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Taquiarritmia instável

Aqui a "prescrição" é um procedimento: reconhecer que é a arritmia que está matando, sincronizar, sedar rápido e chocar com a carga certa — sem improviso em nenhum dos quatro passos.

Serve para a taquiarritmia com instabilidade — supraventricular ou ventricular com pulso. O gesto central é a cardioversão elétrica sincronizada (CVE); a exceção é a TV polimórfica, que se trata como fibrilação: desfibrilação. As taquiarritmias estáveis terão páginas próprias (TSV e TV), e a FA tem a dela.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Cargas e doses seguem o ACLS (AHA) e as diretrizes de arritmia (ESC), e não substituem o protocolo do seu serviço — desfibrilador, drogas de sedação disponíveis e quem executa variam por hospital. O aparelho da sua sala (bifásico × monofásico, cargas do fabricante) manda na energia final.

Como usar.

A ordem é a do procedimento: reconhecerpreparar o choque (sincronia + carga) → sedoanalgesia breveo depois, que é onde a maioria das folhas para cedo demais. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

É instável — e é a arritmia a culpada?
monitor, O₂ se SpO₂ < 90%, acesso venoso e ECG andando juntos com a avaliação
Instabilidade pela arritmia = hipotensão/choque · rebaixamento do sensório · dor torácica isquêmica · congestão/IC aguda — qualquer um deles com a taquiarritmia como causa → CVE imediata
Antes de carregar: é taquicardia sinusal? P antes de cada QRS, FC que acompanha o quadro (febre, dor, hipovolemia, sepse) → não se choca — trata-se a causa
Por quê & armadilhas

A pergunta que evita o choque errado é a de causalidade: a arritmia produz a instabilidade, ou a instabilidade produz a arritmia? Sepse a 140 bpm, hipovolemia taquicárdica e a FA "crônica de sempre" num paciente chocado por outra razão não melhoram com energia — pioram, e a taquicardia sinusal cardiovertida volta em segundos com um miocárdio irritado a mais. Quando a dúvida é real e o paciente desaba, o choque sincronizado é o erro menos punido; mas gaste os trinta segundos do ECG antes, se o paciente os tiver.

AHA — ACLS (algoritmo de taquicardia com pulso).
Sincronizar e escolher a carga pelo ritmo
tecla SYNC apertada — e reapertada antes de cada novo choque
Bifásico, AHA 2025: FA ≥ 200 J · flutter 200 J · taquicardia regular de QRS estreito 100 J · TV monomórfica com pulso 100 J · falhou → aumentar a carga e chocar de novo, conforme o aparelho
TV polimórfica (ou QRS que o aparelho não sincroniza): tratar como FV → desfibrilar (carga máxima, não sincronizada) · se QT longo de base (torsades): sulfato de magnésio 2 g EV em 10–15 min
Pás com gel e pressão firme · posição anteroposterior ajuda na FA e é a escolha com marca-passo/CDI (pás a ≥ 8–10 cm do gerador)
Por quê & armadilhas

A sincronia existe para o choque não cair na onda T e transformar taquicardia com pulso em FV. O detalhe que mais causa acidente: a maioria dos desfibriladores desliga o SYNC depois de cada disparo — o segundo choque "rápido" sem reapertar a tecla é uma desfibrilação não intencional. O oposto também mata: na TV polimórfica o aparelho não acha QRS para sincronizar e não dispara enquanto o paciente deteriora — ali a conduta certa já era desfibrilar.

AHA 2025 — energias de cardioversão sincronizada: FA ≥ 200 J, flutter 200 J, QRS estreito regular 100 J, TV monomórfica 100 J; polimórfica vai para desfibrilação não sincronizada · ESC 2022 (arritmias ventriculares).
Sedar conforme a hemodinâmica — não conforme o hábito
objetivo: sedação leve e curta; material de via aérea e AMBU à mão
Sem disfunção ventricular/choque: propofol 0,5–1 mg/kg EV lento, metade da dose primeiro, completar se preciso
Disfunção ventricular ou hemodinâmica limítrofe: etomidato 0,1–0,15 mg/kg EV ou midazolam 0,5–2 mg EV titulados de 2 em 2 min
Analgesia: fentanil 25–50 mcg EV lento (0,5–1 mcg/kg) — o choque dói
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Propofol no coração falido derruba a pressão — em disfunção grave/choque, doses mínimas de etomidato ou midazolam. E instabilidade extrema não espera sedação perfeita: prioridade é o choque; seda-se o possível, com honestidade farmacológica, não com atraso.
Por quê & armadilhas

A sedação da CVE é um compromisso entre dois erros: o paciente acordado que lembra do choque (evitável com doses pequenas e analgesia) e o paciente instável que hipotensa de vez com indução generosa. Por isso a escolha é hemodinâmica: propofol é confortável e curto no coração bom; no ruim, etomidato ou midazolam em migalhas tituladas. Ventilar com bolsa-máscara entre a sedação e o retorno é parte do procedimento — apneia breve é esperada, pânico não.

AHA — ACLS (sedação para cardioversão) · protocolo institucional manda nas drogas disponíveis.
Reverteu: agora se trata o terreno
o ritmo voltou; a causa que o gerou continua lá
ECG 12 derivações pós-reversão · corrigir K⁺ ≥ 4,0 e Mg²⁺ ≥ 2,0 · buscar causa (isquemia? droga? QT?) · ecocardiograma na internação
Manutenção conforme o ritmo: TV → amiodarona 300 mg EV em 20–30 min se recorrendo, depois 900 mg em 24 h (1 mg/min 6 h → 0,5 mg/min 18 h) · FA/flutter → anticoagular ≥ 4 semanas e seguir a página da FA
Por quê & armadilhas

O choque trata o circuito, não o motivo do circuito. TV em coração isquêmico pede coronária investigada; FA cardiovertida na urgência pede o anticoagulante que ninguém lembra de prescrever no alívio pós-reversão — e amiodarona de manutenção não é automática para todo mundo: é para o ritmo que ameaça voltar, enquanto se corrige o que o alimenta. Potássio e magnésio são a manutenção mais barata que existe contra a recorrência.

ESC 2022 (arritmias ventriculares) · ESC 2024 (FA — anticoagulação pós-CVE).
Não reverteu: método, não desespero
entre um choque e outro há três verificações e uma droga
Checar: SYNC reapertado? · carga aumentada? · pás/posição (trocar para anteroposterior, pressão firme) → novo choque
Refratária: amiodarona 150 mg EV em 10 min antes do próximo choque · corrigir K⁺/Mg²⁺/acidose/hipóxia · reavaliar o diagnóstico (é sinusal? é pré-excitada? é a doença de base?)
Por quê & armadilhas

Arritmia que "não reverte" costuma ser uma de três coisas: técnica (sync desligado, carga baixa, pás mal posicionadas), terreno (K/Mg/acidose/hipóxia não corrigidos — o miocárdio reentra no circuito assim que o choque passa) ou diagnóstico (era sinusal compensatória, e a "falha" é o corpo insistindo no que precisa). O antiarrítmico entre choques aumenta a chance do próximo — mas nenhuma amiodarona compensa um potássio de 2,8.

AHA — ACLS.
Gestante, dispositivo, digital e criança
quatro exceções que valem um segundo de pausa — não mais que isso
Gestante: CVE é segura para o feto — instável se choca sem demora, com desvio uterino à esquerda se 3º trimestre
Marca-passo/CDI: pás anteroposteriores, ≥ 8–10 cm do gerador · interrogar o dispositivo depois
Suspeita de intoxicação digitálica: CVE só em último caso e com carga baixa — risco de arritmia ventricular refratária; priorizar correção de K⁺/Mg²⁺ e antídoto conforme o caso
Criança: 0,5–1 J/kg → 2 J/kg nas tentativas seguintes · pás pediátricas se ≤ 10 kg
Por quê & armadilhas

A gestante é a exceção que não é: adiar o choque "por causa do bebê" é o erro — o feto depende da perfusão materna. O dispositivo implantado não contraindica nada, só muda a geometria das pás. Já o coração digitalizado é o único que pede freio de verdade: o digital sensibiliza o miocárdio e o choque pode disparar arritmia pior que a original — é o cenário onde vale a pena o minuto extra pensando em alternativa.

AHA — ACLS · consensos de manejo de dispositivos.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na taquiarritmia instável.

Chocar taquicardia sinusal compensatória. Choque não sincronizado em ritmo organizado (exceto TV polimórfica, que é desfibrilação mesmo). "Tentar uma medicação antes" no instável — adenosina, betabloqueador ou diltiazem aqui só compram deterioração. Sedação profunda e demorada que vira intubação não planejada. Esquecer o SYNC no segundo choque. Esquecer a analgesia. E encerrar o caso na reversão, sem K⁺/Mg²⁺, ECG, causa e — na FA — anticoagulação.

Prescreveu — e agora?

Se o ritmo era FA, o pós-choque continua na página da FA (anticoagulação é o item que salva). Se era TV, o terreno é isquemia até prova em contrário — SCA sem supra ou com supra. Se o paciente segue instável apesar do ritmo sinusal, o problema mudou de página: choque cardiogênico.

Levar o caso ao assistente de conduta
Panchal AR, et al. 2020 AHA Guidelines for CPR and ECC — Adult Basic and Advanced Life Support. Circulation. 2020;142(16 suppl 2):S366–S468 (algoritmo de taquicardia). Wigginton JG, Agarwal S, Bartos JA, et al. Part 9: Adult Advanced Life Support: 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2025;152(16 suppl 2):S538–S577 (doi:10.1161/CIR.0000000000001376). Zeppenfeld K, et al. 2022 ESC Guidelines for the management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death. Eur Heart J. 2022;43(40):3997–4126 (doi:10.1093/eurheartj/ehac262). Van Gelder IC, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of atrial fibrillation. Eur Heart J. 2024;45(36):3314–3414 — anticoagulação pós-cardioversão.