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IC descompensada

Duas perguntas de beira de leito — está congesto? está perfundindo? — dividem a IC descompensada em quatro perfis, e cada perfil tem uma prescrição. Esta página cuida da internação inteira: do diurético certo até a alta que evita a volta.

Serve para a IC descompensada internada — o quente-úmido de enfermaria que chegou congesto sem estar se afogando, o frio-seco enganoso, e a alta de todos eles. As crises têm páginas próprias: dispneia dramática com congestão é edema agudo de pulmão; má perfusão é choque cardiogênico.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Doses seguem AHA/ACC/HFSA 2022, ESC 2021 e SBC 2021, e não substituem o protocolo do seu serviço. Na titulação do quarteto, as doses-alvo são as dos ensaios — chegar nelas é trabalho de semanas, entre internação e ambulatório, não de uma folha.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: classificar o perfil (que escolhe a página), descongestionar o quente-úmido de verdade, manejar o frio-seco, e montar a alta com o quarteto. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Congesto? Perfundindo? — o perfil escolhe a prescrição
exame físico + POCUS respondem em minutos (Stevenson A/B/C/L)
Quente e seco (A): não é a doença desta internação — otimizar terapia oral (itens 06–07) e caçar por que o paciente veio
Quente e úmido (B): o mais comum — descongestionar (itens 02–04) · se a forma é EAP dramático → página do EAP
Frio e úmido (C): má perfusão + congestão → choque cardiogênico · Frio e seco (L): item 05
Por quê & armadilhas

Os perfis de Stevenson sobrevivem há décadas porque cabem em duas perguntas de beira de leito e mudam a droga inteira: o úmido precisa perder volume, o frio precisa de perfusão, e confundi-los inverte o tratamento (diurético no frio-seco piora; volume no quente-úmido afoga). O POCUS aposentou a dúvida: linhas B, VCI e a cara do VE respondem em três janelas o que o estetoscópio sugeria. E vale reclassificar todo dia — perfil é fotografia, não certidão.

AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021 · perfis clínicos de Stevenson.
Furosemida EV — dose de descongestão, metas de papel e balança
a internação existe para tirar litros; prescreva como quem vai conferir
Sem uso prévio: furosemida 20–40 mg EV · usuário crônico: 1–2,5× a dose diária domiciliar, EV, dividida 2–3×/dia (DOSE)
Reavaliar em 2–6 h pela diurese: resposta insuficiente → dobrar a dose (não repetir a mesma) · metas diárias: peso (mesma balança, mesmo horário), balanço negativo guiado pela congestão, diurese medida · K⁺/Mg²⁺/creatinina diários (repor K ≥ 4,0, Mg ≥ 2,0)
Por quê & armadilhas

O diurético tem limiar: dose abaixo dele é zero, não "metade" — por isso resposta ruim se trata dobrando, nunca repetindo. E a creatinina que sobe 0,3 durante descongestão eficaz não é ordem de parada: hemoconcentração com paciente urinando e desinchando costuma marcar sucesso, não lesão — o erro histórico das enfermarias é frear o diurético no meio do caminho e dar alta a um paciente "melhorzinho" e ainda cheio. Congestão residual na alta é o maior preditor de reinternação que existe.

DOSE (Felker GM, et al. N Engl J Med. 2011;364(9):797–805) — os braços foram e 2,5× a dose oral prévia, não mg/kg · ESC 2021 — 20–40 mg EV no virgem e ao menos a dose oral equivalente no usuário crônico · Mullens W, et al. HFA position statement sobre diuréticos. Eur J Heart Fail. 2019;21(2):137–155 (doi:10.1002/ejhf.1369) · AHA/ACC/HFSA 2022.
Resistência diurética — a escada antes de desistir
urina pouco apesar de dose adequada: há degraus antes do "nefrologista amanhã"
dobrar e fracionar (furosemida 2–3×/dia EV) ou infusão contínua (ex.: bolus + 5–20 mg/h) · bloqueio sequencial do néfron: associar hidroclorotiazida 25–50 mg VO (dar 30–60 min antes da furosemida é estratégia local, não requisito — o essencial é o bloqueio sequencial com Na, K, Mg, PA e função renal vigiados) · reavaliar o diagnóstico: perfil ainda é quente? PA? albumina? rim?
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O combo furosemida + tiazídico despenca potássio e magnésio — eletrólitos 1–2×/dia enquanto durar, reposição agressiva, e atenção à hiponatremia. É escada de dias contados, não esquema de manutenção.
Por quê & armadilhas

O néfron cronicamente exposto à furosemida hipertrofia o túbulo distal e passa a reabsorver ali o sódio que escapou da alça — o tiazídico bloqueia exatamente esse escape, e a dupla destrava diureses surpreendentes. O preço é eletrolítico e cobra vigilância. Se nem a escada resolve, a pergunta muda: é resistência diurética ou é perfil errado — um frio-úmido disfarçado, rim sem pressão de perfusão, que precisa da página do choque antes de mais alça.

AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021 — congestão refratária.
A terapia de sobrevida não espera a alta
manter o que dá, começar o que falta — ainda no hospital
Manter betabloqueador e IECA/BRA/INRA do paciente compensado que descongestiona bem (reduzir/segurar só por hipotensão, choque ou rim piorando)
Iniciar SGLT2i ainda internado, estabilizado: dapagliflozina 10 mg ou empagliflozina 10 mg VO 1×/dia (EMPULSE) — vale para FE reduzida e preservada · segurar se cetoacidose prévia, jejum prolongado ou DM1
Por quê & armadilhas

A internação é a maior janela terapêutica da vida do paciente com IC — e o hábito de "suspender tudo e deixar o ambulatório resolver" desperdiça-a duas vezes: a retirada do betabloqueador em quem tolerava piora desfecho, e o remédio não iniciado no hospital tem chance enorme de nunca ser iniciado. O EMPULSE mostrou que o SGLT2i começado na internação já traz benefício em 90 dias — e de quebra ajuda a diurese. Paciente que sai do hospital com o esquema andando chega vivo à consulta que o titula.

EMPULSE (Nat Med 2022) · AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021.
Perfil L — volume contado, e honestidade se não melhorar
mal perfundido sem congestão: às vezes é só diurético demais
Prova de volume: Ringer lactato ou SF 250 mL EV, reavaliando perfusão E congestão após cada alíquota · frequentemente o gatilho é excesso de diurético/vasodilatador — reduzir e reavaliar
Congestionou sem perfundir → parar volume: o paciente se declarou frio-úmido — inotrópico por fenótipo e o resto na página do choque cardiogênico
Por quê & armadilhas

O frio-seco verdadeiro é raro — e muitas vezes iatrogênico: o paciente aderente que secou demais na furosemida do mês passado. Por isso a prova de volume pequena tem dupla função: tratar o depletado e desmascarar o falso-seco, que congestiona na segunda alíquota e revela que o problema sempre foi bomba. A honestidade de parar o soro nesse momento — em vez de "completar os 500" — é o que separa a prova terapêutica do afogamento iatrogênico.

AHA/ACC/HFSA 2022 · perfis de Stevenson.
Alta com critérios — não com pressa
o dia da alta é o dia de maior risco da doença
Antes de assinar: congestão resolvida na leitura conjunta — sintomas, exame, peso, diurese, necessidade de O₂, função renal e eletrólitos, e resposta à dose oral. VCI normal sozinha não é critério de alta · estabilidade em diurético VO na dose que vai para casa (as 24 h de observação são protocolo local, não regra universal) · função renal/eletrólitos estáveis · quarteto iniciado · consulta de retorno em 7–14 dias marcada, não sugerida
Por quê & armadilhas

Um quarto das reinternações de IC acontece em 30 dias, e a maioria carrega a mesma etiqueta: saiu congesto, saiu sem o retorno marcado, ou saiu com a transição EV→VO feita na porta. As 24 h em diurético oral são o teste de estrada; o peso seco anotado na alta é o instrumento que o próprio paciente vai usar em casa ("ganhou 2 kg em 3 dias → ligar"); e a consulta precoce é a intervenção com melhor custo-benefício da doença — é nela que o quarteto sobe de dose.

AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021 — transição de cuidado.
O quarteto da FE reduzida — dose de início e dose-alvo
FEVE ≤ 40%: quatro classes que mudam mortalidade, tituladas até o alvo dos ensaios
Betabloqueador: carvedilol 3,125 mg 12/12 h → alvo 25 mg 12/12 h (50 se ≥ 85 kg) · succinato de metoprolol 12,5–25 mg/dia → alvo 200 mg/dia · bisoprolol 1,25 mg/dia → alvo 10 mg/dia
IECA ou BRA primeiro (acesso e prática): enalapril 2,5–5 mg → 10–20 mg VO 12/12 h · losartana 25–50 → 100–150 mg/dia se tosse/intolerância a IECA · captopril 12,5 → 50 mg 8/8 h quando se quer titulação rápida na internação
Trocar para sacubitril/valsartana quando persistem sintomas apesar de IECA/BRA otimizado na ICFEr (FEVE ≤ 40% — o PARADIGM-HF incluiu ≤ 40% e emendou para ≤ 35%): iniciar 49/51 mg 12/12 h → alvo 97/103 · 24/26 mg 12/12 h se PA limítrofe, eGFR < 30 ou Child-Pugh B (C: não recomendado) · washout de 36 h do IECA · contraindicado com angioedema prévio
Divergência declarada: a ACC/AHA 2022 admite o INRA já de início (classe 1); a ESC 2021 o coloca como substituto do IECA no sintomático. Esta página segue a sequência de acesso brasileiro — IECA/BRA primeiro, INRA na persistência
Espironolactona 25 mg/dia (eplerenona 25→50 mg se ginecomastia) — iniciar com eGFR > 30 e K < 5,0, com K e creatinina programados no início e após cada titulação · SGLT2i: dapagliflozina ou empagliflozina 10 mg/dia
FE preservada (≥ 50%): SGLT2i é a opção prognóstica mais forte — mas não literalmente "para todos": rever eGFR, risco de cetoacidose, jejum ou doença aguda, infecção genital/urinária e hemodinâmica + diurético conforme congestão; espironolactona/INRA considerados na faixa < 55–60%
Por quê & armadilhas

Cada classe do quarteto reduz mortalidade por caminho próprio, e o benefício soma — por isso a estratégia moderna é as quatro cedo em dose baixa, titulando depois, em vez de esgotar uma antes de abrir a próxima. Dois detalhes de segurança que a pressa engole: valsartana na IC é de 12/12 h (a dose única diária é regime de hipertensão), e a troca IECA→sacubitril/valsartana exige as 36 horas de intervalo — angioedema pela soma de bradicinina é raro e desastroso. Betabloqueador não se inicia em dose cheia no recém-congesto: começa homeopático e sobe a cada 2 semanas.

AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021 · SBC 2021 · PARADIGM-HF · EMPEROR/DELIVER (FE preservada).
Kit do internado — com balança no centro
o padrão das outras páginas, ajustado ao congesto
Dieta hipossódica · restrição hídrica individualizada (ex.: 1.000–1.500 mL/dia se hiponatremia/congestão refratária — não é dogma universal) · peso diário + balanço hídrico como sinais vitais · profilaxia de TEV (enoxaparina 40 mg SC 1×/dia; ClCr < 30: HNF 5.000 UI 8/8–12/12 h) se sem anticoagulação plena · HGT 6/6 h se DM/jejum/crítico (alvo 140–180, protocolo do serviço) · monitorização conforme gravidade
Por quê & armadilhas

Na IC internada, a balança é o monitor mais barato do hospital — e o mais sabotado: horário diferente, roupa diferente, balança diferente, e o "perdeu 1 kg" vira ruído. Prescreva o ritual, não só a pesagem. E o detalhe de farmácia que descompensa gente: soro de manutenção "de rotina" correndo a 100 mL/h devolve à veia o que a furosemida tirou — paciente congesto não tem soro de manutenção, tem balanço vigiado.

ADA 2026 (glicemia hospitalar) · ESPEN 2023 · rotina do internado clínico.
A ordem de início — depois da estabilidade, sem esperar o ambulatório
não há ensaio comparando sequências; o que tem evidência forte é começar cedo e titular rápido com revisão precoce
Sequência prática na internação, estabilizado (sem vasopressor, descongestionando): 1) manter/retomar o betabloqueador que a descompensação não contraindicou · 2) SGLT2i ainda internado (EMPULSE) · 3) IECA/BRA quando PA e rim permitirem · 4) espironolactona antes da alta, com K e creatinina programados
Titulação rápida com revisão precoce: subir as doses nas primeiras 2–6 semanas, com consulta e laboratório na 1ª–2ª semana pós-alta — é o desenho do STRONG-HF, que reduziu reinternação e morte em 180 dias com estratégia de alta intensidade
A ordem exata entre as classes é consenso, não ensaio — o que o dado sustenta é: as quatro cedo em dose baixa > uma no alvo, e revisão marcada antes da alta
Por quê & armadilhas

O STRONG-HF é a melhor evidência disponível sobre como sair da internação: titulação intensiva precoce com quatro revisões em seis semanas foi interrompido por benefício — menos morte e reinternação — contra o cuidado usual. Ele não testou uma ordem específica de classes; testou a pressa organizada. A ordem sugerida acima é operacional: começa pelo que o paciente já usava, soma o que não mexe em PA (SGLT2i), e deixa por último o que exige laboratório de controle.

Mebazaa A, Davison B, Chioncel O, et al. Safety, tolerability and efficacy of up-titration of guideline-directed medical therapies for acute heart failure (STRONG-HF). Lancet. 2022;400(10367):1938–1952 · Voors AA, et al. EMPULSE. Nat Med. 2022;28:568–574.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na IC descompensada.

Soro de manutenção de rotina no congesto. Furosemida repetida na mesma dose que não funcionou (dobra-se). Suspender o quarteto por reflexo no paciente que o tolerava. Parar a descongestão pela creatinina que subiu 0,3 em quem urina e desincha. Alta com congestão residual e sem retorno marcado. Valsartana 1×/dia na IC. Sacubitril/valsartana sem as 36 h de washout do IECA. AINEs. E diurético no frio-seco — o perfil errado inverte a droga.

Prescreveu — e agora?

Se o quadro escalar para o afogamento agudo, a conduta é a do EAP; se esfriar, a do choque cardiogênico. FA descompensando a IC cruza com a página da FA (lembrando: diltiazem/verapamil proibidos na FE reduzida). E a causa da descompensação — infecção, isquemia, má adesão, arritmia — merece nome na evolução: IC que descompensa "do nada" é investigação incompleta.

Levar o caso ao assistente de conduta
Heidenreich PA, et al. 2022 AHA/ACC/HFSA Guideline for the Management of Heart Failure. Circulation. 2022;145(18):e895–e1032. McDonagh TA, et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2021;42(36):3599–3726 (doi:10.1093/eurheartj/ehab368) — e atualização focada 2023. Marcondes-Braga FG, et al. Atualização de Tópicos Emergentes da Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca — 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;116(6):1174–1212 (doi:10.36660/abc.20210367). Felker GM, et al. Diuretic strategies in patients with acute decompensated heart failure (DOSE). N Engl J Med. 2011;364:797–805. Voors AA, et al. The SGLT2 inhibitor empagliflozin in patients hospitalized for acute heart failure (EMPULSE). Nat Med. 2022;28:568–574. Kittleson MM, et al. 2023 ACC Expert Consensus Decision Pathway on Management of Heart Failure With Preserved Ejection Fraction. J Am Coll Cardiol. 2023;81(18):1835–1878. McMurray JJV, Packer M, Desai AS, et al. Angiotensin–neprilysin inhibition versus enalapril in heart failure (PARADIGM-HF). N Engl J Med. 2014;371(11):993–1004 (doi:10.1056/NEJMoa1409077). Anker SD, Butler J, Filippatos G, et al. Empagliflozin in Heart Failure with a Preserved Ejection Fraction (EMPEROR-Preserved). N Engl J Med. 2021;385(16):1451–1461 (doi:10.1056/NEJMoa2107038). Solomon SD, McMurray JJV, Claggett B, et al. Dapagliflozin in Heart Failure with Mildly Reduced or Preserved Ejection Fraction (DELIVER). N Engl J Med. 2022;387(12):1089–1098 (doi:10.1056/NEJMoa2206286). McDonagh TA, Metra M, Adamo M, et al. 2023 Focused Update of the 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. Eur Heart J. 2023;44(37):3627–3639 (doi:10.1093/eurheartj/ehad195).