Hemorragia subaracnóidea
"A pior cefaleia da vida" é uma frase que compra uma TC — e, se ela confirmar, o plantão passa a administrar três relógios ao mesmo tempo: o da segunda ruptura (que o aneurisma tratado desarma), o da hidrocefalia (que o dreno resolve) e o do vasoespasmo (que começa quando todos relaxaram).
Serve para a HSA aneurismática do adulto — da suspeita na emergência à UTI dos 14 dias. É doença de centro especializado: boa parte desta prescrição existe para chegar bem ao tratamento do aneurisma e para vigiar o que vem depois. O manejo neurocrítico profundo vive no módulo neuro; o irmão intraparenquimatoso tem a página do AVCh.
Condutas seguem AHA/ASA 2023 (HSA aneurismática), e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com neurocirurgia/neurointervenção. Se o seu hospital não trata aneurisma, o item mais importante desta página é a transferência — e ela tem hora.
A ordem é a dos três relógios: reconhecer (a TC que a cefaleia merece), proteger da segunda ruptura (aneurisma tratado cedo; PAS < 160 suave até lá; nimodipina desde o D1), e as complicações com data — hidrocefalia, vasoespasmo, sódio. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A HSA é o diagnóstico que a emergência mais paga caro por perder: a cefaleia sentinela — o pequeno vazamento dias antes da ruptura grande — é dispensada como enxaqueca em consultório e PS, e o paciente volta em coma. A regra que protege é simples: súbita + máxima em minutos + "diferente de todas" compra imagem, com exame neurológico normal ou não. E a armadilha do falso alívio: a dor que melhorou com dipirona continua sendo a mesma dor súbita de antes — analgésico trata sintoma, não probabilidade.
AHA/ASA 2023 — diagnóstico; cefaleia sentinela.O ressangramento é a catástrofe evitável da HSA: risco máximo nas primeiras 24 horas, mortalidade que dobra quando acontece — e só uma coisa o desarma de verdade: o aneurisma excluído da circulação. Por isso este item vem antes de qualquer bomba: nenhum alvo pressórico substitui o coil. A armadilha institucional é o falso conforto do paciente "estável, Glasgow 15, só com cefaleia" segurado no hospital de origem para tratar "quando der" — é exatamente esse paciente, o grau bom, que mais tem a perder com a segunda ruptura, porque é o que mais tinha a ganhar com o tratamento a tempo.
AHA/ASA 2023 — obliteração do aneurisma o mais precoce possível, idealmente em 24 h, com transferência imediata ao centro especializado.O controle pressórico pré-tratamento é um meio-termo pragmático: pressão alta empurra a parede rota, pressão baixa demais hipoperfunde um cérebro que acabou de sofrer hipertensão intracraniana súbita — daí o alvo moderado e a exigência de suavidade. O detalhe que muda a prática: metade do "descontrole pressórico" da HSA é dor não tratada e vômito não prevenido — a morfina e a ondansetrona derrubam mais pressão que muitos mL/h de nitroprussiato, sem roubar perfusão. E o laxante, que parece nota de rodapé, é fisiologia aplicada: uma manobra de Valsalva no vaso errado é o ressangramento mais barato de prevenir do hospital.
AHA/ASA 2023 — PA pré-tratamento; TXA sem benefício de rotina (ULTRA).A nimodipina é uma lição de humildade farmacológica: ela não previne o vasoespasmo na angiografia — e mesmo assim melhora desfecho neurológico com consistência que nenhuma outra droga da HSA alcançou (o benefício provável é microcirculatório e neuroprotetor). É o raro item de prescrição que se defende sozinho em ensaio clínico, e o erro com ele é sempre logístico: a dose que "ficou para depois da TC", o esquema de 4/4 h que virou 8/8 "para não incomodar", a suspensão definitiva na primeira pressão baixa — quando a resposta era 30 de 2/2. Os 21 dias cobrem a janela inteira do vasoespasmo; parar no D10 porque "está bem" é parar no meio da tempestade.
AHA/ASA 2023 — nimodipina oral, 21 dias · posologia, redução na cirrose e via exclusivamente oral/enteral conforme bula (Nymalize).| Escolha | Dose | Como correr |
|---|---|---|
| 1ª · NaCl 20% preferida | 30–40 mL EV | ampolas de 10 mL (3,4 mEq de Na/mL), em 10–20 min, preferindo acesso central |
| 1ª · NaCl 3% | 150–250 mL EV | em 15–20 min · aceita veia periférica calibrosa — preparo na hiponatremia |
| 2ª · Manitol 20% | 1 g/kg EV | frasco de 250 mL = 50 g; 70 kg ≈ 350 mL, em 20–30 min |
A hidrocefalia é a complicação mais agradecida da HSA: um paciente que despenca de Glasgow 14 para 8 nas primeiras horas e volta a conversar com um dreno bem posto. O erro é interpretativo — atribuir o rebaixamento "à gravidade da hemorragia" e sedar/intubar sem a TC que mostraria os ventrículos crescendo. Na HSA, todo rebaixamento novo é pergunta com três respostas (ressangrou? hidrocefalia? vasoespasmo?) e duas delas têm procedimento — a resignação diagnóstica é o único desfecho sem tratamento.
Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — na HSA aneurismática com hidrocefalia aguda sintomática, a derivação liquórica urgente (DVE e/ou drenagem lombar) deve ser realizada para melhorar o desfecho neurológico (Classe 1, B-NR) · Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 — na HSA, sugere-se bolus de solução salina hipertônica guiado por sintoma, em vez de dose titulada por alvo de sódio, para o manejo de PIC ou edema cerebral (condicional, evidência de muito baixa qualidade); no AVCh, hipertônica em preferência ao manitol.| Etapa | Dose | Paciente de 70 kg | Bomba a 200 mcg/mL |
|---|---|---|---|
| Bolus (protocolo de Montreal — opcional, e o que mais hipotensa) | 0,1 mg/kg em 10 min | 7 mg | 35 mL em 10 min |
| Início — dose do estudo controlado | 0,5 mcg/kg/min | 2,1 mg/h | 10,5 mL/h |
| Início do protocolo de Montreal | 0,75 mcg/kg/min | 3,2 mg/h | 16 mL/h |
| Degraus (a cada hora, conforme resposta e PAM) | + 0,25 mcg/kg/min | — | + 5 mL/h |
| 1,0 mcg/kg/min | — | 4,2 mg/h | 21 mL/h |
| 1,5 mcg/kg/min | — | 6,3 mg/h | 31,5 mL/h |
| Teto do protocolo | 2,0 mcg/kg/min | 8,4 mg/h | 42 mL/h |
O vasoespasmo é a segunda doença da HSA, com agenda própria: começa quando a emergência já passou, o aneurisma já foi tratado e a tentação de dar alta da UTI é máxima — e o seu tratamento inverte tudo o que a página fazia até aqui: a mesma noradrenalina que era impensável no D1 vira terapia no D7, porque o cérebro atrás de artérias em espasmo precisa de pressão para perfundir (por isso o pré-requisito inegociável: aneurisma tratado). A armadilha clássica é semântica: o déficit novo do 7º dia registrado como "evoluiu com sequela" — quando era isquemia tardia, reversível, esperando pressão e um cateter. E a hipovolemia é o acelerador silencioso: o paciente de HSA perde sal e água (item 07), e vasoespasmo + hipovolemia é a combinação que infarta.
Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — euvolemia (a indução de hipervolemia é Classe 3: dano) e hipertensão induzida na DCI; resgate endovascular · Milrinona: a mesma diretriz afirma que a milrinona vem sendo usada para prevenção de DCI "com base em dados limitados e não randomizados" e que seu papel, embora promissor, requer mais investigação — sem recomendação com classe · Lannes M, Teitelbaum J, del Pilar Cortés M, Cardoso M, Angle M. Milrinone and Homeostasis to Treat Cerebral Vasospasm Associated with Subarachnoid Hemorrhage: the Montreal Neurological Hospital Protocol. Neurocrit Care. 2012;16(3):354–362 — coorte de 88 pacientes, infusão por média de 9,8 dias · Lakhal K, et al. Intravenous Milrinone for Cerebral Vasospasm in Subarachnoid Hemorrhage: the MILRISPASM Controlled Before–After Study. Neurocrit Care. 2021;35(3):669–679 — 0,5 mcg/kg/min somada à hipertensão induzida, com 29% de interrupção precoce por má tolerância · Esquema de bolus, degraus, teto, desmame e contraindicação renal conforme Batarda Sena P, et al. Neurol Int. 2025;17(3):32 — revisão narrativa, que é o nível de evidência disponível.A pegadinha fisiológica mais perigosa da HSA: a hiponatremia daqui frequentemente é cerebral salt wasting — o cérebro lesado faz o rim jogar sal e água fora — e o reflexo de internista bem treinado ("hipona euvolêmica = SIADH = restringir água") aplica ao paciente errado o tratamento que o mata: restringir volume em quem já está espoliado, na semana do vasoespasmo, é prescrever a isquemia tardia. Como os dois quadros são difíceis de distinguir na beira do leito, a diretriz corta o nó: na HSA, hiponatremia se corrige com sal — VO, isotônico em volume, hipertônico se preciso — e a restrição fica proibida por decreto. É dos raros lugares da medicina onde a regra simples é mais segura que o raciocínio completo.
AHA/ASA 2023 — evitar restrição hídrica; correção com sal/hipertônica.A fenitoína profilática "para todos por 7 dias" é o zumbi específico desta doença: dados observacionais associaram-na a pior desfecho cognitivo e funcional na HSA, e a recomendação moderna a aposentou — a profilaxia, quando fizer sentido, é curta, seletiva e com levetiracetam. No TEV, a mesma lógica de duas fases do AVCh, com o marco trocado: aqui quem libera a química não é a TC de controle, é o aneurisma excluído. E um detalhe que derruba a droga mais importante da página: o paciente que rebaixou e "não pode engolir" fica sem a nimodipina se ninguém lembrar que ela desce por sonda — a triagem de disfagia protege o pulmão e o único comprimido com prova de desfecho.
Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — profilaxia anticonvulsivante pode ser razoável apenas com características de alto risco (aneurisma roto de ACM, hemorragia intraparenquimatosa, HSA de alto grau, hidrocefalia, infarto cortical — Classe 2b, B-NR) e sem benefício na ausência delas (Classe 3); fenitoína associada a excesso de morbidade e mortalidade; crise de apresentação tratada por ≤ 7 dias (Classe 2a) e além de 7 dias sem eficácia; EEG contínuo razoável no exame flutuante ou rebaixado (Classe 2a). A diretriz não nomeia molécula nem dose para a profilaxia — o esquema desta página é rotulado como protocolo institucional. A preferência pelo levetiracetam apoia-se no ensaio randomizado simples-cego contra fenitoína, com mesma mortalidade e controle de crises e menos efeitos adversos, e em metanálises em que o curso longo (> 3 dias) preveniu tanto quanto o curto (< 3 dias) com pior desfecho clínico · TEV farmacológico após o aneurisma assegurado (Classe 1, C-LD), com o momento exato declarado indefinido pela própria diretriz · dose de status conforme ESETT (Kapur J, et al. N Engl J Med. 2019;381(22):2103–2113) e ACEP 2024.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Fenitoína profilática universal — associada a pior desfecho; profilaxia é exceção curta e seletiva. Restrição hídrica para a hiponatremia — na HSA, hipona se trata com sal; restringir é prescrever isquemia tardia. Hipervolemia profilática ("triplo-H") — morreu; euvolemia. Ácido tranexâmico de rotina. Qualquer antitrombótico antes do aneurisma tratado — e enoxaparina "de rotina" no D1. Nimodipina suspensa na primeira hipotensão — 30 mg 2/2 h existe para isso. Segurar o paciente "estável" longe do centro de referência. Sedação profunda que apaga o exame — o exame é o monitor do vasoespasmo. Soro hipotônico. AINE sobre um aneurisma aberto. E chamar o déficit do 7º dia de "sequela" — isquemia tardia é emergência tratável, não epílogo.
A HSA é maratona de 14 dias: aneurisma tratado não é alta da vigilância — é o começo dela. O raciocínio neurocrítico completo vive no módulo neuro; o sangue dentro do parênquima é a página do AVCh; e a crise epiléptica — que esta página trata mas não esgota — fecha esta fila como a próxima prescrição.
Levar o caso ao assistente de conduta