Consulte · Prescrições comentadas

AVC isquêmico

Aqui a prescrição corre contra um relógio de neurônios — 1,9 milhão por minuto — e inverte um reflexo: a pressão alta, que em toda outra página se trata, aqui na maioria das vezes se respeita. Só se derruba pressão para abrir caminho à reperfusão.

Serve para o AVC isquêmico do adulto, da porta do PS à enfermaria — o candidato à trombólise, o candidato à trombectomia (que o plantão não pode esquecer de procurar), e o que chegou fora de janela e precisa ser protegido. O raciocínio neurológico profundo — território, NIHSS, imagem — vive no módulo neurocrítico; esta página é a prescrição que o acompanha.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem AHA/ASA 2026 (manejo agudo) e 2021 (prevenção secundária), e não substituem o protocolo de AVC do seu serviço. Trombólise e trombectomia dependem de rede: saber para onde ligar e transferir vale tanto quanto qualquer dose desta página.

Como usar.

A ordem é a do relógio: o diagnóstico em minutos, as duas decisões de reperfusão (trombólise e trombectomia — uma não exclui a outra), a pressão a serviço da reperfusão, e depois a internação que protege o cérebro: disfagia antes da primeira colher, o "normal em tudo", a prevenção secundária pela etiologia. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Hora do último momento bem, glicemia, TC — nesta ordem, em minutos
o "last known well" é o dado mais valioso da anamnese; a glicemia é o impostor mais barato de excluir
Definir e registrar o horário do último momento assintomático (não o horário em que "foi encontrado") — é ele que abre ou fecha as janelas · ativar o protocolo de AVC do serviço
Glicemia capilar imediata (hipoglicemia imita AVC — corrigir e reexaminar) · TC de crânio sem contraste na chegada: a pergunta dela é uma só — tem sangue? · NIHSS documentado
Não esperar coagulograma/plaquetas para trombolisar, salvo suspeita real de coagulopatia ou anticoagulante em uso — o resultado não pode segurar a bomba
Por quê & armadilhas

Todo minuto de artéria fechada custa ~1,9 milhão de neurônios — e a maior parte do tempo perdido no AVC não é da ambulância, é da porta para dentro: o eletro "de rotina", o coagulograma "para garantir", a segunda opinião antes da TC. O protocolo existe para que a única pergunta que importa (sangue sim ou não) seja respondida em minutos. O "last known well" merece interrogatório de detetive — acordou com o déficit? A janela conta do horário em que foi dormir bem, e é isso que muitas vezes decide entre trombólise, trombectomia tardia por imagem ou tratamento conservador.

AHA/ASA 2026 — metas de tempo porta-agulha.
Trombólise até 4h30 — tenecteplase pode substituir a alteplase, sem hesitação no elegível
déficit incapacitante + sem sangue na TC + sem contraindicação = a bomba corre
Tenecteplase 0,25 mg/kg (máx 25 mg) em bolus único — pode substituir a alteplase como agente de escolha até 4h30 · alternativa: alteplase 0,9 mg/kg (máx 90 mg), 10% em bolus em 1 min → 90% em bomba em 60 min
Checagem essencial (não decorativa): sangramento ativo, cirurgia/trauma maior recente, anticoagulação plena efetiva, AVCh prévio, plaquetas < 100 mil se conhecidas · PA ≥ 185×110 → controlar ANTES (item 04) — pressão alta é contraindicação corrigível
Pós-lise: UTI/unidade de AVC, PA < 180×105 por 24 h, exame neurológico seriado · piora súbita = TC agora (sangrou até prova em contrário) · antitrombótico, profilaxia de TEV e SNE invasiva: só após TC de controle de 24 h
Por quê & armadilhas

A trombólise é o tratamento com o gradiente de tempo mais brutal da medicina: o NNT sobe a cada meia hora, e "vamos observar a evolução" é a frase que mais paralisa braços por ano. O medo que trava a decisão — a transformação hemorrágica — é real mas aritmética: o benefício vence na população elegível, e a hemorragia é mais frequente justamente quando as regras (PA, glicemia, janela) foram dribladas. A tenecteplase deixou de "vir ganhando" e assumiu: mais de 6 mil pacientes em ensaios de fase 3 mostraram não inferioridade à alteplase com segurança semelhante, e a AHA/ASA 2026 registra que 0,25 mg/kg pode substituir a alteplase como agente de escolha até 4h30 — o bolus único evita bomba errada e não atrasa a transferência. Atenção à dose: 0,4 mg/kg não é "mais potência", é dano — o NOR-TEST 2 foi interrompido por pior desfecho e mais hemorragia. E a armadilha do "déficit leve": leve que incapacita (afasia, hemianopsia, mão dominante) trata — o NIHSS baixo não mede o tamanho da vida que o déficit rouba.

AHA/ASA 2026 — tenecteplase 0,25 mg/kg pode substituir a alteplase até 4h30; 0,4 mg/kg não recomendada · ESO 2023 (tenecteplase).
Trombectomia: procurar a oclusão de grande vaso — a janela vai até 24 h
a pergunta que o plantão não pode esquecer; trombolisou não encerra o assunto
Angio-TC de vasos cervicais e intracranianos junto com (ou logo após) a TC simples em todo déficit significativo — oclusão de grande vaso (carótida terminal, M1, basilar) = candidato a trombectomia mecânica
Janelas: até 6 h pelo relógio · 6–24 h em selecionados por imagem — perfusão/mismatch não é o único critério válido: os ensaios que selecionaram sem perfusão obrigatória (ESCAPE, RESILIENT) tiveram benefício semelhante ao dos que usaram mismatch (DAWN, DEFUSE-3). Fora de janela de trombólise não é fora de janela de trombectomia
Trombólise elegível → fazer e JÁ acionar o centro de trombectomia (a bomba corre na ambulância) · sem serviço no hospital: o telefonema de transferência é o item mais importante da prescrição
Por quê & armadilhas

A trombectomia é o tratamento mais eficaz da neurologia moderna — NNT de ~2,6 para reduzir incapacidade na oclusão de grande vaso — e a oclusão de grande vaso é exatamente o AVC em que a trombólise sozinha menos resolve (o trombo é grande demais para a química). Por isso as duas decisões andam juntas e nenhuma espera a outra. O erro de sistema mais caro do Brasil: o paciente com hemiplegia densa e desvio do olhar "internado para observar" num hospital sem hemodinâmica, quando a angio-TC de 5 minutos teria disparado a transferência — déficit cortical grave é grande vaso até prova em contrário. E o paciente que acordou com o déficit, antes "perdido", hoje é o candidato clássico da janela estendida por imagem.

AHA/ASA 2026 — trombectomia até 24 h em selecionados; sem heterogeneidade de efeito entre seleção por mismatch volumétrico (DAWN, DEFUSE-3) e por outros critérios (ESCAPE, RESILIENT, POSITIVE, REVASCAT) na análise AURORA.
A pressão a serviço da reperfusão — dois regimes, nenhum reflexo
candidato: < 185×110 para liberar a bomba · não candidato: respeitar até 220×120
Vai reperfundir: PA ≥ 185×110 → EV titulável até < 185×110 (e < 180×105 nas 24 h seguintes) · onde houver: labetalol 10–20 mg EV ou nicardipina 5 mg/h titulando · realidade brasileira: nitroprussiato 0,25–0,5 mcg/kg/min titulado com PA de 3–5 min (preparo na página da PA muito elevada) ou metoprolol EV 5 mg se taquicárdico — queda suave, sem despencar
Não candidato a reperfusão: hipertensão permissiva — tolerar até 220×120 nas primeiras 24–48 h, tratando só acima disso (redução ~15% no 1º dia) ou se outra emergência junto (SCA, dissecção, EAP)
Hipotensão no AVC é tão inimiga quanto: corrigir PAS < 120 com volume/causa — a penumbra é pressão-dependente
Por quê & armadilhas

A penumbra isquêmica é tecido vivo pendurado em colaterais — e colateral não autorregula: o fluxo dela é a pressão sistêmica. Derrubar a PA do não-candidato "porque 200 assusta" é fechar as colaterais e converter penumbra em infarto: é a exceção permissiva anunciada na página da PA muito elevada, e o plantão que não a conhece trata o número e amplia o AVC. No candidato à trombólise a conta muda — 185×110 é o teto de segurança contra a transformação hemorrágica — mas o alvo é logo abaixo do teto, não "pressão bonita": trombolisar com PAS 110 derrubada a nitroprussiato é trocar um risco por outro.

AHA/ASA 2026 — alvos pressóricos por elegibilidade.
Antitrombótico com calendário — AAS, dupla curta no minor, FA sem pressa
cada cenário tem seu próprio primeiro dia; nenhum leva heparina plena "para o AVC"
Padrão: AAS 300 mg (ataque, VO ou SNE após triagem de deglutição) → 100 mg/dia · pós-trombólise: só após a TC de 24 h sem sangue
Dupla ou monoterapia? — as cinco perguntas que decidem
1. É cardioembólico? Se sim, a resposta não é dupla antiagregação — é anticoagulação no tempo certo (abaixo). Toda a evidência de dupla é em AVC não cardioembólico · e somar antiagregante à anticoagulação na FA sem doença coronariana ativa ou stent recente é potencialmente danoso
2. Recebeu trombólise? Se sim, não entra dupla — todos os ensaios excluíram quem trombolisou, e antiagregante nas primeiras 24 h pós-lise é risco sem benefício estabelecido
3. Qual o NIHSS, e quantas horas? É aqui que se separam os dois cenários — ver a tabela
4. O que a imagem mostra? Sim, a imagem entra na decisão: estenose ≥ 50% intra ou extracraniana que explique o quadro, ou infartos novos com cara de aterosclerose de grande artéria, ampliam a janela do NIHSS de 3 para 5 e do tempo de 24 h para 72 h
5. Dá para sangrar? Excluir hemorragia na TC, checar plaquetas, sangramento ativo, úlcera recente — e marcar a data de parar no dia em que prescreve
CenárioEsquemaDuraçãoForça
NIHSS ≤ 3 ou AIT ABCD² ≥ 4, < 24 h, sem trombóliseAAS + clopidogrel (ataque de 300 ou 600 mg → 75 mg/dia)21 dias → monoterapiaClasse 1 · A
NIHSS ≤ 5 (ou 4–5 em < 24 h) até 72 h, com causa aterosclerótica presumida na imagemAAS + clopidogrel21 dias → monoterapiaClasse 2a · B-R (INSPIRES)
NIHSS ≤ 5 com ABCD² ≥ 6 ou estenose ≥ 50%, < 24 hAAS + ticagrelor30 diasClasse 2b · B-R
NIHSS ≤ 3 / ABCD² ≥ 4 com CYP2C19 sem função (onde houver o teste)AAS + ticagrelor → ticagrelor21 diasClasse 2b · B-R
Fora desses recortes — NIHSS maior, fora de janela, pós-liseMonoterapia: AAS 300 mg → 100 mg/diacontínuaClasse 1 · A
Estenose intracraniana sintomática: a dupla pode ir a 90 dias — é a única exceção ao teto dos 21 dias · além de 90 dias a dupla não previne AVC e só sangra
!
Ticagrelor não substitui AAS na monoterapia do AVC minor — comparado de frente com o AAS, não se mostrou superior no desfecho combinado de AVC, infarto e morte (recomendação Classe 3: sem benefício). Ele tem lugar associado ao AAS, nos recortes da tabela — não sozinho no lugar dele. E tripla antiagregação (AAS + clopidogrel + dipiridamol) é Classe 3: dano.
FA descoberta — em quantos dias começa o DOAC
A resposta mudou, e para mais cedo. Nos três ensaios que testaram a pergunta, começar cedo foi tão seguro quanto esperar — sem excesso de hemorragia intracraniana — e a diretriz passou a chamar a estratégia precoce de razoável (Classe 2a, evidência A) em pacientes selecionados, sobretudo de menor gravidade. O que não ficou provado é que começar cedo previna mais AVC — o ganho demonstrado é de segurança, não de eficácia
Tamanho do AVCComeçar o DOACDe onde vem
Menor / moderadoaté 48 h do inícioELAN — braço precoce
Extensodia 6–7ELAN — braço precoce
Qualquer gravidade (inclui transformação hemorrágica que não seja hematoma tipo 2)até 4 diasOPTIMAS e TIMING — não inferior a 7–14 dias
Regra prática que resume as três: AVC pequeno → não há motivo para esperar além de 48 h · AVC moderado → por volta do 4º dia · AVC extenso, ou com transformação hemorrágica significativa → 6º ao 7º dia, com TC de controle antes de liberar
Nada disso é heparina. "Começar cedo" significa DOAC — a anticoagulação plena com heparina nas primeiras 48 h não reduz piora neurológica nem melhora desfecho funcional e não é recomendada (Classe 3: sem benefício, evidência A). O ponteiro que se moveu foi o do comprimido, não o da bomba · doses e escolha do DOAC na página da FA
Por quê & armadilhas

Três calendários que a pressa mistura. O AAS precoce previne o segundo AVC da primeira semana — mas atravessar a janela das 24 h pós-lise custa hemorragia. A dupla antiagregação funciona exatamente onde o infarto é pequeno e o risco de recorrência é alto — e vira só sangramento quando estendida além dos 21 dias ou aplicada ao infarto grande.

Vale entender por que o NIHSS aparece em toda decisão de dupla. Ele não está medindo gravidade por gravidade: está servindo de substituto para o tamanho do infarto. Infarto pequeno tem pouca área para sangrar e muito risco de recorrer nas primeiras semanas — a dupla ganha. Infarto grande inverte as duas pontas: recorrência menos importante que o hematoma que se forma no tecido já lesado. É a mesma lógica que governa o calendário do DOAC na FA, e é por isso que a pergunta "que tamanho tem esse infarto?" resolve as duas prescrições de uma vez.

A imagem entra por outro caminho, e é o que a maioria esquece: quando há estenose ≥ 50% que explique o território, ou infartos com padrão de aterosclerose de grande artéria, o mecanismo é arterioarterial — plaqueta sobre placa instável — e é exatamente aí que a dupla rende mais. Foi esse raciocínio que permitiu esticar o recorte até NIHSS 5 e até 72 h. Sem a placa, o mesmo NIHSS 5 não autoriza a dupla.

Já a FA aguda mudou de lado nos últimos anos, e a página mudou junto. O medo antigo — anticoagular cedo e transformar o infarto em hematoma — foi testado de frente em três ensaios e não se confirmou. O que sobrevive do dogma antigo é outra coisa, e essa segue de pé: heparina plena na fase aguda continua sem benefício. Trocar "nada por 14 dias" por "DOAC no dia certo" é atualização; trocar por bomba de heparina é repetir o erro que os ensaios enterraram.

Prabhakaran S, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke. Stroke. 2026;57(8):e316–e436 — Antiagregação: AAS em até 48 h (Classe 1, A); DAPT com AAS + clopidogrel por 21 dias no NIHSS ≤ 3 ou AIT ABCD² ≥ 4 em < 24 h sem trombólise (Classe 1, A); DAPT até NIHSS ≤ 5 e 72 h na aterosclerose presumida (Classe 2a, B-R — INSPIRES); ticagrelor + AAS 30 dias (Classe 2b); CYP2C19 (Classe 2b — CHANCE-2); ticagrelor isolado sem benefício sobre AAS (Classe 3); tripla antiagregação e antiagregante somado à anticoagulação na FA (Classe 3: dano); DAPT além de 90 dias sem benefício e com mais sangramento · Anticoagulação: estratégia precoce razoável em pacientes selecionados de menor gravidade (Classe 2a, A); anticoagulação plena nas primeiras 48 h sem benefício (Classe 3, A) · Ensaios: Fischer U, et al. ELAN. N Engl J Med. 2023;388(26):2411–2421 · Werring DJ, et al. OPTIMAS. Lancet. 2024;404(10464):1731–1741 · TIMING · CHANCE e POINT (base da recomendação de 21 dias).
Triagem de disfagia ANTES da primeira colher — de comida ou de comprimido
a pneumonia aspirativa mata mais AVC do que a recorrência precoce
Nada por via oral — nem água, nem o AAS — até a triagem de deglutição (teste padronizado do serviço/fono) · escrever "dieta zero até triagem de disfagia" na prescrição de entrada
Falhou ou rebaixado: SNE para dieta E medicações (o AAS de 300 vai macerado pela sonda) · reavaliar a deglutição na evolução — disfagia de AVC melhora, e a sonda não é sentença
Cabeceira elevada 30° · higiene oral como prescrição (reduz pneumonia no disfágico) · dieta liberada só com triagem passada, na consistência que a avaliação mandar
Por quê & armadilhas

A "dieta via oral conforme aceitação" na entrada do AVC é a linha mais perigosa da papeleta brasileira: metade dos AVCs agudos tem alguma disfagia, o paciente "aceita" a dieta — aspirando em silêncio, porque a mesma lesão que atrapalha a deglutição abole a tosse de defesa — e a pneumonia do 3º dia mata quem o AVC não matou. A triagem é de minutos, à beira do leito, e barata como uma escala; o custo de pular é uma pneumonia com o triplo de mortalidade. O detalhe que quase todo mundo esquece: comprimido também é via oral — o primeiro AAS do AVC despenca goela abaixo antes de qualquer teste em muito hospital.

AHA/ASA 2026 — triagem de disfagia antes de ingesta oral, incluindo medicações.
O "normal em tudo" — glicemia, temperatura, oxigênio, volume, vigilância
a penumbra não tolera nenhum extremo; a neuroproteção que funciona é o suporte bem feito
Glicemia 140–180 (tratar > 180; corrigir < 60 imediatamente — hipoglicemia é veneno duplo aqui) · febre = tratar agressivamente (dipirona 1 g + procurar o foco): cada grau piora desfecho · SpO2 ≥ 94% — O2 só se precisar
Euvolemia com SF 0,9% — NUNCA soro hipotônico ou glicosado de manutenção (edema cerebral) · TEV: compressão pneumática intermitente no não deambulante desde a admissão · enoxaparina 40 mg SC 1×/dia só depois de pesar mobilidade, imagem e risco de sangramento (pós-lise: após a TC de 24 h) — não é automática às 24 h · + mobilização precoce
Exame neurológico seriado (NIHSS/escala do serviço) com gatilho escrito: piora → TC · crise convulsiva: tratar se ocorrer — benzodiazepínico pleno na crise em atividade; persistindo ou em status, levetiracetam 60 mg/kg EV (máx. 4.500 mg, o teto do ensaio que validou a dose) em 10–15 min, seguido de manutenção 1.000–1.500 mg EV/VO 12/12 h iniciada 10–12 h após o ataque, com ajuste renal (reduzir a partir de ClCr < 50; dose extra após hemodiálise) e duração decidida por recorrência, lesão e EEG. Sem profilaxia anticonvulsivante e sem levetiracetam para todo AVC · infarto extenso de ACM/cerebelar: avisar a neurocirurgia CEDO — a craniectomia descompressiva que salva é a discutida antes da herniação, e a terapia osmótica é ponte, não plano (detalhes no módulo neuro)
Por quê & armadilhas

Depois de décadas de neuroprotetores que falharam em ensaio, o que sobrou é isto: a penumbra sobrevive se ninguém a agredir — nem com hiperglicemia (acidose no tecido isquêmico), nem com febre (demanda metabólica em tecido sem oferta), nem com soro hipotônico (água livre indo direto para o edema). Nada disso tem glamour e tudo isso tem evidência. A vigilância seriada é o item ativo do pacote: o AVC "estável" que piora tem lista curta (transformação hemorrágica, edema em progressão, novo evento, crise) e todas as opções pedem TC agora, não na rotina da manhã. E no infarto maligno o erro é de agenda: esperar a anisocoria para chamar a neurocirurgia é chamar para o atestado.

AHA/ASA 2026 — suporte fisiológico; craniectomia precoce no infarto maligno.
A alta começa no D1 — estatina, etiologia, reabilitação
o AVC é a placa de um problema; a prevenção secundária é descobrir qual
Estatina de alta intensidade (atorvastatina 80 mg/dia) desde a internação quando o mecanismo é aterosclerótico ou há indicação de prevenção vascular por LDL/risco — não é automática em toda etiologia (cardioembólico por FA, dissecção e causas raras seguem regra própria)
Investigação etiológica como prescrição: eco (fonte cardioembólica), monitorização de ritmo (FA paroxística — quanto mais se procura, mais se acha), doppler/angio de carótidas · a etiologia define a prevenção: FA → DOAC · carótida → revascularização · lacunar → fatores de risco
Carótida sintomática — o grau decide, e o dia também
Estenose 70–99% ipsilateral ao AVC/AIT dos últimos 6 meses: endarterectomia recomendadaClasse 1 —, desde que o risco de morte/AVC perioperatório do serviço seja < 6%
Estenose 50–69%: endarterectomia também recomendada (Classe 1, B-R), mas dependente do paciente — idade, sexo e comorbidades pesam, e o benefício absoluto é bem menor que na faixa grave · < 50%: não opera
Quando: não nas primeiras 48 h. Operar em ≤ 2 dias, comparado com os dias 3–14, teve mais AVC em 30 dias (OR 1,57) e muito mais morte (OR 5,19) — a diretriz de 2026 rebaixou a cirurgia de urgência extrema para Classe 3: sem benefício. A janela boa é do 2º ao 14º dia, e a maioria dos serviços mira até 7 dias — o que não se aceita é mandar para casa "com o vascular ambulatorial"
Cirurgia ou stent: pesa idade (o idoso costuma se sair melhor com endarterectomia), anatomia do arco e do pescoço, comorbidade cardíaca, pescoço irradiado ou reoperação — e a experiência da equipe, que é o fator que os ensaios menos capturam e o serviço mais sente
Reabilitação precoce (fisio/fono/TO desde a enfermaria) · alta com: PA-alvo de longo prazo definida, antitrombótico certo pela etiologia, e retorno neurológico marcado — o rótulo "AVC criptogênico" é tarefa pendente, não diagnóstico final
Por quê & armadilhas

O risco de recorrência é máximo nas primeiras semanas — e cada etiologia tem sua prevenção específica, o que faz da investigação um tratamento com prazo: a carótida sintomática operada na segunda semana previne o AVC que a operada no terceiro mês não previne mais; a FA paroxística que ninguém monitorou volta como o AVC extenso de seis meses depois. A armadilha da alta é o pacote genérico ("AAS + sinvastatina 20 + retorna se piorar") — que ignora que um terço desses pacientes tinha uma causa tratável esperando ser nomeada. A estatina de alta intensidade é dos poucos itens universais: o SPARCL foi feito com atorvastatina 80, não com a estatina que sobrou na farmácia.

Kleindorfer DO, Towfighi A, Chaturvedi S, et al. 2021 Guideline for the Prevention of Stroke in Patients With Stroke and Transient Ischemic Attack. Stroke. 2021;52(7):e364–e467 — endarterectomia na estenose sintomática de 70–99% (Classe 1) e de 50–69% conforme fatores do paciente (Classe 1, B-R), ambas condicionadas a risco perioperatório < 6%; < 50% sem indicação · Janela: Prabhakaran S, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke. Stroke. 2026;57(8):e316–e436 — endarterectomia de emergência (< 48 h) rebaixada a Classe 3: sem benefício (B-NR), com base em metanálise de 3 ECRs e 68 coortes (n = 232.952): AVC em 30 dias OR 1,57 (IC 95% 1,3–1,9) e morte OR 5,19 (4,1–6,6) quando operada em ≤ 2 dias versus dias 3–14; a diretriz remete à prevenção secundária para a janela de 2 dias a 2 semanas · SPARCL.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ ≥ 94% — não ofertar O₂ ao normoxêmico no AVC. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho no AVC isquêmico.

Derrubar a pressão do não-candidato à reperfusão — a penumbra vive de pressão; respeitar até 220×120. Nifedipina sublingual — nunca, e aqui menos ainda. Dieta (ou comprimido) antes da triagem de disfagia. Heparina plena "para o AVC" — mesmo na FA; anticoagulação é diferida. AAS nas primeiras 24 h pós-trombólise ou antes da TC. Soro glicosado/hipotônico de manutenção. Anticonvulsivante profilático. Corticoide para edema isquêmico — não funciona e infecta. Sedação "para agitação" que apaga o exame neurológico — investigar a causa da agitação primeiro. Esperar coagulograma sem suspeita para trombolisar. E "internar para observar" a oclusão de grande vaso em hospital sem trombectomia — observar, aqui, é assistir.

Prescreveu — e agora?

O raciocínio neurológico completo — territórios, NIHSS, imagem, edema maligno — vive no módulo neurocrítico. A FA que a monitorização encontrar leva à página da FA para o DOAC certo. E o AVC hemorrágico — o outro lado da primeira TC — é a próxima prescrição desta fila.

Levar o caso ao assistente de conduta
Prabhakaran S, Gonzalez NR, Zachrison KS, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke. 2026;57(8):e316–e436 (doi:10.1161/STR.0000000000000513). Kleindorfer DO, Towfighi A, Chaturvedi S, et al. 2021 Guideline for the Prevention of Stroke in Patients With Stroke and Transient Ischemic Attack. Stroke. 2021;52(7):e364–e467. Alamowitch S, Turc G, Palaiodimou L, et al. European Stroke Organisation (ESO) expedited recommendation on tenecteplase for acute ischaemic stroke. Eur Stroke J. 2023;8(1):8–54 (doi:10.1177/23969873221150022). Nogueira RG, Jadhav AP, Haussen DC, et al. Thrombectomy 6 to 24 Hours after Stroke with a Mismatch between Deficit and Infarct (DAWN). N Engl J Med. 2018;378(1):11–21 (doi:10.1056/NEJMoa1706442). Albers GW, Marks MP, Kemp S, et al. Thrombectomy for Stroke at 6 to 16 Hours with Selection by Perfusion Imaging (DEFUSE 3). N Engl J Med. 2018;378(8):708–718 (doi:10.1056/NEJMoa1713973). Wang Y, Wang Y, Zhao X, et al. Clopidogrel with aspirin in acute minor stroke or transient ischemic attack (CHANCE). N Engl J Med. 2013;369(1):11–19 (doi:10.1056/NEJMoa1215340). Johnston SC, Easton JD, Farrant M, et al. Clopidogrel and Aspirin in Acute Ischemic Stroke and High-Risk TIA (POINT). N Engl J Med. 2018;379(3):215–225 (doi:10.1056/NEJMoa1800410). Amarenco P, Bogousslavsky J, Callahan A 3rd, et al. High-dose atorvastatin after stroke or transient ischemic attack (SPARCL). N Engl J Med. 2006;355(6):549–559 (doi:10.1056/NEJMoa061894).