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Hipomagnesemia

É o eletrólito que menos se dosa e o que mais explica por que a reposição de potássio e de cálcio não funciona. Na torsades ele é antiarrítmico e não espera laboratório; no resto, é maratona — e infusão rápida vai direto para a urina.

Serve para a hipomagnesemia do adulto internado — da torsades no monitor ao magnésio de 1,3 do etilista em realimentação. O raciocínio de mecanismo e perdas vive na página de magnésio e fósforo do Nefro Guide; aqui está a prescrição.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

As apresentações variam entre serviços — ampola, percentual e mEq por mL mudam de fabricante para fabricante. Toda concentração desta página traz a conta explícita justamente para você conferir a apresentação da sua farmácia antes de assinar. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem a padronização da farmácia clínica.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: decidir se trata agora, escolher a via, e respeitar o teto de velocidade — que aqui é o que separa tratamento de iatrogenia. Toda concentração e toda vazão desta página foram calculadas por script (scripts/calc-dhe.mjs), não à mão. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Do magnésio baixo até a conduta

O fluxo completo. A primeira bifurcação não é laboratorial, é elétrica — na torsades o magnésio corre antes do resultado — e a última pergunta é sempre a mesma: quem está jogando magnésio fora, e ele ainda está na prescrição?

·Magnésio baixo — o sérico esconde mais do que mostra
Menos de 1% do magnésio corporal está no soro. As perguntas na ordem: é emergência elétrica? · quem está espoliando? · o rim aguenta a reposição? — e a primeira não espera dosagem nenhuma.
1É emergência? — na torsades o magnésio é antiarrítmico
Aqui a lógica inverte: não é reposição de estoque, é droga de membrana — e funciona mesmo com magnésio sérico normal.
Torsades, convulsão, arritmia grave
O ECG decide, não o laboratório
MgSO4 2 g EV em 10 min
4 mL de MgSO4 50% em 100 mL = 600 mL/h. Repetir conforme resposta, com monitor. Esperar o resultado do exame é perder o motivo de dar.
Sem emergência
Sintoma leve ou achado
Reposição lenta
A infusão rápida sobe o sérico por horas e vai embora pela urina. O que repõe estoque é a infusão lenta e repetida.
2Quem está espoliando? — sem retirar a causa, não há reposição que dure
O magnésio se perde por dois caminhos: rim e intestino. A prescrição do paciente costuma conter o culpado.
Perda renal
Diurético de alça e tiazídico, aminoglicosídeo, anfotericina, cisplatina, tacrolimus, álcool
Rever a prescrição
A fração de excreção de magnésio > 2% com Mg baixo aponta o rim como via de perda.
Perda digestiva
Diarreia crônica, fístula, intestino curto, má absorção
Tratar a perda
O inibidor de bomba de prótons em uso prolongado causa hipomagnesemia por má absorção — e é onipresente.
Deslocamento e consumo
Realimentação, pancreatite, correção de cetoacidose
Antecipar e repor junto
Na realimentação, magnésio, fósforo e potássio caem juntos — dosar antes e repor em bloco.
3O rim aguenta? — a única contraindicação relativa que importa
O magnésio é excretado pelo rim, e a intoxicação é real: arreflexia, bradipneia, hipotensão e parada.
Disfunção renal
ClCr reduzido, diálise
Metade da dose, intervalo maior
Controle mais frequente e vigilância de reflexos. O reflexo patelar é o primeiro a sumir no excesso — e vem antes de qualquer exame.
Função normal
Sem restrição
Dose plena, lenta
1–2 g em 100 mL em 1 h fora da emergência; via oral no leve, limitada pela diarreia.
Por que ele aparece em três páginas
O magnésio baixo sustenta dois outros distúrbios refratários — e é o exame que menos se pede.
Hipocalemia refratária
Canais ROMK abertos
O rim joga potássio fora enquanto o magnésio estiver baixo — ver hipocalemia.
Hipocalcemia refratária
PTH suprimido
Sem magnésio, a paratireoide não secreta PTH nem o osso responde — ver hipocalcemia.
Arritmia inexplicada
QT longo, extrassistolia
Todo etilista internado e toda arritmia ventricular sem causa merecem um magnésio dosado.
UsoDosePreparoVazão
Torsades / emergência2 g (4 mL) em 10 minem 100 mL600 mL/h
Sintomático, sem emergência1–2 g em 1 h1 g = 2 mL em 100 mL100 mL/h
Reposição com pressa moderada1 g em 20 minem 100 mL300 mL/h
Disfunção renalmetade da doseidemintervalo maior + reflexos vigiados

MgSO4 50%: 500 mg/mL = 4,06 mEq/mL; ampola de 10 mL = 5 g = 40,6 mEq = 493 mg de Mg elementar. A depleção corporal leva dias a repor — não espere corrigir num plantão.

Item por item

Torsades, convulsão ou arritmia — 2 g agora
aqui não se espera dosagem; o magnésio é o tratamento
Torsades de pointes: MgSO4 50% 4 mL (2 g) em 100 mL, EV em 10 min = 600 mL/hindependente do nível sérico
Convulsão ou arritmia grave por hipomagnesemia: mesma dose, em 10–20 min
Repetir conforme resposta, com monitor e reflexos vigiados
MgSO4 50%: 4,06 mEq de Mg/mL — ampola de 10 mL = 5 g = 40,6 mEq = 493 mg de Mg elementar. 1 g = 2 mL
Eclâmpsia é outro esquema — ataque de 4–6 g e manutenção de 1–2 g/h: ver crise epiléptica
Por quê & armadilhas

Na torsades o magnésio não é reposição, é antiarrítmico: ele estabiliza a membrana e interrompe a arritmia mesmo com magnésio sérico normal. Esperar o resultado do laboratório para dar é perder o motivo de dar.

Fora da emergência a lógica se inverte completamente — o magnésio infundido rápido é excretado rápido, e o que sobe o estoque corporal é a infusão lenta. Correr 2 g em dez minutos num paciente estável basicamente enche a bolsa de urina.

Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia. · Doses e velocidade: a reposição não emergencial do adulto é de 4 a 8 g de sulfato de magnésio em 12–24 h; com magnésio ≤ 1,25 mg/dL e sintomas menos graves, infusão de 1 g/hora por até 10 horas; 1–2 g em 1 hora no sintomático e 1–2 g em cerca de 15 min no instável. Como aproximadamente metade do magnésio administrado é excretada na urina, recomenda-se repor cerca do dobro do déficit estimado em quem tem função renal preservada; na insuficiência renal grave o teto é de 20 g em 48 h, com dosagens frequentes.
Fora da emergência: cerca de 1 g por hora — e dose que corresponda ao déficit
o rim descarta o que chega rápido; e 1–2 g não repõem um magnésio de 0,9
A regra que organiza tudo aqui: cerca de 1 g por hora. É a velocidade em que o rim ainda retém o que você infunde — acima dela, o excedente vai para a urina; abaixo, você só demora mais. Toda a tabela abaixo é a mesma regra em dois tamanhos de dose
SituaçãoDosePreparoTempoVazão
Mg < 1,3 mg/dL — reposição de verdade5 g (1 ampola de MgSO4 50%, 10 mL)em 250–500 mL de SG 5% ou SF5–6 h50 mL/h (250 mL em 5 h) · 42 mL/h em 6 h
Mg entre 1,3 e 1,7 — individualizar1 a 3 g (1–3 ampolas de MgSO4 10%, de 10 mL)em 100–250 mL1 h por grama100 mL/h por grama (em 100 mL)
Sintomático sem instabilidade1–2 gem 100 mL1 h100 mL/h
Torsades / arritmia emergência2 gem 100 mL10 min600 mL/h — aqui a pressa é o tratamento
Por que 1–2 g não resolvem o magnésio de 0,9: a reposição de rotina do adulto é de 4 a 8 g distribuídos em 12–24 h, e ainda assim se repõe cerca do dobro do déficit estimado, porque metade do que se infunde é excretada. Dar 1 ou 2 gramas e pedir controle é o erro que faz o magnésio "não subir nunca" — não é refratariedade, é subdose. Reavalie após a infusão completa e repita: a depleção corporal leva dias a repor
Assintomático leve: preferir via oral — sais de magnésio VO, fracionados; a diarreia é o fator que limita a dose
Reposição prolongada: a depleção corporal leva dias a repor — não espere corrigir num plantão
Disfunção renal: metade da dose, intervalo maior e controle mais frequente — o magnésio acumula e a intoxicação é real
Vigiar: reflexos patelares (o primeiro a sumir), frequência respiratória, PA e sonolência — sinais de excesso
Por quê & armadilhas

O magnésio tem uma farmacocinética que frustra: o limiar renal é baixo e o rim excreta agressivamente o que chega em pico. Uma infusão rápida sobe o sérico por algumas horas e vai embora; a lenta permite que o íon se distribua para o compartimento intracelular, que é onde a depleção realmente está.

Isso também explica por que o magnésio sérico é um marcador ruim: menos de 1% do magnésio corporal está no soro. Um paciente pode ter magnésio "normal" e estar profundamente depletado — e é por isso que hipocalemia e hipocalcemia refratárias justificam repor mesmo com sérico limítrofe.

E explica a armadilha da dose. Como cerca de metade do magnésio infundido é perdida na urina mesmo com rim normal, a recomendação clássica é repor o dobro do déficit estimado — o que transforma "1 grama e pede controle" numa conduta que quase nunca corrige. O paciente com magnésio de 0,9 precisa de gramas, entregues devagar, ao longo de horas e às vezes de dias. A pressa só troca de lugar: em vez de perder tempo, perde-se o magnésio na urina.

Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
Ele sustenta a hipocalemia e a hipocalcemia refratárias
repor potássio ou cálcio sem magnésio é encher balde furado
Hipocalemia que não sobe → dosar e repor magnésio junto (hipocalemia) — o Mg baixo abre canais ROMK e o rim joga o K fora
Hipocalcemia refratária → o Mg baixo reduz a secreção e a ação do PTH (hipocalcemia)
Quem espolia: diurético de alça e tiazídico, inibidor de bomba de prótons (uso prolongado), aminoglicosídeo, anfotericina, cisplatina, tacrolimus, álcool
Perdas digestivas: diarreia crônica, fístula, síndrome do intestino curto, ressecção · realimentação consome magnésio junto com fósforo e potássio
Dosar magnésio em toda hipocalemia, toda hipocalcemia refratária, toda arritmia ventricular inexplicada e todo etilista internado
Por quê & armadilhas

O magnésio é o eletrólito que menos se dosa e o que mais explica o fracasso da reposição dos outros dois. É barato, o resultado sai rápido, e a informação muda a prescrição — mesmo assim ele fica de fora do painel de rotina na maioria dos serviços.

O inibidor de bomba de prótons merece destaque porque é onipresente: uso prolongado causa hipomagnesemia por má absorção, às vezes grave, e a correção só se sustenta quando alguém revisa a indicação do omeprazol que ninguém sabe quem começou.

Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Esperar o resultado do magnésio para tratar torsades. Infusão rápida fora da emergência — sobe o sérico e vai para a urina sem repor estoque. Dose plena na disfunção renal — acumula, e a intoxicação cursa com arreflexia, bradipneia e parada. Repor potássio ou cálcio refratários sem dosar magnésio. Confiar no magnésio sérico como medida do estoque corporal. E corrigir sem revisar o diurético, o inibidor de bomba e o álcool que causaram tudo.

Prescreveu — e agora?

A reposição leva dias e o controle acompanha isso: magnésio diário enquanto repõe, junto com potássio, cálcio e fósforo — eles caem juntos, sobretudo na realimentação. Reflexo patelar ausente é o primeiro sinal de excesso e vem antes de qualquer alteração de exame. O mecanismo completo está na página de magnésio e fósforo.

Levar o caso ao assistente de conduta
Concentrações, mEq por ampola e vazões calculados em scripts/calc-dhe.mjs a partir das apresentações brasileiras usuais — conferir a da sua farmácia. UpToDate — Hypomagnesemia: evaluation and treatment (revisão de referência; usar junto do protocolo do serviço).