/L em 24 h · osmolalidade não deve cair mais de 3 a 8 mOsm/kg por hora
Sódio corrigido pela glicemia interpretar, não decidir o soro
A troca que de fato acontece na maioria dos casos é outra: glicemia < 250 → adicionar glicose 5–10% ao soro isotônico, mantendo a insulina. Essa sim é etapa do protocolo
Sódio corrigido pela glicemia antes de chamar de hiponatremia
Depois: individualizar por perfusão, PA, sódio, diurese e balanço — corrigir o déficit ao longo de 24–48 h
Idoso, IC, DRC avançada ou em diálise: alíquotas de ~250 mL com reavaliação entre elas — não aplicar volume fixo cego
Quando a glicose cair abaixo de 250 mg/dL: acrescentar SG 5–10% ao esquema (item 06)
Por quê & armadilhas

O volume faz metade do trabalho sozinho: restaurar a perfusão renal já derruba a glicose por diluição e por excreção, antes de a insulina agir. Por isso a sequência é fluido, potássio e só então insulina — invertê-la joga o potássio para dentro da célula num paciente já depletado.

A ressalva do cardiopata e do renal não é formalidade: são justamente eles que chegam com CAD precipitada por infecção e que menos toleram um litro por hora.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — cristaloide isotônico ou balanceado a 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 h, com soluções balanceadas associadas a resolução mais rápida da CAD, menor tempo de internação e menos acidose hiperclorêmica; a elevação inicial do sódio não é indicação de fluido hipotônico, e o SF 0,45% é indicado apenas se a osmolalidade não estiver caindo apesar de balanço hídrico positivo adequado e insulina apropriada; queda de 100 mg/dL na glicose eleva o sódio em ~1,6 mEq/L; sódio não deve cair mais que 10 mEq/L em 24 h e a osmolalidade não mais que 3,0–8,0 mOsm/kg/h
Potássio ANTES da insulina — o item que mais mata quando invertido
a insulina empurra K para dentro da célula; se ele já está baixo, isso é arritmia
K < 3,5 mmol/L → ADIAR a insulina. Repor cerca de 10 mmol/h até K > 3,5, com concentração, acesso, bomba e telemetria conforme protocolo (contas na hipocalemia)
K 3,5–5,0 com diurese e função renal adequadas: 20–30 mmol de K por litro de fluido, alvo de manter K entre 4 e 5
K > 5,0: não repor agora — reavaliar a cada 2 h; ele vai cair com a insulina
Oligúria ou anúria: não repor automaticamente — reavaliar com função renal e diurese na mão
Por quê & armadilhas

O potássio sérico da CAD mente para cima: acidose e falta de insulina empurram o íon para fora da célula, então um paciente profundamente depletado chega com potássio "normal". Assim que a insulina entra, ele desaba — e é essa queda, não a hiperglicemia, que causa a arritmia da CAD tratada.

Por isso a regra de 3,5 é uma das poucas verdadeiramente sequenciais desta página: com potássio abaixo disso, a insulina espera. Não é cautela, é ordem de operações.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Insulina regular EV em bomba — 0,1 UI/kg/h, sem bolus obrigatório
depois do fluido e com K ≥ 3,5
Insulina regular 0,1 UI/kg/h EV em bomba — em 70 kg, 7 UI/h
Bolus de 0,1 UI/kg não é obrigatório. Considerar só se houver atraso para montar a infusão, conforme protocolo
Bomba, dupla checagem e glicemia horária — insulina EV é medicamento de alta vigilância
Ajustando a bomba pela resposta
Queda esperada da glicose: cerca de 50–75 mg/dL/h — reavaliada de hora em hora
Caiu MENOS que 50 mg/dL/h: primeiro cheque o óbvio — hidratação insuficiente, bomba parada, extensor desconectado, insulina diluída errada, acesso infiltrado (são as causas mais comuns e não se resolvem com dose). Descartados, dobre a vazão da infusão e reavalie na hora seguinte, repetindo o raciocínio
Caiu MAIS que o esperado (> 75–100 mg/dL/h): reduza a vazão pela metade — queda rápida demais desloca água e potássio bruscamente
Glicemia < 250 mg/dL, com cetose ainda ativa: não desliguereduza para 0,05 UI/kg/h e adicione glicose 5–10% ao soro, mantendo a glicemia por volta de 200 mg/dL até a cetoacidose resolver
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De onde vem cada regra, para você saber o peso de cada uma. O esquema de vazão fixa (0,1 UI/kg/h), a redução para 0,05 UI/kg/h com glicose abaixo de 250 e a manutenção em torno de 200 mg/dL são do consenso de 2024. Já o dobra/reduz pela metade conforme a velocidade de queda vem da tradição dos protocolos de vazão variável e das versões anteriores da diretriz — é prática consolidada, não recomendação formal do consenso atual, e a página diz isso em vez de fingir.

Há uma razão para o consenso ter recuado do ajuste pela glicemia: na CAD, a glicose não é o alvo. O alvo é fechar o gap e zerar a cetose, e quem melhor mede isso é o beta-hidroxibutirato. Glicemia caindo bem com cetose parada significa que falta insulina, não que está tudo certo — e é por isso que o item 04 existe.
Por quê & armadilhas

A dose é fixa por peso e baixa de propósito: o objetivo não é derrubar a glicose, é desligar a cetogênese. Doses maiores aceleram a queda da glicose e do potássio sem apagar a cetose mais rápido — trocam um problema por dois.

O bolus inicial saiu do consenso de 2024 como obrigatório justamente porque não melhora desfecho e adiciona hipoglicemia. Ele sobrevive como recurso para o cenário em que a infusão vai demorar.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — vazão fixa de 0,1 UI/kg/h; com glicemia < 250 mg/dL, acrescentar glicose 5–10% e reduzir para 0,05 UI/kg/h, mantendo a glicemia em torno de 200 mg/dL até a resolução da cetoacidose; glicemia a cada 1–2 h e eletrólitos, fósforo, creatinina, beta-hidroxibutirato e pH venoso a cada 4 h; potássio 2 h após o início da insulina e a cada 4 h depois. O ajuste de dobrar ou reduzir pela metade a vazão conforme a velocidade de queda da glicose vem dos protocolos de vazão variável e das versões anteriores da diretriz — não é recomendação do consenso de 2024, e está rotulado como tal nesta página
Glicose abaixo de 250: entra glicose, a insulina NÃO sai
a cetose acaba depois da hiperglicemia — desligar a bomba aqui é recair
Glicose < 250 mg/dL: acrescentar SG 5–10% e reduzir a insulina para 0,05 UI/kg/h
Alvo: manter a glicose perto de 200 mg/dL até a cetose resolver
Não desligar a insulina porque a glicemia normalizou — é o erro que devolve o paciente à CAD em poucas horas
Resolução: beta-hidroxibutirato < 0,6 mmol/L e (pH ≥ 7,3 ou bicarbonato ≥ 18); idealmente glicose < 200
Não usar só o ânion gap nem a cetonúria para declarar resolução — a fita urinária piora enquanto o paciente melhora
Por quê & armadilhas

Este é o card que mais evita reinternação. A glicose responde em horas; a cetose leva mais. Quem desliga a bomba no primeiro valor bonito interrompe a supressão da lipólise, e a cetogênese recomeça — o paciente reacidifica dentro do mesmo plantão.

A pegadinha da fita urinária merece nome: o nitroprussiato da fita detecta acetoacetato, e o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato conforme o tratamento funciona. A cruz aumenta justamente quando está dando certo.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Bicarbonato e fósforo — a exceção, não a rotina
os dois têm indicação estreita e evidência limitada
Bicarbonato: não é rotina. Se pH < 7,0, o consenso admite 100 mmol de bicarbonato de sódio em 400 mL, repetido 2/2 h até pH > 7,0 — conferindo Na, K e a apresentação local. Recomendação de consenso, evidência limitada
Fósforo: não é rotina. Considerar se < 1,0 mmol/L com fraqueza muscular ou comprometimento respiratório/cardíaco
⚠ Usando fosfato de potássio, contabilize o potássio total da prescrição e monitore cálcio e K (contas na hipofosfatemia)
Por quê & armadilhas

O bicarbonato na CAD é o exemplo clássico de tratar o número: ele corrige o pH e, em troca, agrava a hipocalemia, desloca a curva da hemoglobina e pode piorar a acidose intracelular. A cetose se resolve com insulina e volume; o pH sobe atrás.

O fósforo tem lógica parecida — cai previsivelmente no tratamento, e repor de rotina não melhorou desfecho. Ele volta a importar quando o paciente não desmama do ventilador ou está fraco demais para sentar.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Basal subcutânea ANTES de desligar a bomba
a insulina EV dura minutos: sem sobreposição, a cetose volta
Aplicar a basal SC 1–2 h antes de desligar a infusão — a sobreposição é obrigatória, e é farmacocinética, não zelo
Serve análogo de ação longa OU NPH. O consenso descreve a basal com análogo de longa ação a 0,15–0,3 UI/kg, em dose única diária ou dividida em duas; onde só houver NPH, ela desliga o protocolo do mesmo jeito, dividida em 2 tomadas (12/12 h) por causa do perfil mais curto e com pico. A ressalva honesta: comparada aos análogos, a insulina humana (NPH + regular) associa-se a mais hipoglicemia na transição — o que muda a vigilância, não a viabilidade
Já usava insulina em casa? Retome o esquema dele, ajustando conforme necessário. Virgem de insulina: comece por 0,3–0,6 UI/kg/dia de dose total, sendo a basal cerca de metade — menor em fragilidade, DRC e baixa ingesta
Basal durante a bomba, não só depois: aplicar 0,15–0,3 UI/kg de basal enquanto a insulina EV ainda corre reduz o tempo até a resolução da CAD, encurta a infusão e a internação e previne a hiperglicemia de rebote, sem aumentar hipoglicemia nos estudos — prática adotada por muitos serviços e explicitamente descrita no consenso
Suspender o inibidor de SGLT2 durante a crise — e não reintroduzir automaticamente na alta
Alta só com: resolução confirmada, ingesta segura, esquema SC definido, insumos na mão, educação de dias de doença e cetonas, causa tratada e retorno marcado
Por quê & armadilhas

A meia-vida da insulina regular EV é de poucos minutos. Desligar a bomba e aplicar a basal depois deixa uma janela sem insulina nenhuma — e o paciente que estava resolvido reacidifica. A sobreposição não é excesso de zelo: é farmacocinética.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — sobreposição de 1–2 h entre a basal subcutânea e o desligamento da infusão; basal de ação longa a 0,15–0,3 UI/kg, em dose única diária ou dividida igualmente em duas; quem já usava insulina mantém o esquema domiciliar ajustado; o esquema basal-bólus com análogos reduz hipoglicemia na transição em comparação à insulina humana (NPH e regular); a coadministração de basal em dose baixa (0,15–0,3 UI/kg) durante a infusão reduziu tempo até resolução, duração da infusão e tempo de internação, e preveniu hiperglicemia de rebote, sem aumento de hipoglicemia
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Zero enquanto em infusão de insulina EV e vomitando · liberar via oral quando o sensório permitir e a náusea ceder — a ingesta segura é critério de alta
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — mobilização assim que o sensório e a hemodinâmica permitirem — a CAD costuma internar jovens que perdem massa rápido no leito
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% — a CAD hiperventila por acidose, e isso não se trata com oxigênio nem se corrige com sedação. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Na CAD a desidratação e a imobilidade aumentam o risco, mas não se anticoagula plenamente toda CAD — a decisão segue o escore e o sangramento.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Insulina com K abaixo de 3,5 — é a inversão que causa arritmia. Desligar a insulina porque a glicemia normalizou — a cetose ainda está lá. Declarar resolução pela cetonúria, que piora enquanto o tratamento funciona. Bicarbonato e fósforo de rotina. Volume fixo cego no idoso, no cardiopata e no renal. Antibiótico sem foco. Excluir CAD por glicose abaixo de 250 em quem usa inibidor de SGLT2. E desligar a bomba sem a basal subcutânea aplicada antes.

Prescreveu — e agora?

A resolução se documenta com beta-hidroxibutirato e gasometria, não com a glicemia capilar. Depois dela, a pergunta muda: por que este paciente descompensou? — omissão, infecção, evento vascular ou falha de bomba mudam completamente a alta. Se houve crise convulsiva no percurso, o manejo é o da crise epiléptica, sem anticonvulsivante profilático só porque o quadro foi grave.

Levar o caso ao assistente de conduta
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.