Hemodinâmica · POCUS

POCUS — VCI & Fluido-Responsividade

Predição vs confirmação — quando e como testar responsividade a volume

dIVC (VM)> 18% responsivo
Confirmação universalPLR + ΔVTI ≥ 10–15%
Local de medida1–2 cm da AD
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O conceito que confunde — prediz ≠ confirma

Toda avaliação de fluido-responsividade tem dois momentos distintos. Confundir os dois leva a dar volume quando não devia — ou não dar quando devia.

Prediz responsividadeAvaliação estática ou passiva — estima a probabilidade de responder a volume; não mobiliza fluido real.
VPP > 13% (VM + ritmo regular + Vt ≥ 8 mL/kg) · cIVC > 50% (espontânea) · dIVC > 18% (VM sem esforço) · VCI < 1,5 cm (qualquer modo).
Diz: "provavelmente vai responder" — mas não prova.
Confirma responsividadeTeste funcional dinâmico — mobiliza volume real e mede o efeito no débito via VTI.
PLR + ΔVTI ≥ 10–15% (universal, vale em arritmia e VM) · Mini-bolus 100 mL + ΔVTI ≥ 10% · EEO 30 s + ΔVTI ≥ 5% (VM, apneia expiratória).
Diz: "testamos, o DC subiu — pode dar volume".
Por que isso importa na prática: VPP alta ou VCI colapsável são probabilidades, não certezas. Em taquicardia, fibrilação atrial, PEEP alto ou esforço respiratório, todos os índices estáticos perdem acurácia. Nesses casos, pular direto para o teste funcional (PLR + VTI) é mais seguro do que confiar na predição.
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Fluxo de decisão à beira do leito

  1. 1Há hipoperfusão que justifique volume? Lactato > 2, enchimento capilar > 3 s, PAM caindo, oligúria. Sem indicação clínica, não testar responsividade.
  2. 2Avaliar o modo ventilatório e limitações. VM + ritmo regular + Vt ≥ 8 mL/kg → VPP e dIVC têm boa acurácia. Se algum critério falha (arritmia, esforço, PEEP alto, espontâneo) → ir para PLR direto.
  3. 3Predição (se aplicável). VPP > 13%, cIVC > 50%, dIVC > 18% ou VCI < 1,5 cm → sugere responsividade. Zona cinzenta ou limitações → confirmar com teste funcional.
  4. 4Confirmação funcional — PLR + VTI. Elevar MMII 45° por 60–90 s. Medir VTI aórtico antes e durante. ΔVTI ≥ 10–15% → responsivo → bolus 250–500 mL. Negativo → não dar volume, investigar outro mecanismo.
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Técnica de aquisição

  1. 1Janela subcostal longitudinal. Probe em posição subxifoide, indicador voltado para cima (cefálico). Obter visão longitudinal da VCI entrando no átrio direito.
  2. 2Local de medida. 1–2 cm da junção VCI–átrio direito (ou 3 cm da AD). Utilizar as veias hepáticas como referência anatômica.
  3. 3M-mode. Ativar M-mode perpendicular ao eixo longitudinal da VCI. Medir no mínimo 3 ciclos respiratórios. Registrar diâmetro máximo (expiração) e mínimo (inspiração).
  4. 4Aplicar a fórmula correta. Ventilação espontânea → índice de colapsibilidade (cIVC) · Ventilação mecânica → índice de distensibilidade (dIVC).
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Fórmulas — selecionar pelo modo

Ventilação espontânea
cIVC=Dmax − DminDmax×100
  • > 50%Responsivo
  • 20–50%Zona cinzenta
  • < 20%Não responsivo

VCI colapsa na inspiração — queda da pressão intratorácica puxa sangue.

Ventilação mecânica
dIVC=Dmax − DminDmin×100
  • > 18%Responsivo
  • < 18%Não responsivo

VCI dilata na inspiração — pressão positiva empurra contra parede. Válido: Vt ≥ 8 mL/kg, ritmo regular, sem esforço.

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Interpretação do diâmetro absoluto

DiâmetroVariaçãoInterpretação
< 1,5 cmQualquer colapsoHipovolemia — muito provavelmente responsivo
1,5–2,1 cmVariávelZona cinzenta — realizar PLR ou fluid challenge
> 2,1 cm< 20% colapsoCongestão / PVC elevada — não responsivo, avaliar VD
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Limitações relevantes

SituaçãoProblema
Taquipneia / esforço respiratório aumentadoColapso da VCI mesmo sem hipovolemia — falso positivo
Pressão abdominal elevadaAscite, obesidade e gestação alteram diâmetro e variação
Disfunção de VD / TEPVCI dilatada sem hipervolemia real
PEEP elevadoVCI artificialmente dilatada em ventilação mecânica
Fibrilação atrial / arritmiasVariação respiratória irregular — difícil de padronizar
Janela acústica inadequadaObesidade, cirurgia prévia, curativo abdominal
PLR como alternativa universal (SSC 2026): elevar MMII a 45° por 60–90 s. Válido em ventilação espontânea, mecânica e na presença de arritmias, sem necessidade de acesso central. Aumento do VTI aórtico ou subvalvar esquerdo > 12–15% prediz responsividade a volume.
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Desempenho diagnóstico — por que a VCI não decide sozinha

Os números abaixo são a razão de a VCI figurar como predição, e não como confirmação, no fluxo da seção 01.

MétodoSensibilidadeEspecificidadePapel
VCI (diâmetro e índices)71%75%Predição — sugere, não prova
PLR + ΔVTI86%92%Confirmação — teste funcional
Leitura prática. Com especificidade de 75%, cerca de um em cada quatro pacientes com VCI “colapsável” não responde a volume. A metanálise que reuniu esses dados é explícita: a VCI não deve ser usada como indicador isolado de responsividade — há heterogeneidade importante entre os estudos. Quando a decisão de dar volume for relevante, confirmar com PLR + VTI.
Orso D, Paoli I, Piani T, et al. Accuracy of Ultrasonographic Measurements of Inferior Vena Cava to Determine Fluid Responsiveness: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Intensive Care Med. 2020.
Feissel M, Michard F, Faller JP, Teboul JL. The respiratory variation in inferior vena cava diameter as a guide to fluid therapy. Intensive Care Med. 2004. · Barbier C, Loubières Y, Schmit C, et al. Respiratory changes in inferior vena cava diameter are helpful in predicting fluid responsiveness in ventilated septic patients. Intensive Care Med. 2004.
Monnet X, Teboul JL. Passive leg raising: five rules, not a drop of fluid! Crit Care. 2015. · Cherpanath TG, Hirsch A, Geerts BF, et al. Predicting Fluid Responsiveness by Passive Leg Raising: A Systematic Review and Meta-Analysis of 23 Clinical Trials. Crit Care Med. 2016.
Marik PE, Cavallazzi R, Vasu T, Hirani A. Dynamic changes in arterial waveform derived variables and fluid responsiveness in mechanically ventilated patients: a systematic review of the literature. Crit Care Med. 2009. · Myatra SN, Prabu NR, Divatia JV, et al. The Changes in Pulse Pressure Variation or Stroke Volume Variation After a "Tidal Volume Challenge". Crit Care Med. 2017.