Cateter Venoso Central
Indicações, comparação de sítios, técnica completa (jugular interna direita) e dúvidas de plantão com referências.
Visão geral & indicações
Acesso venoso em veia de grande calibre para infusão de drogas vasoativas, NPT, medição de PVC e coleta de SvcO₂. A técnica de Seldinger é o padrão universal. USG em tempo real é recomendado por todas as diretrizes — reduz falha de punção, pneumotórax e punção arterial acidental.
Escolha do sítio
| Sítio | Vantagens | Desvantagens |
|---|---|---|
| Jugular interna direitapadrão | Trajetória direta para VCS; facilmente compressível; ângulo favorável; menor risco de pneumotórax | Desconforto ao movimentar o pescoço; risco de infecção ligeiramente maior que subclávia |
| Subclávia | Menor taxa de ICSRC; fixação fácil; mais confortável | Maior risco de pneumotórax (~2–3%); não compressível em caso de sangramento; contraindicada em coagulopatia grave |
| Femoral | Sem risco de pneumotórax; mais segura em coagulopatia; acesso mais rápido na urgência | Maior risco de trombose e infecção; limita deambulação; menor qualidade de PVC |
| Jugular interna esquerda | Alternativa se direita inviável | Risco de lesão do ducto torácico; trajetória mais oblíqua para VCS |
Material
Técnica — jugular interna direita
- 1Paramentação máxima: avental estéril, luvas estéreis, máscara, gorro. Campo estéril amplo. Antissepsia com clorexidina alcoólica — aguardar secar antes de puncionar.
- 2Trendelenburg 15°: distende as veias do pescoço e reduz risco de embolia aérea. Cabeça rodada ~30° para o lado oposto ao procedimento (não exagerar — rotação excessiva sobrepõe a VJI à carótida).
- 3USG antes de puncionar: visualizar a VJI em eixo curto (cross-section). Confirmar compressibilidade, posição lateral à carótida e ausência de trombose. Marcar o sítio. Se possível, usar USG em tempo real.
- 4Anestesia local com lidocaína 1% em pele e subcutâneo no sítio marcado.
- 5Inserir a agulha introdutora a 45° em relação à pele, direcionada para o mamilo ipsilateral, aspirando continuamente. Ao retornar sangue venoso (escuro, sem pulsação), estabilizar a agulha com a mão não dominante.
- 6Introduzir o fio-guia J pela agulha com a curva apontando para baixo (em direção ao coração). Deve deslizar sem resistência. Nunca forçar o fio — resistência = posição incorreta da agulha.
- 7Retirar a agulha mantendo o fio. Pequena incisão na pele com bisturi. Passar o dilatador sobre o fio com movimento firme e rotacional. Retirar o dilatador, comprimir.
- 8Introduzir o cateter sobre o fio. Para a jugular interna direita adulto: inserir até 14–16 cm (ponta na junção atriocaval). Retirar o fio enquanto mantém o cateter.
- 9Aspirar e lavar todos os lúmens com SF. Tampar. Fixar com sutura e curativo estéril.
- 10Confirmação: Rx de tórax obrigatório — ponta do cateter deve estar na VCS, acima da junção cavoatrial, sem pneumotórax. Alternativa rápida: USG transtorácico com flush de SF agitado (aparece como "neve" no VD).
Profundidade de inserção
| Sítio | Profundidade (adulto) | Ponto de referência |
|---|---|---|
| Jugular interna direita | 14–16 cm | Ponta na VCS, acima do átrio |
| Jugular interna esquerda | 16–18 cm | Trajetória mais longa até VCS |
| Subclávia direita | 14–16 cm | |
| Subclávia esquerda | 16–18 cm | |
| Femoral | 20–25 cm | Ponta na veia cava inferior |
Complicações & pitfalls
- Forçar o fio-guia com resistência → perfuração venosa ou arritmia
- Não fazer paramentação máxima → maior risco de ICSRC
- Confirmar apenas com ausculta → não detecta malposição assintomática
- Deixar o cateter femoral > 5–7 dias → risco desproporcionalmente alto de trombose e infecção
- Não confirmar se sangue venoso (vs. arterial) antes de dilatar → dilatar sobre a carótida = catástrofe
Dúvidas de plantão
- < 2–4h: Trato provavelmente patente. Tente repassar fio-guia pelo trajeto (Seldinger modificado) com USG.
- < 24–48h: Trato começa a colabar. Nova punção guiada por USG no mesmo sítio ainda é viável.
- > 48–72h: Trato provavelmente fechado. Nova punção com USG — mesmo sítio ou contralateral.
- Sinais de infecção: Não repassar no mesmo sítio. Troca de sítio obrigatória.
- Fluxo: CVC duplo lúmen oferece 100–150 mL/min (vs. 300–400 mL/min do Shilley). Sessão roda com clearance menor.
- Compensação: Aumente o tempo de sessão (4h → 6h) ou prefira CRRT — fluxo menor é mais compatível.
- Recirculação: Lúmens na mesma altura = sangue limpo reaspira do. Inverter as vias pode ajudar — mas varia com o modelo.
- Duração: Usar como ponte < 24–48h. Avise a equipe de diálise — os alarmes de pressão vão disparar.
- Calibre mínimo: 18G (idealmente 16G), em veia antecubital, basílica ou cefálica. Evitar mão e pé.
- Concentração diluída: 4–8 mg em 250 mL SF.
- Dose: Evidência mais robusta para ≤ 0,1–0,25 mcg/kg/min. Doses maiores → providenciar central.
- Duração: Ponte por < 6–12h enquanto acesso central é inserido.
- Vigilância: Inspecionar o sítio a cada 1–2h. Eritema, palidez, enduração = extravasamento → parar imediatamente.
- Se extravasar: Fentolamina 5–10 mg em 10 mL SF subcutâneo ao redor do sítio dentro de 12h.
O acesso central resolve a via, não a decisão. Com o cateter no lugar, a pergunta imediata é o que vai correr por ele — dose e diluição das drogas vasoativas — e se a titulação vai ser feita sobre pressão medida batimento a batimento, o que pede a linha arterial. Quando o perfil hemodinâmico continua ambíguo depois disso, o cateter de artéria pulmonar mede o que a estimativa não resolveu. E quando o central não pode esperar — parada, choque sem acesso —, o intraósseo é a ponte que evita o atraso.
Levar o caso ao assistente de conduta