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Miocardite

O coração inflamado tem dois tratamentos: o suporte, que é do plantão e tem dose — e o etiológico, que é da biópsia e do centro especializado. Confundir os dois é o erro que esta página existe para impedir.

Serve para a miocardite aguda — do jovem com dor torácica e troponina pós-viral ao fulminante que choca em 48 horas. O diagnóstico costuma nascer no caminho do MINOCA (é o que a RM mais encontra); o suporte usa as páginas de IC, choque e arritmias. Aqui está o que a miocardite muda em cada uma — e onde ela exige freio.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem ESC 2025 (miocardite e pericardite) e SBC 2022 (Diretriz de Miocardites), e não substituem o protocolo do seu serviço. Imunossupressão e antivirais não são itens desta página: são decisões de biópsia e equipe especializada — o item 07 explica o porquê.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: reconhecer e estratificar (a fulminante muda tudo), suportar (IC, arritmia, exercício, analgesia), e saber o que encaminhar. Dose sempre visível quando a dose é do plantão; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Suspeitar, confirmar — e medir a gravidade certa
dor torácica + troponina no jovem pós-viral: a coronária sai, a RM entra
Na chegada: ECG + troponina + eco · excluir coronária conforme idade/risco (cate ou angio-TC) · RM cardíaca confirma (edema + realce não isquêmico — critérios de Lake Louise)
Estratificar: não complicada (FE preservada, sem arritmia, troponina em queda) → enfermaria/observação · complicada (FE ↓, arritmia, IC) → unidade monitorizada · fulminante (choque/deterioração em horas-dias) → item 02, agora
Por quê & armadilhas

A miocardite engana nas duas pontas: o jovem com "infartinho" pós-viral que na verdade tem doença benigna e autolimitada — e o mesmo jovem cuja FE despenca em 48 horas. O que separa os dois não é a troponina da chegada, é a trajetória: FE, ritmo e perfusão reavaliados de verdade nas primeiras 24–72 h. Toda miocardite internada merece essa vigilância ativa; a fulminante raramente avisa com antecedência educada.

ESC 2025 · SBC 2022 — diagnóstico e estratificação.
Fulminante: o telefonema vem antes do colapso
choque + miocardite = a melhor indicação de suporte mecânico que existe
Choque instalando: conduzir pelo choque cardiogênico (nora → inotrópico por fenótipo; doses no Hemo) + contato imediato com centro com ECMO/suporte mecânico — não esperar refratariedade
Sinais de alarme que anteciparam o telefonema: lactato subindo, BAV novo, TV recorrente, FE despencando entre dois ecos
Por quê & armadilhas

A miocardite fulminante é o cenário em que o suporte mecânico faz mais sentido em toda a cardiologia: o miocárdio não morreu — está inflamado, e inflamação passa. ECMO aqui é ponte para a recuperação de um coração que tende a voltar inteiro, o oposto do infarto extenso. Por isso o limiar de transferir é mais baixo que no choque isquêmico: o paciente jovem chocando por miocardite pertence a um centro com circulação extracorpórea antes de estar em três drogas no teto. E BAV + TV + choque na miocardite é a tríade que grita célula gigante — biópsia urgente muda o tratamento (item 07).

ESC 2025 · SBC 2022 — miocardite fulminante e suporte circulatório.
A disfunção ventricular — quarteto cedo, e por mais tempo que a FE
FEVE reduzida: tratar como IC, com um calendário próprio
FEVE ≤ 40%: IECA/BRA + betabloqueador + espironolactona (± SGLT2i), nas doses de início e alvo da página da IC · congestão: furosemida com as metas de lá
Manter por 6–12 meses no mínimo — mesmo que a FE normalize antes · a retirada é decisão de seguimento, com eco e RM de controle, nunca de alta
Por quê & armadilhas

O ventrículo da miocardite recupera com frequência — e é exatamente por isso que a armadilha é a pressa em desprescriver: a FE que normalizou em 3 meses ainda guarda inflamação e remodelamento em curso, e a suspensão precoce do bloqueio neuro-hormonal cobra em recidiva de disfunção. O betabloqueador tem a ressalva de sempre: não se inicia no baixo débito agudo — entra quando o paciente compensa, e aí fica.

SBC 2022 (duração mínima da terapia) · ESC 2025.
Arritmia na fase aguda — tratar o episódio, adiar o definitivo
o miocárdio inflamado é eletricamente instável — e provisoriamente
TV sustentada/instável: conduzir pela taqui instável/TV · TV recorrente ou TVNS sintomática: amiodarona 150 mg EV em 10 min → 1 mg/min 6 h → 0,5 mg/min 18 h · K⁺ ≥ 4,0 / Mg²⁺ ≥ 2,0
BAV avançado: marca-passo temporário pela escada das bradiarritmias — e a pergunta obrigatória: por que um jovem bloqueou? (célula gigante, sarcoidose, Chagas, Lyme) · CDI: não na fase aguda — reavaliar após 3–6 meses com RM
Por quê & armadilhas

A instabilidade elétrica da miocardite é da inflamação, não (necessariamente) da cicatriz — por isso o definitivo espera: implantar CDI na primeira semana é tratar como permanente um substrato que pode sumir com a resolução. O que não espera é o significado do BAV: bloqueio avançado em miocardite é bandeira vermelha etiológica (célula gigante e sarcoidose adoram o sistema de condução) e acelera a biópsia — enquanto o marca-passo temporário segura a hemodinâmica.

ESC 2025 · SBC 2022 — arritmias e dispositivo na miocardite.
Restrição de exercício — a prescrição que não é remédio
para todos, atleta ou não: repouso na fase aguda e retorno guiado pela remissão
Fase aguda: repouso — exercício nessa janela se associa a arritmia e morte súbita
Restrição até a remissão, no mínimo 1 mês, para atleta e não atleta, de forma individualizada (recomendação I C) · atividades leves da vida diária liberadas conforme sintomas
Remissão completa = sintomas, biomarcadores e imagem normalizados — reavaliação com eco + Holter ± RM antes de liberar, e a liberação vai por escrito no sumário de alta
Por quê & armadilhas

Miocardite é causa clássica de morte súbita no esporte — o miocárdio inflamado sob descarga adrenérgica é arena de arritmia ventricular. A restrição vale para o paciente "curado" da alta: a inflamação sobrevive semanas à troponina normalizada. Como é a prescrição mais fácil de se perder no caminho, ela vai escrita no sumário de alta, com a data da reavaliação que pode revogá-la — "evitar academia" dito de boca não sobrevive ao primeiro convite de futebol.

O prazo mudou, e vale saber por quê: os 3 a 6 meses que circulavam vêm das recomendações anteriores, e a ESC 2025 os chama de arbitrários — trocou o calendário fixo por remissão documentada, com piso de 1 mês. Não é afrouxamento: quem não normaliza segue restrito além dos 6 meses. É o reconhecimento de que segurar um jovem parado por meio ano sem critério tem custo real de saúde mental, e de que a alta do esporte se conquista com exame, não com data no calendário.

2025 ESC Guidelines for the management of myocarditis and pericarditis. Eur Heart J. 2025;46(40):3952–4041 — Tabela de Recomendações 26 (restrição até a remissão, mínimo 1 mês, I C) e Seção 12.5, que declara arbitrários os prazos fixos de 3–6 meses das recomendações prévias · SBC 2022.
Dor e febre — quem decide o AINE é a imagem, não a troponina
função ventricular normal libera o esquema da pericardite; disfunção veta
Dipirona 1 g EV/VO até 6/6 h SN ou paracetamol 500–750 mg VO 6/6 h · antiemético SN (ondansetrona 4–8 mg EV ou metoclopramida 10 mg EV) — ondansetrona prolonga QT: corrigir K e Mg, e considerar ECG em cardiopata, bradiarritmia, QT longo ou uso de outro prolongador (amiodarona) · metoclopramida não é automática: distonia, acatisia, parkinsonismo, sonolência e discinesia tardia — reduzir dose repetida no idoso e na disfunção renal/hepática
A régua da ESC 2025 — o que separa os dois cenários é a função ventricular na imagem (eco ou RM), não o valor da troponina:
CenárioComo se defineAnalgesia e anti-inflamatório
Miopericardite
pericardite predominante
critérios de pericardite aguda + troponina elevada, sem disfunção focal ou difusa nova de VE no eco/RMtrata-se como pericardite: AAS ou AINE em dose plena (ibuprofeno costuma ser o 1º) + colchicina + IBP obrigatório
Perimiocardite
miocardite predominante
envolvimento miocárdico dominante — disfunção de VE, IC ou arritmiatrata-se como miocardite pura: dipirona/paracetamol; AINE só para sintoma pericárdico associado, e nunca como anti-inflamatório do miocárdio
Colchicina 0,5 mg 12/12 h (0,5 mg/dia se < 70 kg ou intolerância) na miopericardite, para reduzir recorrência — IIa B. AINE com IBP, quando há sintoma pericárdico associado — IIa C
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Onde a troponina realmente entra — ela não decide o AINE (na miopericardite ela está elevada por definição) e, desde 2025, troponina alta sozinha não diagnostica miocardite: exige imagem que comprove envolvimento miocárdico. O lugar dela na conduta é outro — a ESC 2025 sugere betabloqueador na miocardite aguda, especialmente com troponina elevada, mantido por pelo menos 6 meses (IIa C).
Por quê & armadilhas

Vale dizer de onde vem o medo do AINE, porque ele é mais frágil do que parece: o dado de dano é experimental — em camundongos com miocardite por coxsackie B3, o anti-inflamatório aumentou necrose, título viral e mortalidade. Em humanos, a única série que testou a pergunta de frente (114 pacientes, retrospectiva) não encontrou pior desfecho, pior FE nem mais complicações com AINE. Ou seja: a restrição é precaução com base biológica, não dano comprovado em gente — e é exatamente por isso que a ESC 2025 não proíbe o AINE, ela o coloca em IIa C para o sintoma pericárdico e faz a distinção pela imagem.

O que muda na prática: pare de usar a troponina como semáforo. Ela sobe na miopericardite benigna e sobe no fulminante — o que separa os dois é o ventrículo. Diante de dor pleurítica com FE normal, o esquema de pericardite é o tratamento certo e negá-lo por reflexo condena o paciente a semanas de dor mal tratada. Diante de qualquer disfunção, o anti-inflamatório some da lista e o que resta é analgesia simples, terapia de IC e vigilância — porque ali o problema nunca foi a dor.

Diretriz: 2025 ESC Guidelines for the management of myocarditis and pericarditis. Eur Heart J. 2025;46(40):3952–4041 — Tabela de Recomendações 9 (AINE com IBP IIa C; colchicina IIa B; betabloqueador IIa C, especialmente com troponina elevada) e definição de miopericardite × perimiocardite · Dano experimental: Costanzo-Nordin MR, et al. A nonsteroid anti-inflammatory drug exacerbates coxsackie B3 murine myocarditis. J Am Coll Cardiol. 1985;6(5):1078–1082 · Série humana neutra: Mirna M, et al. J Cardiovasc Dev Dis. 2022;9(2):32 · SBC 2022.
Biópsia, imunossupressão e antivirais — nomear sem prescrever
o plantão indica a suspeita e o transporte; o regime é do centro
Biópsia endomiocárdica — quem pede: fulminante, BAV novo, TV recorrente, eosinofilia, refratária à terapia padrão · é ela que separa célula gigante, eosinofílica, sarcoidose e miocardite viral
Imunossupressão (pulsoterapia, timoglobulina, azatioprina...) — somente com biópsia confirmando forma imunomediada e sem vírus ativo, conduzida por centro especializado · antivirais — só com genoma viral demonstrado na biópsia · corticoide empírico na miocardite viral comum: não
Exceção com pressa: miocardite por inibidor de checkpoint (imunoterapia oncológica) — suspender a imunoterapia e iniciar corticoide em dose alta precocemente, junto com oncologia/cardio-oncologia
Por quê & armadilhas

A tentação de "dar um corticoide" na miocardite viral é antiga e a evidência é contra: na forma comum, imunossuprimir não ajuda e pode atrapalhar a limpeza do vírus. Já a célula gigante sem imunossupressão mata em semanas — e só a biópsia distingue as duas. É por isso que esta página nomeia os regimes sem transcrevê-los: a decisão certa aqui não é uma dose, é um encaminhamento com a suspeita certa escrita. A exceção do checkpoint é o lembrete moderno: no paciente oncológico em imunoterapia, a miocardite é emergência imunomediada onde o corticoide precoce salva — e a anamnese medicamentosa é o exame que a encontra.

SBC 2022 (indicações de biópsia e formas específicas) · ESC 2025 (incl. miocardite por ICI).
Kit do internado — e a alta que agenda o futuro
a miocardite se resolve no seguimento, não na alta
Monitorização contínua na fase aguda (arritmia não avisa) · dieta conforme estabilidade · profilaxia de TEV (enoxaparina 40 mg SC 1×/dia; ClCr < 30: HNF 5.000 UI 8/8–12/12 h) se sem ACO plena · HGT 6/6 h se DM/jejum/crítico (alvo 140–180, protocolo do serviço) · IBP só com indicação
Alta com: restrição de exercício por escrito + eco de controle agendado + RM de reavaliação (3–6 meses) + retorno em cardiologia marcado
Por quê & armadilhas

A miocardite é doença de trajetória: a decisão sobre CDI, sobre suspender o quarteto e sobre liberar o esporte mora toda nos exames de 3–6 meses — que só acontecem se saíram agendados. O sumário de alta desta doença é meio prontuário, meio contrato: o que foi visto, o que ficou proibido, e quando cada proibição será revista.

ESC 2025 · SBC 2022 · ADA 2026 (glicemia hospitalar).
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na miocardite.

AINE no miocárdio inflamado com disfunção — e o oposto: negar AAS/AINE + colchicina à miopericardite de função normal, que é dor pericárdica tratável. Corticoide empírico na miocardite viral sem biópsia. CDI na fase aguda. Liberar exercício cedo — ou só de boca. Betabloqueador iniciado no baixo débito. Suspender o quarteto porque a FE normalizou antes do prazo. Segurar o paciente fulminante longe do centro com suporte mecânico até a refratariedade. E não perguntar por imunoterapia oncológica — a miocardite por checkpoint se trata ao contrário das outras.

Prescreveu — e agora?

O caminho diagnóstico cruzou com o MINOCA; a disfunção usa a IC; o colapso, o choque cardiogênico; as arritmias, as páginas de TV e bradiarritmias. A miocardite é a página que mais conversa com as outras — como a doença.

Levar o caso ao assistente de conduta
Schulz-Menger J, Collini V, Gröschel J, et al.; ESC Scientific Document Group. 2025 ESC Guidelines for the management of myocarditis and pericarditis. Eur Heart J. 2025;46(40):3952–4041 (doi:10.1093/eurheartj/ehaf192). Montera MW, Marcondes-Braga FG, Simões MV, et al. Diretriz de Miocardites da Sociedade Brasileira de Cardiologia — 2022. Arq Bras Cardiol. 2022;119(1):143–211 (doi:10.36660/abc.20220412). Cooper LT. Myocarditis. N Engl J Med. 2009;360:1526–1538. American Diabetes Association. Diabetes Care in the Hospital — Standards of Care in Diabetes. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).