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Infarto de ventrículo direito

É o infarto que inverte os reflexos: o nitrato que ajudaria vira veneno, o soro que afogaria vira remédio, e a bradicardia que se observaria vira emergência. Três regras próprias — o resto é a prescrição do supra.

Serve para o IAM com acometimento de VD — quase sempre um supra inferior (oclusão de coronária direita proximal) em que V3R/V4R confirmou o envolvimento. A reperfusão, os antitrombóticos e a prevenção secundária são os da SCA com supra; esta página cuida do que o VD muda. Se o paciente já está em choque franco, o raciocínio soma com o do choque cardiogênico.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem ESC, SBC (V Diretriz de IAMCSST) e AHA/ACC 2025, e não substituem o protocolo do seu serviço. No VD, mais que em qualquer outro infarto, cada droga "padrão" precisa passar pelo filtro da pré-carga antes de entrar na folha.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: reconhecer (V3R/V4R antes de qualquer nitrato), as três regras do VD (pré-carga, volume, ritmo), a reperfusão que salva, e o depois. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

V3R/V4R em todo supra inferior — antes do nitrato, sempre
um terço dos infartos inferiores acomete o VD; o ECG direito é a diferença entre tratar e derrubar
Supra em DII/DIII/aVF → derivações direitas (V3R/V4R): supra ≥ 1 mm em V4R = VD acometido · a janela é curta — o supra direito some em horas
Tríade clínica: hipotensão + turgência jugular + pulmão limpo · POCUS confirma: VD dilatado/hipocinético, VCI cheia, VE vazio
Por quê & armadilhas

O VD infartado é um diagnóstico que precisa ser procurado: as derivações de rotina não o mostram, e a primeira pista costuma ser a pior possível — a hipotensão dramática depois do isordil sublingual "de rotina". Por isso a regra é de sequência, não de suspeita: supra inferior → V3R/V4R antes do nitrato. A tríade clínica é específica mas tardia; o POCUS de três janelas responde na dúvida e ainda exclui os imitadores (tamponamento, TEP).

SBC — V Diretriz de IAMCSST · ESC · AHA/ACC 2025.
Regra 1 — a pré-carga é sagrada
o VD isquêmico vira um conduto passivo: só enche quem o retorno venoso encher
Nitrato: não — nem SL, nem EV, hipotenso ou não · morfina: evitar; se dor refratária, dose mínima com PA vigiada · diurético: não no fenótipo hipotenso, pré-carga-dependente — "turgência jugular" no VD não é ordem de furosemida. Se houver congestão pulmonar franca com PA sustentada (sugere acometimento biventricular): furosemida 20–40 mg EV em dose única, reavaliando PA e perfusão antes de repetir · VPP/IOT: só se inevitável, com vasopressor correndo e o menor PEEP eficaz
Por quê & armadilhas

Tudo nesta lista tira retorno venoso — e retorno venoso é a única coisa sustentando o débito de um VD que perdeu contratilidade. A armadilha semiológica clássica: jugular túrgida dispara o reflexo "congesto → furosemida", mas no VD a jugular cheia é pré-carga necessária, não excesso — o pulmão limpo desfaz a confusão. E a correção que esta página faz questão de registrar: nitrato no VD com supra é contraindicado ponto — não apenas "se hipotensão"; a hipotensão que ele causa é o evento que se quer evitar, não o pré-requisito do cuidado.

SBC · ESC · AHA/ACC 2025 — manejo do infarto de VD.
Regra 2 — volume por prova, com freio de mão
hipotensão com pré-carga baixa: soro é a primeira droga — em alíquotas, com freio, nunca em torneira
SF 0,9% ou Ringer lactato 250 mL EV em alíquotas — se houver hipotensão com pré-carga baixa · reavaliar PA, perfusão e pulmão após cada alíquota · parar ao primeiro sinal de congestão, ou quando duas ou três alíquotas não moverem a pressão. O 1–1,5 L que circula por aí não é meta nem teto — é observação de série, não prescrição
A VCI não decide sozinha: no VD infartado ela está cheia porque o ventrículo não a esvazia — VCI cheia não contraindica a prova de volume aqui. Quem manda é a resposta
Melhor que olhar a cava: VTI na via de saída do VE antes e depois de elevação passiva das pernas ou de um minibolus de 100–150 mL — aumento de ~12–15% no VTI sugere responsividade; sem aumento, mais soro só congestiona
Hipotensão refratária ao volume: dobutamina (VD falido = problema de bomba direita) ± noradrenalina se a PAM não sustenta
Dobutamina 2,5–15 μg/kg/min, titulada pela perfusão (lactato, diurese, extremidades), não pela PA · diluição e tabela de vazão nas drogas vasoativas, fonte única do site · vigiar taquiarritmia, hipotensão e consumo miocárdico de O₂
Noradrenalina — alvo PAM ≥ 65 · diluição padrão da casa: 16 mg (4 amp de 4 mg) em 250 mL de SG 5% = 64 μg/mL · iniciar 0,01–0,05 μg/kg/min e titular a cada 2–5 min · referência de vazão: 70 kg a 0,1 μg/kg/min = 6,6 mL/h · veia calibrosa ou central; periférica proximal monitorada serve enquanto o central não vem
Por quê & armadilhas

O VD precisa de pré-carga — mas tem teto: distendido demais, ele empurra o septo contra o VE e o débito cai com cada mL a mais (interdependência ventricular). Por isso o volume do VD é prova terapêutica com ponto de parada, não meta de litros: se três ou quatro alíquotas não moveram a pressão, mais soro é só mais septo desviado — a resposta passa a ser inotrópico e, acima de tudo, reperfusão. O POCUS entre alíquotas transforma o freio de mão em instrumento.

SBC · ESC — volume criterioso e inotrópico no VD.
Regra 3 — no VD, ritmo é pressão
bradicardia, BAV e FA custam mais caro aqui do que em qualquer outro infarto
Bradicardia/BAV (comuns na oclusão de CD): atropina 1 mg → marca-passo sem demora se refratária — a escada completa está nas bradiarritmias; no BAV do VD, estimulação que preserve/restaure a sincronia AV vale ouro
FA nova no VD infartado: tolerada mal (o átrio respondia por até um terço do enchimento) → limiar baixo para cardioversão elétrica precoce
Por quê & armadilhas

A coronária direita irriga o nó sinusal e o nó AV — por isso o infarto de VD vem de fábrica com bradiarritmia. E o VD rígido e isquêmico depende do "chute" atrial para encher: perder a sincronia AV (BAV total, FA) derruba o débito na hora. A consequência prática é um limiar rebaixado para tudo que restaura ritmo e sincronia: atropina cedo, marca-passo cedo, cardioversão cedo — no VD, o antiarrítmico é hemodinâmico.

SBC · ESC — arritmias no infarto inferior/VD.
Reperfusão e antitrombóticos — a prescrição do supra, sem atraso
o melhor tratamento do VD falido é reabrir a coronária direita
ICP primária × fibrinólise, AAS, P2Y12, anticoagulação e fibrinolítico por peso: exatamente como na SCA com supra — mesmas doses, mesmos tempos-alvo, mesma pressa · a hipotensão do VD não é contraindicação à reperfusão; é o motivo dela
Por quê & armadilhas

O miocárdio do VD é mais fino, consome menos e tem circulação colateral melhor — reperfundido a tempo, ele se recupera de forma notável. Isso torna o VD o infarto em que a reperfusão mais transforma o quadro hemodinâmico: a "falência" de agora é atordoamento reversível, desde que a artéria abra. A armadilha institucional é o paciente hipotenso "instável demais para ir à hemodinâmica" — é o contrário: quanto pior o VD, mais urgente a sala. Volume e dobutamina compram a viagem; não a substituem.

SBC — V Diretriz de IAMCSST · ESC · AHA/ACC 2025.
Prevenção secundária — com o calendário do VD
as mesmas drogas do supra, mas o VD dita quando cada uma entra
Estatina de alta intensidade: já (atorvastatina 40–80 mg ou rosuvastatina 20–40 mg) · AAS + P2Y12: conforme o supra · Betabloqueador: adiar até o VD recuperar e a bradiarritmia passar — a disfunção de VD aguda está na lista de exclusão do início precoce · IECA: entra quando a PA permitir, sem pressa no volume-dependente
Por quê & armadilhas

O quarteto pós-infarto continua valendo — o que muda é o relógio. Betabloqueador em cima de um VD atordoado e de um nó AV isquêmico soma três freios no mesmo circuito; IECA em quem vive de pré-carga derruba a PA que o soro sustentou. A boa notícia justifica a paciência: reperfundido, o VD costuma recuperar em dias — e as drogas adiadas entram na mesma internação, com o paciente já fora da dependência de volume. Anotar o "quando" na evolução é o que impede o adiado de virar esquecido.

SBC · AHA/ACC 2025 — critérios de início do betabloqueador.
Kit do internado — vigilância de ritmo estendida
o BAV do VD pode aparecer no segundo tempo
Monitorização contínua por 48 h ou mais (BAV tardio) com alarmes ajustados · jejum enquanto houver cateterismo iminente → dieta conforme estabilidade · O₂ só se SpO₂ < 90% · HGT 6/6 h se DM/jejum/crítico (alvo 140–180, protocolo do serviço) · antiemético SN (náusea é comum no inferior — ondansetrona 4–8 mg EV ou metoclopramida 10 mg EV) · profilaxia de TEV só se sem anticoagulação plena — ondansetrona prolonga QT: corrigir K e Mg, e considerar ECG em cardiopata, bradiarritmia, QT longo ou uso de outro prolongador (amiodarona) · metoclopramida não é automática: distonia, acatisia, parkinsonismo, sonolência e discinesia tardia — reduzir dose repetida no idoso e na disfunção renal/hepática
Por quê & armadilhas

O kit é o do supra com um sublinhado: a vigilância de ritmo. O BAV do infarto inferior pode estrear horas depois da chegada, já com o plantão trocado — monitor ligado, alarmes com limites que façam sentido para este paciente, e a escada das bradiarritmias mentalmente ensaiada. A náusea do inferior (reflexo de Bezold-Jarisch) trata-se, mas também lembra qual parede está sofrendo.

ADA 2026 (glicemia hospitalar) · rotina do supra.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho no infarto de VD.

Nitrato — SL ou EV, hipotenso ou não. Furosemida "para as jugulares" com pulmão limpo. Morfina liberal. Volume sem freio depois que as alíquotas não movem mais a pressão. Betabloqueador precoce sobre VD atordoado e nó AV isquêmico. VPP generosa sem vasopressor preparado. Observar a bradicardia/FA "porque está estável". E segurar a reperfusão porque o paciente "está hipotenso demais" — a hipotensão é o motivo dela.

Prescreveu — e agora?

A reperfusão e os antitrombóticos correm na SCA com supra; se a hipotensão virou choque com má perfusão, o raciocínio soma com o choque cardiogênico (e as doses de dobutamina/nora vivem nas drogas vasoativas). Bradicardia que não cede está nas bradiarritmias. E o eco de controle antes da alta documenta o que o VD recuperou.

Levar o caso ao assistente de conduta
Avezum Junior Á, et al. V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arq Bras Cardiol. 2015;105(2 Supl 1):1–105 (doi:10.5935/abc.20150107). Byrne RA, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of acute coronary syndromes. Eur Heart J. 2023;44(38):3720–3826 (doi:10.1093/eurheartj/ehad191) · Ibanez B, et al. 2017 ESC STEMI Guidelines. Eur Heart J. 2018;39(2):119–177. Rao SV, O'Donoghue ML, Ruel M, et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI Guideline for the Management of Patients With Acute Coronary Syndromes. J Am Coll Cardiol. 2025;85(22):2135–2237 (doi:10.1016/j.jacc.2024.11.009). American Diabetes Association. Diabetes Care in the Hospital — Standards of Care in Diabetes. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1).