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AVC hemorrágico

O hematoma da TC não é o hematoma final: um terço expande nas primeiras horas — e é contra essa expansão que a primeira hora joga. Reverter o anticoagulante, baixar a pressão sem despencar, ligar para a neurocirurgia certa. E uma regra de humildade: o prognóstico espera 72 horas.

Serve para a hemorragia intraparenquimatosa espontânea — o "AVCh hipertensivo" do plantão — da TC positiva à UTI. A HSA aneurismática é outra doença com outra página (a próxima da fila); o TCE e a hemorragia em anticoagulado por outra causa compartilham a reversão daqui. O raciocínio neurocrítico profundo vive no módulo neuro; esta é a prescrição que o acompanha.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem AHA/ASA 2022 (hemorragia intracerebral espontânea), e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com a neurocirurgia. CCP e idarucizumabe não existem em todo hospital — saber o que a sua farmácia tem antes do plantão é parte desta prescrição.

Como usar.

A ordem é a da primeira hora: a TC que muda tudo, a reversão da anticoagulação (o item mais urgente que o PDF de bolso esquece), a pressão suave e sustentada, o telefonema da neurocirurgia — e então a UTI que protege o cérebro que sobrou, até o prognóstico com prazo. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

A TC que muda tudo — e as três perguntas que ela dispara
anticoagulado? cerebelo? hidrocefalia? — cada sim é um relógio diferente
Na TC positiva, responder já: localização (lobar · profunda · cerebelar · tronco) + volume estimado + sangue ventricular/hidrocefalia · usa anticoagulante ou antiagregante? (a pergunta mais urgente da anamnese — item 02)
Vigilância desde já: escala de coma documentada (Glasgow + pupilas) com frequência escrita (30/30 min no início) e gatilho de reimagem: rebaixamento, anisocoria, vômito novo → TC agora
UTI/unidade neuro desde o início · jovem sem hipertensão, hematoma lobar, ou sangue "fora do lugar" → programar angio-TC (MAV? aneurisma? — a causa muda o tratamento)
Por quê & armadilhas

O AVCh é a doença da segunda hora: o paciente que chegou falando e "só" hemiparético pode estar herniando às 3 h da manhã porque o hematoma cresceu 40% — e a expansão acontece cedo, o que faz da primeira hora o único momento em que a prescrição ainda disputa o tamanho final. Por isso as três perguntas são triagem, não burocracia: o anticoagulado tem antídoto com relógio (item 02), o cerebelo tem cirurgião com relógio (item 04), a hidrocefalia tem dreno com relógio. E a vigilância precisa de gatilho escrito — "observar" sem critério é descobrir a herniação no plantão seguinte.

AHA/ASA 2022 — expansão precoce do hematoma; investigação vascular dirigida.
Anticoagulado? Reverter AGORA — cada droga tem seu antídoto
o item mais urgente da página: sangramento cerebral + anticoagulante = emergência dentro da emergência
Suspender o anticoagulante — óbvio que se esquece
Varfarina — quem reverter, com o quê, e a partir de qual INR
O gatilho é o sangramento, não o número. Todo AVCh em uso de varfarina com INR ≥ 2,0 tem indicação Classe 1 de CCP de 4 fatores, preferido ao plasma, para corrigir rápido e conter a expansão do hematoma. Não se espera evolução, nem TC de controle, nem parecer: hemorragia intracraniana em anticoagulado é a indicação
INR entre 1,3 e 1,9: zona cinzenta — pode ser razoável usar CCP (recomendação Classe 2b). Aqui sim entra julgamento: hematoma grande, em expansão, ou cirurgia iminente pesam a favor; INR 1,3 com hematoma pequeno e estável pesa contra
Vitamina K 10 mg EV em infusão lenta (diluída, em 20–30 min) — logo depois do CCP, não no lugar dele. Ela não corrige nada nas próximas horas: repõe a síntese hepática dos fatores e existe para impedir que o INR volte a subir quando o CCP for consumido, por volta de 6–12 h
Dose do CCP 4F pelo INR (unidades de fator IX, pelo peso — teto de peso em 100 kg):
INRDoseMáximoPaciente de 70 kg
2 a < 425 UI/kg2.500 UI1.750 UI
4 a 635 UI/kg3.500 UI2.450 UI
> 650 UI/kg5.000 UI3.500 UI
Alvo e conferência: INR < 1,4 · rechecar em 30–60 min — não atingiu, redosar conforme hematologia/protocolo · repetir o INR em 6–12 h, porque é quando o efeito do CCP cai e a vitamina K ainda pode não ter assumido
Plasma fresco congelado: só quando não há CCP. São 10–15 mL/kg (cerca de 1 litro no adulto) esperando descongelamento e prova cruzada, com correção incompleta e risco de sobrecarga volêmica e TRALI num paciente que você está tentando manter com a pressão controlada. É a alternativa da falta, não uma escolha equivalente
!
Não se transfunde hemocomponente para corrigir exame nesta página. Nem plaquetas por uso de AAS (o PATCH piorou desfecho), nem plasma para "melhorar o INR" de quem não usa varfarina, nem crioprecipitado sem hipofibrinogenemia documentada, nem concentrado de hemácias por hemoglobina isolada sem sangramento ou isquemia. O que se corrige aqui é anticoagulação farmacológica identificada — e cada componente entra com alvo escrito e reavaliação, não como reflexo diante de um coagulograma alterado.
Dabigatrana: idarucizumabe 5 g EV (2 frascos) · rivaroxabana/apixabana/edoxabana: CCP 4F 50 UI/kg — registrar fármaco, horário da última dose e ClCr; anti-Xa específico ajuda quando disponível. Andexanet saiu do mercado americano em dez/2025 (FDA: risco tromboembólico superou o benefício); no Brasil, conferir registro e estoque antes de contar com ele · HNF: protamina 1 mg por 100 UI das últimas 2–3 h, máx. 50 mg, infundir em 10 min · enoxaparina: se < 8 h, protamina 1 mg por 1 mg de enoxaparina; se > 8 h (ou 2ª dose), 0,5 mg por 1 mg; após ~12 h pode não ser necessária — a reversão do anti-Xa é sempre parcial
Antiagregante em uso: suspender — e NÃO transfundir plaquetas de rotina (piora desfecho; exceção: plaquetopenia real ou decisão neurocirúrgica) · ácido tranexâmico: não de rotina
Por quê & armadilhas

O hematoma do anticoagulado expande mais, por mais tempo, e mata mais — e é o único cenário do AVCh com tratamento de eficácia inquestionável esperando na farmácia: cada minuto de INR 3 é sangue novo na cápsula interna. As armadilhas são de logística e de meia-medida: a vitamina K sozinha demora 12–24 h (ela repõe a síntese; quem para o sangramento agora é o CCP — os dois juntos, sempre); o plasma "porque não tem CCP" precisa de descongelamento, prova e litros que o hipertenso intracraniano não comporta. E a lição do PATCH vale tatuagem: a transfusão de plaquetas no usuário de AAS, que parece óbvia, piorou os desfechos — suspender sim, transfundir não.

Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — CCP de 4 fatores preferido ao plasma no AVCh por antagonista da vitamina K com INR ≥ 2,0 (Classe 1, B-R); vitamina K EV logo após a reposição de fatores, para evitar nova elevação do INR e expansão tardia (Classe 1, C-LD); CCP com INR de 1,3 a 1,9 pode ser razoável (Classe 2b) · dose de CCP 4F por INR conforme bula do Kcentra · FDA, comunicado de segurança do Andexxa (18/12/2025) — venda encerrada nos EUA em 22/12/2025 após o ANNEXA-I mostrar trombose 14,6% vs 6,9% e morte por trombose 2,5% vs 0,9% · PATCH (plaquetas) · TICH-2 (TXA sem benefício de rotina).
Pressão: suave até 140 — começar cedo, não despencar, não oscilar
o alvo é uma faixa (130–150) e uma qualidade: queda limpa e sustentada
PAS 150–220: reduzir para PAS ~140 (faixa 130–150) iniciando na primeira hora — evitar < 130 e evitar quedas > 60–90 mmHg em 1 h · PAS > 220: infusão contínua com redução cautelosa e monitorização intensiva
Droga: EV titulável em bombanicardipina é a primeira escolha onde existir (não eleva PIC e é a mais estudada no AVCh); labetalol e esmolol são alternativas seguras do ponto de vista da PIC
Realidade brasileira: nitroprussiato 0,25–0,5 mcg/kg/min titulando com PA de 3–5 min (preparo na página da PA muito elevada) — funciona, mas com uma ressalva que a maioria dos textos omite: por ser vasodilatador cerebral direto, ele pode aumentar a PIC e reduzir a pressão de perfusão justamente em quem já tem complacência esgotada. Havendo nicardipina, labetalol ou esmolol, prefira; usando nitroprussiato no paciente com sinais de HIC, vigie o exame neurológico de perto e mantenha o alvo pelo tempo mais curto possível
Betabloqueador não entra "porque está taquicárdico". Taquicardia sinusal no AVCh quase sempre é consequência — dor, ansiedade, bexiga cheia, febre, hipovolemia, resposta adrenérgica ao próprio sangramento — e trata-se a causa, não a frequência. Não há evidência que sustente betabloquear a taquicardia sinusal aqui, e a frequência elevada é sinal clínico útil que você apaga. Metoprolol EV 5 mg só com indicação própria: FA de alta resposta, taquiarritmia supraventricular, isquemia miocárdica concomitante — ou labetalol/esmolol quando o betabloqueio é escolhido como o anti-hipertensivo da vez, o que é diferente de tratar o número da frequência
PA invasiva: pondere — não é automática pelo diagnóstico. Indique quando a meta é difícil de manter, quando há droga titulável em ascensão, quando a medida não invasiva parece pouco confiável, ou quando a variabilidade da pressão é o que você está tentando controlar
Tão importante quanto o alvo: a variabilidade — a pressão serrote (pico-vale-pico) piora desfecho; titulação fina em bomba, nunca bolus de "ataque" nem comprimido somado à bomba
Por quê & armadilhas

O AVCh fica no meio-termo que os dois vizinhos não ocupam: não é a permissividade do isquêmico (aqui pressão alta é combustível de expansão) nem a pressa da dissecção (derrubar demais isquemia a zona ao redor do hematoma e o rim). Os ensaios desenharam a nuance: baixar cedo para ~140 é seguro e provavelmente reduz expansão (INTERACT2); forçar < 130 agressivamente não ajuda e machuca rim (ATACH-2); e as análises de variabilidade mostraram que a oscilação prediz desfecho ruim tanto quanto o nível — o que condena o manejo por bolus reativo e coroa a bomba bem titulada. A meta não é um número na chegada: é uma linha reta nas próximas 24 h.

AHA/ASA 2022 · INTERACT2 · ATACH-2 — alvo ~140, suave e sustentado.
O telefonema da neurocirurgia — cerebelo e hidrocefalia não esperam
a decisão é do especialista; o horário do telefonema é do plantão
Emergência cirúrgica clara: hematoma CEREBELAR — a evacuação imediata é Classe 1, preferida ao tratamento clínico isolado, quando há qualquer um destes: deterioração neurológica · compressão de tronco · hidrocefalia por obstrução ventricular · volume ≥ 15 mL
O volume virou critério por si só — é a mudança que a diretriz de 2022 trouxe e que o material antigo (o do "> 3 cm") ainda não reflete: ≥ 15 mL opera mesmo com o paciente acordado, sem esperar a deterioração. Os 3 cm de diâmetro seguem servindo como alerta visual rápido na TC, não como o critério
No cerebelar, DVE isolada não substitui a evacuação — drenar o ventrículo sem retirar a massa da fossa posterior não é recomendado: alivia a hidrocefalia e deixa o tronco comprimido
Hidrocefalia aguda (sangue ventricular, ventrículos dilatando, rebaixamento) → DVE · rebaixamento desproporcional ao hematoma = pensar nela
Hematoma supratentorial: a craniotomia de rotina tem utilidade incerta (Classe 2b) — não melhora desfecho funcional de forma consistente. Ela entra como salvamento na deterioração com efeito de massa, e as técnicas minimamente invasivas reduzem mortalidade (com desfecho funcional neutro) onde a equipe as domina — discutir cedo, decidir junto
Por quê & armadilhas

A fossa posterior é um cômodo sem espaço de manobra: o cerebelo que sangra comprime o IV ventrículo (hidrocefalia em horas) e o tronco (parada respiratória sem aviso) — e o paciente cerebelar engana, porque fica "só tonto e vomitando" até deixar de estar. É a única topografia do AVCh em que a cirurgia salva com consistência, e o erro fatal é de agenda: "observar" um cerebelar de 3,5 cm acordado é apostar a vida dele na sorte da madrugada. No supratentorial a história é oposta — os grandes ensaios de evacuação aberta não mostraram o mesmo benefício, e a decisão vira caso a caso. Por isso o item não manda operar: manda ligar — com a TC na mão e o relógio na frase.

Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — no AVCh cerebelar com deterioração neurológica, compressão de tronco, hidrocefalia obstrutiva ou volume ≥ 15 mL, a remoção cirúrgica imediata (com ou sem DVE) é recomendada em preferência ao tratamento clínico isolado, para reduzir mortalidade (Classe 1, B-NR); no cerebelar, tratamento inicial com DVE isolada em vez de evacuação não é recomendado; no supratentorial de gravidade moderada ou maior, a utilidade da craniotomia para melhorar desfecho funcional ou mortalidade é incerta (Classe 2b, A), com redução de mortalidade e desfecho funcional neutro nas abordagens minimamente invasivas.
Hipertensão intracraniana — o básico bem feito, e o osmótico como ponte
o básico primeiro, salina hipertônica antes do manitol, e tudo isso é ponte
1º · O básico, que é de graça e vem antes de qualquer frasco
Cabeceira 30° com cabeça centrada e jugulares livres (colar cervical apertado e cadarço de tubo justo sobem PIC) · analgesia e controle da agitação · normotermia — febre é aumento de demanda · normocapnia (PaCO₂ 35–40) · normovolemia com sódio normal-alto, nunca soro hipotônico · tratar dor, retenção urinária e crise não convulsiva antes de culpar "a pressão"
2º · Osmótico — salina hipertônica é a preferida no AVCh
A ordem mudou e vale saber por quê: a diretriz de edema cerebral sugere solução salina hipertônica em vez de manitol no controle de PIC e edema do AVCh. A vantagem não é potência — é que a salina expande volume enquanto desidrata o cérebro, ao passo que o manitol é diurético osmótico e cobra volemia e pressão de perfusão exatamente de quem não pode perder nenhuma das duas
Sinais de HIC/herniação (anisocoria, rebaixamento em queda, postura) — bolus guiado por sintoma, não horário fixo:
EscolhaDoseComo preparar / correr
1ª · NaCl 20% preferida30–40 mL EVampolas de 10 mL (3,4 mEq de Na/mL) · em 10–20 min, acesso central de preferência — é a via mais rápida de entregar sódio quando o paciente está herniando
1ª · NaCl 3%150–250 mL EVem 15–20 min · aceita veia periférica calibrosa — preparo e equivalências na página da hiponatremia
2ª · Manitol 20%1 g/kg EVem 20–30 min · frasco de 250 mL = 50 g; 70 kg ≈ 350 mL · repique de 0,25–0,5 g/kg com nova deterioração ou PIC
Alvos e freios: Na até 155–160 mEq/L, sem ultrapassar · osmolaridade < 320 mOsm/L com manitol · vigiar volemia, função renal e osm gap · evitar manitol no paciente hipotenso, hipovolêmico ou com lesão renal — ali a salina é a escolha, não a alternativa
Enquanto o osmótico corre: TC + telefonema (a causa tratável — hidrocefalia, expansão — é o alvo real) · hiperventilação: só resgate breve a caminho da solução definitiva · corticoide: NÃO
Por quê & armadilhas

A hierarquia entre os dois osmóticos é menos sobre qual "puxa mais água" e mais sobre o que cada um faz com o resto do paciente. A salina hipertônica entrega sódio e fica no intravascular: sobe a pressão arterial média, sustenta a pressão de perfusão cerebral e não obriga a repor o que ela mesma tirou. O manitol faz o gradiente e depois vai embora pelo rim levando volume junto — no paciente já seco, hipotenso ou com creatinina subindo, ele troca PIC por perfusão, que é um péssimo negócio. Daí a diretriz de edema cerebral sugerir hipertônica no AVCh, e daí a ordem desta página.

A conta do manitol merece a ênfase: o frasco de 20% tem 50 gramas em 250 mL — e material de bolso circulando por aí imprime "50 mg", um erro de mil vezes que transforma o osmótico em água benta. A dose de ataque de 1 g/kg é um frasco e meio para o adulto médio, não "um pouquinho". Dito isso, a hierarquia importa: osmótico é ponte química para uma solução mecânica — ele encolhe o cérebro saudável para dar minutos ao dreno ou à craniotomia, e o plantão que repete manitol de horário "porque funcionou" está gastando a volemia e a osmolaridade do paciente para adiar um telefonema. E o corticoide, que parece intuitivo, não funciona no edema do AVCh e soma infecção e hiperglicemia — veto antigo e mantido.

Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 — "sugerimos usar soluções salinas hipertônicas em vez de manitol para o manejo de PIC ou edema cerebral em pacientes com hemorragia intracerebral" (recomendação condicional, evidência de muito baixa qualidade) e bolus guiado por sintoma como estratégia apropriada · Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — terapia osmótica como medida temporizadora; corticoide não indicado no edema do AVCh · Equivalências de NaCl 20% × 3% calculadas pelo peso molecular (ver hiponatremia).
Crise convulsiva: tratar quem tem — profilaxia para ninguém
e o rebaixado "demais para o hematoma" merece a pergunta do status não convulsivo
Sem anticonvulsivante profilático — não melhora desfecho e sedação atrapalha o exame que é sua monitorização
Crise em atividade: benzodiazepínico em dose plena primeiro — sequência completa na crise epiléptica
Persistiu ou é status: levetiracetam 60 mg/kg EV em 10–15 min — máximo de 4.500 mg, que é o teto do ensaio que validou a dose (acima de 75 kg já se bate no teto)
Manutenção depois do ataque: 1.000–1.500 mg EV/VO 12/12 h, iniciada 10–12 h após a dose de ataque · ajuste renal: reduzir a partir de ClCr < 50 e dose suplementar após hemodiálise · manter enquanto durar a fase aguda, reavaliando a necessidade com o neurologista — crise tratada não vira anticonvulsivante para sempre
Manutenção, quando indicada: 500–1.000 mg 12/12 h · ajuste renal: ClCr 50–80 → 500–1.000 mg 12/12 h · 30–50 → 250–750 mg 12/12 h · < 30 → 250–500 mg 12/12 h · diálise → 500–1.000 mg 24/24 h + 250–500 mg pós-sessão. O ataque de emergência não se reduz pela função renal
A preferência pelo levetiracetam é operacional (poucas interações, sem nível sérico obrigatório), não superioridade de desfecho provada. Ele pode causar sonolência e alterações de comportamento — poucas interações não é nenhuma · fenitoína como alternativa local: 15–20 mg/kg EV em SF 0,9%, ≤ 50 mg/min com monitor (hipotensão/arritmia na infusão rápida)
Rebaixamento desproporcional ou flutuante sem explicação na TC → EEG (status não convulsivo existe e passa despercebido) · crise em atividade agora: benzodiazepínico primeiro — sequência completa na página da crise epiléptica (próxima da fila)
Por quê & armadilhas

A tentação da profilaxia é compreensível — sangue cortical irrita — mas os dados foram na contramão: fenitoína profilática associou-se a pior desfecho funcional no AVCh, e a diretriz a aposentou. O que ficou é mais fino: tratar a crise que existe, e procurar a que se esconde — o status não convulsivo é o diagnóstico que explica o Glasgow 8 de um hematoma que deveria dar 12, e sem EEG ele vira "evoluiu mal" no prontuário. O levetiracetam ganhou espaço sobre a fenitoína pelo perfil: não derruba a pressão na infusão, sonolência bem menor e poucas interações. Menos, não zero — ele pode sedar e alterar o comportamento, e essa preferência é operacional, não superioridade de desfecho demonstrada.

AHA/ASA 2022 — sem anticonvulsivante profilático (classe de não benefício); EEG no rebaixamento desproporcional · dose de status conforme ESETT/ACEP 2024 · ajuste renal e perfil de efeitos conforme bula do levetiracetam.
O kit do crítico neuro — disfagia, TEV em duas fases, o "normal em tudo"
as mesmas regras da casa, com os relógios do hematoma
Nada por via oral (nem comprimido) até a triagem de disfagia — a regra do AVCi vale idêntica aqui · falhou/rebaixado → SNE
TEV em duas fases: compressão pneumática intermitente desde o dia 1enoxaparina 40 mg SC 1×/dia após 24–48 h com TC de controle estável (sem expansão) e PA controlada — hematoma parado não é licença para trombose: este paciente é altíssimo risco de TEV
Glicemia 140–180 · febre: tratar agressivamente + procurar foco · SpO2 ≥ 94% · euvolemia com SF 0,9% — nunca hipotônico/glicosado · omeprazol com indicação (VM > 48 h, coagulopatia) · cabeceira e higiene oral como prescrição
Por quê & armadilhas

O paradoxo do TEV é o coração deste item: o paciente que acabou de sangrar no cérebro é, ao mesmo tempo, um dos maiores riscos de TVP do hospital (plégico, imóvel, inflamado) — e a resposta não é escolher um medo, é faseá-los: mecânico agora, químico quando a TC de 24–48 h disser que o hematoma parou. Pular a fase mecânica "porque logo entra a enoxaparina" e esticar o "sem profilaxia" por uma semana são os dois erros espelhados. O resto do kit é a fisiologia de sempre — cada grau de febre, cada glicemia de 300 e cada soro hipotônico trabalham para o edema perilesional, e nenhum deles aparece no boletim como "piorou do AVC".

AHA/ASA 2022 — CPI desde D1; química após estabilidade documentada.
O prognóstico espera 72 horas — e o depois se programa, não se improvisa
a decisão mais pesada da página não é de dose: é de tempo
Não limitar suporte nas primeiras 48–72 h com base na impressão da chegada — suporte pleno, reavaliação seriada, decisões com a família depois da janela e com dados (não com o Glasgow da primeira noite)
O depois, com data: PA crônica controlada é A prevenção secundária (a meta ambulatorial se escreve na alta) · retomada de anticoagulação (se a FA/prótese exigir): decisão programada em semanas, individualizada com neuro/cardio — não "nunca mais" nem "segunda-feira"
Reabilitação precoce · investigação da causa completada (angio-TC feita? cavernoma? angiopatia amiloide no idoso lobar?) · alta com retorno neurológico marcado
Por quê & armadilhas

O dado mais desconfortável da literatura de AVCh: boa parte da mortalidade precoce é mediada pela retirada de suporte, não pela lesão — o prognóstico sombrio da primeira noite vira profecia autorrealizável quando desliga a UTI que o testaria. Pacientes com hematomas idênticos têm desfechos opostos conforme o hospital "acredita" neles ou não. A resposta da diretriz é uma janela: 48–72 h de suporte pleno agressivo antes de qualquer conversa definitiva, porque o cérebro que hoje não responde pode estar edemaciado, sedado e hidrocefálico — três coisas tratáveis. Não é obstinação: é dar ao prognóstico a chance de ser diagnóstico.

AHA/ASA 2022 — evitar limitação precoce de suporte; prognosticação após estabilização.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ ≥ 94%. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
No AVCh e na HSA — o gatilho não é o escore, é a lesão
Hematoma intraparenquimatoso: compressão pneumática intermitente desde o dia da admissão · a profilaxia farmacológica entra depois de documentar que o hematoma parou de crescer — na prática, TC de controle estável e, na maioria dos protocolos, 24 a 48 h do início
Hemorragia subaracnoide por aneurisma: heparina só depois do aneurisma tratado. Enquanto o aneurisma está sem clipagem ou embolização, o risco em jogo não é o do hematoma expandir — é o de ressangramento do aneurisma roto, cuja letalidade é altíssima. Nessa janela, a profilaxia é exclusivamente mecânica
Depois de garantido o aneurisma, a profilaxia — farmacológica ou mecânica — é recomendada (Classe 1). Sobre quando exatamente liberar a heparina, seja honesto com a incerteza: a diretriz declara que o momento ideal em relação à oclusão do aneurisma segue indefinido, e o dado disponível — um estudo caso-controle — não encontrou diferença de hemorragia intracraniana entre iniciar ≤ 24 h ou > 24 h após a oclusão. Na prática: combine o horário com quem tratou o aneurisma e escreva no prontuário; o que não se faz é deixar o paciente sem nenhuma das duas · detalhes na página da HSA
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457 · HSA: Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — profilaxia de TEV farmacológica ou mecânica recomendada naqueles cujo aneurisma roto já foi tratado (Classe 1, C-LD); a diretriz registra que o momento ideal da profilaxia farmacológica em relação à oclusão do aneurisma permanece indefinido, com estudo caso-controle sem diferença de hemorragia intracraniana entre início ≤ 24 h e > 24 h · AVCh: Greenberg SM, et al. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — compressão pneumática intermitente desde o dia da admissão; heparina profilática após documentar cessação da expansão do hematoma.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho no AVC hemorrágico.

Transfundir plaquetas no usuário de antiagregante — o PATCH mostrou dano; suspender basta. Vitamina K sozinha para reverter varfarina — sem CCP é meia reversão. Corticoide para o edema. Anticonvulsivante profilático. Ácido tranexâmico de rotina. PAS forçada < 130 — e a pressão serrote de bolus reativos. Manitol "de horário" sem alvo — e a dose homeopática de quem confundiu 50 g com 50 mg. Hiperventilação profilática. Soro hipotônico/glicosado. Dieta (ou comprimido) antes da triagem de disfagia. "Observar" o hematoma cerebelar. E decidir a vida do paciente na primeira noite — a janela de 72 h existe para proteger o prognóstico de si mesmo.

Prescreveu — e agora?

O raciocínio neurocrítico completo — HIC, PPC, imagem — vive no módulo neuro. O outro lado da primeira TC é o AVC isquêmico; a cefaleia súbita com TC "limpa" pede a HSA — a próxima página desta fila. E a PA da fase crônica se ajusta com a página da PA muito elevada.

Levar o caso ao assistente de conduta
Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361. Qureshi AI, Palesch YY, Barsan WG, et al. Intensive Blood-Pressure Lowering in Patients with Acute Cerebral Hemorrhage (ATACH-2). N Engl J Med. 2016;375(11):1033–1043. Baharoglu MI, Cordonnier C, Al-Shahi Salman R, et al. Platelet transfusion versus standard care after acute stroke due to spontaneous cerebral haemorrhage associated with antiplatelet therapy (PATCH). Lancet. 2016;387(10038):2605–2613. Sprigg N, Flaherty K, Appleton JP, et al. Tranexamic acid for hyperacute primary IntraCerebral Haemorrhage (TICH-2): an international randomised, placebo-controlled, phase 3 superiority trial. Lancet. 2018;391(10135):2107–2115 (doi:10.1016/S0140-6736(18)31033-X). Anderson CS, Heeley E, Huang Y, et al. Rapid blood-pressure lowering in patients with acute intracerebral hemorrhage (INTERACT2). N Engl J Med. 2013;368(25):2355–2365 (doi:10.1056/NEJMoa1214609).