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Hemorragia subaracnóidea

"A pior cefaleia da vida" é uma frase que compra uma TC — e, se ela confirmar, o plantão passa a administrar três relógios ao mesmo tempo: o da segunda ruptura (que o aneurisma tratado desarma), o da hidrocefalia (que o dreno resolve) e o do vasoespasmo (que começa quando todos relaxaram).

Serve para a HSA aneurismática do adulto — da suspeita na emergência à UTI dos 14 dias. É doença de centro especializado: boa parte desta prescrição existe para chegar bem ao tratamento do aneurisma e para vigiar o que vem depois. O manejo neurocrítico profundo vive no módulo neuro; o irmão intraparenquimatoso tem a página do AVCh.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem AHA/ASA 2023 (HSA aneurismática), e não substituem o protocolo do seu serviço nem a discussão com neurocirurgia/neurointervenção. Se o seu hospital não trata aneurisma, o item mais importante desta página é a transferência — e ela tem hora.

Como usar.

A ordem é a dos três relógios: reconhecer (a TC que a cefaleia merece), proteger da segunda ruptura (aneurisma tratado cedo; PAS < 160 suave até lá; nimodipina desde o D1), e as complicações com data — hidrocefalia, vasoespasmo, sódio. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Thunderclap = TC agora — e a angio-TC que dá nome ao aneurisma
cefaleia súbita máxima em minutos; a "sentinela" de dias antes conta a mesma história
TC de crânio sem contraste imediata — sensibilidade altíssima nas primeiras 6 h e caindo com as horas · TC negativa + suspeita firme → punção lombar (xantocromia) ou angio-TC conforme protocolo — a suspeita não morre com uma TC branca tardia
Confirmou → angio-TC arterial na sequência: achar o aneurisma é o passo que destrava tudo (item 02) · documentar escalas do serviço (Hunt-Hess/WFNS clínica; Fisher modificada na TC — elas preveem o vasoespasmo do item 06)
Desde já: UTI/unidade neuro · exame neurológico seriado com gatilho escrito (rebaixou → TC: ressangrou? hidrocefalia?)
Por quê & armadilhas

A HSA é o diagnóstico que a emergência mais paga caro por perder: a cefaleia sentinela — o pequeno vazamento dias antes da ruptura grande — é dispensada como enxaqueca em consultório e PS, e o paciente volta em coma. A regra que protege é simples: súbita + máxima em minutos + "diferente de todas" compra imagem, com exame neurológico normal ou não. E a armadilha do falso alívio: a dor que melhorou com dipirona continua sendo a mesma dor súbita de antes — analgésico trata sintoma, não probabilidade.

AHA/ASA 2023 — diagnóstico; cefaleia sentinela.
Tratar o aneurisma CEDO — o telefonema que desarma a bomba
embolização ou clipagem o quanto antes; tudo o mais desta página é ponte até lá
Acionar neurocirurgia/neurointervenção na confirmação — tratamento do aneurisma (embolização endovascular ou clipagem, decisão da equipe pela anatomia) o mais cedo possível — idealmente dentro de 24 h do ictus
Hospital sem tratamento de aneurisma → transferência imediata para centro de referência — com PA controlada (item 03) e nimodipina (item 04) já rodando; "estabilizar primeiro por uns dias" não existe nesta doença
Por quê & armadilhas

O ressangramento é a catástrofe evitável da HSA: risco máximo nas primeiras 24 horas, mortalidade que dobra quando acontece — e só uma coisa o desarma de verdade: o aneurisma excluído da circulação. Por isso este item vem antes de qualquer bomba: nenhum alvo pressórico substitui o coil. A armadilha institucional é o falso conforto do paciente "estável, Glasgow 15, só com cefaleia" segurado no hospital de origem para tratar "quando der" — é exatamente esse paciente, o grau bom, que mais tem a perder com a segunda ruptura, porque é o que mais tinha a ganhar com o tratamento a tempo.

AHA/ASA 2023 — obliteração do aneurisma o mais precoce possível, idealmente em 24 h, com transferência imediata ao centro especializado.
Até o aneurisma tratado: PAS < 160 suave — e a analgesia é anti-hipertensivo
a dor 10/10 e o vômito são picos pressóricos sobre um aneurisma aberto
Alvo pré-tratamento: PAS < 160 mmHg (evitar extremos — nem 190, nem despencar < 120): EV titulável em bombanicardipina, clevidipina ou labetalol são as escolhas do neuroprotocolo · evitar o nitroprussiato como primeira linha aqui: ele pode elevar a PIC e dilata o leito cerebral. Onde ele for a única opção, usar com PIC em mente, dose mínima, tempo mínimo e os limites da PA muito elevada
PA invasiva: pondere, não é regra. O que a diretriz exige é monitorização frequente da pressão e controle com droga de meia-vida curta — não uma linha arterial em todo mundo. A cateterização é o meio quando: há bomba titulável correndo · a variabilidade da pressão é o que se está tentando conter (e é ela, mais que o pico isolado, que se associa a ressangramento) · a medida não invasiva está pouco confiável (arritmia, obesidade, choque, manguito mal ajustado) · ou o paciente já vai ao centro cirúrgico/angiografia. Não atrase o controle pressórico esperando o cateter — comece pelo manguito de 5 em 5 min e puncione em seguida
O alvo de PAS < 160 é protocolo operacional, não número cravado pela AHA/ASA 2023: o que a diretriz pede é evitar hipertensão grave, hipotensão e variabilidade até o aneurisma ser tratado. Use o alvo do seu serviço
Analgesia programada, não SN: dipirona 1 g EV 6/6 h + opioide titulado (a cefaleia da HSA é 10/10 — tratá-la é tratar a pressão) · antiemético fixo: ondansetrona 4–8 mg EV (vomitar é Valsalva sobre o aneurisma) — vigiar QT: corrigir K e Mg e considerar ECG em cardiopata, bradiarritmia, QT longo ou uso concomitante de outro prolongador · laxante (evitar esforço evacuatório) · repouso, ambiente calmo, cabeceira 30°
Sem antitrombóticos de qualquer espécie até o aneurisma tratado · ácido tranexâmico: não de rotina
Por quê & armadilhas

O controle pressórico pré-tratamento é um meio-termo pragmático: pressão alta empurra a parede rota, pressão baixa demais hipoperfunde um cérebro que acabou de sofrer hipertensão intracraniana súbita — daí o alvo moderado e a exigência de suavidade. O detalhe que muda a prática: metade do "descontrole pressórico" da HSA é dor não tratada e vômito não prevenido — a morfina e a ondansetrona derrubam mais pressão que muitos mL/h de nitroprussiato, sem roubar perfusão. E o laxante, que parece nota de rodapé, é fisiologia aplicada: uma manobra de Valsalva no vaso errado é o ressangramento mais barato de prevenir do hospital.

AHA/ASA 2023 — PA pré-tratamento; TXA sem benefício de rotina (ULTRA).
Nimodipina 60 mg 4/4 h por 21 dias — o único comprimido com prova de desfecho
começa no dia 1, sobrevive a transferência, alta e preguiça — 21 dias são 21 dias
Nimodipina 60 mg VO/SNE de 4/4 h, por 21 dias — escrever a data de término na prescrição
Começar dentro de 96 h do ictus — é a janela da bula · dar 1 h antes ou 2 h depois da dieta · evitar suco de toranja (grapefruit)
Cirrose: a bula reduz para 30 mg de 4/4 h · hipotensão limitante: 30 mg de 2/2 h é adaptação local (não consta na bula) usada antes de pensar em suspender · nunca por via parenteral — a bula traz isso em destaque: nimodipina EV causa hipotensão grave. Se a cápsula não pode ser deglutida, extrair o conteúdo e administrar por seringa de uso oral, que não aceita agulha, pela SNE · se a PA não comporta nem o meio: reavaliar volemia e sedação antes de sacrificar a droga
Por quê & armadilhas

A nimodipina é uma lição de humildade farmacológica: ela não previne o vasoespasmo na angiografia — e mesmo assim melhora desfecho neurológico com consistência que nenhuma outra droga da HSA alcançou (o benefício provável é microcirculatório e neuroprotetor). É o raro item de prescrição que se defende sozinho em ensaio clínico, e o erro com ele é sempre logístico: a dose que "ficou para depois da TC", o esquema de 4/4 h que virou 8/8 "para não incomodar", a suspensão definitiva na primeira pressão baixa — quando a resposta era 30 de 2/2. Os 21 dias cobrem a janela inteira do vasoespasmo; parar no D10 porque "está bem" é parar no meio da tempestade.

AHA/ASA 2023 — nimodipina oral, 21 dias · posologia, redução na cirrose e via exclusivamente oral/enteral conforme bula (Nymalize).
Hidrocefalia aguda — o rebaixamento das primeiras horas tem dreno
sangue no liquor entope a drenagem; o Glasgow que cai pede DVE, não resignação
Rebaixamento (agudo ou progressivo) → TC: ventrículos dilatando = hidrocefalia aguda → DVE (derivação ventricular externa) com a neurocirurgia — reversível e dramático quando drenado
O tratamento é o dreno — o osmótico é só a ponte até ele. Na hidrocefalia sintomática, a derivação liquórica (DVE ou drenagem lombar) é Classe 1; nenhuma dose de osmótico resolve obstrução de fluxo, e apostar nela é trocar o procedimento que reverte pela droga que adia
Sinais de HIC/herniação enquanto o dreno não vemsalina hipertônica primeiro, em bolus guiado por sintoma (é a estratégia que a diretriz de edema cerebral sugere na HSA, em vez de infusão titulada por alvo de sódio):
EscolhaDoseComo correr
1ª · NaCl 20% preferida30–40 mL EVampolas de 10 mL (3,4 mEq de Na/mL), em 10–20 min, preferindo acesso central
1ª · NaCl 3%150–250 mL EVem 15–20 min · aceita veia periférica calibrosa — preparo na hiponatremia
2ª · Manitol 20%1 g/kg EVfrasco de 250 mL = 50 g; 70 kg ≈ 350 mL, em 20–30 min
Por que a salina vem antes aqui, mais ainda que no AVCh: o paciente de HSA perde sal e água (item 07) e caminha para o vasoespasmo. O manitol é diurético osmótico — ele seca exatamente quem você precisa manter euvolêmico e com pressão de perfusão preservada. Trocar PIC por hipovolemia na semana do vasoespasmo é o pior negócio desta página · mesma lógica e mesmas contas do AVCh
Por quê & armadilhas

A hidrocefalia é a complicação mais agradecida da HSA: um paciente que despenca de Glasgow 14 para 8 nas primeiras horas e volta a conversar com um dreno bem posto. O erro é interpretativo — atribuir o rebaixamento "à gravidade da hemorragia" e sedar/intubar sem a TC que mostraria os ventrículos crescendo. Na HSA, todo rebaixamento novo é pergunta com três respostas (ressangrou? hidrocefalia? vasoespasmo?) e duas delas têm procedimento — a resignação diagnóstica é o único desfecho sem tratamento.

Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — na HSA aneurismática com hidrocefalia aguda sintomática, a derivação liquórica urgente (DVE e/ou drenagem lombar) deve ser realizada para melhorar o desfecho neurológico (Classe 1, B-NR) · Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 — na HSA, sugere-se bolus de solução salina hipertônica guiado por sintoma, em vez de dose titulada por alvo de sódio, para o manejo de PIC ou edema cerebral (condicional, evidência de muito baixa qualidade); no AVCh, hipertônica em preferência ao manitol.
Vasoespasmo e isquemia tardia (D3–D14) — vigiar, euvolemia, e subir a pressão
o déficit novo do 7º dia é a emergência que a equipe desavisada chama de "sequela"
Vigilância ativa D3–D14: exame neurológico seriado (déficit novo, confusão, rebaixamento) ± doppler transcraniano conforme o serviço · euvolemia — nem seco, nem "hipervolemia profilática" (o triplo-H morreu)
DCI sintomática (aneurisma já tratado): hipertensão induzida — noradrenalina titulada elevando a PAM em degraus até resposta clínica (diluição nas drogas vasoativas), reavaliando o déficit a cada degrau · sem resposta → neurointervenção (angioplastia/vasodilatador intra-arterial) — telefonema, de novo
Milrinona no vasoespasmo — o que a evidência sustenta, e o que ela não sustenta
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Não há evidência forte, e a página não vai fabricar uma. A diretriz de 2023 registra a milrinona como usada na prevenção da DCI "com base em dados limitados e não randomizados" e conclui que o papel dela, embora promissor, requer mais investigaçãonão existe recomendação com classe a favor. O que existe: uma coorte de 88 pacientes do protocolo de Montreal e um estudo controlado antes-depois (MILRISPASM). Nenhum ensaio randomizado. Use como protocolo institucional em DCI refratária, com a neurointervenção acionada em paralelo — nunca como substituto dela.
Diluição da casa: 20 mg em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% = 200 mcg/mL (ampola usual de 20 mg/20 mL) · confira a apresentação da sua farmácia antes de usar a coluna de mL/h
EtapaDosePaciente de 70 kgBomba a 200 mcg/mL
Bolus (protocolo de Montreal — opcional, e o que mais hipotensa)0,1 mg/kg em 10 min7 mg35 mL em 10 min
Início — dose do estudo controlado0,5 mcg/kg/min2,1 mg/h10,5 mL/h
Início do protocolo de Montreal0,75 mcg/kg/min3,2 mg/h16 mL/h
Degraus (a cada hora, conforme resposta e PAM)+ 0,25 mcg/kg/min+ 5 mL/h
1,0 mcg/kg/min4,2 mg/h21 mL/h
1,5 mcg/kg/min6,3 mg/h31,5 mL/h
Teto do protocolo2,0 mcg/kg/min8,4 mg/h42 mL/h
Desmame: reduzir 0,25 mcg/kg/min a cada 12–24 h até 0,75 mcg/kg/min e então suspender — a duração no protocolo original girou em torno de 10 dias, acompanhando a janela do vasoespasmo
O efeito adverso é a razão de ela falhar na prática: hipotensão. No estudo controlado, 29% precisaram interromper por má tolerância. Ela é inodilatadora — derruba a PAM que você está justamente tentando elevar. Se a PA cair: retirar anti-hipertensivos (menos a nimodipina), repor volume com cristaloide e subir a noradrenalina; vasopressina se ainda insuficiente. Na prática, milrinona quase sempre anda junto com noradrenalina, não no lugar dela
Rim manda: a milrinona é de excreção renal e acumula — ClCr < 30 mL/min é contraindicação no protocolo original; entre 30 e 50, reduzir e vigiar. E ela não dispensa a euvolemia nem o telefonema da neurointervenção
Milrinona em protocolo institucional: existe em alguns centros — é protocolo local, não padrão universal; seguir o do seu serviço · nimodipina do item 04 segue rodando por baixo de tudo isso
Por quê & armadilhas

O vasoespasmo é a segunda doença da HSA, com agenda própria: começa quando a emergência já passou, o aneurisma já foi tratado e a tentação de dar alta da UTI é máxima — e o seu tratamento inverte tudo o que a página fazia até aqui: a mesma noradrenalina que era impensável no D1 vira terapia no D7, porque o cérebro atrás de artérias em espasmo precisa de pressão para perfundir (por isso o pré-requisito inegociável: aneurisma tratado). A armadilha clássica é semântica: o déficit novo do 7º dia registrado como "evoluiu com sequela" — quando era isquemia tardia, reversível, esperando pressão e um cateter. E a hipovolemia é o acelerador silencioso: o paciente de HSA perde sal e água (item 07), e vasoespasmo + hipovolemia é a combinação que infarta.

Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — euvolemia (a indução de hipervolemia é Classe 3: dano) e hipertensão induzida na DCI; resgate endovascular · Milrinona: a mesma diretriz afirma que a milrinona vem sendo usada para prevenção de DCI "com base em dados limitados e não randomizados" e que seu papel, embora promissor, requer mais investigação — sem recomendação com classe · Lannes M, Teitelbaum J, del Pilar Cortés M, Cardoso M, Angle M. Milrinone and Homeostasis to Treat Cerebral Vasospasm Associated with Subarachnoid Hemorrhage: the Montreal Neurological Hospital Protocol. Neurocrit Care. 2012;16(3):354–362 — coorte de 88 pacientes, infusão por média de 9,8 dias · Lakhal K, et al. Intravenous Milrinone for Cerebral Vasospasm in Subarachnoid Hemorrhage: the MILRISPASM Controlled Before–After Study. Neurocrit Care. 2021;35(3):669–679 — 0,5 mcg/kg/min somada à hipertensão induzida, com 29% de interrupção precoce por má tolerância · Esquema de bolus, degraus, teto, desmame e contraindicação renal conforme Batarda Sena P, et al. Neurol Int. 2025;17(3):32 — revisão narrativa, que é o nível de evidência disponível.
O sódio da HSA — hiponatremia se trata com sal, nunca com restrição
cerebral salt wasting e SIADH parecem iguais no laboratório; a resposta certa é a mesma regra
Natremia diária (6/6–12/12 h se caindo) — hiponatremia é a alteração eletrolítica mais comum da HSA e costuma anunciar-se nos dias do vasoespasmo
Tratar com sal e volume: SF 0,9% como base + NaCl VO/SNE ou salina hipertônica 3% se sintomática/em queda rápida · restrição hídrica é PROIBIDA na HSA — mesmo que o rótulo pareça SIADH
Completam o "normal em tudo": glicemia 140–180 · febre tratada agressivamente + procurar foco · O2 se SpO2 < 94% · sem soro hipotônico jamais
Por quê & armadilhas

A pegadinha fisiológica mais perigosa da HSA: a hiponatremia daqui frequentemente é cerebral salt wasting — o cérebro lesado faz o rim jogar sal e água fora — e o reflexo de internista bem treinado ("hipona euvolêmica = SIADH = restringir água") aplica ao paciente errado o tratamento que o mata: restringir volume em quem já está espoliado, na semana do vasoespasmo, é prescrever a isquemia tardia. Como os dois quadros são difíceis de distinguir na beira do leito, a diretriz corta o nó: na HSA, hiponatremia se corrige com sal — VO, isotônico em volume, hipertônico se preciso — e a restrição fica proibida por decreto. É dos raros lugares da medicina onde a regra simples é mais segura que o raciocínio completo.

AHA/ASA 2023 — evitar restrição hídrica; correção com sal/hipertônica.
O kit da HSA — crise sem profilaxia universal, TEV em duas fases, disfagia
as regras da casa, com os relógios desta doença
Crise convulsiva: sem profilaxia universal. Curso curto pode ser considerado em alto risco selecionado — aneurisma ainda não tratado, hematoma associado, crise à apresentação, HSA grave, hidrocefalia ou infarto cortical — recomendação fraca. Fenitoína desencorajada (pior desfecho)
Crise nova depois da HSA: tratar com antiepiléptico por 7 dias · crise em atividade → benzodiazepínico pleno primeiro · persistiu ou é statuslevetiracetam 60 mg/kg EV (máx. 4.500 mg) em 10–15 min · manutenção após crise: 500–1.000 mg 12/12 h, ajustada pela função renal
Profilaxia sem crise — só em quem tem as características de risco
Sem características de alto risco, a profilaxia não traz benefício — é recomendação Classe 3. Com elas, pode ser razoável (Classe 2b, B-NR), o que é permissão, não indicação
As características são cinco, e vêm nomeadas na diretriz: aneurisma roto de artéria cerebral média · hemorragia intraparenquimatosa associada · HSA de alto grau · hidrocefalia · infarto cortical
Fenitoína, não — na HSA ela se associa a excesso de morbidade e mortalidade; é o único ponto em que a diretriz nomeia uma molécula, e é para vetá-la
Se a equipe optar pela profilaxia: não usar a carga de status. Um regime institucional possível é levetiracetam 500 mg 12/12 h, titulável a 1.000 mg 12/12 h — rotulado como protocolo, porque a diretriz não define molécula nem dose. A preferência pelo levetiracetam é operacional e por segurança comparada: no ensaio que o comparou à fenitoína, o controle de crises e a mortalidade foram iguais, com menos efeitos adversos — não é superioridade de eficácia
E o mais curto possível: teto de 7 dias — e há sinal de que curso > 3 dias, comparado a < 3 dias, previne o mesmo número de crises intra-hospitalares com pior desfecho clínico. Se prescrever, escreva a data de suspensão no mesmo dia · rebaixado sem explicação → EEG
TEV em duas fases: compressão pneumática desde D1 → enoxaparina 40 mg 1×/dia só APÓS o aneurisma tratado (clipado/embolizado) e com a equipe de acordo
Nada por via oral (nem a nimodipina!) antes da triagem de disfagia se houver qualquer rebaixamento — falhou → SNE (a nimodipina passa por ela) · omeprazol com indicação · cabeceira 30°, higiene oral · analgesia e laxante do item 03 seguem a internação inteira
Por quê & armadilhas

A fenitoína profilática "para todos por 7 dias" é o zumbi específico desta doença: dados observacionais associaram-na a pior desfecho cognitivo e funcional na HSA, e a recomendação moderna a aposentou — a profilaxia, quando fizer sentido, é curta, seletiva e com levetiracetam. No TEV, a mesma lógica de duas fases do AVCh, com o marco trocado: aqui quem libera a química não é a TC de controle, é o aneurisma excluído. E um detalhe que derruba a droga mais importante da página: o paciente que rebaixou e "não pode engolir" fica sem a nimodipina se ninguém lembrar que ela desce por sonda — a triagem de disfagia protege o pulmão e o único comprimido com prova de desfecho.

Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370 — profilaxia anticonvulsivante pode ser razoável apenas com características de alto risco (aneurisma roto de ACM, hemorragia intraparenquimatosa, HSA de alto grau, hidrocefalia, infarto cortical — Classe 2b, B-NR) e sem benefício na ausência delas (Classe 3); fenitoína associada a excesso de morbidade e mortalidade; crise de apresentação tratada por ≤ 7 dias (Classe 2a) e além de 7 dias sem eficácia; EEG contínuo razoável no exame flutuante ou rebaixado (Classe 2a). A diretriz não nomeia molécula nem dose para a profilaxia — o esquema desta página é rotulado como protocolo institucional. A preferência pelo levetiracetam apoia-se no ensaio randomizado simples-cego contra fenitoína, com mesma mortalidade e controle de crises e menos efeitos adversos, e em metanálises em que o curso longo (> 3 dias) preveniu tanto quanto o curto (< 3 dias) com pior desfecho clínico · TEV farmacológico após o aneurisma assegurado (Classe 1, C-LD), com o momento exato declarado indefinido pela própria diretriz · dose de status conforme ESETT (Kapur J, et al. N Engl J Med. 2019;381(22):2103–2113) e ACEP 2024.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ ≥ 94%. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na HSA.

Fenitoína profilática universal — associada a pior desfecho; profilaxia é exceção curta e seletiva. Restrição hídrica para a hiponatremia — na HSA, hipona se trata com sal; restringir é prescrever isquemia tardia. Hipervolemia profilática ("triplo-H") — morreu; euvolemia. Ácido tranexâmico de rotina. Qualquer antitrombótico antes do aneurisma tratado — e enoxaparina "de rotina" no D1. Nimodipina suspensa na primeira hipotensão — 30 mg 2/2 h existe para isso. Segurar o paciente "estável" longe do centro de referência. Sedação profunda que apaga o exame — o exame é o monitor do vasoespasmo. Soro hipotônico. AINE sobre um aneurisma aberto. E chamar o déficit do 7º dia de "sequela" — isquemia tardia é emergência tratável, não epílogo.

Prescreveu — e agora?

A HSA é maratona de 14 dias: aneurisma tratado não é alta da vigilância — é o começo dela. O raciocínio neurocrítico completo vive no módulo neuro; o sangue dentro do parênquima é a página do AVCh; e a crise epiléptica — que esta página trata mas não esgota — fecha esta fila como a próxima prescrição.

Levar o caso ao assistente de conduta
Hoh BL, Ko NU, Amin-Hanjani S, et al. 2023 Guideline for the Management of Patients With Aneurysmal Subarachnoid Hemorrhage. Stroke. 2023;54(7):e314–e370. Claassen J, Park S. Spontaneous subarachnoid haemorrhage. Lancet. 2022;400(10355):846–862. Post R, Germans MR, Tjerkstra MA, et al. Ultra-early tranexamic acid after subarachnoid haemorrhage (ULTRA): a randomised controlled trial. Lancet. 2021;397(10269):112–118.