Crise epiléptica e status
O status epiléptico se trata com relógio e dose cheia: benzodiazepínico pleno no minuto 5, segunda linha completa no minuto 20 — e o erro nacional em cada etapa é o mesmo: a meia ampola "para não rebaixar", que não aborta a crise e cobra o preço dela.
Serve para a crise tônico-clônica do adulto no PS e na enfermaria — da convulsão que cede sozinha ao status refratário que vai à UTI. Cada minuto de crise torna a próxima dose menos eficaz (os receptores GABA internalizam): por isso esta página é a mais cronometrada da fila. As páginas do AVCh e da HSA apontam para cá; o módulo neuro aprofunda o raciocínio.
Condutas seguem a diretriz da AES 2016 e os ensaios ESETT/RAMPART, e não substituem o protocolo do seu serviço. Doses daqui são de adulto; gestante, criança e cardiopata grave têm particularidades que a página sinaliza mas não esgota.
A ordem é a do cronômetro: minuto 0–5 (proteger, medir, não conter), minuto 5 (benzodiazepínico cheio), minuto 20 (segunda linha completa — com a causa sendo caçada em paralelo), minuto 40 (refratário: UTI, infusão, EEG) — e o depois, que decide quem sai com receita. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
O status epiléptico tem definição operacional com hora: crise ≥ 5 min (ou crises em salva sem recuperar consciência) — e é aos 5 minutos que a farmacologia muda, porque a crise que passou desse ponto raramente para sozinha. Sem hora de início anotada, ninguém sabe em que item desta página está. O outro lado do relógio protege do excesso: a crise autolimitada de 90 segundos, seguida do sono pós-ictal esperado, não precisa de benzodiazepínico "para garantir" — o rebaixamento que ele causa só confunde o exame que vem depois.
AES 2016 — definição operacional e fase de estabilização.A cada minuto de crise, os receptores GABA-A que o benzodiazepínico usa são internalizados — a droga certa dada tarde ou em subdose encontra cada vez menos onde agir. É por isso que o erro mais documentado do status, no mundo inteiro, é a subdose de benzodiazepínico: a "meia ampola para não deprimir a respiração" não aborta a crise, e é a crise contínua — não o diazepam pleno — que hipoventila, aspira e interna na UTI. O midazolam IM existe para matar a desculpa logística: 10 mg no músculo, agora, vale mais que 10 mg na veia daqui a 8 minutos. E a unidade importa: a dose IM do adulto é 10 mg — materiais de bolso que imprimem "0,2 mg" ou fracionam em conta-gotas perpetuam exatamente o erro que o RAMPART enterrou.
RAMPART · AES 2016 — benzodiazepínico pleno como 1ª linha; subdose como erro dominante.O ESETT resolveu uma briga de décadas com um empate técnico de três: levetiracetam, valproato e fosfenitoína abortam o status estabelecido em taxas iguais — o que transfere a decisão para o que cada droga custa naquele paciente: a fenitoína cobra monitor, veia boa e um coração que tolere; o valproato cobra um fígado; o levetiracetam quase não cobra nada, e por isso virou o padrão prático. As armadilhas são de dose e de tempo: a segunda linha dada pela metade ("500 de keppra para começar") repete o erro da meia ampola em escala maior, e a segunda linha adiada — enquanto se repete benzodiazepínico pela terceira vez — é o caminho clássico para o item 05. E o fenobarbital, segunda escolha de material antigo, ficou para trás: sedação profunda e hipotensão sem vantagem de eficácia.
ESETT (NEJM 2019) — os três braços foram levetiracetam, valproato e fosfenitoína · AES 2016 · ACEP 2024 (recomendação nível A para usar uma das três) — segunda linha em dose plena por peso.O status que "não responde a nada" frequentemente é o status cuja causa ninguém tratou: a hiponatremia de 112 não cede a levetiracetam, a eclâmpsia não cede a fenitoína (e o ensaio que comparou é categórico: o magnésio vence), e a abstinência alcoólica responde ao benzodiazepínico que a equipe hesitou em repetir "porque já fez". A regra da página: toda crise refratária à primeira linha merece a pergunta "o que está causando isso?" respondida por escrito antes da terceira droga. E a mais esquecida das causas é a mais barata de corrigir — o epiléptico conhecido que passou dois dias sem a medicação dele: repor o esquema próprio vale mais que qualquer ataque.
AES 2016 — investigação etiológica simultânea · MAGPIE/Collaborative Eclampsia Trial (MgSO4).No refratário, o inimigo muda de nome: o corpo pode parar de convulsionar — curarizado, sedado, exausto — enquanto o córtex segue em crise, queimando neurônios em silêncio. É por isso que a partir daqui o exame físico deixa de ser monitor confiável e o EEG vira item de prescrição: titular midazolam "até parar de tremer" trata o tremor, não o status. A armadilha institucional é o meio-termo: o paciente semi-sedado no PS, "melhorou, vamos ver", nem acordado para examinar nem monitorizado para afirmar — o refratário pede a decisão inteira (tubo, bomba, traçado, UTI), e pedi-la aos 40 minutos é melhor do que às 4 horas.
AES 2016 — status refratário: anestésico titulado a EEG · Limites do Glasgow como critério isolado de intubação: Moulton C, Pennycook AG. Relation between Glasgow coma score and cough reflex. Lancet. 1994;343(8908):1261–1262 · Rotheray KR, Cheung PSY, Cheung CSK, et al. What is the relationship between the Glasgow coma scale and airway protective reflexes in the Chinese population? Resuscitation. 2012;83(1):86–89 — reflexos de vômito e tosse caem progressivamente com o Glasgow, sem queda abrupta no escore 8: ausentes em 37% dos pacientes com Glasgow 9–14 e em 22% dos com Glasgow 15. O escore informa a decisão; quem decide é a capacidade de proteger a via aérea, a oxigenação/ventilação, a trajetória e o que vem a seguir (transporte, procedimento, infusão contínua).Depois de um status tratado, até 20% dos pacientes seguem em crise elétrica sem nenhum movimento — e o rótulo "pós-ictal prolongado" é onde esse diagnóstico vai morrer no prontuário. O pós-ictal verdadeiro é uma trajetória: confuso, depois sonolento, depois melhor, a cada meia hora. O que não melhora — ou pior, flutua — não é pós-ictal, é pergunta. Este item é irmão do que as páginas do AVCh e da HSA já plantaram: rebaixamento desproporcional e sem explicação, em qualquer contexto neurológico agudo, tem EEG na lista — porque a única crise impossível de tratar é a que ninguém diagnosticou.
AES 2016 — EEG no despertar ausente; status não convulsivo pós-status.O reflexo de prescrever anticonvulsivante vitalício a toda crise é o excesso simétrico à subdose do benzo: metade das primeiras crises não provocadas nunca se repete, e a fenitoína "para sempre" iniciada num plantão de sexta condena um adulto produtivo a anos de efeito colateral por um evento que talvez fosse único. A decisão pertence ao par risco de recorrência + custo da recorrência — e na dúvida, ela pertence ao ambulatório de neurologia, não ao susto do PS. O que o plantão deve entregar é o que ninguém entrega: a orientação de não dirigir documentada (a segunda crise dentro de um carro é a evitável mais cara que existe) e o retorno marcado com nome de quem decide o resto.
AES 2016 · consenso de primeira crise não provocada — decisão individualizada.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Subdose de benzodiazepínico — a meia ampola "para não rebaixar" é o erro nº 1 do status no mundo. Benzodiazepínico na crise que já cedeu. Conter membros ou pôr qualquer coisa na boca. Fenitoína em soro glicosado (precipita), IM (necrose) ou em bolus rápido sem monitor. "1 g de fenitoína para todo mundo" — dose é por peso. Terceira e quarta doses de benzo no lugar da segunda linha. Fenobarbital como reflexo — ficou para trás. Esquecer o sulfato de magnésio na gestante. Glicose sem tiamina no etilista. Titular sedação "até parar de tremer" sem EEG. Chamar de "pós-ictal" o paciente que não acorda. E anticonvulsivante vitalício por susto — a primeira crise não provocada, na maioria, vai embora sem receita.
Com esta página, a fila das 22 prescrições comentadas está completa — do infarto à crise epiléptica, cada cenário na ordem do raciocínio. A crise no contexto do sangue intracraniano vive nas páginas do AVCh e da HSA; o raciocínio neurocrítico completo, no módulo neuro.
Levar o caso ao assistente de conduta