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Hipercalemia

Cálcio protege a membrana, insulina e beta-2 escondem o potássio dentro da célula — e só diurético, resina ou diálise tiram do corpo. Quem para no segundo passo vê o potássio voltar na madrugada.

Serve para a hipercalemia do adulto — do K de 6,2 no laboratório de rotina ao QRS alargado no monitor. O raciocínio de mecanismo, pseudo-hipercalemia e causas vive na página de potássio do Nefro Guide; aqui está a prescrição.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Do potássio alto até a conduta

O fluxo completo, organizado pelos três objetivos simultâneos. A pergunta que estrutura tudo não é "quanto está o potássio?", é o que ele já fez com a membrana — e o que vai tirá-lo do corpo.

·Potássio alto — três objetivos ao mesmo tempo, não em sequência
Proteger a membrana · deslocar o potássio para dentro da célula · removê-lo do corpo. Quem faz só os dois primeiros vê o potássio voltar na madrugada, porque o corpo continua com a mesma carga.
1É real? — pseudo-hipercalemia é comum e o tratamento é nenhum
Mas a dúvida não pode atrasar o tratamento quando há ECG alterado ou K ≥ 6,5.
Suspeitar de artefato
Hemólise na coleta, garrote prolongado, punho cerrado, leucocitose ou trombocitose extremas
Recoletar sem garrote
Se o ECG está normal e o paciente não tem motivo para hipercalemia, recoletar antes de tratar é razoável.
Não esperar recoleta
K ≥ 6,5 ou qualquer alteração de ECG
Tratar agora
A recoleta corre em paralelo. Esperar o segundo exame com QRS alargado é o erro que mata.
2O que o ECG mostra? — ele decide a pressa, não o número
A progressão é razoavelmente ordenada, mas ECG normal não exclui risco — há parada com ECG pouco alterado.
Precoce
Onda T apiculada e simétrica
Vigiar de perto
Sozinha, ainda não é indicação absoluta de cálcio — mas muda o nível de atenção.
Intermediário
PR longo, onda P que some
Cálcio agora
A perda da onda P marca comprometimento da condução atrial.
Avançado
QRS alargado
Cálcio agora, repetir se preciso
Alargamento progressivo antecede o padrão sinusoidal.
Pré-parada
Sinusoidal, bradiarritmia, ritmo lento e largo
Cálcio + preparar reanimação
Minutos. Cloreto de cálcio por via central se houver parada ou periparada.
3Deslocar — e o que cada droga custa
Insulina e beta-2 escondem o potássio; eles não reduzem a carga corporal. O efeito termina em horas.
Insulina + glicose
O carro-chefe
Início em 15–30 min, dura 4–6 h
⚠ A hipoglicemia TARDIA é a complicação mais comum do tratamento — vigiar glicemia por 4–6 h, mais em DRC e no não diabético.
Beta-2 em dose alta
Aditivo, nunca isolado
Salbutamol 10–20 mg nebulizado
Dose ~10× a de asma. Até 40% não respondem, sobretudo betabloqueados. Taquicardia e tremor são esperados.
Bicarbonato
Só com acidose
Não é terapia de hipercalemia isolada
Sem acidose, o ganho é pequeno e o custo é sódio, volume e alcalose.
Remover — o único que resolve de verdade
É o item que o plantão mais adia. A janela de duas a seis horas que a insulina compra é o tempo para tomar esta decisão, não para esperar.
Diálise
O tratamento definitivo
Indicação imediata: K muito alto com ECG alterado, refratariedade, anúria, ou hipercalemia com sobrecarga volêmica/acidose grave. Acionar nefrologia cedo, não depois de falhar tudo.
Diurético de alça
Só com diurese preservada
Não funciona no anúrico. Vale quando há volume para perder e rim que responde.
Quelante intestinal
Início lento
Papel limitado na emergência. Os novos (ciclossilicato, patiromer) dependem de disponibilidade — conferir bula e registro locais.
ApresentaçãoCa elementar por ampola de 10 mLmEqViaQuando
Gluconato de cálcio 10%93 mg4,65Periférica calibrosaPadrão fora de parada — 10–30 mL em 5–10 min
Cloreto de cálcio 10%273 mg (2,9× mais)13,6Central — é vesicanteParada ou periparada — 10 mL em 5 min

O cálcio não baixa o potássio: ele restaura o gradiente de membrana e dura 30–60 min. É ponte, e sozinho não resolve. Não misturar com bicarbonato na mesma linha — precipita.

O quêQuando
Potássio — o que a diretriz sugere1, 2, 4, 6 e 24 h (recomendação fraca, 2C)
Potássio — o mínimo que sustenta a decisão, quando o laboratório é lento1–2 h (a insulina funcionou?) · 4–6 h (rebote quando o efeito passa) · 24 h
Como encurtar a esperaGasometria venosa nos tempos precoces — devolve o K em minutos
Glicemia (após insulina)0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min
ECGContínuo enquanto houver alteração
Reavaliar e escalarSe o K não cair abaixo de 6 em 2 h, ou se houver rebote

Repetir insulina exige cautela extrema — a hipoglicemia acumula. Se o potássio volta, a resposta é remoção, não mais deslocamento.

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Os cinco horários parecem apertados porque cada um responde a uma pergunta diferente — e não porque alguém queira cinco tubos. A 1 h pergunta se a insulina funcionou (o pico do efeito é entre 30 e 60 min); a de 2 h confirma o nadir; as de 4 e 6 h existem para pegar o rebote, quando o deslocamento intracelular termina e o potássio volta — que é o momento em que os serviços costumam já ter relaxado; a de 24 h verifica se a causa foi tratada. Vale dizer que essa é uma recomendação fraca (2C): é bom senso organizado, não ensaio clínico.

Se o laboratório do seu serviço demora, a saída não é abrir mão do controle — é trocar o método: a gasometria venosa devolve potássio em minutos, à beira do leito, e serve perfeitamente para as leituras de 1, 2 e 4 h. Guarde o laboratório formal para confirmar o valor que vai mudar conduta (e lembre que o K da gasometria costuma vir ligeiramente mais baixo que o do soro — não troque de método no meio do seguimento). O que não é aceitável é a versão que se vê na prática: uma dosagem no diagnóstico, outra no dia seguinte, e o rebote das 4 h descoberto no monitor.

Já o cronograma da glicemia é recomendação forte (1C) e não se negocia: a hipoglicemia depois de insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min, e pode se atrasar até 6 h no renal crônico. Se você só tem braço para um dos dois cronogramas, faça o da glicemia — é o que mata mais rápido.

Item por item

ECG agora — e o cálcio antes de qualquer outra coisa se houver alteração
a decisão não é pelo número do K, é pelo que ele fez com a membrana
ECG imediato em todo K > 6,0 — ou em qualquer K alto com bradicardia, mal-estar ou fraqueza
Clearance de creatinina ajuste de dose e contexto renal
Alterações que pedem cálcio já: onda T apiculada, P que some, PR longo, QRS alargado, padrão sinusoidal, bradiarritmia
Gluconato de cálcio 10% 10–30 mL EV em 5–10 min, em veia calibrosa — ampola de 10 mL = 93 mg de Ca elementar = 4,65 mEq
Repetir em 5–10 min se o ECG não melhorar · o efeito dura 30–60 min: é ponte, não tratamento
Cloreto de cálcio 10% entrega 2,9× mais cálcio elementar por mL (273 mg por ampola) — é vesicante e pede acesso central. Não são intercambiáveis mL a mL
Digitálico? Discutir com cardiologia — a hipercalemia da intoxicação digitálica tem manejo próprio, e o anticorpo antidigital é o tratamento
Por quê & armadilhas

O cálcio não baixa o potássio em nada. Ele restaura o gradiente do potencial de membrana e compra tempo — trinta a sessenta minutos — para que o resto funcione. É por isso que ele vem primeiro e é por isso que ele sozinho nunca resolve: quem só dá cálcio vê o ECG melhorar e o paciente parar meia hora depois.

A distinção gluconato/cloreto importa porque os frascos são iguais e os conteúdos não: a mesma ampola de 10 mL entrega 93 mg de cálcio elementar no gluconato e 273 mg no cloreto. Trocar um pelo outro em mL é subdosar por três ou superdosar por três.

UK Kidney Association. Clinical Practice Guidelines: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. 2020. · Panchal AR, et al. 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC — Adult Advanced Cardiovascular Life Support. Circulation. 2020;142(16 suppl 2):S366–S468. · Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
Insulina com glicose — o carro-chefe, e a hipoglicemia que vem depois
baixa o K em 15–30 min e dura horas; a hipoglicemia aparece quando ninguém olha
Insulina regular 10 UI EV + glicose 25 g (SG 50% 50 mL ou SG 10% 250 mL) — conforme padronização do serviço
Glicemia > 250 mg/dL: insulina sem glicose · < 100: glicose antes e mais glicose junto
Vigiar glicemia por 4–6 h1/1 h nas primeiras horas. A hipoglicemia tardia é a complicação mais comum do tratamento da hipercalemia
Dose reduzida (5 UI) em disfunção renal, baixo peso e idoso — a insulina acumula em quem não filtra
Efeito: início em 15–30 min, pico em 30–60, duração de 4–6 h — e o K volta a subir depois
Por quê & armadilhas

A insulina é o item mais eficaz e o mais perigoso da lista, e o perigo não está no potássio: está na hipoglicemia que aparece duas, quatro, seis horas depois, quando a insulina ainda age e a glicose do bolus já acabou. Em quem tem doença renal essa janela se alonga, porque a insulina é depurada pelo rim.

Vale lembrar o que insulina e beta-2 fazem e não fazem: eles deslocam o potássio para dentro da célula. O corpo continua com o mesmo total. Se nada remover o potássio de verdade, ele reaparece no soro em algumas horas — e o paciente que "melhorou" volta a ter 6,8 na madrugada.

UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.
Beta-2 inalatório — somar, não substituir
efeito aditivo ao da insulina; taquicardia é o preço
Salbutamol 10–20 mg nebulizado em 10–15 min (dose muito maior que a de broncoespasmo) — conforme apresentação do serviço
Aditivo à insulina, não alternativa — a queda esperada é de 0,5–1,0 mEq/L
Cautela em coronariopata, taquiarritmia e tireotoxicose · até 40% não respondem, sobretudo betabloqueados
Não usar como terapia isolada em hipercalemia com alteração de ECG
Por quê & armadilhas

A dose que funciona aqui é da ordem de dez vezes a de uma crise de asma — e isso surpreende quem prescreve "uma nebulização de salbutamol" achando que fez o item. Com a dose certa vem taquicardia e tremor, que são esperados, não sinal de erro.

A não resposta é frequente e não é bem explicada; em betabloqueados é previsível. Por isso o beta-2 entra como soma, nunca como o plano.

UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.
Diálise, diurético e resina — o que de fato remove potássio
insulina e beta-2 escondem; só isto aqui tira
Antes de escolher: em que volemia está este paciente?
É a pergunta que decide qual remoção vai funcionar — e a que mais se pula. Insulina e beta-2 funcionam em qualquer volemia porque só escondem o potássio; remover depende do rim, e o rim depende de volume e de perfusão
VolemiaO que costuma serO que remove potássio aqui
Hipovolêmico — mucosas secas, turgor, PA baixa/postural, VCI colabada, ureia/creatinina desproporcionais, oligúria que respondeLRA pré-renal: pouco filtrado chega ao néfron distal, e sem fluxo distal não há secreção de KVolume é o tratamento — cristaloide restaura filtração e entrega de sódio ao túbulo distal, e a caliurese volta sozinha. Furosemida aqui piora: aprofunda a hipovolemia e a lesão renal
Euvolêmico com diurese preservadadrogas (IECA/BRA, espironolactona, trimetoprim), acidose, hipoaldosteronismoSuspender o culpado · furosemida como adjuvante com reposição de volume para não secar · corrigir acidose
Hipervolêmico — edema, estase, congestão, ganho de pesoLRA ou DRC com sobrecarga, IC descompensadaFurosemida EV é a escolha: remove potássio e volume ao mesmo tempo — dose conforme resposta e função renal
Anúrico ou oligúrico que não respondeLRA estabelecida, DRC dialíticaNem volume nem diurético removem. Aqui a resposta é diálise — e a falta de resposta ao diurético é, por si, um sinal de que o caminho é esse
Furosemida EV só com diurese preservada e volemia que a comporte — a própria diretriz a coloca como adjuvante em pacientes não oligúricos e com volemia reposta, nunca como terapia isolada da emergência
Diálise — o que de fato indica
Indicação imediata: K ≥ 6,5 em paciente já dialítico · hipercalemia grave com alteração de ECG · refratariedade ao tratamento clínico ou rebote precoce · anúria/oligúria sem resposta · hipercalemia somada a sobrecarga volêmica, acidose grave ou uremia · liberação contínua de potássio (rabdomiólise, lise tumoral, isquemia de membro)
O clearance de creatinina não indica diálise sozinho. Ele serve para ajustar dose, antecipar quem vai responder mal e dimensionar risco — mas nenhum número de ClCr, isolado, manda dialisar: quem indica é a combinação de refratariedade, ritmo de diurese, sobrecarga, acidose, uremia e velocidade de reacúmulo. Um paciente com ClCr de 12 e boa diurese pode responder ao clínico; outro com ClCr de 35 e rabdomiólise em curso pode precisar de diálise
Acionar nefrologia cedo, não depois de falhar tudo — e, onde não houver nefrologia no local, terapia intensiva primeiro, que é o que a diretriz recomenda
Resinas ligadoras: poliestireno sulfonato de cálcio/sódio — início lento (horas), papel limitado na emergência; os quelantes novos (patiromer, ciclossilicato de zircônio e sódio) dependem de disponibilidade
Bicarbonato só se houver acidose metabólica — não é terapia de hipercalemia isolada e não substitui os itens acima
Suspender o que causa: IECA/BRA, espironolactona, AINE, betabloqueador, heparina, trimetoprim, tacrolimus, suplemento de K e substituto do sal
Por quê & armadilhas

Este é o item que o plantão mais adia e o que mais muda desfecho. Cálcio, insulina e beta-2 dão de duas a seis horas — e é dentro dessa janela que a decisão de diálise precisa ser tomada, não depois de o potássio voltar a subir às três da manhã. Acionar a nefrologia cedo é parte da prescrição.

O bicarbonato merece nota separada porque virou reflexo: sem acidose, o benefício é pequeno e o custo é sódio, volume e alcalose. Ele entra quando a acidose é o problema, não quando o potássio é.

E a revisão da prescrição costuma render mais que qualquer ampola: a maioria das hipercalemias hospitalares tem um culpado escrito na própria folha — o IECA que ninguém suspendeu, a espironolactona somada ao BRA, o AINE de horário.

UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Tratar sem ECG. Cálcio como tratamento — ele é ponte de 30–60 min, não terapia. Trocar gluconato por cloreto em mL — o cloreto tem 2,9× mais cálcio elementar. Insulina sem vigiar glicemia por 4–6 h. Beta-2 isolado na hipercalemia com alteração de ECG. Bicarbonato sem acidose. Furosemida no anúrico. Adiar o telefonema para a nefrologia até o clínico falhar. E mandar para o quarto sem suspender o IECA, o AINE e a espironolactona que causaram tudo.

Prescreveu — e agora?

A hipercalemia tratada volta: insulina e beta-2 duram horas, e o potássio corporal continua lá. Programe K de controle em 2–4 h, mantenha o monitor enquanto houver alteração de ECG, e deixe escrito na evolução se a diálise foi discutida e o que se decidiu. O mecanismo completo está na página de potássio.

Levar o caso ao assistente de conduta
UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min. Panchal AR, et al. 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC — Adult Advanced Cardiovascular Life Support. Circulation. 2020;142(16 suppl 2):S366–S468. Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.