SCA com supra de ST
Aqui a prescrição começa por uma decisão, não por um item: reperfundir por ICP primária ou fibrinólise. Todo o resto — antitrombótico, dose, momento — deriva desse caminho.
Serve para o paciente com IAM com supradesnível de ST (ou BRE/BRD novo com clínica de infarto) dentro da janela de reperfusão — sintomas ≤ 12 h, ou até 24 h se dor e isquemia em curso. Não serve para a SCA sem supra (página própria) nem para o choque cardiogênico instalado, que muda a estratégia e a prescrição.
As doses seguem as diretrizes de referência (SBC, ESC 2023, AHA/ACC 2025) e não substituem o protocolo do seu serviço, a padronização da farmácia nem o julgamento à beira do leito. No supra, o protocolo institucional importa dobrado: os fluxos de reperfusão (quem chama a hemodinâmica, onde se dilui o trombolítico) são locais por natureza.
A ordem é a do raciocínio: primeiro a reperfusão (a decisão que define tudo), depois os antitrombóticos que acompanham cada caminho, o alívio da isquemia, a prevenção secundária e o suporte. A dose está sempre visível; o porquê abre em "por quê & armadilhas".
Item por item
No supra, músculo é tempo: cada meia hora de atraso custa miocárdio e mortalidade. A pergunta operacional não é "qual método é melhor" (ICP primária é, quando disponível a tempo) — é "onde este paciente estará em 120 minutos?". Hospital sem hemodinâmica: a decisão certa costuma ser trombolisar em 10 minutos e transferir, não esperar uma ambulância otimista. Critérios de reperfusão após a lise (60–90 min): queda > 50% do supra, alívio da dor, arritmia de reperfusão. Sem isso → ICP de resgate, agora.
ESC 2023 · AHA/ACC 2025 · SBC — V Diretriz de IAMCSST.≥ 75 anos: usar metade da dose
TNK é a escolha prática: bolus único por peso, ideal para emergência e pré-hospitalar. A meia-dose acima de 75 anos vem do STREAM — a dose plena nessa faixa sangrou cabeça demais, e a metade manteve a eficácia. A checagem de contraindicações não é burocracia: é o que separa reperfusão de hemorragia intracraniana. E fibrinólise não encerra o caso — ela compra tempo até o cateterismo (2–24 h), que continua obrigatório.
ESC 2023 · SBC — V Diretriz de IAMCSST · STREAM (meia-dose de TNK ≥ 75 a).Vale o mesmo da SCA sem supra, com um agravante de urgência: no ISIS-2, AAS sozinho reduziu mortalidade do infarto na mesma ordem de grandeza da estreptoquinase — e os dois juntos somaram. É o item mais barato e mais imediato da reperfusão. Não espera exame, não espera vaga: mastiga na porta.
SBC · ESC 2023 · AHA/ACC 2025.No supra a lógica inverte em relação ao sem-supra: aqui a anatomia já está decidida pelo ECG e a ICP é certa — por isso o P2Y12 potente entra já, sem esperar o cateterismo. A exceção de idade na fibrinólise não é detalhe: o ataque de 300 mg em ≥ 75 anos junto com trombolítico sangra, e o COMMIT validou justamente a dose sem ataque nessa combinação.
ESC 2023 · SBC · CLARITY-TIMI 28 e COMMIT (clopidogrel + fibrinólise).A anticoagulação do supra é parte da reperfusão, não coadjuvante: o trombolítico abre o vaso, a heparina impede que ele feche de novo. Os tetos das duas primeiras doses de enoxaparina (100/75 mg) existem porque foi assim que o ExTRACT evitou sangrar o idoso — omiti-los é reescrever o estudo. Na ICP primária, o que não pode acontecer é o paciente viajar para a hemodinâmica sem nada por indefinição de quem prescreve: combine com o fluxo do teu serviço quem dá a heparina e quando — o que a diretriz pede é que ela acompanhe a estratégia desde o diagnóstico.
ESC 2023 · SBC · ExTRACT-TIMI 25 (enoxaparina na fibrinólise) · OASIS-6 (fondaparinux).ex. de preparo: 50 mg em SG 5% qsp 250 mL = 200 mcg/mL → 10 mcg/min = 3 mL/h
O supra inferior esconde a armadilha clássica desta página: um terço tem acometimento de VD, e o VD isquêmico vive de pré-carga. Nitrato (e volume a menos) nesse paciente derruba a pressão de forma dramática. Por isso a sequência é: supra em DII/DIII/aVF → V3R/V4R antes do nitrato, não depois da hipotensão. Fora isso, vale o mesmo do sem-supra: nitrato é sintomático, não muda mortalidade e não atrasa reperfusão.
ESC 2023 · SBC — V Diretriz de IAMCSST.Mesma lógica do sem-supra — retarda a absorção do P2Y12 e derruba pressão — com o detalhe do VD: no infarto de ventrículo direito, a venodilatação do opioide rouba a pré-carga de que ele depende. E dor que não cede no supra raramente é problema de analgesia: é vaso fechado. A resposta é reperfundir mais rápido, não sedar mais fundo.
ESC 2023 — uso criterioso de opioides.O DETO2X-AMI foi feito majoritariamente em infarto — oxigênio em quem satura bem não reduziu mortalidade nem tamanho de infarto. Hiperóxia vasoconstringe coronária. Prescreva o alvo (SpO₂ ≥ 90%), não a litragem de rotina.
ESC 2023 · AHA/ACC 2025 · DETO2X-AMI.O COMMIT foi feito no supra: metoprolol EV precoce e agressivo evitou reinfartos ao custo de mais choque cardiogênico — saldo neutro na mortalidade e uma lição permanente. Betabloqueador no infarto é maratona, não sprint: VO, dose baixa, nas primeiras 24 h, em paciente compensado, e titulação ao longo de dias. O EV ficou restrito à exceção taquicárdica-hipertensiva sem nenhum sinal de disfunção.
SBC · ESC 2023 · AHA/ACC 2025 · COMMIT/CCS-2.No supra o IECA tem um alvo a mais que no sem-supra: o remodelamento do ventrículo infartado — e por isso o infarto anterior extenso é prioridade clara. Começa baixo nas primeiras 24 h com o paciente estável (sem hipotensão), titula na internação, troca para dose única na alta. Potássio e creatinina na primeira semana.
SBC · AHA/ACC 2025.Mesma regra do sem-supra: alta intensidade, precoce, para todos — o LDL da chegada é linha de base, não critério. A meta pós-infarto é agressiva (LDL < 50–55 mg/dL) e a ezetimiba pode entrar de saída. A armadilha é a alta hospitalar reciclando a estatina fraca que o paciente "já tomava".
AHA/ACC 2025 · ESC 2023.O EPHESUS foi feito exatamente neste paciente: pós-IAM com FEVE ≤ 40% e IC ou diabetes, em cima da terapia otimizada — e reduziu mortalidade. O critério é ≤ 40%, e o preço é a hipercalemia: prescrever sem recontrolar potássio é trocar um risco por outro.
SBC · AHA/ACC 2025 — critérios do EPHESUS.No supra a dieta é ainda mais simples que no sem-supra: quase todo paciente vai à sala nas próximas horas — jejum é o padrão de chegada. O erro é o oposto: esquecer o jejum prescrito e deixar o paciente reperfundido 24 h sem comer. Vazão fixa de dieta ou glicose "de rotina" segue sem respaldo; aporte é decisão da nutrição, individualizada.
ESPEN 2023 — individualização do aporte.Hiperglicemia no infarto marca gravidade, mas a correção agressiva mata por hipoglicemia — o alvo 140–180 é o equilíbrio com evidência. Escala fixa universal de insulina não: protocolo do serviço, ajustado ao padrão do paciente. E na hipoglicemia, a dose depende da apresentação da tua farmácia — o inegociável é rechecar em 15 min.
ADA 2026 — Standards of Care, cap. 16.Náusea e vômito no supra inferior são reflexo vagal (Bezold-Jarisch), não "gastrite" — tratam-se, mas também avisam sobre a parede acometida. Ondansetrona prolonga QT (atenção com outros prolongadores e distúrbio eletrolítico); metoclopramida pede cautela no idoso.
A fibrilação ventricular primária concentra-se nas primeiras horas do supra — é a morte evitável clássica, e ela só é evitável se o monitor estiver ligado e o desfibrilador ao lado. O ECG de 60–90 min pós-fibrinólise não é rotina burocrática: é ele que decide entre "reperfundiu" e "ICP de resgate agora". Arritmia de reperfusão (RIVA) logo após a lise é sinal de sucesso, não de catástrofe — reconhecê-la evita antiarrítmico desnecessário.
SBC · ESC 2023.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Nitrato ou morfina no infarto de VD (V3R/V4R antes, sempre). Ticagrelor/prasugrel junto com fibrinólise. Ataque de clopidogrel em ≥ 75 anos trombolisado. Betabloqueador EV de rotina na chegada. AINEs (exceto AAS): suspender na admissão. O₂ de rotina em quem satura bem. E o pior de todos: esperar — exame a mais, vaga, segunda opinião — com o vaso fechado e a janela correndo.
O desfecho do supra se decide em minutos de porta, não em itens de folha: reperfusão no tempo certo, ECG de controle, vigilância de arritmia. Se o paciente hipotensar, a pergunta muda — VD? mecânica? choque cardiogênico? — e o raciocínio está nos padrões hemodinâmicos e nas drogas vasoativas. A prescrição da SCA sem supra cobre o primo desta página.
Levar o caso ao assistente de conduta