Taquiarritmia instável
Aqui a "prescrição" é um procedimento: reconhecer que é a arritmia que está matando, sincronizar, sedar rápido e chocar com a carga certa — sem improviso em nenhum dos quatro passos.
Serve para a taquiarritmia com instabilidade — supraventricular ou ventricular com pulso. O gesto central é a cardioversão elétrica sincronizada (CVE); a exceção é a TV polimórfica, que se trata como fibrilação: desfibrilação. As taquiarritmias estáveis terão páginas próprias (TSV e TV), e a FA tem a dela.
Cargas e doses seguem o ACLS (AHA) e as diretrizes de arritmia (ESC), e não substituem o protocolo do seu serviço — desfibrilador, drogas de sedação disponíveis e quem executa variam por hospital. O aparelho da sua sala (bifásico × monofásico, cargas do fabricante) manda na energia final.
A ordem é a do procedimento: reconhecer → preparar o choque (sincronia + carga) → sedoanalgesia breve → o depois, que é onde a maioria das folhas para cedo demais. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A pergunta que evita o choque errado é a de causalidade: a arritmia produz a instabilidade, ou a instabilidade produz a arritmia? Sepse a 140 bpm, hipovolemia taquicárdica e a FA "crônica de sempre" num paciente chocado por outra razão não melhoram com energia — pioram, e a taquicardia sinusal cardiovertida volta em segundos com um miocárdio irritado a mais. Quando a dúvida é real e o paciente desaba, o choque sincronizado é o erro menos punido; mas gaste os trinta segundos do ECG antes, se o paciente os tiver.
AHA — ACLS (algoritmo de taquicardia com pulso).A sincronia existe para o choque não cair na onda T e transformar taquicardia com pulso em FV. O detalhe que mais causa acidente: a maioria dos desfibriladores desliga o SYNC depois de cada disparo — o segundo choque "rápido" sem reapertar a tecla é uma desfibrilação não intencional. O oposto também mata: na TV polimórfica o aparelho não acha QRS para sincronizar e não dispara enquanto o paciente deteriora — ali a conduta certa já era desfibrilar.
AHA 2025 — energias de cardioversão sincronizada: FA ≥ 200 J, flutter 200 J, QRS estreito regular 100 J, TV monomórfica 100 J; polimórfica vai para desfibrilação não sincronizada · ESC 2022 (arritmias ventriculares).A sedação da CVE é um compromisso entre dois erros: o paciente acordado que lembra do choque (evitável com doses pequenas e analgesia) e o paciente instável que hipotensa de vez com indução generosa. Por isso a escolha é hemodinâmica: propofol é confortável e curto no coração bom; no ruim, etomidato ou midazolam em migalhas tituladas. Ventilar com bolsa-máscara entre a sedação e o retorno é parte do procedimento — apneia breve é esperada, pânico não.
AHA — ACLS (sedação para cardioversão) · protocolo institucional manda nas drogas disponíveis.O choque trata o circuito, não o motivo do circuito. TV em coração isquêmico pede coronária investigada; FA cardiovertida na urgência pede o anticoagulante que ninguém lembra de prescrever no alívio pós-reversão — e amiodarona de manutenção não é automática para todo mundo: é para o ritmo que ameaça voltar, enquanto se corrige o que o alimenta. Potássio e magnésio são a manutenção mais barata que existe contra a recorrência.
ESC 2022 (arritmias ventriculares) · ESC 2024 (FA — anticoagulação pós-CVE).Arritmia que "não reverte" costuma ser uma de três coisas: técnica (sync desligado, carga baixa, pás mal posicionadas), terreno (K/Mg/acidose/hipóxia não corrigidos — o miocárdio reentra no circuito assim que o choque passa) ou diagnóstico (era sinusal compensatória, e a "falha" é o corpo insistindo no que precisa). O antiarrítmico entre choques aumenta a chance do próximo — mas nenhuma amiodarona compensa um potássio de 2,8.
AHA — ACLS.A gestante é a exceção que não é: adiar o choque "por causa do bebê" é o erro — o feto depende da perfusão materna. O dispositivo implantado não contraindica nada, só muda a geometria das pás. Já o coração digitalizado é o único que pede freio de verdade: o digital sensibiliza o miocárdio e o choque pode disparar arritmia pior que a original — é o cenário onde vale a pena o minuto extra pensando em alternativa.
AHA — ACLS · consensos de manejo de dispositivos.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Chocar taquicardia sinusal compensatória. Choque não sincronizado em ritmo organizado (exceto TV polimórfica, que é desfibrilação mesmo). "Tentar uma medicação antes" no instável — adenosina, betabloqueador ou diltiazem aqui só compram deterioração. Sedação profunda e demorada que vira intubação não planejada. Esquecer o SYNC no segundo choque. Esquecer a analgesia. E encerrar o caso na reversão, sem K⁺/Mg²⁺, ECG, causa e — na FA — anticoagulação.
Se o ritmo era FA, o pós-choque continua na página da FA (anticoagulação é o item que salva). Se era TV, o terreno é isquemia até prova em contrário — SCA sem supra ou com supra. Se o paciente segue instável apesar do ritmo sinusal, o problema mudou de página: choque cardiogênico.
Levar o caso ao assistente de conduta