Procedimentos — Acesso vascular
Cateter Venoso Central
Indicações, comparação de sítios, técnica completa (jugular interna direita) e dúvidas de plantão com referências.
01
Visão geral & indicações
Acesso venoso em veia de grande calibre para infusão de drogas vasoativas, NPT, medição de PVC e coleta de SvcO₂. A técnica de Seldinger é o padrão universal. USG em tempo real é recomendado por todas as diretrizes — reduz falha de punção, pneumotórax e punção arterial acidental.
Drogas vasoativasNoradrenalina, vasopressina, adrenalina — concentração plena
Nutrição parenteral totalNPT com osmolaridade > 900 mOsm/L
MonitorizaçãoPVC e SvcO₂
Acesso difícilAcesso periférico impossível ou inadequado
HemodiáliseCateter de duplo-lúmen de grande calibre — Shilley
Marca-passoMarca-passo transvenoso temporário
02
Escolha do sítio
| Sítio | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Jugular interna direitapadrão | Trajetória direta para VCS; facilmente compressível; ângulo favorável; menor risco de pneumotórax | Desconforto ao movimentar o pescoço; risco de infecção ligeiramente maior que subclávia |
| Subclávia | Menor taxa de ICSRC; fixação fácil; mais confortável | Maior risco de pneumotórax (~2–3%); não compressível em caso de sangramento; contraindicada em coagulopatia grave |
| Femoral | Sem risco de pneumotórax; mais segura em coagulopatia; acesso mais rápido na urgência | Maior risco de trombose e infecção; limita deambulação; menor qualidade de PVC |
| Jugular interna esquerda | Alternativa se direita inviável | Risco de lesão do ducto torácico; trajetória mais oblíqua para VCS |
03
Material
Kit de CVC (agulha introdutora, fio-guia J, dilatador, cateter)
USG com transdutor linear
Lidocaína 1–2% + seringa 10 mL
Bisturi lâmina 11
Fio de sutura (nylon 2-0 ou 3-0)
Solução salina para flush dos lúmens
Campo estéril amplo + avental + clorexidina alcoólica
Máscara + gorro (paramentação completa — medida de barreira máxima)
04
Técnica — jugular interna direita
Anatomia-chave: A veia jugular interna (VJI) corre lateral e anterior à artéria carótida comum. O ponto de entrada é no ápice do triângulo de Sedillot — entre as cabeças esternal e clavicular do esternocleidomastóideo, 2–3 cm acima da clavícula. O USG confirma a posição (veia é compressível; artéria pulsa e não colapsa).
Preparo
- 1Paramentação máxima: avental estéril, luvas estéreis, máscara, gorro. Campo estéril amplo. Antissepsia com clorexidina alcoólica — aguardar secar antes de puncionar.
- 2Trendelenburg 15°: distende as veias do pescoço e reduz risco de embolia aérea. Cabeça rodada ~30° para o lado oposto ao procedimento (não exagerar — rotação excessiva sobrepõe a VJI à carótida).
- 3USG antes de puncionar: visualizar a VJI em eixo curto (cross-section). Confirmar compressibilidade, posição lateral à carótida e ausência de trombose. Marcar o sítio. Se possível, usar USG em tempo real.
- 4Anestesia local com lidocaína 1% em pele e subcutâneo no sítio marcado.
Punção
- 5Inserir a agulha introdutora a 45° em relação à pele, direcionada para o mamilo ipsilateral, aspirando continuamente. Ao retornar sangue venoso (escuro, sem pulsação), estabilizar a agulha com a mão não dominante.
- 6Introduzir o fio-guia J pela agulha com a curva apontando para baixo (em direção ao coração). Deve deslizar sem resistência. Nunca forçar o fio — resistência = posição incorreta da agulha.
Dilatação & cateter
- 7Retirar a agulha mantendo o fio. Pequena incisão na pele com bisturi. Passar o dilatador sobre o fio com movimento firme e rotacional. Retirar o dilatador, comprimir.
- 8Introduzir o cateter sobre o fio. Para a jugular interna direita adulto: inserir até 14–16 cm (ponta na junção atriocaval). Retirar o fio enquanto mantém o cateter.
Finalização
- 9Aspirar e lavar todos os lúmens com SF. Tampar. Fixar com sutura e curativo estéril.
- 10Confirmação: Rx de tórax obrigatório — ponta do cateter deve estar na VCS, acima da junção cavoatrial, sem pneumotórax. Alternativa rápida: USG transtorácico com flush de SF agitado (aparece como "neve" no VD).
05
Profundidade de inserção
| Sítio | Profundidade (adulto) | Ponto de referência |
|---|---|---|
| Jugular interna direita | 14–16 cm | Ponta na VCS, acima do átrio |
| Jugular interna esquerda | 16–18 cm | Trajetória mais longa até VCS |
| Subclávia direita | 14–16 cm | |
| Subclávia esquerda | 16–18 cm | |
| Femoral | 20–25 cm | Ponta na veia cava inferior |
06
Complicações & pitfalls
Punção arterialSangue pulsátil, vermelho-vivo. Retirar imediatamente e comprimir ≥ 10 min. Nunca dilatar sobre uma artéria puncionada. Com USG: raro (< 1%).
PneumotóraxRisco de 1–3% na subclávia; < 0,5% na jugular com USG. Rx pós-procedimento confirma. Sintomático ou > 20%: dreno.
Embolia aéreaPaciente em Trendelenburg + agulha aberta. Prevenção: tampar imediatamente ao retirar a agulha. Se ocorrer: Trendelenburg, decúbito lateral esquerdo, O₂ 100%.
Malposição do cateterCateter na subclávia contralateral ou jugular interna. Identificado no Rx. Pode ser reposicionado com fio-guia.
ICSRC (infecção)Prevenção: paramentação máxima, antissepsia com clorexidina alcoólica, remoção precoce quando não necessário. Preferir jugular ou subclávia à femoral.
ArritmiaFio-guia ou ponta do cateter no átrio/ventrículo. Reposicionar o cateter 1–2 cm para cima.
O que não fazer
- Forçar o fio-guia com resistência → perfuração venosa ou arritmia
- Não fazer paramentação máxima → maior risco de ICSRC
- Confirmar apenas com ausculta → não detecta malposição assintomática
- Deixar o cateter femoral > 5–7 dias → risco desproporcionalmente alto de trombose e infecção
- Não confirmar se sangue venoso (vs. arterial) antes de dilatar → dilatar sobre a carótida = catástrofe
07
Dúvidas de plantão
O Shilley foi removido acidentalmente. Posso repassar no mesmo sítio?
▶
Resposta
Sim — dentro de uma janela de tempo e sempre com USG.
- < 2–4h: Trato provavelmente patente. Tente repassar fio-guia pelo trajeto (Seldinger modificado) com USG.
- < 24–48h: Trato começa a colabar. Nova punção guiada por USG no mesmo sítio ainda é viável.
- > 48–72h: Trato provavelmente fechado. Nova punção com USG — mesmo sítio ou contralateral.
- Sinais de infecção: Não repassar no mesmo sítio. Troca de sítio obrigatória.
Racional
O trato é um canal criado por dilatação progressiva. Nas primeiras horas os tecidos ainda não contraíram. O hematoma local pode deslocar a anatomia — punção às cegas no mesmo sítio com hematoma = alto risco de punção arterial.
Lok CE et al. KDOQI Clinical Practice Guideline for Vascular Access: 2019 Update. Am J Kidney Dis 75(suppl 2):S1–S164, 2020. DOI: 10.1053/j.ajkd.2019.12.001
Vats HS. Complications of catheters: tunneled and nontunneled. Adv Chronic Kidney Dis 19(3):188–194, 2012. PMID: 22578679
Posso usar CVC duplo lúmen para hemodiálise se não houver Shilley?
▶
Resposta
Em emergência: sim, funciona — mas com limitações importantes.
- Fluxo: CVC duplo lúmen oferece 100–150 mL/min (vs. 300–400 mL/min do Shilley). Sessão roda com clearance menor.
- Compensação: Aumente o tempo de sessão (4h → 6h) ou prefira CRRT — fluxo menor é mais compatível.
- Recirculação: Lúmens na mesma altura = sangue limpo reaspira do. Inverter as vias pode ajudar — mas varia com o modelo.
- Duração: Usar como ponte < 24–48h. Avise a equipe de diálise — os alarmes de pressão vão disparar.
Racional
O Shilley tem ponta em D com lúmens escalonados — minimiza recirculação. O CVC padrão tem lúmens concêntricos na mesma altura: recirculação > 15–20% torna a diálise ineficiente. O diâmetro menor (7–8,5 Fr vs. 11,5–13,5 Fr) é o principal limitante de fluxo.
Lok CE et al. KDOQI 2019. Am J Kidney Dis 75(suppl 2):S1–S164, 2020.
Canaud B et al. Central venous catheters for hemodialysis. Kidney Int Reports 2021. PMC8640568
Posso infundir noradrenalina em acesso periférico?
▶
Resposta
Sim — a evidência atual suporta o uso em periférico por curto prazo, com condições.
- Calibre mínimo: 18G (idealmente 16G), em veia antecubital, basílica ou cefálica. Evitar mão e pé.
- Concentração diluída: 4–8 mg em 250 mL SF.
- Dose: Evidência mais robusta para ≤ 0,1–0,25 mcg/kg/min. Doses maiores → providenciar central.
- Duração: Ponte por < 6–12h enquanto acesso central é inserido.
- Vigilância: Inspecionar o sítio a cada 1–2h. Eritema, palidez, enduração = extravasamento → parar imediatamente.
- Se extravasar: Fentolamina 5–10 mg em 10 mL SF subcutâneo ao redor do sítio dentro de 12h.
Racional
A dogma de "vasopressor só em central" surgiu do risco de extravasamento com necrose. Revisões sistemáticas (2015–2024) mostram risco baixo em veia calibrosa, concentração diluída e vigilância ativa. O que mata é o atraso no vasopressor esperando o acesso central.
Loubani OM, Green RS. Extravasation from vasopressors through peripheral and central catheters. J Crit Care 30(3):653.e9–17, 2015. PMID: 25669592
Yerke J et al. Peripheral administration of norepinephrine. CHEST 165(1), 2024. PMC10851275
Evans L et al. Surviving Sepsis Campaign 2021. Crit Care Med 49(11):e1063–e1143, 2021. DOI: 10.1097/CCM.0000000000005337