AVC hemorrágico
O hematoma da TC não é o hematoma final: um terço expande nas primeiras horas — e é contra essa expansão que a primeira hora joga. Reverter o anticoagulante, baixar a pressão sem despencar, ligar para a neurocirurgia certa. E uma regra de humildade: o prognóstico espera 72 horas.
Serve para a hemorragia intraparenquimatosa espontânea — o "AVCh hipertensivo" do plantão — da TC positiva à UTI. A HSA aneurismática é outra doença com outra página (a próxima da fila); o TCE e a hemorragia em anticoagulado por outra causa compartilham a reversão daqui. O raciocínio neurocrítico profundo vive no módulo neuro; esta é a prescrição que o acompanha.
Condutas seguem AHA/ASA 2022 (hemorragia intracerebral espontânea), e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com a neurocirurgia. CCP e idarucizumabe não existem em todo hospital — saber o que a sua farmácia tem antes do plantão é parte desta prescrição.
A ordem é a da primeira hora: a TC que muda tudo, a reversão da anticoagulação (o item mais urgente que o PDF de bolso esquece), a pressão suave e sustentada, o telefonema da neurocirurgia — e então a UTI que protege o cérebro que sobrou, até o prognóstico com prazo. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
O AVCh é a doença da segunda hora: o paciente que chegou falando e "só" hemiparético pode estar herniando às 3 h da manhã porque o hematoma cresceu 40% — e a expansão acontece cedo, o que faz da primeira hora o único momento em que a prescrição ainda disputa o tamanho final. Por isso as três perguntas são triagem, não burocracia: o anticoagulado tem antídoto com relógio (item 02), o cerebelo tem cirurgião com relógio (item 04), a hidrocefalia tem dreno com relógio. E a vigilância precisa de gatilho escrito — "observar" sem critério é descobrir a herniação no plantão seguinte.
AHA/ASA 2022 — expansão precoce do hematoma; investigação vascular dirigida.| INR | Dose | Máximo | Paciente de 70 kg |
|---|---|---|---|
| 2 a < 4 | 25 UI/kg | 2.500 UI | 1.750 UI |
| 4 a 6 | 35 UI/kg | 3.500 UI | 2.450 UI |
| > 6 | 50 UI/kg | 5.000 UI | 3.500 UI |
O hematoma do anticoagulado expande mais, por mais tempo, e mata mais — e é o único cenário do AVCh com tratamento de eficácia inquestionável esperando na farmácia: cada minuto de INR 3 é sangue novo na cápsula interna. As armadilhas são de logística e de meia-medida: a vitamina K sozinha demora 12–24 h (ela repõe a síntese; quem para o sangramento agora é o CCP — os dois juntos, sempre); o plasma "porque não tem CCP" precisa de descongelamento, prova e litros que o hipertenso intracraniano não comporta. E a lição do PATCH vale tatuagem: a transfusão de plaquetas no usuário de AAS, que parece óbvia, piorou os desfechos — suspender sim, transfundir não.
Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — CCP de 4 fatores preferido ao plasma no AVCh por antagonista da vitamina K com INR ≥ 2,0 (Classe 1, B-R); vitamina K EV logo após a reposição de fatores, para evitar nova elevação do INR e expansão tardia (Classe 1, C-LD); CCP com INR de 1,3 a 1,9 pode ser razoável (Classe 2b) · dose de CCP 4F por INR conforme bula do Kcentra · FDA, comunicado de segurança do Andexxa (18/12/2025) — venda encerrada nos EUA em 22/12/2025 após o ANNEXA-I mostrar trombose 14,6% vs 6,9% e morte por trombose 2,5% vs 0,9% · PATCH (plaquetas) · TICH-2 (TXA sem benefício de rotina).O AVCh fica no meio-termo que os dois vizinhos não ocupam: não é a permissividade do isquêmico (aqui pressão alta é combustível de expansão) nem a pressa da dissecção (derrubar demais isquemia a zona ao redor do hematoma e o rim). Os ensaios desenharam a nuance: baixar cedo para ~140 é seguro e provavelmente reduz expansão (INTERACT2); forçar < 130 agressivamente não ajuda e machuca rim (ATACH-2); e as análises de variabilidade mostraram que a oscilação prediz desfecho ruim tanto quanto o nível — o que condena o manejo por bolus reativo e coroa a bomba bem titulada. A meta não é um número na chegada: é uma linha reta nas próximas 24 h.
AHA/ASA 2022 · INTERACT2 · ATACH-2 — alvo ~140, suave e sustentado.A fossa posterior é um cômodo sem espaço de manobra: o cerebelo que sangra comprime o IV ventrículo (hidrocefalia em horas) e o tronco (parada respiratória sem aviso) — e o paciente cerebelar engana, porque fica "só tonto e vomitando" até deixar de estar. É a única topografia do AVCh em que a cirurgia salva com consistência, e o erro fatal é de agenda: "observar" um cerebelar de 3,5 cm acordado é apostar a vida dele na sorte da madrugada. No supratentorial a história é oposta — os grandes ensaios de evacuação aberta não mostraram o mesmo benefício, e a decisão vira caso a caso. Por isso o item não manda operar: manda ligar — com a TC na mão e o relógio na frase.
Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — no AVCh cerebelar com deterioração neurológica, compressão de tronco, hidrocefalia obstrutiva ou volume ≥ 15 mL, a remoção cirúrgica imediata (com ou sem DVE) é recomendada em preferência ao tratamento clínico isolado, para reduzir mortalidade (Classe 1, B-NR); no cerebelar, tratamento inicial com DVE isolada em vez de evacuação não é recomendado; no supratentorial de gravidade moderada ou maior, a utilidade da craniotomia para melhorar desfecho funcional ou mortalidade é incerta (Classe 2b, A), com redução de mortalidade e desfecho funcional neutro nas abordagens minimamente invasivas.| Escolha | Dose | Como preparar / correr |
|---|---|---|
| 1ª · NaCl 20% preferida | 30–40 mL EV | ampolas de 10 mL (3,4 mEq de Na/mL) · em 10–20 min, acesso central de preferência — é a via mais rápida de entregar sódio quando o paciente está herniando |
| 1ª · NaCl 3% | 150–250 mL EV | em 15–20 min · aceita veia periférica calibrosa — preparo e equivalências na página da hiponatremia |
| 2ª · Manitol 20% | 1 g/kg EV | em 20–30 min · frasco de 250 mL = 50 g; 70 kg ≈ 350 mL · repique de 0,25–0,5 g/kg só com nova deterioração ou PIC |
A hierarquia entre os dois osmóticos é menos sobre qual "puxa mais água" e mais sobre o que cada um faz com o resto do paciente. A salina hipertônica entrega sódio e fica no intravascular: sobe a pressão arterial média, sustenta a pressão de perfusão cerebral e não obriga a repor o que ela mesma tirou. O manitol faz o gradiente e depois vai embora pelo rim levando volume junto — no paciente já seco, hipotenso ou com creatinina subindo, ele troca PIC por perfusão, que é um péssimo negócio. Daí a diretriz de edema cerebral sugerir hipertônica no AVCh, e daí a ordem desta página.
A conta do manitol merece a ênfase: o frasco de 20% tem 50 gramas em 250 mL — e material de bolso circulando por aí imprime "50 mg", um erro de mil vezes que transforma o osmótico em água benta. A dose de ataque de 1 g/kg é um frasco e meio para o adulto médio, não "um pouquinho". Dito isso, a hierarquia importa: osmótico é ponte química para uma solução mecânica — ele encolhe o cérebro saudável para dar minutos ao dreno ou à craniotomia, e o plantão que repete manitol de horário "porque funcionou" está gastando a volemia e a osmolaridade do paciente para adiar um telefonema. E o corticoide, que parece intuitivo, não funciona no edema do AVCh e soma infecção e hiperglicemia — veto antigo e mantido.
Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 — "sugerimos usar soluções salinas hipertônicas em vez de manitol para o manejo de PIC ou edema cerebral em pacientes com hemorragia intracerebral" (recomendação condicional, evidência de muito baixa qualidade) e bolus guiado por sintoma como estratégia apropriada · Greenberg SM, Ziai WC, Cordonnier C, et al. 2022 Guideline for the Management of Patients With Spontaneous Intracerebral Hemorrhage. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — terapia osmótica como medida temporizadora; corticoide não indicado no edema do AVCh · Equivalências de NaCl 20% × 3% calculadas pelo peso molecular (ver hiponatremia).A tentação da profilaxia é compreensível — sangue cortical irrita — mas os dados foram na contramão: fenitoína profilática associou-se a pior desfecho funcional no AVCh, e a diretriz a aposentou. O que ficou é mais fino: tratar a crise que existe, e procurar a que se esconde — o status não convulsivo é o diagnóstico que explica o Glasgow 8 de um hematoma que deveria dar 12, e sem EEG ele vira "evoluiu mal" no prontuário. O levetiracetam ganhou espaço sobre a fenitoína pelo perfil: não derruba a pressão na infusão, sonolência bem menor e poucas interações. Menos, não zero — ele pode sedar e alterar o comportamento, e essa preferência é operacional, não superioridade de desfecho demonstrada.
AHA/ASA 2022 — sem anticonvulsivante profilático (classe de não benefício); EEG no rebaixamento desproporcional · dose de status conforme ESETT/ACEP 2024 · ajuste renal e perfil de efeitos conforme bula do levetiracetam.O paradoxo do TEV é o coração deste item: o paciente que acabou de sangrar no cérebro é, ao mesmo tempo, um dos maiores riscos de TVP do hospital (plégico, imóvel, inflamado) — e a resposta não é escolher um medo, é faseá-los: mecânico agora, químico quando a TC de 24–48 h disser que o hematoma parou. Pular a fase mecânica "porque logo entra a enoxaparina" e esticar o "sem profilaxia" por uma semana são os dois erros espelhados. O resto do kit é a fisiologia de sempre — cada grau de febre, cada glicemia de 300 e cada soro hipotônico trabalham para o edema perilesional, e nenhum deles aparece no boletim como "piorou do AVC".
AHA/ASA 2022 — CPI desde D1; química após estabilidade documentada.O dado mais desconfortável da literatura de AVCh: boa parte da mortalidade precoce é mediada pela retirada de suporte, não pela lesão — o prognóstico sombrio da primeira noite vira profecia autorrealizável quando desliga a UTI que o testaria. Pacientes com hematomas idênticos têm desfechos opostos conforme o hospital "acredita" neles ou não. A resposta da diretriz é uma janela: 48–72 h de suporte pleno agressivo antes de qualquer conversa definitiva, porque o cérebro que hoje não responde pode estar edemaciado, sedado e hidrocefálico — três coisas tratáveis. Não é obstinação: é dar ao prognóstico a chance de ser diagnóstico.
AHA/ASA 2022 — evitar limitação precoce de suporte; prognosticação após estabilização.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457 · HSA: Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — profilaxia de TEV farmacológica ou mecânica recomendada naqueles cujo aneurisma roto já foi tratado (Classe 1, C-LD); a diretriz registra que o momento ideal da profilaxia farmacológica em relação à oclusão do aneurisma permanece indefinido, com estudo caso-controle sem diferença de hemorragia intracraniana entre início ≤ 24 h e > 24 h · AVCh: Greenberg SM, et al. Stroke. 2022;53(7):e282–e361 — compressão pneumática intermitente desde o dia da admissão; heparina profilática após documentar cessação da expansão do hematoma.O que não prescrever
Transfundir plaquetas no usuário de antiagregante — o PATCH mostrou dano; suspender basta. Vitamina K sozinha para reverter varfarina — sem CCP é meia reversão. Corticoide para o edema. Anticonvulsivante profilático. Ácido tranexâmico de rotina. PAS forçada < 130 — e a pressão serrote de bolus reativos. Manitol "de horário" sem alvo — e a dose homeopática de quem confundiu 50 g com 50 mg. Hiperventilação profilática. Soro hipotônico/glicosado. Dieta (ou comprimido) antes da triagem de disfagia. "Observar" o hematoma cerebelar. E decidir a vida do paciente na primeira noite — a janela de 72 h existe para proteger o prognóstico de si mesmo.
O raciocínio neurocrítico completo — HIC, PPC, imagem — vive no módulo neuro. O outro lado da primeira TC é o AVC isquêmico; a cefaleia súbita com TC "limpa" pede a HSA — a próxima página desta fila. E a PA da fase crônica se ajusta com a página da PA muito elevada.
Levar o caso ao assistente de conduta