Hipernatremia
Quase nunca é sal demais — é água de menos, e o motivo mais comum não é fisiológico: é alguém que não alcança o copo. A conta do déficit é simples; o que erra é a velocidade.
Serve para a hipernatremia do adulto internado — do idoso acamado que chega com 162 ao paciente de UTI que sobe o sódio na primeira semana. O raciocínio de mecanismo, com o fluxograma, vive na página de sódio do Nefro Guide; aqui está a prescrição.
As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.
A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Do sódio alto até a conduta
O fluxo completo, da suspeita à prescrição. Ele começa por uma pergunta que não é fisiológica: este paciente consegue alcançar um copo de água? — porque na maioria das vezes é aí que a resposta está.
| O quê | Fórmula | Onde erra |
|---|---|---|
| Água corporal total | peso × 0,6 (homem) · 0,5 (mulher e homem idoso) · 0,45 (mulher idosa) | Superestima no obeso e no edemaciado |
| Déficit de água livre | ACT × [(Na atual ÷ Na alvo) − 1] | Ignora a perda que continua acontecendo — some ~1 L/dia de insensível, mais febre e poliúria |
| Ritmo seguro | ≤ 10 mEq/L em 24 h (crônica) | Contar do sódio de entrada, não do último exame do dia |
A conta dá um total, não uma prescrição de plantão: ele se distribui em 48 h ou mais. Repor só o déficit calculado, sem somar a perda contínua, deixa o sódio parado — e a equipe conclui que "a conta estava errada".
Item por item
A hipernatremia quase nunca é um problema de sal a mais — é de água a menos. E o motivo mais comum não é fisiológico, é logístico: alguém que não alcança o copo. Isso muda a prescrição, porque tratar a tonicidade sem restaurar o acesso à água garante a recidiva na semana seguinte.
Quando há má perfusão, a ordem inverte: cristaloide isotônico primeiro. Soro fisiológico tem 154 mEq/L; num paciente com sódio de 168, ele é relativamente hipotônico e já começa a corrigir enquanto restaura o volume.
Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499.| Solução | ΔNa por litro | Volume para cair 10 mEq/24 h | Vazão | + perdas insensíveis |
|---|---|---|---|---|
| SG 5% | −4,6 mEq/L | 2,2 L | 91 mL/h | ≈ 130 mL/h |
| SF 0,45% | −2,4 mEq/L | 4,1 L | 170 mL/h | ≈ 210 mL/h |
A conta do déficit assusta pela ordem de grandeza — seis litros — e é justamente por isso que ela precisa ser escrita: sem o número, a reposição vira "um soro de manutenção" e o sódio não se move. Mas o número é um total, não uma prescrição de plantão: ele se distribui ao longo de 48 horas ou mais.
Repare que a fórmula ignora a perda que continua acontecendo enquanto você repõe. Um paciente febril e poliúrico pode perder mais água por dia do que a reposição entrega — e o sódio sobe apesar do soro correndo. Por isso a conta se refaz a cada 24 h, com o balanço na mão.
Sobre a velocidade, vale saber em que terreno você está pisando: não há diretriz formal de taxa de correção da hipernatremia, e o teto de 10 mEq/24 h vem de extrapolação fisiológica e de série de casos, não de ensaio. Mais do que isso — a literatura recente desafia o dogma. Estudos de coorte em pacientes críticos não encontraram mais mortalidade, convulsão ou edema cerebral com correção acima de 0,5 mEq/L/h, e vários encontraram o oposto: correção lenta demais associada a pior mortalidade. Isso não autoriza correr — os dados são observacionais e sujeitos a confusão por indicação — mas justifica a postura desta página: perseguir o teto sem medo de chegar perto dele, e não Adrogué HJ, Madias NE. Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(20):1493–1499 — fórmula do ΔNa por litro infundido, usada nas contas de vazão acima · Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 · Sobre a taxa de correção: não existem diretrizes formais estabelecendo a velocidade de correção da hipernatremia; o alvo de queda de 8–10 mEq/L/dia na forma crônica vem de consenso e de extrapolação, e coortes recentes em pacientes críticos não associaram correção mais rápida que 0,5 mEq/L/h a maior mortalidade, convulsão ou alteração do nível de consciência — em várias delas a correção lenta é que se associou a pior desfecho. As vazões desta página são calculadas a partir da fórmula, não retiradas de protocolo publicado, e devem ser refeitas pela dosagem seriada de sódio.
O cérebro que conviveu dias com sódio de 165 fabricou solutos intracelulares para não murchar. Se a água entra rápido, esses osmóis seguram água dentro do neurônio e o resultado é edema cerebral — convulsão e rebaixamento no meio da "melhora laboratorial". É a imagem espelhada da desmielinização da hiponatremia, e tem a mesma origem: velocidade.
A exceção é a hipernatremia genuinamente aguda, de horas. Ali o cérebro ainda não se adaptou, e a correção rápida é segura — mas "aguda" precisa ser documentada, não presumida.
Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499.A hipernatremia hospitalar tem uma característica desconfortável: ela costuma ser adquirida no hospital. O paciente entra com sódio normal, é sedado ou intubado, perde o acesso à água, recebe soro salino e nutrição hiperosmolar, e sai da primeira semana com 155. É um marcador de cuidado, não só de doença.
Por isso o item mais eficaz desta página talvez seja o mais banal: água em horário fixo pela sonda, escrita na prescrição com volume e intervalo, do mesmo jeito que se escreve um antibiótico. O raciocínio de mecanismo e o fluxograma estão na página de sódio do Nefro Guide.
Adrogué HJ, Madias NE. Hyponatremia · Hypernatremia. N Engl J Med. 2000;342(21):1581–1589 e 2000;342(20):1493–1499.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Corrigir mais de 10 mEq/L em 24 h na crônica — edema cerebral. Água livre EV sem calcular o déficit ("um SG 5% de manutenção" não move o sódio). Esquecer a perda contínua — repor só o déficit deixa o sódio parado. SG 5% em bolus rápido — hiperglicemia e diurese osmótica pioram o quadro. Tratar o número e devolver o paciente à mesma cama sem água ao alcance.
A reconciliação diária é a rotina que resolve: sódio, balanço hídrico, diurese e a conta do déficit refeita com o peso atual. Se o paciente está poliúrico com urina diluída, a pergunta vira diabetes insípido — e aí entra a endocrinologia. O mecanismo completo está na página de sódio e no fluxograma.
Levar o caso ao assistente de condutascripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.