Hiponatremia
O distúrbio em que a pressa e a paciência trocam de lugar conforme o sintoma: convulsão pede bolus de hipertônica em minutos, e o resto pede um teto de 8 mEq/L em 24 horas que ninguém pode furar.
Serve para a hiponatremia do adulto internado — da convulsão hiponatrêmica no PS ao sódio de 124 que aparece no exame de rotina. O raciocínio diagnóstico completo (osmolaridade, volemia, sódio e osmolaridade urinários, o fluxograma inteiro) vive na página de sódio do Nefro Guide; aqui está a prescrição que sai dele.
As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.
A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Do sódio baixo até a conduta
Este fluxo é o caminho completo: da suspeita à prescrição. Ele existe porque a hiponatremia é o distúrbio em que a pressa e a paciência trocam de lugar conforme o sintoma — e em que corrigir demais é uma doença própria, com nome e sequela.
| Cenário | Teto em 24 h | Teto em 48 h | Alvo do resgate |
|---|---|---|---|
| Crônica ou indeterminada (a regra) | 8 mEq/L | 18 mEq/L | 4–6 mEq/L e parar |
| Alto risco de desmielinização | 4–6 mEq/L | — | 4–6 mEq/L e parar |
| Aguda documentada (< 48 h) | Mais permissivo | — | Resolução do sintoma |
| Supercorrigiu | Baixar de volta | — | SG 5% ± desmopressina, com nefrologia |
Alto risco: Na < 105, hipocalemia, etilismo, desnutrição, hepatopatia, transplante hepático. A desmielinização osmótica aparece entre o 4º e o 7º dia, quando o paciente já saiu da UTI — e é inteiramente iatrogênica.
Item por item
A pergunta "quanto está o sódio?" é menos importante do que parece. Um sódio de 118 crônico e assintomático não é emergência; um de 126 que despencou em 12 horas com convulsão é. O que mata na hiponatremia aguda é o edema cerebral — e o que mata na correção rápida da crônica é a desmielinização osmótica, que aparece dias depois, quando ninguém mais está olhando.
Por isso a primeira decisão não é de soro, é de tempo: sintoma grave compra bolus imediato; ausência de sintoma compra investigação. Osmolaridade sérica, sódio urinário e osmolaridade urinária custam pouco e mudam a conduta — o raciocínio completo está no fluxograma do Nefro Guide.
Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Verbalis JG, Goldsmith SR, Greenberg A, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42.O bolus intermitente saiu do costume e virou conduta testada: o SALSA comparou bolus rápido intermitente com infusão contínua lenta e encontrou eficácia semelhante com menos episódios de supercorreção — e supercorreção é o desfecho que importa evitar. O bolus tem outra vantagem prática: ele obriga a reavaliar entre as doses, enquanto a bomba contínua corre a noite inteira sem ninguém olhar.
A armadilha do preparo caseiro é aritmética. O esquema que todo mundo repete — 440 de soro mais 60 de NaCl 20% — entrega 3,19%, cerca de 6% acima do alvo. Não é erro grave num bolus único, mas vira erro real quando alguém pendura essa bolsa em infusão contínua por horas achando que está correndo 3%.
Baek SH, Jo YH, Ahn S, et al. Risk of overcorrection in rapid intermittent bolus vs slow continuous infusion therapies of hypertonic saline for patients with symptomatic hyponatremia: the SALSA randomized clinical trial. JAMA Intern Med. 2021;181(1):81–92. · Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados emscripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
O teto existe porque a correção não depende só do que você prescreve. A causa mais comum de supercorreção é a autocorreção: você trata a hipovolemia, o estímulo do ADH desaparece, e o rim começa a excretar água livre sozinho — o sódio sobe 12 mEq/L num paciente que recebeu apenas soro fisiológico. Por isso o controle seriado não é zelo, é a única forma de perceber isso a tempo.
E a desmielinização osmótica não avisa: o paciente melhora, recebe alta da UTI, e entre o quarto e o sétimo dia desenvolve disartria, disfagia, tetraparesia ou síndrome do encarceramento. É a complicação que transforma um distúrbio tratável em sequela permanente — e ela é inteiramente iatrogênica.
Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Verbalis JG, Goldsmith SR, Greenberg A, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42.A regra que mais confunde plantão: no SIADH, soro fisiológico pode baixar o sódio. Se a urina está mais concentrada que o soro que você infunde, o rim retém a água e excreta o sal — você entregou 154 mEq/L e o paciente eliminou 300 mEq/L. É o paradoxo que faz o sódio cair depois do soro, e é o motivo de a restrição hídrica ser o tratamento, não o adjuvante.
O raciocínio completo de volemia, osmolaridade e sódio urinário — com o fluxograma — vive na página de sódio do Nefro Guide. Esta aqui é a prescrição que sai dele.
Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499.Este item existe porque o mesmo frasco resolve dois problemas opostos, e confundi-los é fácil. Na hiponatremia, o sódio alto é o risco e o teto é a regra. Na hipertensão intracraniana, o sódio alto é o tratamento — sobe-se o sódio de propósito para puxar água do parênquima, e o "teto de 8 mEq/L em 24 h" não governa essa decisão da mesma forma.
Mas há uma sobreposição real e perigosa: o paciente neurocrítico hiponatrêmico. HSA e TCE fazem hiponatremia com frequência — por SIADH ou por perda cerebral de sal — e ali a hiponatremia é duplamente ruim, porque agrava o edema num crânio que não tem para onde expandir. É o cenário em que corrigir é urgente e a restrição hídrica, reflexo do internista, faz mal: na HSA ela é contraindicada, porque hipovolemia alimenta a isquemia tardia.
Sobre a dose concentrada: a diretriz de edema cerebral da Neurocritical Care Society avalia manitol e salina hipertônica na HSA, no TCE, no AVC isquêmico, na hemorragia intracerebral e na encefalopatia hepática, e conclui que a osmoterapia reduz PIC e edema, sem que o desfecho neurológico pareça mudar — e que há diferenças de resposta e de segurança entre os dois agentes. Ou seja: é ponte para ganhar tempo até a medida definitiva (dreno, cirurgia, tratamento da causa), não tratamento em si. A equivalência de 20% para 23,4% acima foi calculada, não copiada de bula — confirme com a farmácia e com o protocolo do seu serviço antes de usar.
Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 (doi:10.1007/s12028-020-00959-7) · equivalências de mEq entre NaCl 23,4%, 20% e 3% calculadas emscripts/calc-dhe.mjs · conduta de PIC e de sódio na HIC e na HSA.
O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Hipertônica no assintomático crônico — o risco de desmielinização supera o ganho. Correção acima de 8 mEq/L em 24 h. SF 0,9% no SIADH com urina concentrada — pode baixar ainda mais o sódio. Restrição hídrica na hiponatremia hipovolêmica — ali falta volume, não sobra água. Prescrever hipertônica sem controle seriado de sódio. NaCl 20% puro. E tratar o número sem dosar TSH e cortisol. No neurocrítico, dois a mais: restrição hídrica na HSA — ali ela alimenta a isquemia tardia — e hipertônica concentrada em veia periférica, que é esclerosante e necrosa no extravasamento.
As primeiras 24 h são de vigilância, não de alta: sódio seriado, diurese (poliúria súbita anuncia autocorreção) e exame neurológico. Se o sódio subiu além do teto, o movimento é abaixá-lo de volta com água livre e desmopressina, junto com a nefrologia. O raciocínio do distúrbio segue na página de sódio e no fluxograma.
Levar o caso ao assistente de condutascripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.