Taquicardia supraventricular estável
Paciente estável é tempo para fazer certo: ECG antes de tudo, manobra antes de droga, droga antes de choque — e, no fim, o encaminhamento que cura em vez do remédio que adia.
Serve para a TSV com QRS estreito e paciente estável — do episódio clássico de TPSV (reentrada nodal ou por via acessória) às taquicardias atrial, multifocal e juncional. Se há qualquer sinal de instabilidade, a página é a da taquiarritmia instável; se o ritmo é FA ou flutter, a página da FA assume.
Doses seguem ESC 2019 (taquicardias supraventriculares) e ACC/AHA/HRS 2015, e não substituem o protocolo do seu serviço. A adenosina em particular exige preparo do time e do paciente — leia os cuidados do item 04 antes da primeira vez.
A ordem é a da escada: ler o ritmo, subir degrau a degrau na TPSV (vagal → adenosina → bloqueador de nó → CVE), tratar as outras TSVs pela causa, e dar a alta que resolve. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
O ECG de 12 derivações em crise é o exame mais valioso que este paciente vai fazer — é ele que o eletrofisiologista vai querer ver na consulta da ablação. E o traçado contínuo durante a adenosina transforma tratamento em diagnóstico: se a pausa do nó revela ondas F de flutter serrilhando a 300, o caso muda de página na hora. Tratar sem documentar é apagar a única testemunha.
ESC 2019 (TSV) · ACC/AHA/HRS 2015.Metade dos erros desta página nasce de pular esta leitura: adenosina em taquicardia sinusal de sepse (pausa assustadora, arritmia de volta em segundos), bloqueador de nó em multifocal de DPOC descompensado (a arritmia é sintoma do pulmão, não do nó). A TPSV de reentrada tem assinatura — súbita, regular, com P invisível — e é só nela que a escada seguinte funciona como promete.
ESC 2019 — algoritmo diagnóstico da taquicardia de QRS estreito.A diferença entre a Valsalva "de enfermaria" (~17% de reversão) e a modificada do REVERT (~43%) é a segunda metade que quase ninguém faz: deitar e levantar as pernas logo após o esforço — é o retorno venoso súbito que dispara o reflexo vagal de verdade. A seringa de 10 mL calibra a pressão sem manômetro. Massagem de seio carotídeo é alternativa (um lado por vez, auscultar carótida antes, evitar no idoso com sopro/AVC prévio) — mas a Valsalva bem feita costuma bastar.
REVERT — Appelboam A, et al. Lancet. 2015;386:1747–1753 (doi:10.1016/S0140-6736(15)61485-4).A adenosina morre em ~10 segundos de plasma — bolus lento é bolus que não chega ao nó. Daí o ritual: veia calibrosa o mais proximal possível, droga e flush em torneirinha, êmbolo firme, braço para cima. A pausa que ela produz assusta o monitor inteiro (segundos de assistolia são esperados); é exatamente nessa pausa que o diagnóstico aparece. Se nem 12 mg tocaram o ritmo, desconfie do diagnóstico antes de escalar: taquicardia sinusal e atrial "resistem" à adenosina porque não são reentrada nodal.
ESC 2019 · ACC/AHA/HRS 2015 — adenosina 6/12 mg.O terceiro degrau troca velocidade por duração: verapamil e diltiazem revertem a TPSV quase tão bem quanto a adenosina, com efeito que dura — útil quando a arritmia reverte e volta a cada dez minutos. O preço é hemodinâmico e cumulativo, e é por isso que a regra de ouro é um bloqueador de nó de cada vez. Amiodarona não é droga de TPSV estável: guarde-a para quando o diagnóstico ou a função ventricular a pedirem.
ESC 2019 · ACC/AHA/HRS 2015.Reentrada nodal que sobrevive a vagal + adenosina + verapamil é rara — o mais provável é que o diagnóstico esteja errado, e o clássico é o flutter 2:1 a 150 bpm fingindo regularidade de TPSV (que muda a conduta: anticoagulação!). Por isso o degrau 4 começa com releitura, não com pás. Confirmada a TPSV refratária, o choque eletivo sincronizado em paciente estável, alimentado e sedado com calma é procedimento tranquilo — muito melhor que a quarta droga.
ESC 2019 · AHA — ACLS.Estas três são taquicardias de automatismo, não de reentrada — por isso adenosina e choque não as curam: o foco reacende assim que o efeito passa. A multifocal é o exemplo extremo: é o ECG do pulmão doente, e melhora com broncodilatador, O₂ e magnésio mais do que com qualquer antiarrítmico. E a juncional carrega o alerta histórico: taquicardia juncional em usuário de digoxina é intoxicação digitálica até prova em contrário — a conduta é suspender e dosar, não bloquear mais o nó.
ESC 2019 · ACC/AHA/HRS 2015 — taquicardias atriais e juncionais.A TPSV revertida não precisa de internação nem de exame em série — precisa de um papel com o ECG da crise e um encaminhamento. O betabloqueador da alta é muleta honesta (reduz recorrência, não elimina), e o paciente merece saber que existe tratamento definitivo com taxa de cura alta e risco baixo. A prescrição mais importante deste item não é farmacológica: é o nome do eletrofisiologista no encaminhamento.
ESC 2019 — ablação como terapia de primeira linha na TRN recorrente.O kit aqui é deliberadamente menor que o das outras páginas: TPSV revertida em jovem sem cardiopatia é caso de observação curta, não de internação com pacote completo. O que não pode faltar é o monitor enquanto verapamil ou metoprolol EV ainda circulam — a bradicardia deles chega depois da reversão, quando ninguém está mais olhando.
ADA 2026 (glicemia hospitalar) · rotina do internado clínico.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Adenosina no QRS largo irregular (FA pré-excitada → FV) e no broncoespasmo grave. Bloquear o nó da taquicardia sinusal — a causa continua lá, agora hipotensa. Verapamil na FEVE reduzida. Verapamil EV + betabloqueador EV empilhados. Digoxina na multifocal. Adenosina sem avisar o paciente — e sem o traçado correndo. Amiodarona como atalho da TPSV estável. E dar alta sem o ECG da crise e sem o encaminhamento para ablação.
Se em qualquer degrau o paciente deixou de ser estável, a conduta vira a da taquiarritmia instável. Se a adenosina revelou flutter ou FA, siga para a página da FA — com a anticoagulação que ela exige. E se o QRS era largo e regular, trate como TV até prova em contrário.
Levar o caso ao assistente de conduta