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SCA sem supra de ST

A prescrição da internação, item por item, na ordem do raciocínio — cada dose com o porquê e a armadilha logo abaixo, para conferir sem sair da página.

Serve para o paciente com síndrome coronariana aguda sem supradesnível de ST (angina instável ou IAMSSST) já reconhecida — dor torácica típica com troponina alterada e/ou ECG isquêmico sem supra — internado em unidade monitorizada. Não serve para o supra de ST (reperfusão é outra prescrição), nem para o choque cardiogênico instalado.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

As doses seguem as diretrizes de referência (SBC 2021, ESC 2023, AHA/ACC 2025) e não substituem o protocolo do seu serviço, a padronização da sua farmácia nem o julgamento clínico à beira do leito. Confirme apresentação, diluição e compatibilidade antes de cada prescrição — concentração de ampola muda de hospital para hospital.

Como usar.

Os itens seguem a ordem do raciocínio, não a da folha impressa: primeiro o que muda desfecho (antitrombóticos), depois o alívio da isquemia, a prevenção secundária que começa na internação e, por fim, suporte e vigilância. A dose está sempre visível; o raciocínio abre em "por quê & armadilhas" dentro de cada item. Na folha do seu serviço, a ordem administrativa (dieta, cuidados, medicações) continua sendo a da sua rotina.

Item por item

Antiagregação 1 — AAS
todos os pacientes, salvo contraindicação
AAS ataque 150–300 mg VO mastigados (na prática: 3 cp de 100 mg) → manutenção 100 mg/dia, indefinidamente
!
Contraindicação: sangramento ativo ou hipersensibilidade verdadeira ao AAS.
Por quê & armadilhas

É o item de melhor custo-benefício da página inteira: antiagregação imediata com redução robusta de morte e reinfarto. Mastigar acelera a absorção — importa na admissão, não na manutenção. Se o paciente "já usa AAS em casa", o ataque continua valendo: dose habitual de prevenção não substitui a carga da fase aguda.

SBC 2021 · ESC 2023 · AHA/ACC 2025 — AAS ataque + manutenção em todos.
Antiagregação 2 — inibidor de P2Y12
a escolha e o momento dependem da estratégia invasiva
Ticagrelor ataque 180 mg VO → 90 mg VO 12/12 h
Prasugrel ataque 60 mg VO → 10 mg VO 1×/dia — só após anatomia coronariana conhecida, quando a ICP está decidida
Clopidogrel ataque 300–600 mg VO → 75 mg VO 1×/dia — preferir se anticoagulação oral concomitante (ex.: FA) ou alto risco de sangramento
cate < 24 h: não pré-tratar de rotina — definir o P2Y12 com a anatomiaticagrelor/prasugrel > clopidogrel na ICP
!
Contraindicações que mudam a escolha: prasugrel — AVC/AIT prévio (não usar); ≥ 75 anos ou < 60 kg (evitar; se usado, manutenção 5 mg). Ticagrelor — AVC hemorrágico prévio, hepatopatia grave, inibidor forte de CYP3A4. Todos — sangramento ativo.
Por quê & armadilhas

O segundo antiagregante é onde a prescrição exige estratégia, não reflexo. Se o cateterismo vem em < 24 h, não há benefício em pré-tratar com P2Y12 às cegas — só risco de sangrar uma cirurgia de revascularização que a anatomia ainda pode indicar. Por isso a ordem lógica é: AAS + anticoagulante já, P2Y12 junto com a decisão. Se a angiografia vai demorar mais de 24 h (hospital sem hemodinâmica, fila), aí o pré-tratamento com ticagrelor ou clopidogrel pode ser considerado.

Na escolha da droga: ticagrelor e prasugrel são mais potentes que clopidogrel e preferidos na ICP; clopidogrel volta a ser o certo quando o paciente precisa de anticoagulante oral junto, quando o risco hemorrágico é alto — ou quando é o que existe na farmácia.

ESC 2023 (pré-tratamento rotineiro: III) · AHA/ACC 2025 · SBC 2021.
Anticoagulação parenteral
todos, desde o diagnóstico — manter até a ICP, por 8 dias ou até a alta
Enoxaparina (escolha) 1 mg/kg SC 12/12 hsem redução por idade na SCA sem supra: os 0,75 mg/kg pertencem ao esquema de fibrinólise no supra · ClCr < 30: 1 mg/kg SC 24/24 h · ClCr < 15: não usar → HNF · teto por dose só se o serviço padronizar (não é limite de bula para a indicação)
HNF bolus 60 U/kg EV (máx. 4.000 U) → infusão 12 U/kg/h, ajustada por TTPa 6/6 h para 1,5–2,5× o controle (≈ 50–70 s)
ex. 70 kg: bolus 4.000 U + 840 U/h
Fondaparinux 2,5 mg SC 1×/dia — opção na estratégia conservadora ou alto risco de sangramento · não usar se ClCr < 20 · se for para ICP, exige HNF adicional na sala
Por quê & armadilhas

Anticoagular é tratamento da doença — o trombo não espera a sala de hemodinâmica. A anticoagulação entra no diagnóstico, ajustada à estratégia; "segurar a heparina porque vai cateterizar" atrasa terapia com benefício comprovado. A enoxaparina é a escolha pela previsibilidade sem controle laboratorial; os dois ajustes que não podem escapar são idade ≥ 75 e função renal — é aí que mora o sangramento iatrogênico. A HNF assume no rim falido (ClCr < 15) e em quem pode precisar desligar rápido. O fondaparinux tem o melhor perfil de sangramento na estratégia conservadora, mas tromboza cateter: se o paciente for para a ICP, a sala complementa com HNF.

SBC 2021 (ajustes renais e de idade) · ESC 2023 · AHA/ACC 2025.
Controle da dor e da isquemia — nitrato
dor isquêmica em curso; EV se dor persistente, hipertensão ou congestão
Dinitrato de isossorbida 5 mg SL — repetir a cada 5 min se a dor persistir, até 3 doses (15 mg)
Nitroglicerina EV — iniciar 5–10 mcg/min e titular a cada 3–5 min pela dor e pela PA (máx. usual 200 mcg/min)
ex. de preparo: 50 mg em SG 5% qsp 250 mL = 200 mcg/mL → 10 mcg/min = 3 mL/h
!
Não usar nitrato se: PAS < 90 mmHg, suspeita de infarto de VD, ou uso de inibidor de fosfodiesterase-5 (sildenafila/vardenafila < 24 h; tadalafila < 48 h) — risco de hipotensão grave e refratária.
Por quê & armadilhas

Nitrato é sintomático: venodilata, reduz pré-carga e consumo de O₂ do miocárdio — alivia a dor, mas não muda mortalidade. Por isso ele nunca justifica atrasar o que muda desfecho (antiagregação, anticoagulação, estratificação invasiva). A infusão EV entra quando a dor persiste apesar do SL, ou quando hipertensão/congestão dão a ela um segundo trabalho. Titule pela dor e pela PA; a dose que importa é a que o paciente precisa, não a da tabela. E confirme a concentração da sua farmácia antes de converter mcg/min em mL/h — a conta acima vale para 200 mcg/mL.

SBC 2021 · ESC 2023 — nitratos como terapia sintomática na SCASSST.
Morfina — só a dor refratária
se dor persistir apesar do nitrato otimizado
Morfina 2–4 mg EV, podendo repetir conforme dor e vigilância de PA e sensório
Por quê & armadilhas

Morfina saiu da rotina e virou exceção: além de hipotensão e depressão respiratória, ela retarda o esvaziamento gástrico e a absorção dos inibidores de P2Y12 — justamente o remédio que você acabou de dar. Reserve para a dor que resistiu ao nitrato. Dor refratária de verdade, aliás, é sinal de alarme: reavalie o ECG e pense em isquemia em curso que pede sala de hemodinâmica, não mais opioide.

ESC 2023 — uso criterioso de opioides; interação com P2Y12.
Oxigênio — só se precisar
se SpO₂ < 90% ou desconforto respiratório
O₂ suplementar (cateter nasal ou máscara), titulado para SpO₂ ≥ 90% — suspender quando não for mais necessário
Por quê & armadilhas

Oxigênio em quem não está hipoxêmico não alivia isquemia — e a hiperóxia causa vasoconstrição coronariana. Desde o DETO2X-AMI, as diretrizes só recomendam O₂ quando SpO₂ < 90%. A armadilha é a "litragem de rotina" no papel: 2 L/min para todos é prescrição decorativa que ninguém titula. Prescreva o alvo, não a vazão.

ESC 2023 · AHA/ACC 2025 — O₂ apenas se SpO₂ < 90%.
Betabloqueador VO nas primeiras 24 h
se não houver sinais de IC nem risco de choque cardiogênico
Metoprolol (tartarato) 25–50 mg VO 12/12 h, titulando conforme FC e PA
alternativas: bisoprolol 2,5–10 mg 1×/dia · carvedilol 3,125–25 mg 12/12 h · atenolol 25–100 mg/dia · propranolol 10–80 mg 8/8–12/12 h
Metoprolol EV 5 mg lento, repetir a cada 5 min até 15 mg — exceção: isquemia persistente com taquicardia + hipertensão, sem qualquer sinal de IC
!
Não iniciar se sinais de IC ou baixo débito, risco de choque cardiogênico (idade > 70, PAS < 120, FC > 110 ou < 60), PR > 0,24 s, BAV 2º/3º grau, broncoespasmo ativo.
Por quê & armadilhas

Betabloqueador reduz consumo de O₂, arritmia e reinfarto — mas o COMMIT ensinou o preço do excesso de pressa: betabloqueio agressivo em paciente errado converte isquemia em choque cardiogênico. Daí a regra: VO, dose baixa, nas primeiras 24 h, em quem está compensado — e a lista de exclusão acima levada a sério. O EV ficou para a exceção taquicárdica-hipertensiva sem nenhum traço de disfunção ventricular. Na dúvida entre começar hoje ou amanhã, a resposta certa raramente é o bolus.

SBC 2021 · ESC 2023 · AHA/ACC 2025 (critérios de risco do COMMIT/CCS-2).
IECA (ou BRA se intolerância)
nas primeiras 24 h se HAS, DM, DRC ou FEVE ≤ 40% — razoável nos demais
Captopril 6,25–50 mg VO 8/8 h (início baixo, titular) · enalapril 2,5–20 mg 12/12 h · lisinopril 2,5–10 mg 1×/dia
se intolerância (tosse/angioedema): losartana 25–100 mg/dia · valsartana 80–320 mg/dia
Por quê & armadilhas

O benefício do IECA na SCA se concentra em quem tem remodelamento a prevenir: disfunção ventricular, diabetes, hipertensão, doença renal. Começa-se baixo (o captopril de 8/8 h existe justamente para titular rápido na internação) e troca-se por um de dose única na alta. Vigie potássio e creatinina — e não some IECA com BRA: a combinação só adiciona hipercalemia.

SBC 2021 · AHA/ACC 2025.
Estatina de alta intensidade — já
todos, independentemente do LDL de chegada
Atorvastatina 40–80 mg VO 1×/dia ou rosuvastatina 20–40 mg VO 1×/dia
pode-se associar ezetimiba 10 mg/dia desde o início; se só houver sinvastatina: 40 mg/noite + ezetimiba 10 mg (intensidade moderada — trocar assim que possível)
Por quê & armadilhas

Alta intensidade, precoce, para todos — o LDL da admissão não muda a conduta, só serve de linha de base. A meta pós-SCA é agressiva (LDL < 50–55 mg/dL nas diretrizes atuais), e por isso o AHA/ACC 2025 já admite ezetimiba de saída em vez de esperar a primeira dosagem de controle. A armadilha clássica é a alta com "sinvastatina 20 mg" herdada da prescrição antiga: intensidade errada para o risco errado.

AHA/ACC 2025 · ESC 2023 — estatina de alta intensidade ± ezetimiba.
Espironolactona — em casos selecionados
se FEVE ≤ 40% com sintomas de IC ou diabetes, já em uso de IECA + betabloqueador
Espironolactona 25 mg VO 1×/dia
!
Não iniciar se K⁺ > 5,0 mEq/L ou disfunção renal significativa — rechecar potássio e creatinina na primeira semana.
Por quê & armadilhas

O antagonista mineralocorticoide reduz mortalidade no pós-infarto com disfunção ventricular — o critério das diretrizes é FEVE ≤ 40% com sintomas de IC ou diabetes, em cima da terapia otimizada. Não é item universal: em FE preservada sem IC, só adiciona hipercalemia. O erro mais caro é prescrever e não recontrolar o potássio.

SBC 2021 · AHA/ACC 2025 (critérios do EPHESUS).
Dieta e via
conforme estabilidade e programação do cateterismo
Dieta VO (geral, para diabéticos ou hipossódica, conforme o caso) — se estável e sem procedimento iminente
Jejum — se cateterismo programado nas próximas horas, conforme a rotina do serviço
Dieta enteral — se rebaixamento do nível de consciência, IOT ou disfagia/engasgos; vazão e progressão conforme avaliação nutricional
Por quê & armadilhas

A dieta não é o item nobre da SCASSST, mas é o primeiro da folha — e é onde se erra por automatismo. Vazão fixa de dieta ou de glicose "para todo mundo" não tem respaldo: aporte se individualiza com a nutrição, e paciente crítico segue progressão própria. O que importa aqui é a decisão de via (VO × enteral × jejum) e a coerência com a estratégia invasiva: se o cateterismo é precoce, alinhe o jejum com a hemodinâmica em vez de deixar o paciente 24 h sem comer "por via das dúvidas".

ESPEN 2023 — nutrição clínica em UTI (individualização e progressão do aporte).
Glicemia — controle sem hipoglicemia
HGT se diabetes, jejum, dieta enteral ou paciente crítico
HGT (glicemia capilar) 6/6 h · alvo hospitalar 140–180 mg/dL · correção com insulina regular conforme o protocolo do serviço
se HGT < 70 mg/dL: glicose 50% EV (ex.: 40 mL = 20 g) → repetir HGT em 15 min
Por quê & armadilhas

No coronariopata agudo, a hipoglicemia mata mais depressa que a hiperglicemia — por isso o alvo hospitalar é 140–180 mg/dL, e não a normoglicemia estrita. Escala fixa de insulina "para todo mundo" ignora sensibilidade individual e via de dieta: use o protocolo institucional e ajuste pelo padrão do paciente. Na hipoglicemia, a dose de glicose depende da apresentação disponível — a conta acima (40 mL de G50% = 20 g) é o exemplo; o que não se negocia é rechecar em 15 min.

ADA 2026 — Standards of Care, cap. 16 (cuidado hospitalar).
Antiemético se necessário
náusea ou vômitos
Ondansetrona 4–8 mg EV até 8/8 h SN ou metoclopramida 10 mg EV 8/8 h SN · metoclopramida não é automática: distonia, acatisia, parkinsonismo, sonolência e discinesia tardia — reduzir dose repetida no idoso e na disfunção renal/hepática
Por quê & armadilhas

Náusea no infarto é comum (dor, opioide, reflexo vagal). Dois lembretes: ondansetrona prolonga QT — atenção se o paciente acumular outros prolongadores ou distúrbio eletrolítico — e metoclopramida pede cautela no idoso (extrapiramidalismo). "SN" de verdade: sem horário fixo.

Monitorização e vigilância
enquanto durar o risco arrítmico e isquêmico
Monitorização cardíaca contínua por 24–48 h + oximetria de pulso · PA e FC de horário · ECG se nova dor ou instabilidade · troponina seriada conforme protocolo
Por quê & armadilhas

As primeiras 24–48 h concentram o risco de arritmia ventricular e de reisquemia — a monitorização é o item que transforma "internado" em "vigiado". Nova dor pede ECG na hora, não no horário: supra novo muda a página inteira (vira reperfusão). E lembre que monitor só ajuda se alguém olha: prescreva também os limites de alarme que fazem sentido para este paciente.

SBC 2021 · ESC 2023.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ ≥ 90% — sem oxigênio no normoxêmico. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Itens que pioram o desfecho na SCASSST.

AINEs (exceto AAS): suspender na admissão — aumentam risco de morte, reinfarto e ruptura. O₂ de rotina em quem satura bem. Morfina de rotina para toda dor. Pré-tratamento rotineiro com P2Y12 quando o cateterismo vem em < 24 h. Nitrato com PAS < 90, infarto de VD ou inibidor de PDE-5 recente. E não postergar a anticoagulação à espera da hemodinâmica.

Prescreveu — e agora?

A prescrição cobre as primeiras 24 h; o desfecho se decide na estratificação invasiva — risco intermediário/alto vai ao cateterismo com intenção de revascularizar. Se o paciente hipotensar ou congestionar, o raciocínio muda de página: reveja os padrões hemodinâmicos e as drogas vasoativas. Caso concreto com nuance que a página não cobre?

Levar o caso ao assistente de conduta
Nicolau JC, Feitosa Filho GS, Petriz JL, et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST — 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181–264 (doi:10.36660/abc.20210180). Byrne RA, Rossello X, Coughlan JJ, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes. Eur Heart J. 2023;44(38):3720–3826 (doi:10.1093/eurheartj/ehad191). Rao SV, O'Donoghue ML, Ruel M, et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline for the Management of Patients With Acute Coronary Syndromes. J Am Coll Cardiol. 2025;85(22):2135–2237 (doi:10.1016/j.jacc.2024.11.009). American Diabetes Association. Diabetes Care in the Hospital — Standards of Care in Diabetes. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1). Singer P, Blaser AR, Berger MM, et al. ESPEN practical and partially revised guideline: clinical nutrition in the intensive care unit. Clin Nutr. 2023;42(9):1671–1689 (doi:10.1016/j.clnu.2023.07.011). Chen ZM, Pan HC, Chen YP, et al.; COMMIT collaborative group. Early intravenous then oral metoprolol in 45.852 patients with acute myocardial infarction. Lancet. 2005;366(9497):1622–1632 (doi:10.1016/S0140-6736(05)67661-1). Hofmann R, James SK, Jernberg T, et al. Oxygen Therapy in Suspected Acute Myocardial Infarction (DETO2X-AMI). N Engl J Med. 2017;377(13):1240–1249 (doi:10.1056/NEJMoa1706222).