Taquicardia ventricular
Quatro cenários com o mesmo QRS largo e condutas opostas: monomórfica, polimórfica, torsades e o impostor pré-excitado. Errar a classificação é errar tudo — a página começa por ela.
Serve para a taquicardia de QRS largo com pulso. Se o paciente está instável, o caminho já foi dado na taquiarritmia instável (monomórfica → CVE; polimórfica → desfibrilar). Esta página cuida do que vem antes e depois do choque no paciente que dá tempo: classificar, escolher droga, tratar a causa — e não cair na armadilha de "TSV com aberrância".
Doses seguem ESC 2022 (arritmias ventriculares), AHA/ACC/HRS 2017 e o ACLS, e não substituem o protocolo do seu serviço. Atenção às apresentações do sulfato de magnésio (10% × 50%) e à disponibilidade real de procainamida — a farmácia local decide parte desta página.
A ordem é a do raciocínio: a regra do QRS largo, a monomórfica estável, a polimórfica dividida pelo QT, o impostor pré-excitado — e a causa, que é onde a TV se resolve de verdade. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A estatística é a proteção: apostar em aberrância para "poder dar verapamil" é apostar contra 4 em 5 — com a vida do paciente na mesa. Tratar TSV como TV custa pouco (amiodarona e choque funcionam nas duas); tratar TV como TSV pode custar tudo. Dissociação AV, batimentos de captura/fusão e concordância precordial confirmam TV quando presentes — mas a ausência deles não autoriza a aposta contrária.
ESC 2022 (ehac262) · AHA — ACLS.Na TV monomórfica sustentada com cardiopatia, o choque sincronizado é a terapia mais eficaz e mais previsível que existe — reverte em segundos o que a droga reverte em dezenas de minutos (ou não reverte). "Estável" aqui é um estado provisório: aproveite-o para sedar bem, sincronizar e resolver — não para acumular antiarrítmico esperando o instável chegar.
ESC 2022 · AHA — ACLS.O PROCAMIO fez a pergunta direta — procainamida ou amiodarona na TV estável? — e a procainamida venceu em reversão e em eventos adversos. O problema é de prateleira: ela sumiu de boa parte das farmácias brasileiras, e a amiodarona virou o padrão prático. Funciona, mas devagar — e é aqui que mora a armadilha da "estabilidade química": três ampolas empilhadas em uma hora derrubam pressão sem reverter ritmo. Duas tentativas sem sucesso = voltar ao item 02.
PROCAMIO — Ortiz M, et al. Eur Heart J. 2017;38(17):1329–1335 · ESC 2022.Polimórfica com QT de base normal é, na prática da emergência, isquemia até que a coronária prove o contrário — e nesse cenário o melhor antiarrítmico chama-se reperfusão. O betabloqueador tem papel na tempestade elétrica isquêmica (reduz o drive simpático que alimenta as salvas), sempre com a hemodinâmica vigiada. O que não pode acontecer é tratar salva após salva com choque e amiodarona sem ninguém pedir o cateterismo.
ESC 2022 — bloqueio antiadrenérgico na tempestade elétrica · Chatzidou S, et al. Propranolol versus metoprolol for treatment of electrical storm. J Am Coll Cardiol. 2018;71(17):1897–1906 — propranolol + amiodarona encerrou a tempestade mais rápido e com menos recorrência · AHA/ACC/HRS 2017.A torsades é a arritmia em que o reflexo padrão erra duas vezes: amiodarona (prolonga o QT que a causou) e "só chocar" (ela volta, porque o terreno — QT longo, hipoK, hipoMg, bradicardia com pausas — continua lá). O magnésio estabiliza mesmo com nível sérico normal; o potássio alto-normal encurta a repolarização; e a frequência é antiarrítmico: cada pausa longa arma a próxima salva, por isso acelerar (isoproterenol ou marca-passo) trata o adquirido. O congênito inverte a lógica — o gatilho é adrenérgico, e betabloqueio é a base. Distinguir os dois é anamnese: droga nova e bradicardia contam uma história; síncope de esforço na família conta outra.
ESC 2022 · AHA/ACC/HRS 2017 — torsades e síndromes de QT longo.É o ritmo que pune o reflexo certo do cenário errado: tudo que funciona na FA comum (frear o nó) aqui abre caminho para a FV. A assinatura no monitor é única — irregular como FA, largo como TV, e com QRS que muda de cara a cada batimento porque a fração conduzida pela via muda. A amiodarona EV entra na lista de proibidos por um motivo específico: o efeito betabloqueador/bloqueador de nó da infusão aguda chega antes do efeito antiarrítmico. Choque resolve; ablação cura.
ESC 2022 · ESC 2019 (TSV/WPW) — FA pré-excitada.TV sustentada em coração adulto quase sempre tem substrato — cicatriz isquêmica, chagásica, displasia, canalopatia — e o substrato é o que define o risco de a próxima ser fatal. O ECG sinusal pós-reversão é a radiografia desse substrato: QT, pré-excitação, Brugada e cicatriz aparecem nele, não na crise. E vale o registro brasileiro pela segunda página seguida: a cardiopatia chagásica é das causas mais arritmogênicas que existem — sorologia em quem tem epidemiologia.
ESC 2022 · AHA/ACC/HRS 2017 · diretrizes brasileiras de doença de Chagas.TV sustentada revertida não é caso encerrado — é morte súbita adiada até que alguém decida o contrário, e quem decide (CDI? ablação? só a revascularização?) precisa do dossiê que o plantão monta: os traçados, o eco, a causa. A amiodarona de manutenção alivia a recorrência, mas não substitui essa decisão — o erro de sistema é o paciente sair "estável, com amiodarona" e sem o encaminhamento que muda a sobrevida.
ESC 2022 · AHA/ACC/HRS 2017 — prevenção secundária de morte súbita.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Verapamil/diltiazem no QRS largo apostando em aberrância. Qualquer bloqueador de nó (incluindo amiodarona EV) na FA pré-excitada. Amiodarona na torsades. Sincronizar a polimórfica (o aparelho não dispara — desfibrile). Chocar em série sem corrigir K⁺/Mg²⁺ nem suspender os prolongadores de QT. Lidocaína profilática pós-IAM sem arritmia. E alta da TV sustentada sem investigação e sem encaminhamento — amiodarona no receituário não é plano de prevenção de morte súbita.
Instabilizou em qualquer ponto, o gesto está na taquiarritmia instável. Se a causa é coronariana, a prescrição continua na SCA com supra ou sem supra. Se o QRS largo era pré-excitação, o pós-choque é encaminhar a ablação. E com esta página, o bloco de arritmias fecha: TSV estável, FA/flutter, bradiarritmias e a instável estão a um clique.
Levar o caso ao assistente de conduta