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Crise epiléptica e status

O status epiléptico se trata com relógio e dose cheia: benzodiazepínico pleno no minuto 5, segunda linha completa no minuto 20 — e o erro nacional em cada etapa é o mesmo: a meia ampola "para não rebaixar", que não aborta a crise e cobra o preço dela.

Serve para a crise tônico-clônica do adulto no PS e na enfermaria — da convulsão que cede sozinha ao status refratário que vai à UTI. Cada minuto de crise torna a próxima dose menos eficaz (os receptores GABA internalizam): por isso esta página é a mais cronometrada da fila. As páginas do AVCh e da HSA apontam para cá; o módulo neuro aprofunda o raciocínio.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem a diretriz da AES 2016 e os ensaios ESETT/RAMPART, e não substituem o protocolo do seu serviço. Doses daqui são de adulto; gestante, criança e cardiopata grave têm particularidades que a página sinaliza mas não esgota.

Como usar.

A ordem é a do cronômetro: minuto 0–5 (proteger, medir, não conter), minuto 5 (benzodiazepínico cheio), minuto 20 (segunda linha completa — com a causa sendo caçada em paralelo), minuto 40 (refratário: UTI, infusão, EEG) — e o depois, que decide quem sai com receita. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Proteger, cronometrar, medir a glicemia — e NÃO conter
a maioria das crises cede sozinha em menos de 5 minutos; o relógio decide tudo
Marcar a hora de início (o cronômetro é a prescrição) · decúbito lateral, proteger a cabeça, afastar objetos · O2 se SpO2 < 90% · acesso venoso · monitor
Glicemia capilar imediata: < 60 → glicose 50% 40 mL EV (20 g — exemplo pela apresentação usual; conferir a do serviço, veia calibrosa pelo risco de extravasamento) — no etilista/desnutrido, tiamina 100 mg EV junto ou assim que possível, sem atrasar a glicose · a hipoglicemia é a "crise" mais rápida de curar do hospital
Não conter os membros, nada na boca — a luxação de ombro e o dedo mordido são iatrogenias clássicas; a crise que cede sozinha antes dos 5 min não leva benzodiazepínico — vai direto para a pergunta da causa (item 04)
Por quê & armadilhas

O status epiléptico tem definição operacional com hora: crise ≥ 5 min (ou crises em salva sem recuperar consciência) — e é aos 5 minutos que a farmacologia muda, porque a crise que passou desse ponto raramente para sozinha. Sem hora de início anotada, ninguém sabe em que item desta página está. O outro lado do relógio protege do excesso: a crise autolimitada de 90 segundos, seguida do sono pós-ictal esperado, não precisa de benzodiazepínico "para garantir" — o rebaixamento que ele causa só confunde o exame que vem depois.

AES 2016 — definição operacional e fase de estabilização.
Diazepam 10 mg EV — ou midazolam 10 mg IM se não há acesso
a dose que funciona é a que assusta quem só conhece a meia ampola
Com acesso: diazepam 10 mg EV lento (sem diluir) — pode repetir em 5 min se a crise seguir · alternativa onde houver: lorazepam 4 mg EV
Sem acesso: midazolam 10 mg IM (dose de adulto > 40 kg — ampola de 15 mg/3 mL: 2 mL) — tão eficaz quanto o EV no ensaio que definiu a prática (RAMPART); não perder minutos furando veia em membro convulsionando
Dose cheia, uma vez — não fracionar "2 mg por vez para ver como fica": subdose não aborta a crise e soma sedação · preparar a segunda linha (item 03) , sem esperar o benzo falhar duas vezes
Por quê & armadilhas

A cada minuto de crise, os receptores GABA-A que o benzodiazepínico usa são internalizados — a droga certa dada tarde ou em subdose encontra cada vez menos onde agir. É por isso que o erro mais documentado do status, no mundo inteiro, é a subdose de benzodiazepínico: a "meia ampola para não deprimir a respiração" não aborta a crise, e é a crise contínua — não o diazepam pleno — que hipoventila, aspira e interna na UTI. O midazolam IM existe para matar a desculpa logística: 10 mg no músculo, agora, vale mais que 10 mg na veia daqui a 8 minutos. E a unidade importa: a dose IM do adulto é 10 mg — materiais de bolso que imprimem "0,2 mg" ou fracionam em conta-gotas perpetuam exatamente o erro que o RAMPART enterrou.

RAMPART · AES 2016 — benzodiazepínico pleno como 1ª linha; subdose como erro dominante.
Segunda linha: os três do ESETT empatam — escolha pelo paciente, dê a dose toda
benzo pleno falhou (ou 2ª dose correndo): a segunda linha entra agora, não "se persistir muito"
Levetiracetam 60 mg/kg EV (máx 4.500 mg) em 10–15 min — o mais prático: sem monitor cardíaco obrigatório, poucas interações (não zero) e veia periférica comum · pode causar sonolência e alterações de comportamento; conferir se a infusão de 10 min é compatível com a apresentação da farmácia
Valproato 40 mg/kg EV (máx 3.000 mg) em ~10 min — evitar em hepatopata, pancreatite, gestante
Fosfenitoína 20 mg PE/kg EV (máx 1.500 mg PE) — foi ela, não a fenitoína, o terceiro braço do ESETT
O que significa "mg PE"PE = equivalente de fenitoína (phenytoin equivalents). A fosfenitoína é uma pró-droga: ela não tem efeito por si, é convertida em fenitoína no plasma, e 1,5 mg de fosfenitoína gera 1 mg de fenitoína. Para o prescritor não ter de fazer essa conversão na emergência, a dose é escrita na moeda da fenitoína: pedir "20 mg PE/kg" é pedir a quantidade de fosfenitoína que vira 20 mg/kg de fenitoína
Na prática, para 70 kg: 20 mg PE/kg = 1.400 mg PE — que correspondem a cerca de 2.100 mg do sal fosfenitoína. Prescreva e programe a bomba em mg PE, nunca em "mg de fosfenitoína": é aí que nasce o erro de 1,5 vez, para mais ou para menos
Confira o rótulo, porque as apresentações declaram as duas unidades e nem sempre com o mesmo destaque · a velocidade também é em PE: até 150 mg PE/min (contra 50 mg/min da fenitoína) — é a vantagem prática da pró-droga, junto com poder ir em SF ou SG e não causar a necrose de extravasamento da fenitoína
Sem fosfenitoína? A fenitoína entra como substituição local, não como braço do ensaio: 20 mg/kg EV em SF 0,9% (nunca SG — precipita), ≤ 50 mg/min com monitor e PA (hipotensão/bradiarritmia na infusão rápida; cautela no cardiopata/idoso; atenção a albumina, rim e fígado e às interações)
Os três do ensaio — levetiracetam, valproato e fosfenitoínaempataram no ESETT (~45–47% de sucesso cada); o desempate é o paciente e a logística do serviço · dose por peso, completa: "1 g de fenitoína para todo mundo" subdosa qualquer adulto acima de 50 kg
Por quê & armadilhas

O ESETT resolveu uma briga de décadas com um empate técnico de três: levetiracetam, valproato e fosfenitoína abortam o status estabelecido em taxas iguais — o que transfere a decisão para o que cada droga custa naquele paciente: a fenitoína cobra monitor, veia boa e um coração que tolere; o valproato cobra um fígado; o levetiracetam quase não cobra nada, e por isso virou o padrão prático. As armadilhas são de dose e de tempo: a segunda linha dada pela metade ("500 de keppra para começar") repete o erro da meia ampola em escala maior, e a segunda linha adiada — enquanto se repete benzodiazepínico pela terceira vez — é o caminho clássico para o item 05. E o fenobarbital, segunda escolha de material antigo, ficou para trás: sedação profunda e hipotensão sem vantagem de eficácia.

ESETT (NEJM 2019) — os três braços foram levetiracetam, valproato e fosfenitoína · AES 2016 · ACEP 2024 (recomendação nível A para usar uma das três) — segunda linha em dose plena por peso.
Caçar a causa em paralelo — três diagnósticos têm antídoto próprio
a crise é sintoma; tratar o status sem procurar a causa é enxugar o EEG
Em paralelo à medicação: glicemia (já feita) · Na, Ca, Mg (hiponatremia grave → salina 3%, não anticonvulsivante!) · tóxicos/abstinência · função renal/hepática · nível sérico se usa anticonvulsivante (a causa nº 1 do "epiléptico que convulsionou" é a dose que faltou)
Os três com antídoto próprio: gestante ≥ 20 semanas → eclâmpsia → sulfato de magnésio: ataque 4–6 g EV em 15–20 min → manutenção 1–2 g/h; recorrência → mais 2 g · o Mg é o tratamento, e o benzodiazepínico fica como resgate se a crise persiste ou ameaça a via aérea — com obstetrícia junto e PA controlada · abstinência alcoólica → benzodiazepínico É o tratamento + tiamina · intoxicação por isoniazidapiridoxina em dose equivalente à quantidade ingerida; dose desconhecida → protocolo toxicológico/centro de informação
TC de crânio: primeira crise, trauma, déficit novo, febre, imunossuprimido, anticoagulado — após estabilizar · PL se suspeita de meningite (febre + rigidez), com o antibiótico entrando antes do resultado (página da sepse)
Por quê & armadilhas

O status que "não responde a nada" frequentemente é o status cuja causa ninguém tratou: a hiponatremia de 112 não cede a levetiracetam, a eclâmpsia não cede a fenitoína (e o ensaio que comparou é categórico: o magnésio vence), e a abstinência alcoólica responde ao benzodiazepínico que a equipe hesitou em repetir "porque já fez". A regra da página: toda crise refratária à primeira linha merece a pergunta "o que está causando isso?" respondida por escrito antes da terceira droga. E a mais esquecida das causas é a mais barata de corrigir — o epiléptico conhecido que passou dois dias sem a medicação dele: repor o esquema próprio vale mais que qualquer ataque.

AES 2016 — investigação etiológica simultânea · MAGPIE/Collaborative Eclampsia Trial (MgSO4).
Falhou benzo + segunda linha: IOT e infusão contínua titulada — com EEG
o status refratário é doença de UTI; a meta agora se mede no traçado, não no braço
A decisão de intubar — o Glasgow entra, mas não decide sozinho
No status refratário a intubação é consequência do tratamento, não de um número: quem vai receber midazolam ou propofol em infusão contínua vai precisar de via aérea. Aqui a pergunta não é "intubo?", é "quando" — e a resposta é antes de começar a bomba
Fora desse cenário, avalie a via aérea, não o escore. Pergunte: (1) consegue proteger? — secreção acumulando, engasgo, vômito, sangue da mordedura · (2) consegue ventilar e oxigenar? — SpO₂, PaCO₂, esforço, apneia pós-ictal que não recupera · (3) qual a trajetória? — melhorando a cada minuto ou rebaixando · (4) o transporte e o procedimento exigem? — TC, RM, transferência, agitação incontrolável
"Glasgow < 8, intuba" não se sustenta como regra isolada — a premissa de que os reflexos protetores somem abaixo de 8 não se confirma: nos estudos que mediram, cerca de 37% dos pacientes com Glasgow entre 9 e 14 já não tinham reflexo de vômito, 22% dos com Glasgow 15 também não tinham — e não há queda abrupta dos reflexos exatamente no 8. O escore é um dos dados, e no pós-ictal ele é especialmente traiçoeiro: rebaixamento que recupera visivelmente a cada reavaliação costuma dispensar tubo — enquanto o Glasgow 10 que não melhora em 20–30 min merece a mesma seriedade que um 7
E o oposto também erra: não deixe de intubar por "está com Glasgow 9" quando há vômito, sangue, estridor, hipoxemia que não corrige ou uma RM/transferência pela frente. Reavalie em minutos, com hora anotada, e registre o motivo da decisão — o exame é o monitor até a bomba entrar
Quando intubar: sequência rápida (o propofol da indução já ajuda) + UTI · evitar bloqueador de longa duração quando possível — a paralisia apaga a única manifestação visível da crise; se usar, EEG passa de desejável a indispensável
Infusão contínua: midazolam ataque 0,2 mg/kg → 0,05–2 mg/kg/h titulando · ou propofol ataque 1–2 mg/kg → 30–200 mcg/kg/min (atenção a hipotensão e à síndrome da infusão prolongada) — vasopressor pronto para acompanhar
EEG contínuo (ou o mais próximo que o serviço tiver) — a meta da infusão é supressão das crises no traçado por 24–48 h antes do desmame gradual · manter a segunda linha de manutenção rodando por baixo
Sem melhora ou sem causa: ampliar a caça — RM, líquor, painel autoimune (encefalite autoimune é a causa emergente do status "sem explicação" do adulto jovem) — com a neurologia junto
Por quê & armadilhas

No refratário, o inimigo muda de nome: o corpo pode parar de convulsionar — curarizado, sedado, exausto — enquanto o córtex segue em crise, queimando neurônios em silêncio. É por isso que a partir daqui o exame físico deixa de ser monitor confiável e o EEG vira item de prescrição: titular midazolam "até parar de tremer" trata o tremor, não o status. A armadilha institucional é o meio-termo: o paciente semi-sedado no PS, "melhorou, vamos ver", nem acordado para examinar nem monitorizado para afirmar — o refratário pede a decisão inteira (tubo, bomba, traçado, UTI), e pedi-la aos 40 minutos é melhor do que às 4 horas.

AES 2016 — status refratário: anestésico titulado a EEG · Limites do Glasgow como critério isolado de intubação: Moulton C, Pennycook AG. Relation between Glasgow coma score and cough reflex. Lancet. 1994;343(8908):1261–1262 · Rotheray KR, Cheung PSY, Cheung CSK, et al. What is the relationship between the Glasgow coma scale and airway protective reflexes in the Chinese population? Resuscitation. 2012;83(1):86–89 — reflexos de vômito e tosse caem progressivamente com o Glasgow, sem queda abrupta no escore 8: ausentes em 37% dos pacientes com Glasgow 9–14 e em 22% dos com Glasgow 15. O escore informa a decisão; quem decide é a capacidade de proteger a via aérea, a oxigenação/ventilação, a trajetória e o que vem a seguir (transporte, procedimento, infusão contínua).
Parou de convulsionar mas não acordou? — status não convulsivo até prova em contrário
o pós-ictal tem prazo; o que passa dele tem EEG
Sem despertar progressivo em 20–30 min após o fim da crise visível (ou flutuação, olhar fixo, mioclonias sutis de face/mão) → EEG urgente — status não convulsivo até prova em contrário
Sem EEG disponível + suspeita forte: prova terapêutica com benzodiazepínico (melhora do sensório após a dose sugere o diagnóstico) — e providenciar o traçado/transferência · rechecar também o resto: glicemia, CO2, a TC que faltou
Por quê & armadilhas

Depois de um status tratado, até 20% dos pacientes seguem em crise elétrica sem nenhum movimento — e o rótulo "pós-ictal prolongado" é onde esse diagnóstico vai morrer no prontuário. O pós-ictal verdadeiro é uma trajetória: confuso, depois sonolento, depois melhor, a cada meia hora. O que não melhora — ou pior, flutua — não é pós-ictal, é pergunta. Este item é irmão do que as páginas do AVCh e da HSA já plantaram: rebaixamento desproporcional e sem explicação, em qualquer contexto neurológico agudo, tem EEG na lista — porque a única crise impossível de tratar é a que ninguém diagnosticou.

AES 2016 — EEG no despertar ausente; status não convulsivo pós-status.
Manutenção para quem precisa — e a primeira crise que vai embora sem remédio
a decisão de anticonvulsivante crônico é de indicação, não de susto
Crise provocada com causa corrigida (hipoglicemia, hiponatremia, abstinência, dose esquecida reposta): sem anticonvulsivante crônico novo — tratar a causa foi o tratamento
Primeira crise não provocada, exame e imagem normais: alta sem manutenção na maioria — com EEG e RM ambulatoriais, neurologista, e as orientações que evitam a próxima tragédia: não dirigir (prazo conforme regulação), nada de piscina/altura sozinho, sono e álcool conversados
Quem saiu de status, tem lesão estrutural ou EEG epileptiforme: manutenção sim — levetiracetam 1.000–1.500 mg 12/12 h quando houve carga de 60 mg/kg, iniciada 10–12 h após o ataque (500–1.000 mg 12/12 h quando não houve carga plena), com ajuste renal a partir de ClCr < 50 e dose extra após hemodiálise — padrão prático (as opções clássicas — valproato, carbamazepina, fenitoína — pelo perfil do paciente, com o neurologista) · epiléptico conhecido: otimizar o esquema DELE, não trocar por susto · internado: disfagia pós-ictal antes de VO, glicemia 140–180, TEV conforme o caso
Por quê & armadilhas

O reflexo de prescrever anticonvulsivante vitalício a toda crise é o excesso simétrico à subdose do benzo: metade das primeiras crises não provocadas nunca se repete, e a fenitoína "para sempre" iniciada num plantão de sexta condena um adulto produtivo a anos de efeito colateral por um evento que talvez fosse único. A decisão pertence ao par risco de recorrência + custo da recorrência — e na dúvida, ela pertence ao ambulatório de neurologia, não ao susto do PS. O que o plantão deve entregar é o que ninguém entrega: a orientação de não dirigir documentada (a segunda crise dentro de um carro é a evitável mais cara que existe) e o retorno marcado com nome de quem decide o resto.

AES 2016 · consenso de primeira crise não provocada — decisão individualizada.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na crise epiléptica.

Subdose de benzodiazepínico — a meia ampola "para não rebaixar" é o erro nº 1 do status no mundo. Benzodiazepínico na crise que já cedeu. Conter membros ou pôr qualquer coisa na boca. Fenitoína em soro glicosado (precipita), IM (necrose) ou em bolus rápido sem monitor. "1 g de fenitoína para todo mundo" — dose é por peso. Terceira e quarta doses de benzo no lugar da segunda linha. Fenobarbital como reflexo — ficou para trás. Esquecer o sulfato de magnésio na gestante. Glicose sem tiamina no etilista. Titular sedação "até parar de tremer" sem EEG. Chamar de "pós-ictal" o paciente que não acorda. E anticonvulsivante vitalício por susto — a primeira crise não provocada, na maioria, vai embora sem receita.

Prescreveu — e agora?

Com esta página, a fila das 22 prescrições comentadas está completa — do infarto à crise epiléptica, cada cenário na ordem do raciocínio. A crise no contexto do sangue intracraniano vive nas páginas do AVCh e da HSA; o raciocínio neurocrítico completo, no módulo neuro.

Levar o caso ao assistente de conduta
Glauser T, Shinnar S, Gloss D, et al. Evidence-Based Guideline: Treatment of Convulsive Status Epilepticus in Children and Adults — American Epilepsy Society. Epilepsy Curr. 2016;16(1):48–61. Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, et al. Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019;381(22):2103–2113. Silbergleit R, Durkalski V, Lowenstein D, et al. Intramuscular versus Intravenous Therapy for Prehospital Status Epilepticus (RAMPART). N Engl J Med. 2012;366(7):591–600. Magpie Trial Collaborative Group. Do women with pre-eclampsia, and their babies, benefit from magnesium sulphate? The Magpie Trial: a randomised placebo-controlled trial. Lancet. 2002;359(9321):1877–1890 (doi:10.1016/S0140-6736(02)08778-0). The Eclampsia Trial Collaborative Group. Which anticonvulsant for women with eclampsia? Evidence from the Collaborative Eclampsia Trial. Lancet. 1995;345(8963):1455–1463. Krumholz A, Wiebe S, Gronseth GS, et al. Evidence-based guideline: Management of an unprovoked first seizure in adults. Report of the Guideline Development Subcommittee of the AAN and the AES. Neurology. 2015;84(16):1705–1713 (doi:10.1212/WNL.0000000000001487).