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Dissecção de aorta

A única emergência hipertensiva com pressa de verdade: cada hora sem controle custa 1–2% de mortalidade no tipo A. A prescrição inteira cabe em uma regra — betabloqueador antes do vasodilatador — e em um telefonema: o tipo A se opera, não se observa.

Serve para a suspeita e o manejo inicial da dissecção aguda de aorta — da dor lancinante que irradia ao dorso na sala de emergência até a bomba de esmolol rodando na UTI à espera da transferência. Aqui a fisiologia manda mais do que em qualquer outra página: o que rasga a aorta não é só a pressão — é a força de ejeção do ventrículo (dP/dt), e é ela que a prescrição ataca primeiro.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem ACC/AHA 2022 (doença da aorta) e ESC 2024, e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com a cirurgia cardíaca/vascular. Esmolol e labetalol não existem em boa parte dos hospitais brasileiros — a página traz as alternativas reais; o que a sua farmácia tem decide parte da conduta.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: confirmar e classificar (porque o tipo A muda tudo), o telefonema que é prescrição, e então a terapia anti-impulso na ordem que a fisiologia exige — dor, betabloqueador, vasodilatador — antes do suporte e da vigilância. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Angio-TC de aorta total — confirmar e classificar, sem atrasar o controle
a imagem responde a única pergunta que muda o destino: a ascendente está envolvida?
Angio-TC de tórax + abdome + pelve (aorta total, com contraste) — o exame de escolha do instável estabilizável e do estável · ecocardiograma transtorácico à beira do leito enquanto a TC não sai (derrame pericárdico? insuficiência aórtica? ascendente dilatada?)
Classificar: Stanford A = envolve a ascendente → cirurgia de emergência · Stanford B = só descendente → tratamento clínico + cirurgia vascular (endovascular se complicada)
No exame físico: PA nos dois braços + palpar os quatro pulsos — assimetria documenta a suspeita e vira linha de base da vigilância
Por quê & armadilhas

A classificação não é burocracia anatômica — é o destino do paciente: o tipo A morre 1–2% por hora nas primeiras 24–48 horas sem cirurgia, e nenhuma bomba de infusão muda isso; o tipo B não complicado tem no controle de impulso o seu tratamento definitivo. A armadilha clássica é a ordem invertida: mandar o paciente à TC sem ter começado o controle de FC e dor — a viagem ao tomógrafo com o ventrículo martelando a 110 bpm é o pior momento para a aorta progredir. Imagem e anti-impulso começam juntos, não em fila.

ACC/AHA 2022 (doença da aorta) · ESC 2024.
Tipo A: acionar a cirurgia cardíaca agora — a cirurgia é a prescrição
e o tipo B interna em UTI com a cirurgia vascular ciente desde a primeira hora
Stanford A → cirurgia cardíaca de emergência: acionar na suspeita forte, sem esperar a TC "perfeita" · sem cirurgia no hospital → transferência imediata para centro de referência, com o anti-impulso rodando na ambulância
Stanford B não complicado → UTI + terapia anti-impulso (itens 03–06) com cirurgia vascular acompanhando · B complicado (má perfusão de órgão/membro, dor refratária, expansão, ruptura contida) → correção endovascular (TEVAR) — o telefonema muda de urgência
Por quê & armadilhas

Na dissecção tipo A, a melhor prescrição que você assina não está na papeleta — está no telefone. Todo o resto desta página é ponte: o esmolol não trata a dissecção da ascendente, ele compra minutos para a cirurgia acontecer. A armadilha é a inversão de papéis: paciente "estabilizado" na bomba, equipe aliviada, e a transferência que era para agora vira "amanhã de manhã" — enquanto o relógio de 1–2%/hora continua correndo. Estável na bomba não é estável: é dependente dela.

ACC/AHA 2022 — dissecção tipo A: reparo cirúrgico emergencial; tipo B: manejo clínico, TEVAR se complicada.
Morfina titulada — a analgesia é parte da terapia anti-impulso
dor não tratada é catecolamina circulando: FC e PA que nenhuma bomba vence
Morfina 2–4 mg EV (diluir 10 mg em 10 mL SF = 1 mg/mL), repetir a cada 5–10 min conforme dor · titulando até o controle (em geral até ~10 mg na primeira hora)
Reavaliar a dor como sinal vital: dor que cede e volta = suspeita de progressão da dissecção — reavaliar, reimagear, religar o telefone
Por quê & armadilhas

Na dissecção, a morfina não é conforto — é hemodinâmica: a dor lancinante dispara descarga adrenérgica que sobe FC, PA e dP/dt exatamente no vaso que não pode receber mais impulso. Deixar a dor "para depois do controle pressórico" é enxugar gelo: a bomba luta contra a catecolamina que a analgesia teria desligado. E a dor tem segundo emprego aqui — é o marcador clínico de progressão mais precoce que existe: dissecção bem controlada é dissecção sem dor; dor que retorna com pressão controlada é a aorta avisando.

ACC/AHA 2022 — controle de dor como componente do manejo inicial.
Betabloqueador EV primeiro — sempre antes de qualquer vasodilatador
meta operacional: FC ≤ 60 bpm — mas nunca à custa de perfusão
As metas — nesta ordem
1º · FC ≤ 60 bpm (ESC 2024) — a ACC/AHA 2022 aceita 60–80 bpm; divergência declarada, e na prática se persegue o mais baixo que o paciente tolere
2º · PAS < 120 mmHg (ACC/AHA 2022) ou, no alvo mais estreito da ESC 2024, 100–120 mmHgou a menor pressão que ainda perfunde: diurese, nível de consciência, lactato e pulsos mandam mais que o número
⚠ A ordem não é estética: FC primeiro, PA depois. Vasodilatador antes do betabloqueio dispara taquicardia reflexa e aumenta o dP/dt
Esmolol — a bomba, em mL/h
Esmolol (preferido — titulável, meia-vida de minutos): ataque 500 mcg/kg EV em 1 min50 mcg/kg/min por 4 min · não atingiu a meta: repetir o ataque e subir em degraus — 100, depois 150, depois 200 mcg/kg/min, reavaliando a cada 4–5 min
Diluição de referência: 10 mg/mL (2.500 mg em 250 mL, ou o frasco pronto de 10 mg/mL). Confira a da sua farmácia antes de usar a tabela — outra concentração muda toda a coluna:
EtapaDosePaciente de 70 kgBomba a 10 mg/mL
Ataque500 mcg/kg em 1 min35 mg3,5 mL em bolus lento
Manutenção inicial50 mcg/kg/min210 mg/h21 mL/h
2º degrau100 mcg/kg/min420 mg/h42 mL/h
3º degrau150 mcg/kg/min630 mg/h63 mL/h
Teto usual200 mcg/kg/min840 mg/h84 mL/h
Máximo de bula300 mcg/kg/min1.260 mg/h126 mL/h — ver alerta
!
Acima de 200 mcg/kg/min o ganho adicional é pequeno e o volume infundido vira problema: a 300 mcg/kg/min são 126 mL/h — cerca de 3 litros por dia só de esmolol num paciente que você quer seco e com a pressão baixa. Não atingiu a meta perto do teto? A resposta é associar (vasodilatador para a pressão, analgesia para o tônus adrenérgico), não empilhar mais esmolol.
Teto prático: 200 mcg/kg/min. A bula admite até 250–300 para efeito anti-hipertensivo, mas acima de 200 o ganho cronotrópico é pequeno e os eventos aumentam — 300 não é alvo de rotina
Preparo: preferir a solução pronta 10 mg/mL quando existir. Com concentrado, 2.500 mg/10 mL + 240 mL SG 5% = 10 mg/mL — diluição a validar com a farmácia pela apresentação, e nunca injetar concentrado sem diluir quando o produto exigir (ex.: 70 kg a 50 mcg/kg/min ≈ 21 mL/h)
Contraindicações do esmolol: bradicardia grave, BAV > 1º grau sem marca-passo, doença do nó sinusal, IC descompensada, choque cardiogênico, hipotensão/hipoperfusão, broncoespasmo grave ativo · atenção à insuficiência aórtica aguda grave e não associar em proximidade a verapamil EV
Sem esmolol: metoprolol 5 mg EV lento (1–2 min), repetir a cada 5 min até 15 mg — depois manter VO · labetalol (α+β) onde existir: 20 mg EV → 20–80 mg a cada 10 min ou infusão 0,5–2 mg/min
Meta dupla, na ordem: FC primeiro → depois PAS < 120 mmHg, ou a menor que mantenha perfusão (item 06) — se o betabloqueador sozinho já levou a PAS à meta, o vasodilatador nem entra
Qual FC? ACC/AHA 2022 usa 60–80 bpm; ESC 2024 favorece ≤ 60. Esta página adota ≤ 60 como meta operacional — mas nunca à custa de perfusão, insuficiência aórtica aguda grave, tamponamento, bradicardia ou BAV
Por quê & armadilhas

O que propaga a dissecção é o dP/dt — a força com que cada sístole chicoteia a parede rasgada — e só o betabloqueador o reduz. Vasodilatador primeiro faz o oposto: a queda de pressão dispara taquicardia reflexa, o dP/dt sobe, e a prescrição que parecia tratar está rasgando a aorta um pouco mais a cada batimento. Por isso a ordem não é preferência, é lei. O esmolol é a droga ideal do cenário cirúrgico iminente (desliga em minutos se o paciente hipotensa a caminho do centro cirúrgico); o metoprolol EV é a realidade da maioria dos serviços — funciona, apenas não desliga rápido. Antes de betabloquear, um olhar: insuficiência aórtica aguda grave ou tamponamento mudam a conversa — aí a bradicardia é o que mantém o débito.

Isselbacher EM, Preventza O, Hamilton Black J 3rd, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation. 2022;146(24):e334–e482 — betabloqueio EV como primeira linha do controle de impulso (Classe 1), PAS < 120 mmHg ou a menor que mantenha perfusão de órgão-alvo, FC 60–80 bpm · ESC 2024 (doenças aórticas e vasculares periféricas) — FC < 60 e PAS 100–120 mmHg; divergência de alvo declarada · Posologia, teto e concentração do esmolol conforme bula; as colunas em mL/h desta página são calculadas para 70 kg a 10 mg/mL e devem ser refeitas para a diluição do seu serviço.
Betabloqueador contraindicado? Depende de qual é a contraindicação
BCC não diidropiridínico só substitui quando o impedimento não é nodal — tipicamente broncoespasmo grave ativo
Não troque um bloqueador nodal por outro. Se a contraindicação ao betabloqueador é bradicardia, BAV, hipotensão, FE reduzida ou choque, diltiazem e verapamil estão contraindicados pela mesma razão — nesse caso, controlar o impulso vira decisão de especialista, e a pressão se ataca com vasodilatador sob vigilância, sabendo do risco de taquicardia reflexa
Quando cabe (broncoespasmo grave ativo, com FC e PA permitindo): diltiazem 0,25 mg/kg EV em 2 min (~20 mg) → repetir 0,35 mg/kg se preciso → infusão 5–15 mg/h titulando pela FC · ou verapamil 2,5–5 mg EV lento, repetível — com especialista
Mesmas metas do item 04: FC primeiro, depois PAS < 120 — a droga muda, a fisiologia não
Por quê & armadilhas

Os bloqueadores de canal de cálcio não diidropiridínicos são os únicos substitutos legítimos do betabloqueador aqui, porque são os únicos que também derrubam FC e contratilidade — o dP/dt de novo. A armadilha é o falso substituto: trocar o metoprolol "contraindicado" por nitroprussiato puro, que controla o número da PA enquanto o coração taquicárdico segue martelando a parede. E cuidado com a contraindicação inflacionada — DPOC estável e histórico remoto de asma não proíbem betabloqueador cardiosseletivo; broncoespasmo grave e ativo proíbe.

ACC/AHA 2022 — BCC não diidropiridínico se betabloqueador contraindicado; a substituição não vale quando o impedimento é nodal (bradicardia, BAV, hipotensão, FE reduzida, choque).
FC controlada e PAS ainda > 120? Agora sim: nitroprussiato
meta: PAS < 120 mmHg em minutos, ou a menor que mantenha perfusão — com PA invasiva acompanhando
Nitroprussiato de sódio — início 0,3 mcg/kg/min EV em bomba → titular a cada poucos minutos até a meta de PAS
Máximo 8 mcg/kg/min pela bula profissional brasileira do Nitroprus® 50 mg, pelo menor tempo possível — a bula americana admite 10; não misture os dois tetos, siga a apresentação da sua farmácia
Preparo (Nitroprus® 50 mg): reconstituir o frasco com o diluente de SG 5% da embalagem e depois diluir em SG 5% 250, 500 ou 1.000 mL → 200, 100 ou 50 mcg/mL · proteger frasco e equipo da luz imediatamente (ex.: 70 kg a 0,3 mcg/kg/min a 200 mcg/mL ≈ 6,3 mL/h)
Rim e fígado: eGFR < 30 → manter média < 3 mcg/kg/min · anúria → 1 mcg/kg/min · cautela adicional em hepatopatia e em infusão prolongada
Monitorizar: PA contínua — invasiva nesta indicação, pela meta estreita — perfusão, diurese, lactato, equilíbrio ácido-base e sinais de toxicidade por cianeto/tiocianato (acidose com lactato subindo, confusão, SvO₂ alta inexplicada)
Alternativa: nitroglicerina 5–10 mcg/min titulando (menos potente para essa meta — preparo na página da SCA) · PA invasiva tão logo possível — de preferência no braço de maior pressão
Tolerância à meta: usar a menor PAS que mantém perfusão (diurese, sensório, lactato) — a meta é um alvo, não um dogma no paciente que hipoperfunde
Por quê & armadilhas

Aqui a dissecção inverte a regra geral da emergência hipertensiva: em vez do teto de "não cair mais que 20–25% na primeira hora", ela quer a pressão na meta em minutos — é a exceção anunciada na página da PA muito elevada. Mas só depois do betabloqueador: o nitroprussiato solo é o erro clássico desta doença (item 04 explica a taquicardia reflexa). A PA invasiva não é luxo — com duas drogas EV titulável e uma meta estreita, o manguito de 15 em 15 minutos chega sempre atrasado. E medir no braço certo importa: na dissecção que compromete a subclávia, o braço "bonito" mente para baixo.

ACC/AHA 2022 — PAS abaixo de 120 após controle de FC · ESC 2024 · dose, preparo, teto de 8 mcg/kg/min e fotoproteção conforme bula profissional brasileira do Nitroprus®; limites renais conforme bula americana.
O kit do crítico que pode virar cirúrgico a qualquer momento
dieta zero, proteção gástrica, náusea e glicemia — sem itens de reflexo
Dieta zero enquanto houver possibilidade cirúrgica (tipo A: sempre; tipo B: até definição) · O2 suplementar só se SpO2 < 90% — não é item automático
Omeprazol 40 mg EV 1×/dia (profilaxia de úlcera de estresse no crítico) · náusea/vômito: ondansetrona 4–8 mg EV — vomitar é manobra de Valsalva contra a aorta rasgada — ondansetrona prolonga QT: corrigir K e Mg, e considerar ECG em cardiopata, bradiarritmia, QT longo ou uso de outro prolongador (amiodarona)
Glicemia capilar 6/6 h com insulina regular corretiva se preciso — alvo 140–180 mg/dL, sem perseguir normoglicemia
Por quê & armadilhas

O kit existe para não atrapalhar: dieta zero porque a indução anestésica pode ser em duas horas; antiemético com dignidade de item próprio porque cada vômito é um pico de pressão intratorácica no pior lugar possível. E dois itens de reflexo ficam de fora de propósito — o O2 "de rotina" em quem satura bem não acrescenta nada, e a insulina que persegue glicemia normal no crítico produz hipoglicemia sem benefício (o alvo 140–180 é o consenso do cuidado intensivo). Prescrição de crítico enxuta é prescrição em que cada item tem um porquê.

ACC/AHA 2022 · NICE-SUGAR — alvo glicêmico no crítico.
Vigilância que detecta progressão — e o preparo para a próxima etapa
a dissecção é doença dinâmica: a reavaliação seriada é parte da prescrição
UTI com monitorização contínua + PA invasiva · 2 acessos venosos calibrosos · tipagem + reserva de hemocomponentes (tipo A / B complicada) · sonda vesical para débito urinário horário
Reavaliação seriada (horária no início): dor (retorno = progressão) · pulsos nos 4 membros e déficit neurológico novo · diurese (má perfusão renal) · lactato — qualquer piora = reimagear + religar o telefone da cirurgia
Transição (tipo B estabilizado): betabloqueador VO assumindo enquanto a bomba desmama · a PA-alvo crônica e o seguimento de imagem ficam com a equipe que assume
Por quê & armadilhas

A dissecção não é foto, é filme: a lâmina de dissecção pode avançar para uma carótida, uma renal ou uma ilíaca horas depois da TC "definitiva" — e cada um desses avanços tem um sinal clínico barato que a vigilância seriada captura antes do desastre (o déficit novo, o pulso que sumiu, a diurese que parou). A armadilha é a UTI tratar o paciente como "hipertenso controlado em bomba" e vigiar só o monitor: o número da PA pode estar perfeito enquanto a falsa luz fecha uma renal. Aqui, exame físico de hora em hora vale mais que qualquer exame — e a reserva de sangue prescrita agora é a que existe quando a ruptura acontecer às 3 da manhã.

ACC/AHA 2022 — vigilância de má perfusão e manejo em centro de referência.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na dissecção de aorta.

Vasodilatador antes do betabloqueador — a taquicardia reflexa propaga a dissecção; é o erro que define esta doença. Trombolítico ou anticoagulação na suspeita — a "SCA com supra" atípica com dor no dorso e pulsos assimétricos merece a TC antes da tenecteplase. Hidralazina — vasodilatação com taquicardia reflexa e efeito imprevisível: proibida aqui. Nifedipina de ação curta — mesmo mecanismo, mesmo veto. Deixar a dor sem opioide — catecolamina é impulso. Segurar o betabloqueador "porque a PA já está boa" — a meta de FC existe independente da PA. E "estabilizou, transfere amanhã" no tipo A — o relógio de 1–2%/hora não dorme.

Prescreveu — e agora?

O tipo A é do centro cirúrgico; o seu trabalho é a ponte farmacológica e a logística da transferência. No tipo B, a bomba e a vigilância desta página são o tratamento — e a página da PA muito elevada explica por que esta é a única emergência em que a pressa com a pressão é virtude. Choque no caminho? O raciocínio hemodinâmico vive no módulo de hemodinâmica e choque.

Levar o caso ao assistente de conduta
Isselbacher EM, Preventza O, Hamilton Black J 3rd, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation. 2022;146(24):e334–e482 (doi:10.1161/CIR.0000000000001106). Mazzolai L, Teixido-Turà G, Lanzi S, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases. Eur Heart J. 2024;45(36):3538–3700 (doi:10.1093/eurheartj/ehae179). NICE-SUGAR Study Investigators. Intensive versus conventional glucose control in critically ill patients. N Engl J Med. 2009;360(13):1283–1297.