Bradiarritmias
A pergunta não é "quanto está a frequência" — é se ela perfunde, de onde vem o bloqueio e quanto tempo você tem até o marca-passo. A prescrição é uma escada com três degraus e um relógio.
Serve para a bradiarritmia sintomática ou instável — bradicardia sinusal extrema, doença do nó sinusal, BAV de 2º e 3º grau. O paciente estável e assintomático não recebe droga: recebe monitor, ECG bem lido e busca de causa. E no Brasil, toda bradiarritmia com BAV avançado merece a pergunta que os livros importados esquecem: Chagas?
Doses seguem o ACLS (AHA) e as diretrizes de estimulação (ESC 2021, ACC/AHA/HRS 2018) e não substituem o protocolo do seu serviço. Atenção redobrada às infusões: as contas de mL/h abaixo valem para as diluições de exemplo — a ampola e a padronização da sua farmácia mandam na conta final.
A ordem é a da cena: reconhecer e ler o ECG (nodal × infranodal muda tudo), a escada do instável (atropina → marca-passo transcutâneo/cronotrópico → transvenoso), a causa e o suporte. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
Bradicardia é o sinal vital que mais tolera contexto: 38 bpm no maratonista dormindo é fisiologia; 50 bpm no idoso hipotenso e confuso é emergência. Tratar o número do monitor em quem perfunde bem só adiciona taquiarritmia iatrogênica. O que muda a conduta é o par FC + perfusão — e a honestidade de correlacionar o sintoma com a bradicardia (a tontura era da FC 44 ou do ortostatismo?).
AHA — ACLS (algoritmo de bradicardia) · ACC/AHA/HRS 2018.A atropina age tirando o freio vagal do nó AV — ela não alcança um bloqueio abaixo do His. No infranodal, acelerar o sinusal com atropina pode até piorar a condução (mais impulsos chegando num His-Purkinje doente = mais bloqueio). Por isso a leitura do ECG não é etapa acadêmica: ela diz se você tem um problema de freio (atropina resolve) ou de fiação (marca-passo resolve) — e no segundo caso, cada dose de atropina é tempo perdido.
ACC/AHA/HRS 2018 · ESC 2021 (estimulação cardíaca).O ACLS atualizou a dose para 1 mg por dose (não 0,5) justamente porque subdose de atropina, além de não resolver, pode desencadear o paradoxo vagal central e derrubar ainda mais a FC. A armadilha maior, porém, é temporal: atropina é o degrau enquanto as pás do marca-passo são coladas — não uma terapia para "ver se resolve" por vinte minutos. Se a primeira dose não segurou, os degraus 2 e 3 já deviam estar em movimento.
AHA — ACLS 2020 (atropina 1 mg) · ACC/AHA/HRS 2018.O transcutâneo é ponte, e ponte desconfortável: correntes de captura ficam tipicamente em 40–80 mA e cada estímulo contrai a parede torácica inteira — paciente acordado sem analgesia arranca as pás. Prescrever MPTC é prescrever o pacote: FC-alvo, corrente com margem, checagem de captura mecânica registrada, sedoanalgesia, e o telefonema do degrau 3 já feito. Ponte sem destino é paciente esquecido estimulando a 60 mA por horas.
AHA — ACLS · ESC 2021 (estimulação temporária como ponte).ex. de preparo: 10 mg em SF qsp 100 mL = 100 mcg/mL → 2–10 mcg/min = 1,2–6 mL/h
ex. de preparo: 1.000 mg em SG 5% qsp 250 mL = 4.000 mcg/mL → 70 kg a 5 mcg/kg/min ≈ 5 mL/h (começar baixo e subir — não começar já no meio da faixa)
Os dois fazem o mesmo trabalho — comprar frequência com β-agonismo — e cobram o mesmo preço: consumo de O₂ e risco de taquiarritmia, especialmente no coração isquêmico. Por isso a titulação começa no chão da faixa (há material de bolso por aí mandando iniciar dopamina já em ~17 mcg/kg/min — a conta certa para 5 mcg/kg/min está acima). Cronotrópico é a ponte química para a ponte elétrica: se a infusão está subindo e a FC não, o problema é fiação — marca-passo, não mais mcg.
AHA — ACLS (adrenalina 2–10 mcg/min; dopamina 5–20 mcg/kg/min).O erro de sistema das bradiarritmias é o mesmo do choque cardiogênico: o telefonema tardio. MPTC capturando e adrenalina correndo dão a falsa sensação de caso resolvido — mas pás queimam pele, sedação acumula e infusão arritmiza; são horas de margem, não dias. Se a causa não é claramente reversível (item 07), o destino é o transvenoso, e quanto antes ele for acionado, menos dramática é a transição.
ESC 2021 · ACC/AHA/HRS 2018.A hipercalemia é a causa que não perdoa demora: o "BAV" do potássio 7,5 não responde a atropina nem a marca-passo direito — responde a cálcio, em minutos. Toda bradiarritmia grave merece um potássio na gasometria antes de qualquer conclusão. E no Brasil o lembrete epidemiológico é obrigatório: Chagas é causa clássica de BAV e doença do nó em quem nasceu ou viveu em área endêmica — muda a investigação e o aconselhamento familiar, não só o marca-passo.
AHA — ACLS · ACC/AHA/HRS 2018 · diretrizes brasileiras de doença de Chagas.Dois detalhes específicos: o jejum aqui não é burocracia — o transvenoso pode ser a próxima hora do plantão; e o alarme de FC do monitor precisa ser ajustado, porque o padrão de fábrica (50 bpm) apita a noite inteira num paciente cuja linha de base é 45 e silencia exatamente quando o escape de 38 despenca para 28. Monitor que grita o tempo todo é monitor que ninguém ouve.
ADA 2026 (glicemia hospitalar) · rotina de tromboprofilaxia do internado clínico.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Tratar o número do atleta, do sono ou do estável assintomático. Insistir em atropina no bloqueio infranodal ou no transplantado enquanto o marca-passo espera. Atropina < 0,5 mg (bradicardia paradoxal). Confiar na espícula sem checar pulso no transcutâneo — e estimular sem analgesia. Começar dopamina no meio da faixa (a conta certa de 5 mcg/kg/min está no item 05). Tratar a "bradicardia" da hipercalemia sem cálcio. E adiar o telefonema do transvenoso porque a ponte "está segurando".
Se a causa foi isquêmica, o caso continua na SCA com supra ou sem supra. Se a bradicardia era só a face visível de um paciente hipoperfundido, reavalie pelo choque cardiogênico. E o espelho desta página — o paciente rápido demais — está na taquiarritmia instável.
Levar o caso ao assistente de conduta