Cetoacidose diabética
A ordem das operações é o tratamento: fluido, potássio, e só então insulina. E a crise acaba quando a cetose acaba — não quando a glicemia fica bonita.
Serve para a cetoacidose diabética do adulto, do pronto-socorro à UTI. Não cobre pediatria, gestação e cenários toxicológicos, que exigem protocolo próprio — e a CAD da gestante tem alvos e riscos distintos.
Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.
A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".
Item por item
A tríade importa porque cada componente sozinho engana. Glicose alta sem cetose é hiperglicemia; cetose sem acidose é jejum ou cetose alcoólica; acidose sem cetona é outra coisa. E a armadilha moderna tem nome: quem usa inibidor de SGLT2 pode chegar em CAD franca com glicose de 180, e o rastreio "glicemia normal, não é CAD" atrasa horas de tratamento.
O beta-hidroxibutirato é o exame que resolve — a cetonúria mede acetoacetato, que sobe durante o tratamento bem-sucedido e dá a impressão de piora.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).A escolha do fluxo é uma decisão de segurança, não de conveniência de leito. O protocolo subcutâneo funciona em populações selecionadas e com vigilância dedicada; aplicado ao paciente grave ou a uma enfermaria sem monitorização, ele vira subtratamento.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).O volume faz metade do trabalho sozinho: restaurar a perfusão renal já derruba a glicose por diluição e por excreção, antes de a insulina agir. Por isso a sequência é fluido, potássio e só então insulina — invertê-la joga o potássio para dentro da célula num paciente já depletado.
A ressalva do cardiopata e do renal não é formalidade: são justamente eles que chegam com CAD precipitada por infecção e que menos toleram um litro por hora.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — cristaloide isotônico ou balanceado a 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 h, com soluções balanceadas associadas a resolução mais rápida da CAD, menor tempo de internação e menos acidose hiperclorêmica; a elevação inicial do sódio não é indicação de fluido hipotônico, e o SF 0,45% é indicado apenas se a osmolalidade não estiver caindo apesar de balanço hídrico positivo adequado e insulina apropriada; queda de 100 mg/dL na glicose eleva o sódio em ~1,6 mEq/L; sódio não deve cair mais que 10 mEq/L em 24 h e a osmolalidade não mais que 3,0–8,0 mOsm/kg/hO potássio sérico da CAD mente para cima: acidose e falta de insulina empurram o íon para fora da célula, então um paciente profundamente depletado chega com potássio "normal". Assim que a insulina entra, ele desaba — e é essa queda, não a hiperglicemia, que causa a arritmia da CAD tratada.
Por isso a regra de 3,5 é uma das poucas verdadeiramente sequenciais desta página: com potássio abaixo disso, a insulina espera. Não é cautela, é ordem de operações.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).Há uma razão para o consenso ter recuado do ajuste pela glicemia: na CAD, a glicose não é o alvo. O alvo é fechar o gap e zerar a cetose, e quem melhor mede isso é o beta-hidroxibutirato. Glicemia caindo bem com cetose parada significa que falta insulina, não que está tudo certo — e é por isso que o item 04 existe.
A dose é fixa por peso e baixa de propósito: o objetivo não é derrubar a glicose, é desligar a cetogênese. Doses maiores aceleram a queda da glicose e do potássio sem apagar a cetose mais rápido — trocam um problema por dois.
O bolus inicial saiu do consenso de 2024 como obrigatório justamente porque não melhora desfecho e adiciona hipoglicemia. Ele sobrevive como recurso para o cenário em que a infusão vai demorar.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — vazão fixa de 0,1 UI/kg/h; com glicemia < 250 mg/dL, acrescentar glicose 5–10% e reduzir para 0,05 UI/kg/h, mantendo a glicemia em torno de 200 mg/dL até a resolução da cetoacidose; glicemia a cada 1–2 h e eletrólitos, fósforo, creatinina, beta-hidroxibutirato e pH venoso a cada 4 h; potássio 2 h após o início da insulina e a cada 4 h depois. O ajuste de dobrar ou reduzir pela metade a vazão conforme a velocidade de queda da glicose vem dos protocolos de vazão variável e das versões anteriores da diretriz — não é recomendação do consenso de 2024, e está rotulado como tal nesta páginaEste é o card que mais evita reinternação. A glicose responde em horas; a cetose leva mais. Quem desliga a bomba no primeiro valor bonito interrompe a supressão da lipólise, e a cetogênese recomeça — o paciente reacidifica dentro do mesmo plantão.
A pegadinha da fita urinária merece nome: o nitroprussiato da fita detecta acetoacetato, e o beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato conforme o tratamento funciona. A cruz aumenta justamente quando está dando certo.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).O bicarbonato na CAD é o exemplo clássico de tratar o número: ele corrige o pH e, em troca, agrava a hipocalemia, desloca a curva da hemoglobina e pode piorar a acidose intracelular. A cetose se resolve com insulina e volume; o pH sobe atrás.
O fósforo tem lógica parecida — cai previsivelmente no tratamento, e repor de rotina não melhorou desfecho. Ele volta a importar quando o paciente não desmama do ventilador ou está fraco demais para sentar.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).A meia-vida da insulina regular EV é de poucos minutos. Desligar a bomba e aplicar a basal depois deixa uma janela sem insulina nenhuma — e o paciente que estava resolvido reacidifica. A sobreposição não é excesso de zelo: é farmacocinética.
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — sobreposição de 1–2 h entre a basal subcutânea e o desligamento da infusão; basal de ação longa a 0,15–0,3 UI/kg, em dose única diária ou dividida igualmente em duas; quem já usava insulina mantém o esquema domiciliar ajustado; o esquema basal-bólus com análogos reduz hipoglicemia na transição em comparação à insulina humana (NPH e regular); a coadministração de basal em dose baixa (0,15–0,3 UI/kg) durante a infusão reduziu tempo até resolução, duração da infusão e tempo de internação, e preveniu hiperglicemia de rebote, sem aumento de hipoglicemiaO jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Insulina com K abaixo de 3,5 — é a inversão que causa arritmia. Desligar a insulina porque a glicemia normalizou — a cetose ainda está lá. Declarar resolução pela cetonúria, que piora enquanto o tratamento funciona. Bicarbonato e fósforo de rotina. Volume fixo cego no idoso, no cardiopata e no renal. Antibiótico sem foco. Excluir CAD por glicose abaixo de 250 em quem usa inibidor de SGLT2. E desligar a bomba sem a basal subcutânea aplicada antes.
A resolução se documenta com beta-hidroxibutirato e gasometria, não com a glicemia capilar. Depois dela, a pergunta muda: por que este paciente descompensou? — omissão, infecção, evento vascular ou falha de bomba mudam completamente a alta. Se houve crise convulsiva no percurso, o manejo é o da crise epiléptica, sem anticonvulsivante profilático só porque o quadro foi grave.
Levar o caso ao assistente de conduta