FOCUS e RUSH para dar nome à hipotensão e à hipoxemia da primeira noite
Síndrome intersticial≥ 3 linhas B
Score de linhas B no 1º dia> 12
Confirmação de TOT> 98% sens.
Conceito: o POCUS não substitui o exame formal. Ele é uma avaliação rápida,
qualitativa e direcionada, feita para responder perguntas de sim ou não à beira do leito —
"tem líquido livre?", "o ventrículo está vazio?", "a pleura desliza?". A força dele no
pós-operatório vem de quatro coisas: sem radiação, portátil, rápido, e — a que mais muda conduta —
repetível. Você olha, intervém e olha de novo cinco minutos depois.
JOSHI GP. Overview of perioperative diagnostic uses of ultrasound. UpToDate, 2026.
01
RUSH: a bomba, o tanque e os canos
Diante da hipotensão pós-operatória, a abordagem estruturada mais usada é o protocolo RUSH
(Rapid Ultrasound in Shock), que percorre três compartimentos na mesma ordem, sempre.
A sequência importa: ela vai do que mata mais rápido para o que explica a origem.
·Hipotensão na sala de recuperação ou na primeira noite
Antes de escalar droga vasoativa, gaste noventa segundos dando nome ao choque.
1A bomba — o coração
Função global e causas obstrutivas ou de falência primária.
Contratilidade e tamanho
hiperdinâmico · hipocinético · dilatado
Ventrículo contraindo vigorosamente com câmaras pequenas e vazias no fim da diástole, ou fraco, ou coração globalmente dilatado?
Derrame e sobrecarga
pericárdio · ventrículo direito
Derrame pericárdico sugere tamponamento; sinais de sobrecarga e tensão do VD sugerem TEP.
Trombo em trânsito
êmbolo intracardíaco
Coágulo flutuante em átrio ou ventrículo direito muda a conduta na hora.
2O tanque — volemia, pulmão e vazamentos
O tanque está cheio ou vazio — e, se está vazio, para onde foi o conteúdo?
Status volêmico
VCI e VJI
Planas e colabadas = tanque vazio. Distendidas e pletóricas = tanque cheio ou represado.
"Para onde foi o sangue?"
líquido livre
Busque líquido peritoneal (ascite ou hemoperitônio) e pleural. No quadro infeccioso, essa busca pode revelar a própria fonte — abscesso, peritonite.
Pulmão
linhas B · linhas C · lung sliding
Inundação (linhas B), consolidação (linhas C, irregularidade pleural) e confirmação do deslizamento pleural para descartar pneumotórax.
3Os canos — os grandes vasos
Falha estrutural ou oclusão na macrovasculatura que justifique o choque.
Aorta
aneurisma roto · dissecção
Escaneie a aorta abdominal — causas clássicas de choque hemorrágico.
Veias profundas
TVP
Frequentemente o coágulo de origem do choque obstrutivo do coração direito.
PERERA P et al. The RUSH exam: Rapid Ultrasound in SHock in the evaluation of the critically ill. Emerg Med Clin North Am 28(1):29–56, 2010.
02
Os quatro perfis, lidos de uma vez
O valor do protocolo aparece quando você lê os três compartimentos juntos. Um ventrículo
hiperdinâmico sozinho não diz nada — hiperdinâmico com VCI plana é hipovolemia; hiperdinâmico com
VCI pletórica é obstrução. É a combinação que fecha o diagnóstico. No pós-operatório imediato o
perfil hipovolêmico é de longe o mais comum: sangramento e perda para o terceiro espaço.
Perfil
Bomba
Tanque
Canos
Hipovolêmico (hemorrágico)
Ventrículos hiperdinâmicos, pequenos e vazios no fim da diástole (câmaras colabadas)
VCI plana e colabada, VJI plana. Buscar ativamente líquido livre peritoneal ou pleural
Avaliar aneurisma de aorta abdominal e dissecção aórtica como fonte
VCI pletórica, sem variação respiratória; VJI distendida. Múltiplas linhas B, podendo haver
derrame pleural e ascite
Calibre e fluxo normais
Obstrutivo (tamponamento)
Ventrículos hiperdinâmicos. Derrame pericárdico (tamponamento), sobrecarga do VD (TEP), ou
trombo intracardíaco em trânsito
VCI pletórica e VJI distendida por represamento venoso. Ausência de lung
sliding sugere fortemente pneumotórax
TVP presente — frequentemente o coágulo de origem
Distributivo (sepse)
Sepse ou anafilaxia. Hiperdinâmico na fase precoce; hipocinético na fase tardia, refletindo a disfunção
miocárdica induzida pela infecção
VCI normal ou pequena e colabada. Líquido peritoneal ou pleural pode ser a fonte da
infecção; irregularidade pleural e linhas C
Calibre e fluxo normais
AESP verdadeira ou pseudo-AESP?
Durante a parada, o FOCUS separa as duas: ausência total de movimento cardíaco é AESP verdadeira;
movimento preservado sem ejeção adequada é pseudo-AESP. A distinção não é acadêmica — ela muda a
busca de causa reversível e a expectativa de resposta ao suporte.
03
Pulmão: a hipoxemia da primeira noite
No pós-operatório, a acurácia do ultrassom para as causas agudas de hipoxemia é frequentemente
igual ou superior à da radiografia e da tomografia de tórax — com a vantagem de estar ao lado do
leito enquanto o paciente dessatura.
Pneumotórax
lung point
Suspeitar em hipoxemia inexplicada, trauma ou após passagem de cateter venoso
central. Ausência de deslizamento pleural e ausência de linhas B. O lung
point — a transição em que o pulmão colapsado toca a pleura — é o sinal mais
específico.
Edema cardiogênico
≥ 3 linhas B
Múltiplas linhas B bilaterais, artefatos verticais que apagam as linhas A. Três
ou mais por espaço intercostal indicam perda moderada de aeração — síndrome intersticial. E a
presença delas descarta pneumotórax naquele ponto.
Derrame pleural
spine sign
Coleção anecoica entre as pleuras, nas porções dependentes do tórax. O limite do
diafragma e a coluna vertebral ajudam a localizar.
Duas medidas que preveem complicação antes de ela aparecer
Um score quantitativo de linhas B maior que 12 no primeiro dia de pós-operatório
prediz fortemente complicação pulmonar grave — SARA, pneumonia, reintubação — antes do décimo dia.
E disfunção diafragmática com excursão < 10 mm após cirurgia torácica aumenta
em 5,5× a chance de complicação pulmonar. São dois números que transformam o POCUS
de ferramenta diagnóstica em ferramenta de triagem.
LICHTENSTEIN DA et al. Relevance of lung ultrasonography in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest 134(1):117–125, 2008.VOLPICELLI G et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med 38(4):577–591, 2012.
04
Abdome e pelve
Retenção urinária pós-operatória (POUR)O ultrassom vesical deve ser usado rotineiramente para confirmar a distensão da
bexiga em paciente anúrico ou que não consegue urinar — evita sondagem desnecessária e diagnostica
a bexiga palpável antes do cateter.
Oligúria e falência renalAvaliação rápida para descartar causa obstrutiva, como hidronefrose. Custa
trinta segundos e muda completamente a linha de investigação.
Complicação cirúrgicaLíquido livre no abdome (hemoperitônio pós-cirúrgico) ou suspeita de ruptura de
víscera, com ar livre intra-abdominal.
05
Via aérea e procedimentos
Confirmação do tubo orotraqueal
> 98%
de sensibilidade para confirmar a posição do TOT em reintubação de emergência na
UTI. O tubo na traqueia aparece como estrutura única com sombra acústica; no esôfago, aparece o
sinal do duplo trato — duas estruturas com sombra. Especialmente útil na parada
cardíaca, quando a capnografia pode falhar por baixo débito.
Depois do acesso venoso central
3,3% · 0,7%
Mau posicionamento em 3,3% dos casos e pneumotórax em
0,7% após passagem de CVC — duas complicações rapidamente descartadas com o
POCUS, sem esperar a radiografia de controle.
Tratar o POCUS como substituto do ecocardiograma formal — ele responde perguntas de sim ou não,
não emite laudo.
Ler um compartimento isolado: ventrículo hiperdinâmico só significa alguma coisa junto com a
VCI e com os canos.
Fazer um único exame e não repetir depois de intervir — a serialidade é a maior vantagem do
método.
Chamar de pneumotórax a simples ausência de lung sliding sem procurar o lung point.
Ignorar que a presença de linhas B naquele ponto já descarta pneumotórax ali.
Sondar paciente anúrico sem antes olhar a bexiga.
Não procurar alteração segmentar de contração no choque pós-operatório e perder o infarto
perioperatório.
Confiar apenas na capnografia para confirmar o TOT na parada com baixo débito.
Confirme no protocolo do seu serviço.
Indicação, treinamento mínimo e registro do POCUS variam entre instituições, e o exame é
operador-dependente. Esta página é material de apoio ao raciocínio — não substitui o protocolo
institucional, o exame de imagem formal quando indicado, nem o julgamento clínico à beira do leito.
Fontes
JOSHI GP. Overview of perioperative diagnostic uses of ultrasound. UpToDate, 2026.PERERA P et al. The RUSH exam: Rapid Ultrasound in SHock in the evaluation of the critically ill. Emerg Med Clin North Am 28(1):29–56, 2010.LICHTENSTEIN DA et al. Relevance of lung ultrasonography in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest 134(1):117–125, 2008.VOLPICELLI G et al. International evidence-based recommendations for point-of-care lung ultrasound. Intensive Care Med 38(4):577–591, 2012.DÍAZ-GÓMEZ JL et al. Society of Critical Care Medicine Guidelines on Adult Critical Care Ultrasonography: Focused Update 2024. Crit Care Med 53(1):e447, 2025.