Manejo Perioperatório do Paciente Crítico
Coração, cérebro, glicemia e hemostasia nas primeiras horas depois da sala
O que realmente estratifica risco
Exame de rotina em paciente assintomático não estratifica nada — gera falso-positivo, não muda manejo e atrasa a cirurgia. O que estratifica é ferramenta clínica. O Revised Cardiac Risk Index (RCRI) usa seis preditores, e a leitura correta é de contagem: cada um deles é um sistema que já estava comprometido antes de o bisturi encostar.
O mesmo raciocínio vale para o sangramento: TP e TTPA de rotina não preveem sangramento em paciente sem história prévia — o valor preditivo é baixo. Quem prevê é a anamnese estruturada, e a ferramenta é o ISTH-BAT (bleeding assessment tool da International Society on Thrombosis and Haemostasis). Escore positivo indica investigação adicional, não contraindica a cirurgia por si só.
| População | ISTH-BAT positivo | O que fazer |
|---|---|---|
| Mulheres adultas | ≥ 6 | Investigação adicional de coagulopatia |
| Homens adultos | ≥ 4 | Investigação adicional de coagulopatia |
| Crianças | ≥ 3 | Investigação adicional de coagulopatia |
Insuficiência cardíaca: o relógio antes, os fluidos depois
Paciente com IC tem risco de complicação e de readmissão maior do que o coronariopata sem IC — e o momento mais perigoso não é a sala, é o pós-operatório imediato, quando o volume infundido no intraoperatório começa a ser mobilizado de volta para o intravascular. É por isso que o edema pulmonar do primeiro dia costuma pegar quem estava estável na saída da sala.
| Cenário | Adiar a eletiva por | Condição |
|---|---|---|
| IC de início recente | ≥ 3 meses | Com tratamento otimizado no intervalo |
| IC descompensada aguda | ≥ 1 mês | Contado a partir da estabilização |
A hipotensão que inverte pela fração de ejeção
Este é o ponto em que o pós-operatório contraria o reflexo. Diante de insuficiência cardíaca aguda descompensada com choque, a conduta se inverte completamente conforme a fração de ejeção — e a inversão não é preferência de escola, é mecânica. Por isso o ecocardiograma vem antes da droga, não depois de ela não funcionar.
Pressão alta, betabloqueador e o que nunca começar agora
Crise hipertensiva no pós-operatório imediato (sistólica > 180 mmHg) tem quase sempre uma causa reversível atrás dela. Excluir dor, hipóxia e bexigoma vem antes de qualquer droga — sondar uma bexiga distendida resolve mais pressão que um anti-hipertensivo. Se a pressão persiste, use agente intravenoso titulável e de curta ação: labetalol ou nicardipino.
| Droga crônica | Conduta perioperatória | Por quê |
|---|---|---|
| Betabloqueador de uso crônico | Manter | Suspender expõe a rebote adrenérgico |
| Betabloqueador novo no pré-op | Nunca iniciar | Aumento significativo de mortalidade e AVC |
| Clonidina | Não suspender por descuido | Síndrome de abstinência grave |
| iECA / BRA | Suspensão individualizada · reiniciar em até 48 h | Hipotensão profunda sob anestesia, mas atraso em reiniciar aumenta mortalidade em 30 dias |
Se for necessário betabloqueio no intraoperatório, prefira agentes cardiosseletivos — esmolol ou labetalol. Os não cardiosseletivos aumentam o risco, e o metoprolol especificamente foi associado a aumento de AVC isquêmico no estudo POISE. É essa a origem da regra de nunca iniciar betabloqueador agudamente antes da cirurgia: o ganho em evento coronariano foi pago com AVC e morte.
AVC perioperatório: o despertar que não volta
A mortalidade é alta e o diagnóstico é o problema. Na sala de recuperação ou na UTI, o déficit é confundido com delirium hipoativo ou resíduo anestésico — e a janela terapêutica passa enquanto se espera "a droga sair". Em paciente de risco, o déficit focal no despertar é AVC até prova em contrário.
Glicemia e as drogas crônicas no jejum
O alvo glicêmico perioperatório e na UTI é 110 a 180 mg/dL. Abaixo disso o risco de hipoglicemia em paciente sedado — que não avisa — supera o ganho; acima, sobe infecção de sítio cirúrgico e disfunção de cicatrização. O ajuste das drogas crônicas segue a mesma lógica: o jejum é o que muda tudo.
| Droga | Ajuste | Motivo |
|---|---|---|
| Gliflozinas (canagliflozina, dapagliflozina, empagliflozina) | Suspender 3–4 dias antes | Cetoacidose diabética euglicêmica — o jejum cirúrgico aumenta o risco exponencialmente |
| Bomba de insulina | Manter ou reduzir 10–25% | Reduzir se houver risco de hipoglicemia |
| NPH | Reduzir 50% na manhã | Cobertura basal sem aporte de carboidrato |
| Glargina e análogos de ação longa | Reduzir 20–25% na véspera | Meia-vida longa: o ajuste precisa anteceder o jejum |
| Classe | Conduta | O que vigiar |
|---|---|---|
| Anticonvulsivantes | Manter sem interrupção | Via alternativa se o jejum se prolongar |
| Lítio | Manter, com monitorização rigorosa | Janela terapêutica estreita; jejum e flutuação de fluidos causam intoxicação aguda. Causa diabetes insipidus nefrogênica em até 20% — vigiar sódio e hidratação |
| IMAO | Manter com cautela e comunicar a equipe | Crise hipertensiva e colapso se interagir com efedrina, meperidina, tramadol ou dextrometorfano |
| ISRS | Habitualmente manter | Aumento leve do risco de sangramento, compensado por evitar síndrome de descontinuação |
| Naltrexona | Descontinuar antes da cirurgia | Antagoniza o receptor mu e bloqueia a analgesia com opioide. Se mantida, exige analgesia multimodal intensa ou agente de altíssima afinidade (fentanil, hidromorfona) |
| Fitoterápicos (alho, ginkgo, ginseng) | Suspender 1 semana antes | Aumentam o risco de sangramento |
Sangue: transfundir menos, aquecer mais
A conduta transfusional é restritiva. Transfunde-se em geral com hemoglobina < 7 g/dL, ou < 8 g/dL na vigência de isquemia cardíaca aguda — uma unidade de cada vez, reavaliando paciente e hemoglobina logo depois. Transfusão em dois concentrados por reflexo é o hábito que a estratégia restritiva veio desfazer.
Anticoagulação: suspender, quase nunca pontear, reverter
A ponte com heparina de baixo peso molecular ao suspender o anticoagulante é contraindicada na maioria dos pacientes: aumenta sangramento maior sem reduzir tromboembolismo. Ela sobreviveu como hábito porque parece intuitiva — e é justamente o tipo de conduta que o ensaio clínico desmontou.
| Situação | Ponte com HBPM | Detalhe |
|---|---|---|
| Varfarina, risco trombótico baixo ou moderado | Não | Só aumenta sangramento |
| Varfarina, altíssimo risco trombótico | Sugerida | CHADS2 5 ou 6 · TEV nos últimos 3 meses · prótese mecânica mitral ou aórtica de disco engaiolado |
| DOAC (apixabana, rivaroxabana, dabigatrana) | Nunca | Suspensão programada substitui a ponte |
| Risco de sangramento do procedimento | Suspender o DOAC |
|---|---|
| Baixo a moderado | 1 a 2 dias antes |
| Alto | 2 a 4 dias antes |
O intervalo também varia com a função renal — quanto pior o clearance, mais longa a suspensão necessária, sobretudo para dabigatrana.
| Anticoagulante | Reversão em sangramento catastrófico |
|---|---|
| Varfarina | Complexo protrombínico de 4 fatores (4F-PCC) + vitamina K |
| Dabigatrana | Idarucizumabe 5 g IV |
| Inibidores do fator Xa (apixabana, rivaroxabana) | 4F-PCC off-label 25 a 50 U/kg |
Profilaxia de tromboembolismo venoso
O paciente cirúrgico crítico acumula os três vértices de Virchow ao mesmo tempo: estase pela imobilidade, lesão endotelial pelo trauma cirúrgico e hipercoagulabilidade pela resposta inflamatória. A profilaxia não é opcional — o que se discute é qual agente, por quanto tempo e quando começar.
| Cenário | Profilaxia | Duração / observação |
|---|---|---|
| Ortopédica maior (quadril, joelho) — risco basal de 4–5% de TEV sintomático | HBPM ou DOAC — entre os DOACs, rivaroxabana ou apixabana preferidas sobre dabigatrana e edoxabana | 10–14 dias, até 35 dias (sobretudo quadril) |
| Não ortopédica, baixo risco | Compressão pneumática intermitente | Estratificar pelo escore de Caprini |
| Não ortopédica, risco moderado a alto | Farmacológica, preferencialmente HBPM | HBPM + CPI nos riscos muito acentuados, como grandes cirurgias oncológicas |
| Neurocirurgia / alto risco de sangramento | Apenas mecânica (CPI) no início | Iniciar o agente farmacológico em 48–72 h, quando o risco do sítio cair |
| ClCr < 30 mL/min, insuficiência renal grave ou diálise | HNF subcutânea 5.000 UI 12/12 h | Não depende de depuração renal — a HBPM se acumula à medida que a filtração cai |
- Pedir bateria de exames pré-operatórios em paciente assintomático → falso-positivo, atraso e nenhuma mudança de conduta
- Confiar em TP/TTPA normais para descartar risco de sangramento sem anamnese estruturada
- Dar dobutamina em choque com FE preservada antes do eco → piora a obstrução da via de saída
- Tratar sistólica > 180 mmHg com droga antes de excluir dor, hipóxia e bexigoma
- Iniciar betabloqueador agudamente no pré-operatório "para proteger o coração" → mais AVC e mais mortalidade
- Esquecer de reiniciar iECA/BRA nas primeiras 48 h → mortalidade maior em 30 dias
- Atribuir déficit focal no despertar ao resíduo anestésico → a janela da trombectomia fecha
- Usar glicemia normal para descartar cetoacidose em paciente que usava gliflozina
- Fazer ponte com HBPM por rotina ao suspender anticoagulante → sangra mais e não previne trombose
- Transfundir duas unidades de rotina em vez de uma, com reavaliação