AVC isquêmico
Aqui a prescrição corre contra um relógio de neurônios — 1,9 milhão por minuto — e inverte um reflexo: a pressão alta, que em toda outra página se trata, aqui na maioria das vezes se respeita. Só se derruba pressão para abrir caminho à reperfusão.
Serve para o AVC isquêmico do adulto, da porta do PS à enfermaria — o candidato à trombólise, o candidato à trombectomia (que o plantão não pode esquecer de procurar), e o que chegou fora de janela e precisa ser protegido. O raciocínio neurológico profundo — território, NIHSS, imagem — vive no módulo neurocrítico; esta página é a prescrição que o acompanha.
Condutas seguem AHA/ASA 2026 (manejo agudo) e 2021 (prevenção secundária), e não substituem o protocolo de AVC do seu serviço. Trombólise e trombectomia dependem de rede: saber para onde ligar e transferir vale tanto quanto qualquer dose desta página.
A ordem é a do relógio: o diagnóstico em minutos, as duas decisões de reperfusão (trombólise e trombectomia — uma não exclui a outra), a pressão a serviço da reperfusão, e depois a internação que protege o cérebro: disfagia antes da primeira colher, o "normal em tudo", a prevenção secundária pela etiologia. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
Todo minuto de artéria fechada custa ~1,9 milhão de neurônios — e a maior parte do tempo perdido no AVC não é da ambulância, é da porta para dentro: o eletro "de rotina", o coagulograma "para garantir", a segunda opinião antes da TC. O protocolo existe para que a única pergunta que importa (sangue sim ou não) seja respondida em minutos. O "last known well" merece interrogatório de detetive — acordou com o déficit? A janela conta do horário em que foi dormir bem, e é isso que muitas vezes decide entre trombólise, trombectomia tardia por imagem ou tratamento conservador.
AHA/ASA 2026 — metas de tempo porta-agulha.A trombólise é o tratamento com o gradiente de tempo mais brutal da medicina: o NNT sobe a cada meia hora, e "vamos observar a evolução" é a frase que mais paralisa braços por ano. O medo que trava a decisão — a transformação hemorrágica — é real mas aritmética: o benefício vence na população elegível, e a hemorragia é mais frequente justamente quando as regras (PA, glicemia, janela) foram dribladas. A tenecteplase deixou de "vir ganhando" e assumiu: mais de 6 mil pacientes em ensaios de fase 3 mostraram não inferioridade à alteplase com segurança semelhante, e a AHA/ASA 2026 registra que 0,25 mg/kg pode substituir a alteplase como agente de escolha até 4h30 — o bolus único evita bomba errada e não atrasa a transferência. Atenção à dose: 0,4 mg/kg não é "mais potência", é dano — o NOR-TEST 2 foi interrompido por pior desfecho e mais hemorragia. E a armadilha do "déficit leve": leve que incapacita (afasia, hemianopsia, mão dominante) trata — o NIHSS baixo não mede o tamanho da vida que o déficit rouba.
AHA/ASA 2026 — tenecteplase 0,25 mg/kg pode substituir a alteplase até 4h30; 0,4 mg/kg não recomendada · ESO 2023 (tenecteplase).A trombectomia é o tratamento mais eficaz da neurologia moderna — NNT de ~2,6 para reduzir incapacidade na oclusão de grande vaso — e a oclusão de grande vaso é exatamente o AVC em que a trombólise sozinha menos resolve (o trombo é grande demais para a química). Por isso as duas decisões andam juntas e nenhuma espera a outra. O erro de sistema mais caro do Brasil: o paciente com hemiplegia densa e desvio do olhar "internado para observar" num hospital sem hemodinâmica, quando a angio-TC de 5 minutos teria disparado a transferência — déficit cortical grave é grande vaso até prova em contrário. E o paciente que acordou com o déficit, antes "perdido", hoje é o candidato clássico da janela estendida por imagem.
AHA/ASA 2026 — trombectomia até 24 h em selecionados; sem heterogeneidade de efeito entre seleção por mismatch volumétrico (DAWN, DEFUSE-3) e por outros critérios (ESCAPE, RESILIENT, POSITIVE, REVASCAT) na análise AURORA.A penumbra isquêmica é tecido vivo pendurado em colaterais — e colateral não autorregula: o fluxo dela é a pressão sistêmica. Derrubar a PA do não-candidato "porque 200 assusta" é fechar as colaterais e converter penumbra em infarto: é a exceção permissiva anunciada na página da PA muito elevada, e o plantão que não a conhece trata o número e amplia o AVC. No candidato à trombólise a conta muda — 185×110 é o teto de segurança contra a transformação hemorrágica — mas o alvo é logo abaixo do teto, não "pressão bonita": trombolisar com PAS 110 derrubada a nitroprussiato é trocar um risco por outro.
AHA/ASA 2026 — alvos pressóricos por elegibilidade.| Cenário | Esquema | Duração | Força |
|---|---|---|---|
| NIHSS ≤ 3 ou AIT ABCD² ≥ 4, < 24 h, sem trombólise | AAS + clopidogrel (ataque de 300 ou 600 mg → 75 mg/dia) | 21 dias → monoterapia | Classe 1 · A |
| NIHSS ≤ 5 (ou 4–5 em < 24 h) até 72 h, com causa aterosclerótica presumida na imagem | AAS + clopidogrel | 21 dias → monoterapia | Classe 2a · B-R (INSPIRES) |
| NIHSS ≤ 5 com ABCD² ≥ 6 ou estenose ≥ 50%, < 24 h | AAS + ticagrelor | 30 dias | Classe 2b · B-R |
| NIHSS ≤ 3 / ABCD² ≥ 4 com CYP2C19 sem função (onde houver o teste) | AAS + ticagrelor → ticagrelor | 21 dias | Classe 2b · B-R |
| Fora desses recortes — NIHSS maior, fora de janela, pós-lise | Monoterapia: AAS 300 mg → 100 mg/dia | contínua | Classe 1 · A |
| Tamanho do AVC | Começar o DOAC | De onde vem |
|---|---|---|
| Menor / moderado | até 48 h do início | ELAN — braço precoce |
| Extenso | dia 6–7 | ELAN — braço precoce |
| Qualquer gravidade (inclui transformação hemorrágica que não seja hematoma tipo 2) | até 4 dias | OPTIMAS e TIMING — não inferior a 7–14 dias |
Três calendários que a pressa mistura. O AAS precoce previne o segundo AVC da primeira semana — mas atravessar a janela das 24 h pós-lise custa hemorragia. A dupla antiagregação funciona exatamente onde o infarto é pequeno e o risco de recorrência é alto — e vira só sangramento quando estendida além dos 21 dias ou aplicada ao infarto grande.
Vale entender por que o NIHSS aparece em toda decisão de dupla. Ele não está medindo gravidade por gravidade: está servindo de substituto para o tamanho do infarto. Infarto pequeno tem pouca área para sangrar e muito risco de recorrer nas primeiras semanas — a dupla ganha. Infarto grande inverte as duas pontas: recorrência menos importante que o hematoma que se forma no tecido já lesado. É a mesma lógica que governa o calendário do DOAC na FA, e é por isso que a pergunta "que tamanho tem esse infarto?" resolve as duas prescrições de uma vez.
A imagem entra por outro caminho, e é o que a maioria esquece: quando há estenose ≥ 50% que explique o território, ou infartos com padrão de aterosclerose de grande artéria, o mecanismo é arterioarterial — plaqueta sobre placa instável — e é exatamente aí que a dupla rende mais. Foi esse raciocínio que permitiu esticar o recorte até NIHSS 5 e até 72 h. Sem a placa, o mesmo NIHSS 5 não autoriza a dupla.
Já a FA aguda mudou de lado nos últimos anos, e a página mudou junto. O medo antigo — anticoagular cedo e transformar o infarto em hematoma — foi testado de frente em três ensaios e não se confirmou. O que sobrevive do dogma antigo é outra coisa, e essa segue de pé: heparina plena na fase aguda continua sem benefício. Trocar "nada por 14 dias" por "DOAC no dia certo" é atualização; trocar por bomba de heparina é repetir o erro que os ensaios enterraram.
Prabhakaran S, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke. Stroke. 2026;57(8):e316–e436 — Antiagregação: AAS em até 48 h (Classe 1, A); DAPT com AAS + clopidogrel por 21 dias no NIHSS ≤ 3 ou AIT ABCD² ≥ 4 em < 24 h sem trombólise (Classe 1, A); DAPT até NIHSS ≤ 5 e 72 h na aterosclerose presumida (Classe 2a, B-R — INSPIRES); ticagrelor + AAS 30 dias (Classe 2b); CYP2C19 (Classe 2b — CHANCE-2); ticagrelor isolado sem benefício sobre AAS (Classe 3); tripla antiagregação e antiagregante somado à anticoagulação na FA (Classe 3: dano); DAPT além de 90 dias sem benefício e com mais sangramento · Anticoagulação: estratégia precoce razoável em pacientes selecionados de menor gravidade (Classe 2a, A); anticoagulação plena nas primeiras 48 h sem benefício (Classe 3, A) · Ensaios: Fischer U, et al. ELAN. N Engl J Med. 2023;388(26):2411–2421 · Werring DJ, et al. OPTIMAS. Lancet. 2024;404(10464):1731–1741 · TIMING · CHANCE e POINT (base da recomendação de 21 dias).A "dieta via oral conforme aceitação" na entrada do AVC é a linha mais perigosa da papeleta brasileira: metade dos AVCs agudos tem alguma disfagia, o paciente "aceita" a dieta — aspirando em silêncio, porque a mesma lesão que atrapalha a deglutição abole a tosse de defesa — e a pneumonia do 3º dia mata quem o AVC não matou. A triagem é de minutos, à beira do leito, e barata como uma escala; o custo de pular é uma pneumonia com o triplo de mortalidade. O detalhe que quase todo mundo esquece: comprimido também é via oral — o primeiro AAS do AVC despenca goela abaixo antes de qualquer teste em muito hospital.
AHA/ASA 2026 — triagem de disfagia antes de ingesta oral, incluindo medicações.Depois de décadas de neuroprotetores que falharam em ensaio, o que sobrou é isto: a penumbra sobrevive se ninguém a agredir — nem com hiperglicemia (acidose no tecido isquêmico), nem com febre (demanda metabólica em tecido sem oferta), nem com soro hipotônico (água livre indo direto para o edema). Nada disso tem glamour e tudo isso tem evidência. A vigilância seriada é o item ativo do pacote: o AVC "estável" que piora tem lista curta (transformação hemorrágica, edema em progressão, novo evento, crise) e todas as opções pedem TC agora, não na rotina da manhã. E no infarto maligno o erro é de agenda: esperar a anisocoria para chamar a neurocirurgia é chamar para o atestado.
AHA/ASA 2026 — suporte fisiológico; craniectomia precoce no infarto maligno.O risco de recorrência é máximo nas primeiras semanas — e cada etiologia tem sua prevenção específica, o que faz da investigação um tratamento com prazo: a carótida sintomática operada na segunda semana previne o AVC que a operada no terceiro mês não previne mais; a FA paroxística que ninguém monitorou volta como o AVC extenso de seis meses depois. A armadilha da alta é o pacote genérico ("AAS + sinvastatina 20 + retorna se piorar") — que ignora que um terço desses pacientes tinha uma causa tratável esperando ser nomeada. A estatina de alta intensidade é dos poucos itens universais: o SPARCL foi feito com atorvastatina 80, não com a estatina que sobrou na farmácia.
Kleindorfer DO, Towfighi A, Chaturvedi S, et al. 2021 Guideline for the Prevention of Stroke in Patients With Stroke and Transient Ischemic Attack. Stroke. 2021;52(7):e364–e467 — endarterectomia na estenose sintomática de 70–99% (Classe 1) e de 50–69% conforme fatores do paciente (Classe 1, B-R), ambas condicionadas a risco perioperatório < 6%; < 50% sem indicação · Janela: Prabhakaran S, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke. Stroke. 2026;57(8):e316–e436 — endarterectomia de emergência (< 48 h) rebaixada a Classe 3: sem benefício (B-NR), com base em metanálise de 3 ECRs e 68 coortes (n = 232.952): AVC em 30 dias OR 1,57 (IC 95% 1,3–1,9) e morte OR 5,19 (4,1–6,6) quando operada em ≤ 2 dias versus dias 3–14; a diretriz remete à prevenção secundária para a janela de 2 dias a 2 semanas · SPARCL.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Derrubar a pressão do não-candidato à reperfusão — a penumbra vive de pressão; respeitar até 220×120. Nifedipina sublingual — nunca, e aqui menos ainda. Dieta (ou comprimido) antes da triagem de disfagia. Heparina plena "para o AVC" — mesmo na FA; anticoagulação é diferida. AAS nas primeiras 24 h pós-trombólise ou antes da TC. Soro glicosado/hipotônico de manutenção. Anticonvulsivante profilático. Corticoide para edema isquêmico — não funciona e infecta. Sedação "para agitação" que apaga o exame neurológico — investigar a causa da agitação primeiro. Esperar coagulograma sem suspeita para trombolisar. E "internar para observar" a oclusão de grande vaso em hospital sem trombectomia — observar, aqui, é assistir.
O raciocínio neurológico completo — territórios, NIHSS, imagem, edema maligno — vive no módulo neurocrítico. A FA que a monitorização encontrar leva à página da FA para o DOAC certo. E o AVC hemorrágico — o outro lado da primeira TC — é a próxima prescrição desta fila.
Levar o caso ao assistente de conduta