Hipercalemia
Cálcio protege a membrana, insulina e beta-2 escondem o potássio dentro da célula — e só diurético, resina ou diálise tiram do corpo. Quem para no segundo passo vê o potássio voltar na madrugada.
Serve para a hipercalemia do adulto — do K de 6,2 no laboratório de rotina ao QRS alargado no monitor. O raciocínio de mecanismo, pseudo-hipercalemia e causas vive na página de potássio do Nefro Guide; aqui está a prescrição.
As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.
A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Do potássio alto até a conduta
O fluxo completo, organizado pelos três objetivos simultâneos. A pergunta que estrutura tudo não é "quanto está o potássio?", é o que ele já fez com a membrana — e o que vai tirá-lo do corpo.
| Apresentação | Ca elementar por ampola de 10 mL | mEq | Via | Quando |
|---|---|---|---|---|
| Gluconato de cálcio 10% | 93 mg | 4,65 | Periférica calibrosa | Padrão fora de parada — 10–30 mL em 5–10 min |
| Cloreto de cálcio 10% | 273 mg (2,9× mais) | 13,6 | Central — é vesicante | Parada ou periparada — 10 mL em 5 min |
O cálcio não baixa o potássio: ele restaura o gradiente de membrana e dura 30–60 min. É ponte, e sozinho não resolve. Não misturar com bicarbonato na mesma linha — precipita.
| O quê | Quando |
|---|---|
| Potássio — o que a diretriz sugere | 1, 2, 4, 6 e 24 h (recomendação fraca, 2C) |
| Potássio — o mínimo que sustenta a decisão, quando o laboratório é lento | 1–2 h (a insulina funcionou?) · 4–6 h (rebote quando o efeito passa) · 24 h |
| Como encurtar a espera | Gasometria venosa nos tempos precoces — devolve o K em minutos |
| Glicemia (após insulina) | 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min |
| ECG | Contínuo enquanto houver alteração |
| Reavaliar e escalar | Se o K não cair abaixo de 6 em 2 h, ou se houver rebote |
Repetir insulina exige cautela extrema — a hipoglicemia acumula. Se o potássio volta, a resposta é remoção, não mais deslocamento.
Se o laboratório do seu serviço demora, a saída não é abrir mão do controle — é trocar o método: a gasometria venosa devolve potássio em minutos, à beira do leito, e serve perfeitamente para as leituras de 1, 2 e 4 h. Guarde o laboratório formal para confirmar o valor que vai mudar conduta (e lembre que o K da gasometria costuma vir ligeiramente mais baixo que o do soro — não troque de método no meio do seguimento). O que não é aceitável é a versão que se vê na prática: uma dosagem no diagnóstico, outra no dia seguinte, e o rebote das 4 h descoberto no monitor.
Já o cronograma da glicemia é recomendação forte (1C) e não se negocia: a hipoglicemia depois de insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min, e pode se atrasar até 6 h no renal crônico. Se você só tem braço para um dos dois cronogramas, faça o da glicemia — é o que mata mais rápido.
Item por item
O cálcio não baixa o potássio em nada. Ele restaura o gradiente do potencial de membrana e compra tempo — trinta a sessenta minutos — para que o resto funcione. É por isso que ele vem primeiro e é por isso que ele sozinho nunca resolve: quem só dá cálcio vê o ECG melhorar e o paciente parar meia hora depois.
A distinção gluconato/cloreto importa porque os frascos são iguais e os conteúdos não: a mesma ampola de 10 mL entrega 93 mg de cálcio elementar no gluconato e 273 mg no cloreto. Trocar um pelo outro em mL é subdosar por três ou superdosar por três.
UK Kidney Association. Clinical Practice Guidelines: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. 2020. · Panchal AR, et al. 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC — Adult Advanced Cardiovascular Life Support. Circulation. 2020;142(16 suppl 2):S366–S468. · Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados emscripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
A insulina é o item mais eficaz e o mais perigoso da lista, e o perigo não está no potássio: está na hipoglicemia que aparece duas, quatro, seis horas depois, quando a insulina ainda age e a glicose do bolus já acabou. Em quem tem doença renal essa janela se alonga, porque a insulina é depurada pelo rim.
Vale lembrar o que insulina e beta-2 fazem e não fazem: eles deslocam o potássio para dentro da célula. O corpo continua com o mesmo total. Se nada remover o potássio de verdade, ele reaparece no soro em algumas horas — e o paciente que "melhorou" volta a ter 6,8 na madrugada.
UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.A dose que funciona aqui é da ordem de dez vezes a de uma crise de asma — e isso surpreende quem prescreve "uma nebulização de salbutamol" achando que fez o item. Com a dose certa vem taquicardia e tremor, que são esperados, não sinal de erro.
A não resposta é frequente e não é bem explicada; em betabloqueados é previsível. Por isso o beta-2 entra como soma, nunca como o plano.
UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.| Volemia | O que costuma ser | O que remove potássio aqui |
|---|---|---|
| Hipovolêmico — mucosas secas, turgor, PA baixa/postural, VCI colabada, ureia/creatinina desproporcionais, oligúria que responde | LRA pré-renal: pouco filtrado chega ao néfron distal, e sem fluxo distal não há secreção de K | Volume é o tratamento — cristaloide restaura filtração e entrega de sódio ao túbulo distal, e a caliurese volta sozinha. Furosemida aqui piora: aprofunda a hipovolemia e a lesão renal |
| Euvolêmico com diurese preservada | drogas (IECA/BRA, espironolactona, trimetoprim), acidose, hipoaldosteronismo | Suspender o culpado · furosemida como adjuvante com reposição de volume para não secar · corrigir acidose |
| Hipervolêmico — edema, estase, congestão, ganho de peso | LRA ou DRC com sobrecarga, IC descompensada | Furosemida EV é a escolha: remove potássio e volume ao mesmo tempo — dose conforme resposta e função renal |
| Anúrico ou oligúrico que não responde | LRA estabelecida, DRC dialítica | Nem volume nem diurético removem. Aqui a resposta é diálise — e a falta de resposta ao diurético é, por si, um sinal de que o caminho é esse |
Este é o item que o plantão mais adia e o que mais muda desfecho. Cálcio, insulina e beta-2 dão de duas a seis horas — e é dentro dessa janela que a decisão de diálise precisa ser tomada, não depois de o potássio voltar a subir às três da manhã. Acionar a nefrologia cedo é parte da prescrição.
O bicarbonato merece nota separada porque virou reflexo: sem acidose, o benefício é pequeno e o custo é sódio, volume e alcalose. Ele entra quando a acidose é o problema, não quando o potássio é.
E a revisão da prescrição costuma render mais que qualquer ampola: a maioria das hipercalemias hospitalares tem um culpado escrito na própria folha — o IECA que ninguém suspendeu, a espironolactona somada ao BRA, o AINE de horário.
UK Kidney Association. Clinical Practice Guideline: Treatment of Acute Hyperkalaemia in Adults. Outubro de 2023 — monitorização do K sérico em 1, 2, 4, 6 e 24 h após identificação e tratamento da hipercalemia moderada ou grave (recomendação fraca, 2C); glicemia em 0, 30, 60, 90, 120, 180, 240, 300 e 360 min após insulina-glicose (recomendação forte, 1C); diuréticos de alça como adjuvante apenas em pacientes não oligúricos e com volemia reposta; diálise urgente no paciente em hemodiálise com K ≥ 6,5 mmol/L (1A); encaminhamento a nefrologia ou terapia intensiva guiado pelo cenário clínico e pela persistência após o tratamento inicial. A hipoglicemia após insulina-glicose concentra-se entre 60 e 150 min, com pico aos 90 min.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Tratar sem ECG. Cálcio como tratamento — ele é ponte de 30–60 min, não terapia. Trocar gluconato por cloreto em mL — o cloreto tem 2,9× mais cálcio elementar. Insulina sem vigiar glicemia por 4–6 h. Beta-2 isolado na hipercalemia com alteração de ECG. Bicarbonato sem acidose. Furosemida no anúrico. Adiar o telefonema para a nefrologia até o clínico falhar. E mandar para o quarto sem suspender o IECA, o AINE e a espironolactona que causaram tudo.
A hipercalemia tratada volta: insulina e beta-2 duram horas, e o potássio corporal continua lá. Programe K de controle em 2–4 h, mantenha o monitor enquanto houver alteração de ECG, e deixe escrito na evolução se a diálise foi discutida e o que se decidiu. O mecanismo completo está na página de potássio.
Levar o caso ao assistente de condutascripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.