Consulte · Prescrições comentadas

Hiponatremia

O distúrbio em que a pressa e a paciência trocam de lugar conforme o sintoma: convulsão pede bolus de hipertônica em minutos, e o resto pede um teto de 8 mEq/L em 24 horas que ninguém pode furar.

Serve para a hiponatremia do adulto internado — da convulsão hiponatrêmica no PS ao sódio de 124 que aparece no exame de rotina. O raciocínio diagnóstico completo (osmolaridade, volemia, sódio e osmolaridade urinários, o fluxograma inteiro) vive na página de sódio do Nefro Guide; aqui está a prescrição que sai dele.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Do sódio baixo até a conduta

Este fluxo é o caminho completo: da suspeita à prescrição. Ele existe porque a hiponatremia é o distúrbio em que a pressa e a paciência trocam de lugar conforme o sintoma — e em que corrigir demais é uma doença própria, com nome e sequela.

·Sódio baixo — três perguntas antes de qualquer soro
A hiponatremia é o distúrbio em que a velocidade mata mais que o número. Antes de tratar, responda em ordem: é hiponatremia de verdade? · tem sintoma grave? · é aguda ou crônica? — porque é a terceira que define o teto de correção, e ultrapassá-lo causa uma doença nova.
1É verdadeira? — a osmolaridade separa três coisas diferentes
Sódio baixo não é sinônimo de hipotonicidade. Três cenários com o mesmo número e condutas opostas.
Hipotônica — a verdadeira
Osm efetiva < 275
Seguir o fluxo
É a que causa edema cerebral e a única que se corrige com sódio. Corresponde à esmagadora maioria.
Translocacional
Glicose alta, manitol
Tratar a causa osmótica
A água sai da célula e dilui o sódio. Corrigir ~1,6–2,4 mEq/L por 100 mg/dL de glicose acima de 100. O tratamento é da hiperglicemia.
Pseudo-hiponatremia
Osm normal
Não tratar
Artefato de método na hipertrigliceridemia grave ou paraproteinemia. O sódio real está normal.
2Tem sintoma grave? — isto atropela toda a investigação
Se sim, a hipertônica corre antes de classificar a volemia. O alvo do resgate é subir 4–6 mEq/L, não normalizar.
Grave
Convulsão, coma, rebaixamento novo, vômito incoercível
NaCl 3% em bolus agora
100–150 mL em 10–20 min, repetível até 3×, com sódio entre os bolus. Não esperar exame nenhum.
Moderado
Náusea, confusão, cefaleia, desequilíbrio
Hipertônica, sem a pressa do bolus repetido
Tratar, mas com margem para investigar em paralelo.
Assintomático
Achado de exame
Investigar antes de tratar
Aqui a hipertônica costuma fazer mais mal que bem. O tratamento é da causa e do ritmo.
3Aguda ou crônica? — a pergunta que define o teto
O cérebro leva cerca de 48 h para exportar osmóis e se adaptar. É essa adaptação que a correção rápida destrói.
Aguda (< 48 h documentadas)
Pós-operatório, maratonista, ecstasy, polidipsia, pós-TURP
Tolera correção mais rápida
O cérebro ainda está edemaciado e não se adaptou — o risco aqui é o edema, não a desmielinização.
Crônica ou indeterminada
A regra: assuma crônica
Teto de 8 mEq/L em 24 h
4–6 mEq/L se houver alto risco: Na < 105, hipocalemia, etilismo, desnutrição, hepatopatia.
4Qual a causa? — volemia, sódio urinário e osmolaridade urinária
Três exames baratos que mudam completamente o soro. Faça-os antes de qualquer volume, porque o volume altera todos.
Hipovolêmica
Na urinário < 20 · pele seca, taquicardia
SF 0,9% + suspender diurético
Corrigido o volume, o estímulo do ADH cai e o sódio sobe sozinho — vigiar autocorreção, é aqui que a supercorreção mais acontece.
Euvolêmica (SIADH)
Na urinário > 40 · Osm urinária alta · TSH e cortisol normais
Restrição hídrica de 500–1.000 mL/dia
⚠ SF 0,9% pode PIORAR: se a urina está mais concentrada que o soro, o rim retém a água e excreta o sal.
Hipervolêmica
IC, cirrose, síndrome nefrótica · Na urinário < 20
Restrição hídrica + diurético de alça
Tratar a doença de base. O sódio é sintoma de água retida, não de sal perdido.
E o que sempre se checa
Dois exames que resolvem a hiponatremia tratando a glândula, não o soro — e que quase ninguém pede na primeira rodada.
TSH
Hipotireoidismo
A hiponatremia do mixedema não responde a soro nenhum — responde a levotiroxina.
Cortisol
Insuficiência adrenal
Hiponatremia com hipercalemia e hipotensão: pense em adrenal. O tratamento é corticoide, e ele corrige o sódio rápido — vigiar supercorreção.
CenárioTeto em 24 hTeto em 48 hAlvo do resgate
Crônica ou indeterminada (a regra)8 mEq/L18 mEq/L4–6 mEq/L e parar
Alto risco de desmielinização4–6 mEq/L4–6 mEq/L e parar
Aguda documentada (< 48 h)Mais permissivoResolução do sintoma
SupercorrigiuBaixar de voltaSG 5% ± desmopressina, com nefrologia

Alto risco: Na < 105, hipocalemia, etilismo, desnutrição, hepatopatia, transplante hepático. A desmielinização osmótica aparece entre o 4º e o 7º dia, quando o paciente já saiu da UTI — e é inteiramente iatrogênica.

Item por item

Tem sintoma grave? — é isso que decide bolus ou paciência
convulsão, rebaixamento, vômito incoercível, parada: trata agora, sem esperar causa
Sintomas graves (convulsão, coma, rebaixamento novo, vômitos incoercíveis, desconforto respiratório): tratar agora com salina hipertônica, antes de classificar a volemia
Osmolaridade efetiva e gap osmolar confirmar hipotonicidade
Sintomas moderados (náusea, confusão, cefaleia): hipertônica também, mas sem a pressa do bolus repetido
Assintomático: o tratamento é da causa e do ritmo — hipertônica aqui costuma fazer mais mal que bem
Aguda (< 48 h documentadas: pós-operatório, maratonista, ecstasy, polidipsia) tolera correção mais rápida — o cérebro ainda não se adaptou · crônica ou de tempo indeterminado é a regra: assuma crônica
Por quê & armadilhas

A pergunta "quanto está o sódio?" é menos importante do que parece. Um sódio de 118 crônico e assintomático não é emergência; um de 126 que despencou em 12 horas com convulsão é. O que mata na hiponatremia aguda é o edema cerebral — e o que mata na correção rápida da crônica é a desmielinização osmótica, que aparece dias depois, quando ninguém mais está olhando.

Por isso a primeira decisão não é de soro, é de tempo: sintoma grave compra bolus imediato; ausência de sintoma compra investigação. Osmolaridade sérica, sódio urinário e osmolaridade urinária custam pouco e mudam a conduta — o raciocínio completo está no fluxograma do Nefro Guide.

Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Verbalis JG, Goldsmith SR, Greenberg A, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42.
NaCl 3% em bolus — 100 a 150 mL, repetível
só no sintomático; o alvo do resgate é subir 4–6 mEq/L, não normalizar
NaCl 3% 100–150 mL EV em 10–20 min — repetir até 3 vezes se o sintoma persistir, com sódio dosado entre os bolus
Adrogué–Madias planejar o ritmo
Alvo do resgate: subir 4–6 mEq/L — costuma bastar para abortar convulsão e rebaixamento. Depois disso, parar e reavaliar
Preparo usual (na falta da bolsa pronta): SF 0,9% 440 mL + NaCl 20% 60 mL → 273 mEq em 500 mL = 0,546 mEq/mL. Atenção: isso é NaCl 3,19%, não 3,0%
Preparo de 3,0% exato: SF 0,9% 445 mL + NaCl 20% 55 mL → 513 mEq/L. Use um ou outro, e saiba qual está pendurado
Quanto o bolus entrega: 100 mL do preparo usual = 54,6 mEq de Na · 100 mL de 3,0% = 51,3 mEq · 150 mL = 81,9 e 77 mEq
NaCl 20%: 3,42 mEq de Na/mL — ampola de 10 mL = 34,2 mEq. Nunca infundir puro para corrigir hiponatremia — sempre diluído. (A hipertônica concentrada em bolus existe, mas é osmoterapia no neurocrítico, outra indicação e outra via — item 05)
Por quê & armadilhas

O bolus intermitente saiu do costume e virou conduta testada: o SALSA comparou bolus rápido intermitente com infusão contínua lenta e encontrou eficácia semelhante com menos episódios de supercorreção — e supercorreção é o desfecho que importa evitar. O bolus tem outra vantagem prática: ele obriga a reavaliar entre as doses, enquanto a bomba contínua corre a noite inteira sem ninguém olhar.

A armadilha do preparo caseiro é aritmética. O esquema que todo mundo repete — 440 de soro mais 60 de NaCl 20% — entrega 3,19%, cerca de 6% acima do alvo. Não é erro grave num bolus único, mas vira erro real quando alguém pendura essa bolsa em infusão contínua por horas achando que está correndo 3%.

Baek SH, Jo YH, Ahn S, et al. Risk of overcorrection in rapid intermittent bolus vs slow continuous infusion therapies of hypertonic saline for patients with symptomatic hyponatremia: the SALSA randomized clinical trial. JAMA Intern Med. 2021;181(1):81–92. · Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
Não passar de 8 mEq/L em 24 h — e vigiar a autocorreção
o limite não é meta de subida; é o que você não pode ultrapassar mesmo sem querer
Máximo 8 mEq/L em 24 h na hiponatremia crônica ou de tempo indeterminado (alguns admitem 10; use 8 como alvo de segurança) · máximo 18 mEq/L em 48 h
Ritmo médio que respeita o teto: ~0,33 mEq/L/h — se em 6 h já subiu 5, o teto do dia praticamente acabou
Alto risco de desmielinização (Na < 105, hipocalemia, etilismo, desnutrição, hepatopatia): apertar para 4–6 mEq/L em 24 h
Sódio de 4/4–6/6 h nas primeiras 24 h — sem controle não há teto, só esperança
Passou do teto? Reduzir o sódio de volta com água livre (SG 5%) ± desmopressina, com nefrologia — a supercorreção se desfaz, a desmielinização não
Por quê & armadilhas

O teto existe porque a correção não depende só do que você prescreve. A causa mais comum de supercorreção é a autocorreção: você trata a hipovolemia, o estímulo do ADH desaparece, e o rim começa a excretar água livre sozinho — o sódio sobe 12 mEq/L num paciente que recebeu apenas soro fisiológico. Por isso o controle seriado não é zelo, é a única forma de perceber isso a tempo.

E a desmielinização osmótica não avisa: o paciente melhora, recebe alta da UTI, e entre o quarto e o sétimo dia desenvolve disartria, disfagia, tetraparesia ou síndrome do encarceramento. É a complicação que transforma um distúrbio tratável em sequela permanente — e ela é inteiramente iatrogênica.

Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Verbalis JG, Goldsmith SR, Greenberg A, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42.
A volemia escolhe o soro — e SIADH não se trata com fisiológico
hipovolêmica, euvolêmica ou hipervolêmica: três doenças com o mesmo número
Hipovolêmica (perda digestiva, diurético, terceiro espaço): SF 0,9% e suspender o diurético — corrigido o volume, o ADH cai e o sódio sobe sozinho (vigiar autocorreção)
Sódio corrigido pela glicemia descartar pseudo-hiponatremia
Euvolêmica / SIADH: restrição hídrica (500–1000 mL/dia) é a base · sal e proteína na dieta · SF 0,9% pode piorar quando a osmolaridade urinária é alta
Hipervolêmica (IC, cirrose, síndrome nefrótica): restrição hídrica + diurético de alça — tratar a doença de base, não o número
Sempre: checar TSH e cortisol — hipotireoidismo e insuficiência adrenal são causas que se corrigem tratando a glândula, não o soro
Sódio urinário < 20 aponta hipovolemia ou estado edematoso · > 40 com osmolaridade urinária alta aponta SIADH
Por quê & armadilhas

A regra que mais confunde plantão: no SIADH, soro fisiológico pode baixar o sódio. Se a urina está mais concentrada que o soro que você infunde, o rim retém a água e excreta o sal — você entregou 154 mEq/L e o paciente eliminou 300 mEq/L. É o paradoxo que faz o sódio cair depois do soro, e é o motivo de a restrição hídrica ser o tratamento, não o adjuvante.

O raciocínio completo de volemia, osmolaridade e sódio urinário — com o fluxograma — vive na página de sódio do Nefro Guide. Esta aqui é a prescrição que sai dele.

Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. · Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499.
Hipertônica concentrada no neurocrítico — e por que aqui o alvo é outro
no TCE, HSA, AVCh e AVC maligno o sódio deixa de ser um número de laboratório e vira ferramenta de PIC
Duas indicações que não se confundem: corrigir hiponatremia (itens 01–04, alvo é o teto de 8 mEq/L/24 h) e osmoterapia — baixar PIC e edema, onde o sódio alto é o objetivo, não o efeito colateral
Hiponatremia no neurocrítico não é tolerada como no clínico: com a barreira lesada, cada mEq a menos vira água no parênquima. O alvo costuma ser normonatremia alta a hipernatremia leve, definido pelo protocolo de neuro do serviço — e a restrição hídrica é proibida na HSA (ver HSA)
Bolus de osmoterapia — apresentação brasileira: o bolus clássico da literatura é NaCl 23,4% 30 mL = 120 mEq. Com NaCl 20%, o equivalente em sódio é ≈ 35 mL (3–4 ampolas de 10 mL): 2 ampolas = 68 mEq · 3 = 103 mEq · 4 = 137 mEq
Via: solução concentrada pede acesso central — é esclerosante e o extravasamento causa necrose. Sem central, a alternativa é o volume maior e diluído: NaCl 3% 150–250 mL (= 77 a 128 mEq) em 15–20 min
Alternativa osmótica: manitol 20% 1 g/kg — em 70 kg são 350 mL do frasco a 20%. Manitol é diurético osmótico (cuidado com hipovolemia e rim); a hipertônica expande volume — no hipotenso, a hipertônica costuma ser preferida
Monitorizar: sódio e osmolaridade seriados, estado neurológico, PIC quando houver, diurese e função renal · o alvo e o teto de sódio saem do protocolo de neurointensivismo, não desta página
Por quê & armadilhas

Este item existe porque o mesmo frasco resolve dois problemas opostos, e confundi-los é fácil. Na hiponatremia, o sódio alto é o risco e o teto é a regra. Na hipertensão intracraniana, o sódio alto é o tratamento — sobe-se o sódio de propósito para puxar água do parênquima, e o "teto de 8 mEq/L em 24 h" não governa essa decisão da mesma forma.

Mas há uma sobreposição real e perigosa: o paciente neurocrítico hiponatrêmico. HSA e TCE fazem hiponatremia com frequência — por SIADH ou por perda cerebral de sal — e ali a hiponatremia é duplamente ruim, porque agrava o edema num crânio que não tem para onde expandir. É o cenário em que corrigir é urgente e a restrição hídrica, reflexo do internista, faz mal: na HSA ela é contraindicada, porque hipovolemia alimenta a isquemia tardia.

Sobre a dose concentrada: a diretriz de edema cerebral da Neurocritical Care Society avalia manitol e salina hipertônica na HSA, no TCE, no AVC isquêmico, na hemorragia intracerebral e na encefalopatia hepática, e conclui que a osmoterapia reduz PIC e edema, sem que o desfecho neurológico pareça mudar — e que há diferenças de resposta e de segurança entre os dois agentes. Ou seja: é ponte para ganhar tempo até a medida definitiva (dreno, cirurgia, tratamento da causa), não tratamento em si. A equivalência de 20% para 23,4% acima foi calculada, não copiada de bula — confirme com a farmácia e com o protocolo do seu serviço antes de usar.

Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocrit Care. 2020;32(3):647–666 (doi:10.1007/s12028-020-00959-7) · equivalências de mEq entre NaCl 23,4%, 20% e 3% calculadas em scripts/calc-dhe.mjs · conduta de PIC e de sódio na HIC e na HSA.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Hipertônica no assintomático crônico — o risco de desmielinização supera o ganho. Correção acima de 8 mEq/L em 24 h. SF 0,9% no SIADH com urina concentrada — pode baixar ainda mais o sódio. Restrição hídrica na hiponatremia hipovolêmica — ali falta volume, não sobra água. Prescrever hipertônica sem controle seriado de sódio. NaCl 20% puro. E tratar o número sem dosar TSH e cortisol. No neurocrítico, dois a mais: restrição hídrica na HSA — ali ela alimenta a isquemia tardia — e hipertônica concentrada em veia periférica, que é esclerosante e necrosa no extravasamento.

Prescreveu — e agora?

As primeiras 24 h são de vigilância, não de alta: sódio seriado, diurese (poliúria súbita anuncia autocorreção) e exame neurológico. Se o sódio subiu além do teto, o movimento é abaixá-lo de volta com água livre e desmopressina, junto com a nefrologia. O raciocínio do distúrbio segue na página de sódio e no fluxograma.

Levar o caso ao assistente de conduta
Spasovski G, Vanholder R, Allolio B, et al. Clinical practice guideline on diagnosis and treatment of hyponatraemia. Nephrol Dial Transplant. 2014;29(Suppl 2):i1–i39. Verbalis JG, Goldsmith SR, Greenberg A, et al. Diagnosis, evaluation, and treatment of hyponatremia: expert panel recommendations. Am J Med. 2013;126(10 Suppl 1):S1–S42. Baek SH, Jo YH, Ahn S, et al. Risk of overcorrection in rapid intermittent bolus vs slow continuous infusion therapies of hypertonic saline for patients with symptomatic hyponatremia: the SALSA randomized clinical trial. JAMA Intern Med. 2021;181(1):81–92. Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499. Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.