Dissecção de aorta
A única emergência hipertensiva com pressa de verdade: cada hora sem controle custa 1–2% de mortalidade no tipo A. A prescrição inteira cabe em uma regra — betabloqueador antes do vasodilatador — e em um telefonema: o tipo A se opera, não se observa.
Serve para a suspeita e o manejo inicial da dissecção aguda de aorta — da dor lancinante que irradia ao dorso na sala de emergência até a bomba de esmolol rodando na UTI à espera da transferência. Aqui a fisiologia manda mais do que em qualquer outra página: o que rasga a aorta não é só a pressão — é a força de ejeção do ventrículo (dP/dt), e é ela que a prescrição ataca primeiro.
Condutas seguem ACC/AHA 2022 (doença da aorta) e ESC 2024, e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com a cirurgia cardíaca/vascular. Esmolol e labetalol não existem em boa parte dos hospitais brasileiros — a página traz as alternativas reais; o que a sua farmácia tem decide parte da conduta.
A ordem é a do raciocínio: confirmar e classificar (porque o tipo A muda tudo), o telefonema que é prescrição, e então a terapia anti-impulso na ordem que a fisiologia exige — dor, betabloqueador, vasodilatador — antes do suporte e da vigilância. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A classificação não é burocracia anatômica — é o destino do paciente: o tipo A morre 1–2% por hora nas primeiras 24–48 horas sem cirurgia, e nenhuma bomba de infusão muda isso; o tipo B não complicado tem no controle de impulso o seu tratamento definitivo. A armadilha clássica é a ordem invertida: mandar o paciente à TC sem ter começado o controle de FC e dor — a viagem ao tomógrafo com o ventrículo martelando a 110 bpm é o pior momento para a aorta progredir. Imagem e anti-impulso começam juntos, não em fila.
ACC/AHA 2022 (doença da aorta) · ESC 2024.Na dissecção tipo A, a melhor prescrição que você assina não está na papeleta — está no telefone. Todo o resto desta página é ponte: o esmolol não trata a dissecção da ascendente, ele compra minutos para a cirurgia acontecer. A armadilha é a inversão de papéis: paciente "estabilizado" na bomba, equipe aliviada, e a transferência que era para agora vira "amanhã de manhã" — enquanto o relógio de 1–2%/hora continua correndo. Estável na bomba não é estável: é dependente dela.
ACC/AHA 2022 — dissecção tipo A: reparo cirúrgico emergencial; tipo B: manejo clínico, TEVAR se complicada.Na dissecção, a morfina não é conforto — é hemodinâmica: a dor lancinante dispara descarga adrenérgica que sobe FC, PA e dP/dt exatamente no vaso que não pode receber mais impulso. Deixar a dor "para depois do controle pressórico" é enxugar gelo: a bomba luta contra a catecolamina que a analgesia teria desligado. E a dor tem segundo emprego aqui — é o marcador clínico de progressão mais precoce que existe: dissecção bem controlada é dissecção sem dor; dor que retorna com pressão controlada é a aorta avisando.
ACC/AHA 2022 — controle de dor como componente do manejo inicial.| Etapa | Dose | Paciente de 70 kg | Bomba a 10 mg/mL |
|---|---|---|---|
| Ataque | 500 mcg/kg em 1 min | 35 mg | 3,5 mL em bolus lento |
| Manutenção inicial | 50 mcg/kg/min | 210 mg/h | 21 mL/h |
| 2º degrau | 100 mcg/kg/min | 420 mg/h | 42 mL/h |
| 3º degrau | 150 mcg/kg/min | 630 mg/h | 63 mL/h |
| Teto usual | 200 mcg/kg/min | 840 mg/h | 84 mL/h |
| Máximo de bula | 300 mcg/kg/min | 1.260 mg/h | 126 mL/h — ver alerta |
O que propaga a dissecção é o dP/dt — a força com que cada sístole chicoteia a parede rasgada — e só o betabloqueador o reduz. Vasodilatador primeiro faz o oposto: a queda de pressão dispara taquicardia reflexa, o dP/dt sobe, e a prescrição que parecia tratar está rasgando a aorta um pouco mais a cada batimento. Por isso a ordem não é preferência, é lei. O esmolol é a droga ideal do cenário cirúrgico iminente (desliga em minutos se o paciente hipotensa a caminho do centro cirúrgico); o metoprolol EV é a realidade da maioria dos serviços — funciona, apenas não desliga rápido. Antes de betabloquear, um olhar: insuficiência aórtica aguda grave ou tamponamento mudam a conversa — aí a bradicardia é o que mantém o débito.
Isselbacher EM, Preventza O, Hamilton Black J 3rd, et al. 2022 ACC/AHA Guideline for the Diagnosis and Management of Aortic Disease. Circulation. 2022;146(24):e334–e482 — betabloqueio EV como primeira linha do controle de impulso (Classe 1), PAS < 120 mmHg ou a menor que mantenha perfusão de órgão-alvo, FC 60–80 bpm · ESC 2024 (doenças aórticas e vasculares periféricas) — FC < 60 e PAS 100–120 mmHg; divergência de alvo declarada · Posologia, teto e concentração do esmolol conforme bula; as colunas em mL/h desta página são calculadas para 70 kg a 10 mg/mL e devem ser refeitas para a diluição do seu serviço.Os bloqueadores de canal de cálcio não diidropiridínicos são os únicos substitutos legítimos do betabloqueador aqui, porque são os únicos que também derrubam FC e contratilidade — o dP/dt de novo. A armadilha é o falso substituto: trocar o metoprolol "contraindicado" por nitroprussiato puro, que controla o número da PA enquanto o coração taquicárdico segue martelando a parede. E cuidado com a contraindicação inflacionada — DPOC estável e histórico remoto de asma não proíbem betabloqueador cardiosseletivo; broncoespasmo grave e ativo proíbe.
ACC/AHA 2022 — BCC não diidropiridínico se betabloqueador contraindicado; a substituição não vale quando o impedimento é nodal (bradicardia, BAV, hipotensão, FE reduzida, choque).Aqui a dissecção inverte a regra geral da emergência hipertensiva: em vez do teto de "não cair mais que 20–25% na primeira hora", ela quer a pressão na meta em minutos — é a exceção anunciada na página da PA muito elevada. Mas só depois do betabloqueador: o nitroprussiato solo é o erro clássico desta doença (item 04 explica a taquicardia reflexa). A PA invasiva não é luxo — com duas drogas EV titulável e uma meta estreita, o manguito de 15 em 15 minutos chega sempre atrasado. E medir no braço certo importa: na dissecção que compromete a subclávia, o braço "bonito" mente para baixo.
ACC/AHA 2022 — PAS abaixo de 120 após controle de FC · ESC 2024 · dose, preparo, teto de 8 mcg/kg/min e fotoproteção conforme bula profissional brasileira do Nitroprus®; limites renais conforme bula americana.O kit existe para não atrapalhar: dieta zero porque a indução anestésica pode ser em duas horas; antiemético com dignidade de item próprio porque cada vômito é um pico de pressão intratorácica no pior lugar possível. E dois itens de reflexo ficam de fora de propósito — o O2 "de rotina" em quem satura bem não acrescenta nada, e a insulina que persegue glicemia normal no crítico produz hipoglicemia sem benefício (o alvo 140–180 é o consenso do cuidado intensivo). Prescrição de crítico enxuta é prescrição em que cada item tem um porquê.
ACC/AHA 2022 · NICE-SUGAR — alvo glicêmico no crítico.A dissecção não é foto, é filme: a lâmina de dissecção pode avançar para uma carótida, uma renal ou uma ilíaca horas depois da TC "definitiva" — e cada um desses avanços tem um sinal clínico barato que a vigilância seriada captura antes do desastre (o déficit novo, o pulso que sumiu, a diurese que parou). A armadilha é a UTI tratar o paciente como "hipertenso controlado em bomba" e vigiar só o monitor: o número da PA pode estar perfeito enquanto a falsa luz fecha uma renal. Aqui, exame físico de hora em hora vale mais que qualquer exame — e a reserva de sangue prescrita agora é a que existe quando a ruptura acontecer às 3 da manhã.
ACC/AHA 2022 — vigilância de má perfusão e manejo em centro de referência.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Vasodilatador antes do betabloqueador — a taquicardia reflexa propaga a dissecção; é o erro que define esta doença. Trombolítico ou anticoagulação na suspeita — a "SCA com supra" atípica com dor no dorso e pulsos assimétricos merece a TC antes da tenecteplase. Hidralazina — vasodilatação com taquicardia reflexa e efeito imprevisível: proibida aqui. Nifedipina de ação curta — mesmo mecanismo, mesmo veto. Deixar a dor sem opioide — catecolamina é impulso. Segurar o betabloqueador "porque a PA já está boa" — a meta de FC existe independente da PA. E "estabilizou, transfere amanhã" no tipo A — o relógio de 1–2%/hora não dorme.
O tipo A é do centro cirúrgico; o seu trabalho é a ponte farmacológica e a logística da transferência. No tipo B, a bomba e a vigilância desta página são o tratamento — e a página da PA muito elevada explica por que esta é a única emergência em que a pressa com a pressão é virtude. Choque no caminho? O raciocínio hemodinâmico vive no módulo de hemodinâmica e choque.
Levar o caso ao assistente de conduta