MINOCA
Infarto com troponina subindo e coronárias "limpas" não é um diagnóstico — é uma pergunta. A prescrição do MINOCA tem duas metades: investigar até achar o mecanismo, e tratar o mecanismo que aparecer.
Serve para o infarto sem obstrução coronariana — critérios de IAM preenchidos, cateterismo com lesões < 50% e nenhuma causa alternativa evidente. Até o cate, o paciente foi tratado como SCA sem supra ou com supra — e estava certo. Desta página em diante, o pacote único acaba: cada etiologia tem prescrição própria, e algumas se contradizem.
Condutas seguem o statement da AHA (2019), ESC e SBC, e não substituem o protocolo do seu serviço. No MINOCA o risco maior é de raciocínio: manter para sempre o "pacote de infarto" num paciente cujo mecanismo pedia outra coisa — ou pedia até a suspensão do que foi começado.
A ordem é a do raciocínio: entender o rótulo (é provisório), investigar (a RM dá o nome), e tratar pela etiologia — placa, embolia, vasoespasmo, ponte, SCAD. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
O erro fundacional do MINOCA é tratá-lo como resposta quando ele é pergunta: 6–8% dos infartos chegam com coronárias sem obstrução, e dentro desse rótulo convivem doenças com tratamentos opostos — o vasoespasmo que proíbe betabloqueador, a ponte que proíbe nitrato, a SCAD que pede menos antitrombótico. Dar alta com "IAM tratado, DAPT 1 ano" sem investigar é acertar por sorte em um terço dos casos e errar nos outros dois.
Tamis-Holland JE, et al. — AHA Scientific Statement (Circulation 2019) · ESC 2023.A RM é o divisor de águas do MINOCA porque responde a pergunta que o cate não respondeu: isso foi mesmo um infarto? Miocardite e takotsubo respondem por uma fração enorme dos "MINOCAs" — e ambos saem do rótulo e da prescrição de aterotrombose. A armadilha logística é a RM "ambulatorial em 6 meses": o realce e o edema que diagnosticam esmaecem com o tempo, e o exame tardio devolve um laudo inconclusivo para uma decisão que já foi tomada errada.
AHA 2019 · Occhipinti G, et al. (Eur Heart J Acute Cardiovasc Care 2021) — fluxo diagnóstico.Placa que rompe não precisa estenosar para infartar — a estenose "insignificante" de 30% com cap fino é a assassina silenciosa do MINOCA, e é por isso que a etiologia indefinida também recebe este esquema: na dúvida, a aposta estatística é aterosclerose. O que separa este cenário do infarto comum é só a ausência de stent — a biologia (e a prevenção secundária) é a mesma.
AHA 2019 · SBC 2021 · ESC 2023.Embolia coronária é o MINOCA em que a prescrição certa mora fora do coração: o trombo que foi para a descendente anterior é o mesmo que amanhã vai para a cerebral média — achar a FA silenciosa ou o FOP muda a história de dois órgãos. A armadilha é a inércia da DAPT: antiagregação dupla não trata cardioembolismo; quem tem fonte embólica precisa de anticoagulante, e mantê-lo sem diagnóstico de fonte é tão errado quanto suspendê-lo com ela.
AHA 2019 — MINOCA tromboembólico.É o exemplo perfeito de por que MINOCA não aceita pacote: a droga que o infarto comum recebe de rotina é a que o vasoespasmo proíbe. O BCC trata o mecanismo (o músculo liso que aperta), o nitrato cobre a crise, e a cocaína/tabaco são o gatilho que nenhuma dose compensa. Nos refratários existem opções de evidência menor (estatina, magnésio, cilostazol) — território de especialista, não de folha.
AHA 2019 · ESC — angina vasoespástica.A SCAD inverte os instintos do plantão duas vezes: o sangue que disseca a parede piora com mais antitrombótico (daí a suspensão ser prescrição), e o stent que "resolveria" costuma propagar a dissecção — a paciência do conservador vence a intervenção na maioria. É também o MINOCA com dono demográfico: mulher jovem sem fator de risco, às vezes puérpera, cujo "infarto inexplicável" ganha nome quando alguém revê o filme procurando o duplo lúmen.
Hayes SN, et al. — AHA Scientific Statement sobre SCAD (Circulation 2018) · AHA 2019.A ponte comprime a artéria na sístole — mas a coronária enche na diástole, então o problema real é o tempo diastólico que a taquicardia rouba. Tudo que alonga a diástole trata (betabloqueador, ivabradina, BCC não-DHP); tudo que taquicardiza ou tira o tônus da parede piora — e é por isso que ponte e vasoespasmo, vizinhos de capítulo, têm prescrições espelhadas: o betabloqueador proibido lá é a primeira escolha aqui, e o nitrato de lá é o proibido daqui. Etiqueta certa antes da droga certa.
Sternheim D, et al. — JACC State-of-the-Art (2021) · AHA 2019.O fechamento do MINOCA é uma evolução bem escrita: qual mecanismo, qual prova, e por que cada droga está na receita. O paciente que sai com "AAS + clopidogrel + estatina + betabloqueador + nitrato SN" sem etiologia carrega três drogas possivelmente certas e duas possivelmente proibidas — e nenhum médico do futuro saberá qual é qual. MINOCA bem tratado é MINOCA com sobrenome.
AHA 2019 · Templin C, et al. (NEJM 2015 — takotsubo).O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
O pacote único de infarto para todos. Betabloqueador no vasoespasmo. Nitrato na ponte miocárdica. Anticoagulação + DAPT mantidas na SCAD. DAPT no lugar de anticoagulante quando a fonte é embólica. Encerrar a investigação porque "o cate foi limpo" — o cate limpo é onde ela começa. E RM "ambulatorial para daqui a 6 meses" — o edema que diagnostica não espera.
A fase aguda correu nas páginas da SCA sem supra e com supra; se a fonte embólica for FA, a anticoagulação vive na página da FA; se sobrou disfunção ventricular, o quarteto está na IC. E a miocardite — o vizinho que a RM mais encontra — é a próxima página desta fila.
Levar o caso ao assistente de conduta