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Fibrilação e flutter atrial

Três perguntas antes de qualquer droga: está instável? há quanto tempo fibrila? quem precisa de anticoagulação? A prescrição inteira deriva dessas respostas.

Serve para a FA e o flutter com alta resposta ventricular na emergência e na enfermaria — do paciente instável que precisa de choque agora ao estável em que a decisão importante é o anticoagulante que ele vai levar para casa. O flutter segue o mesmo raciocínio da FA (anticoagulação inclusive); a diferença prática é que ele responde melhor à cardioversão e pior ao controle de frequência.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

As doses seguem as diretrizes de FA (ESC 2024, ACC/AHA 2023) e não substituem o protocolo do seu serviço nem a padronização da farmácia. Anticoagulante tem dose errada circulando por aí — inclusive impressa em material de bolso; confira cada dose antes de assinar.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: primeiro as três perguntas que definem a conduta, depois o controle de frequência, a anticoagulação (o item que evita o AVC) e o resto. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Instável? Cardioversão elétrica — agora
hipotensão, rebaixamento, dor torácica isquêmica ou congestão grave atribuíveis à arritmia
CVE sincronizada, carga máxima do desfibrilador bifásico (ex.: 200 J), sob sedoanalgesia breve — repetir se necessário · pás em posição anteroposterior ajudam na FA
Anticoagular junto (heparina plena ou DOAC na chegada) e manter por ≥ 4 semanas após a cardioversão — a urgência não dispensa o anticoagulante, só a espera
Por quê & armadilhas

Instabilidade pela arritmia não se trata com bomba de infusão — se trata com energia sincronizada. A armadilha está no diagnóstico reverso: na sepse, na hipovolemia e no TEP, a FA rápida é consequência da doença, e chocar o ritmo de um paciente séptico taquicárdico costuma devolver a FA em minutos — o tratamento ali é da causa. Pergunte sempre: a FA está causando a instabilidade, ou a instabilidade está causando a FA?

ESC 2024 · ACC/AHA 2023 — CVE imediata na instabilidade.
Há quanto tempo? A ESC 2024 baixou o corte para 24 horas
início > 24 h ou indeterminado muda o que é permitido fazer
FA > 24 h (ou não se sabe): sem cardioversão eletiva — elétrica ou química — antes de 3 semanas de anticoagulação eficaz ou estratégia guiada por imagem (ETE excluindo trombo em apêndice atrial) · enquanto isso: controlar frequência + anticoagular · instabilidade não espera nada disso
⚠ O corte clássico eram 48 h; a ESC 2024 desceu para 24 h. Material antigo do serviço ainda vai dizer 48
Por quê & armadilhas

O átrio que fibrila há dias pode abrigar trombo no apêndice — e é a volta do ritmo sinusal que o arremessa. Por isso a regra vale para qualquer cardioversão, inclusive a "química" acidental: amiodarona prescrita "só para controlar frequência" cardioverte, e cardioverter sem anticoagulação em FA de tempo indeterminado é prescrever um AVC evitável. Se a intenção é só frequência, use droga que não cardioverte; se é ritmo, cumpra o rito (3 semanas de ACO ou ETE).

ESC 2024 — corte de 24 h (antes 48 h) para cardioversão eletiva sem imagem; instabilidade cardioverte já · ACC/AHA 2023.
Anticoagular quem? O escore — e as exceções que não precisam dele
a decisão mais importante da página; independe de a FA "ter revertido"
CHA₂DS₂-VA ≥ 2 → anticoagular · = 1 → considerar, decisão compartilhada · (ESC 2024 aposentou o critério de sexo; pela ACC/AHA 2023 o CHA₂DS₂-VASc segue: ≥ 2 homens, ≥ 3 mulheres)
Anticoagular independentemente do escore: estenose mitral moderada/grave e prótese valvar mecânica (→ varfarina, nunca DOAC) · cardiomiopatia hipertrófica · amiloidose cardíaca
Por quê & armadilhas

O AVC da FA não pergunta se o episódio durou vinte minutos ou vinte dias — o risco é do paciente, não do eletrocardiograma do momento. Por isso "reverteu, então não precisa anticoagular" é o raciocínio errado mais comum da emergência. Risco de sangramento alto (HAS-BLED) serve para corrigir fatores modificáveis (PA, AINE, álcool), não para negar anticoagulação a quem tem indicação. E AAS não é anticoagulação na FA: sangra quase igual e protege muito menos.

ESC 2024 (CHA₂DS₂-VA) · ACC/AHA 2023.
Betabloqueador — primeira escolha na maioria
paciente estável, sem FEVE reduzida descompensada
Metoprolol 2,5–5 mg EV lento (1 mg/min), repetir a cada 5–10 min até controle — máx. 15 mg · seguir com VO: metoprolol 25–100 mg 12/12 h (ou bisoprolol 2,5–10 mg/dia, carvedilol 3,125–25 mg 12/12 h)
Por quê & armadilhas

O alvo leniente (FC < 110 em repouso, do RACE II) existe para lembrar que o objetivo é sintoma e hemodinâmica, não estética de monitor — perseguir FC de 70 com doses empilhadas na emergência é receita de bradicardia e hipotensão iatrogênicas. Titule com calma e reavalie: FA que "não controla" com dose adequada costuma ter gatilho por trás (febre, dor, hipovolemia, hipoxemia).

ESC 2024 · RACE II (NEJM 2010) — alvo leniente inicial.
Diltiazem ou verapamil — a alternativa (com uma proibição)
quando betabloqueador não serve (broncoespasmo grave, intolerância) — nunca na FEVE reduzida
Diltiazem 0,25 mg/kg EV em 2 min → se preciso, 2ª dose 0,35 mg/kg após 15 min → manutenção 5–15 mg/h EV (conforme disponibilidade na sua farmácia)
Verapamil 5–10 mg EV em 2–5 min → pode repetir após 15–30 min (máx. 20 mg) → manutenção VO 160–480 mg/dia
!
Não usar diltiazem/verapamil se FEVE reduzida ou sinais de IC descompensada — inotropismo negativo que precipita choque. Também não usar (nem betabloqueador, nem digital) na FA pré-excitada (WPW, QRS largo e irregular): ali a conduta é cardioversão.
Por quê & armadilhas

Bloqueador de canal de cálcio na FA exige saber a fração de ejeção antes — no VE ruim ele tira o inotropismo que sustentava o débito. Na dúvida, sem eco e com qualquer sinal de congestão: trate como FEVE reduzida (item seguinte). E a FA pré-excitada é o caso em que bloquear o nó AV piora: o estímulo desce livre pela via acessória e o ritmo pode degenerar em FV — QRS largo, irregular e muito rápido pede choque, não bomba.

ESC 2024 · ACC/AHA 2023.
FEVE reduzida ou instabilidade limítrofe — amiodarona ou digital
quando betabloqueador não cabe e BCC é proibido
Amiodarona 150 mg + SG 5% 100 mL EV em 10 min → 1 mg/min por 6 h → 0,5 mg/min por 18 h (≈ 1 g/24 h) · preferir acesso central se infusão prolongada (flebite)
Digitálico — deslanosídeo 0,4 mg EV lento, podendo fracionar doses adicionais em 24 h até controle (ou digoxina conforme disponibilidade) · útil como associação; início de ação lento · cuidado na disfunção renal
!
Amiodarona cardioverte. Em FA > 48 h sem anticoagulação, usá-la "só para frequência" é cardioversão química não programada — com o risco embólico da regra das 48 h. Decida antes o que você quer da droga.
Por quê & armadilhas

No VE ruim as opções seguras encolhem: amiodarona controla (e eventualmente reverte) com pouco efeito inotrópico negativo; o digital soma controle sem derrubar pressão — mas é lento e estreito de janela terapêutica. A combinação clássica no descompensado é digital + amiodarona em vez de empurrar betabloqueador em quem está congesto. E vale repetir: se o plano era só frequência, a amiodarona pode entregar mais do que se pediu.

ESC 2024 · ACC/AHA 2023 — FA na IC descompensada.
DOAC — primeira escolha na FA não valvar
doses e ajustes exatos; é aqui que mora o erro de dose mais comum
Apixabana 5 mg VO 12/12 h · reduzir para 2,5 mg 12/12 h só se 2 de 3: idade ≥ 80 a, peso ≤ 60 kg, creatinina ≥ 1,5 mg/dL
Rivaroxabana 20 mg VO 1×/dia, com alimento · ClCr 15–49: 15 mg 1×/dia
Dabigatrana 150 mg VO 12/12 h · 110 mg 12/12 h se ≥ 80 a, alto risco de sangramento ou verapamil concomitante
Edoxabana 60 mg VO 1×/dia · 30 mg se ClCr 15–50, peso ≤ 60 kg ou inibidor potente de P-gp (dronedarona, ciclosporina, eritromicina, cetoconazol)
Por quê & armadilhas

O erro clássico — impresso até em guia de bolso — é apixabana 5 mg 1×/dia: essa é dose subterapêutica que deixa o paciente "anticoagulado" só no papel. Na FA, apixabana é sempre 12/12 h; a redução é de dose (2,5 mg), nunca de frequência, e só com 2 dos 3 critérios. Segunda armadilha: reduzir dose "por precaução" em idoso que não fecha critério — subdose de DOAC troca sangramento imaginário por AVC real. Terceira: rivaroxabana em jejum absorve mal; é com comida.

ESC 2024 · ACC/AHA 2023 · bulas ARISTOTLE/ROCKET-AF/RE-LY/ENGAGE.
Varfarina — quando DOAC é proibido
prótese mecânica e estenose mitral moderada/grave (a "FA valvar" de verdade)
Varfarina VO 1×/dia, alvo INR 2–3 (prótese mecânica: alvo conforme a prótese e posição, frequentemente 2,5–3,5) · início 5 mg/dia na maioria, ajuste por INR seriado
!
DOAC é contraindicado em prótese valvar mecânica (RE-ALIGN: mais trombose E mais sangramento) e na estenose mitral moderada/grave. Nesses dois, é varfarina — sem exceção.
Por quê & armadilhas

"FA valvar" virou termo escorregadio: doença valvar comum (insuficiência mitral, estenose aórtica, plastia) não proíbe DOAC — as duas exceções reais são a prótese mecânica e a estenose mitral significativa, onde o trombo se forma por mecanismo que os DOACs não cobriram nos estudos (e no RE-ALIGN, a dabigatrana perdeu feio da varfarina). Todo o resto da FA é território de DOAC.

ESC 2024 · RE-ALIGN (NEJM 2013).
Na fase aguda internada — parenteral até definir
CVE de urgência feita, ou paciente que ainda vai definir o anticoagulante oral
Enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12 hsem redução por idade nesta indicação (os 0,75 mg/kg são do esquema de fibrinólise no supra, não daqui) · ClCr 15–29: 1 mg/kg 24/24 h · ClCr < 15: não usar
HAS-BLED o que dá para corrigir CHA₂DS₂-VA indicar anticoagulação
ou HNF EV no nomograma terapêutico do serviço — em TEV/cardioversão é comumente 80 U/kg em bolus → 18 U/kg/h, com TTPa ou anti-Xa. Não use o esquema de 60 U/kg + 12 U/kg/h aqui: aquele é o da SCA, onde anda junto com trombolítico e antiagregante duplo
Alternativa direta: começar já o DOAC (doses do item 07) — na maioria dos estáveis dispensa a heparina de "ponte"
Por quê & armadilhas

DOAC não precisa de ponte de heparina — anticoagula em horas. A heparina plena guarda seu lugar quando o rim proíbe DOAC, quando há procedimento no horizonte (ETE, cardioversão programada, cirurgia) ou quando a via oral não existe. E um lembrete de dupla contagem: paciente em anticoagulação plena não recebe também profilaxia de TEV — heparina duas vezes é sangramento de graça.

ESC 2024 — janela de 24 h para cardioversão eletiva sem imagem · dose plena de enoxaparina por peso e ClCr conforme bula; o nomograma de HNF é o do serviço.
Tratar o gatilho — muita FA aguda é sintoma
FA secundária não se resolve no nó AV
Investigar e tratar: sepse/infecção · TEP · tireotoxicose (TSH em todos) · isquemia · álcool ("holiday heart") · distúrbio de K⁺/Mg²⁺ (repor: alvo K ≥ 4,0 · Mg ≥ 2,0)
Por quê & armadilhas

A FA do paciente séptico, hipoxêmico ou tireotóxico é um sintoma com eletrocardiograma. Empilhar bloqueador de nó AV nesses casos rende hipotensão, não controle — a frequência cai quando a causa é tratada. O TSH da chegada é o exame mais barato que muda conduta em FA nova; e a hipomagnesemia é o gatilho silencioso que ninguém dosa.

ESC 2024 — FA secundária e precipitantes.
Se internar: o kit do internado
o de sempre — com uma exceção importante
Monitorização contínua enquanto titula droga de nó AV · ECG de controle · dieta conforme o caso · HGT 6/6 h se DM/jejum/crítico (alvo 140–180, protocolo do serviço) · profilaxia de TEV só se NÃO houver anticoagulação plena
Por quê & armadilhas

O detalhe que diferencia esta página das outras: aqui a maioria dos pacientes sai plenamente anticoagulada — então a enoxaparina 40 mg "de rotina" do kit não entra. Fora isso, vale o padrão das outras prescrições: glicemia com alvo 140–180 e correção pelo protocolo institucional, monitor ligado enquanto houver droga EV de nó AV correndo.

ADA 2026 — cap. 16 (glicemia hospitalar).
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Itens que pioram o desfecho na FA.

Apixabana 1×/dia — o erro de dose clássico; na FA é 5 mg 12/12 h. Cardioversão (elétrica ou amiodarona) em FA > 48 h sem anticoagulação/ETE. Diltiazem/verapamil na FEVE reduzida. Bloqueio de nó AV na FA pré-excitada (WPW → choque). AAS como "anticoagulação". Subdose de DOAC "por precaução" em quem não fecha critério de ajuste. E heparina profilática somada à anticoagulação plena.

Prescreveu — e agora?

Controlada a frequência e decidida a anticoagulação, sobram as perguntas de médio prazo — ritmo × frequência, ablação, ecocardiograma — que são de consultório, não de plantão. Se a FA veio com congestão, o caminho cruza com o edema agudo de pulmão; se veio com troponina e dor, com a SCA sem supra. Instabilidade franca e sedação para CVE terão página própria (taquiarritmia instável).

Levar o caso ao assistente de conduta
Van Gelder IC, Rienstra M, Bunting KV, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation. Eur Heart J. 2024;45(36):3314–3414 (doi:10.1093/eurheartj/ehae176). Joglar JA, Chung MK, Armbruster AL, et al. 2023 ACC/AHA/ACCP/HRS Guideline for the Diagnosis and Management of Atrial Fibrillation. Circulation. 2024;149(1):e1–e156. Van Gelder IC, et al. Lenient versus strict rate control in patients with atrial fibrillation (RACE II). N Engl J Med. 2010;362:1363–1373. Eikelboom JW, et al. Dabigatran versus warfarin in patients with mechanical heart valves (RE-ALIGN). N Engl J Med. 2013;369:1206–1214. American Diabetes Association. Diabetes Care in the Hospital — Standards of Care in Diabetes. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).