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Sepse e choque séptico

A sepse se trata com relógio: antibiótico na primeira hora, volume com juízo, noradrenalina sem esperar o soro acabar — e um foco que alguém precisa controlar, não só cobrir. A prescrição boa é a que corre nas primeiras horas e emagrece nos dias seguintes.

Serve para a sepse com disfunção orgânica e o choque séptico — do reconhecimento no pronto-socorro à prescrição da UTI. Esta página organiza a sequência e as decisões; as ferramentas profundas do site fazem o resto: os esquemas empíricos por foco vivem no infecto, as doses com PK/PD (ataque, infusão estendida, ajuste renal) no PK/PD e dose, e as diluições de vasoativas nas drogas vasoativas. Aqui nada disso se duplica — se linka.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem a Surviving Sepsis Campaign 2026 e o ILAS, e não substituem o protocolo de sepse do seu serviço — se o hospital tem protocolo gerenciado com gatilho e horário, ele manda. A epidemiologia local (CCIH) decide o empírico melhor do que qualquer tabela nacional.

Como usar.

A ordem é a do relógio: reconhecer e colher sem atrasar, o pacote da primeira hora (antibiótico pelo foco, volume com juízo, nora precoce), o choque que não resolve (hidrocortisona, foco, inotrópico) e a internação inteira — do kit do crítico ao desescalonamento, que também é prescrição. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Nomear a sepse, dosar o lactato, colher culturas — sem atrasar o antibiótico
sepse é infecção + disfunção orgânica; febre é só um dos avisos (e pode faltar)
Reconhecer: infecção suspeita + disfunção nova — hipotensão, rebaixamento, oligúria, dispneia/SpO2 caindo, plaquetas caindo, icterícia (SOFA como linguagem) · lactato arterial já na entrada; repetir em 2–4 h se > 2
NEWS2 a triagem que a SSC recomenda SOFA Δ ≥ 2 na infecção define sepse
2 pares de hemocultura (sítios diferentes) + culturas do foco provável (urina, secreção, líquor se indicado) — antes do antibiótico, desde que não atrase a 1ª dose além de ~45 min
Registrar o horário do diagnóstico na prescrição/evolução — o pacote da 1ª hora conta a partir dele, e o que não tem horário não tem relógio
Por quê & armadilhas

A sepse mata pelo tempo que leva para ser nomeada: o idoso "confuso, afebril, com pressão boa" que na verdade está hipotenso para ele é o diagnóstico perdido clássico — disfunção orgânica nova em quem tem infecção suspeita é sepse até prova em contrário, com ou sem febre. A cultura antes do antibiótico dobra a chance de identificar o germe (e é o que permite desescalonar no item 08) — mas a hierarquia é explícita: se a coleta vai atrasar a primeira dose, a dose vence. O lactato não é enfeite de gasometria: é o triagem-de-gravidade mais barato do hospital, e a sua queda nas primeiras horas é a melhor prova de que a ressuscitação está funcionando.

SSC 2026 — sepse é diagnóstico clínico, sem biomarcador isolado; NEWS/NEWS2/MEWS/SIRS sobre qSOFA na triagem; hemocultura antes do antibiótico, sem atrasá-lo · ILAS.
Antibiótico na primeira hora — empírico pelo foco, na dose de sepse
é o item que mais muda mortalidade nesta página; tudo o mais acompanha
Choque séptico ou alta probabilidade → 1ª dose em até 1 h · sepse possível sem choque → investigar rápido, decidir em até 3 h — mas não deixar o "vou esperar a tomografia" comer o relógio
A escolha é pelo foco + risco de resistência (uso recente de ATB, internação, dispositivo, colonização prévia): os esquemas por foco — urinário, pulmonar, abdominal, partes moles, SNC, corrente sanguínea — vivem no empírico por foco, com a epidemiologia que esta página não deve congelar
Dose de sepse: ataque CHEIO mesmo com rim ruim (o ajuste renal é da manutenção, nunca da 1ª dose) + infusão estendida dos betalactâmicos onde couber — doses, diluições e ajustes no PK/PD e dose
Por quê & armadilhas

Cada hora de atraso do antibiótico no choque séptico custa mortalidade — é dos poucos números da UTI que sobreviveram a todas as reanálises. Os dois erros de dose são espelhados: o subtratamento renal da primeira dose (ajustar o ataque pela creatinina é dar dose de manutenção a um paciente com volume de distribuição inchado — a primeira dose é sempre cheia) e a vancomicina sem ataque por peso. E um erro de sistema: prescrever "ceftriaxona" sem pensar o foco é jogar dados — o abdome precisa de anaeróbio coberto, o pulmão hospitalar de antipseudomonas, o cateter de cobertura para MRSA. O empírico por foco do infecto existe exatamente para essa decisão; esta página não o repete porque tabela duplicada é tabela desatualizada.

SSC 2026 — choque, sepse provável ou definida: 1 h (forte); sepse possível sem choque: investigação limitada no tempo e antibiótico em até 3 h · ILAS.
Cristaloide 30 mL/kg é a abertura — o resto é expansão guiada por meta e volemia
hipotensão ou lactato ≥ 4: começar rápido · lactato 2–4 sem hipotensão: considerar, se não houver contraindicação — reavaliar a cada etapa, seguir só enquanto responder
Cristaloide balanceado (Ringer lactato preferido) 30 mL/kg nas primeiras 3 h como ponto de partida — em etapas de 500 mL com reavaliação entre elas (PA, FC, perfusão, ausculta)
Peso a usar: peso real — ou peso ajustado/ideal se IMC > 30. No caquético, peso real também, para não sobre-ressuscitar
A partir daí, volume é guiado, não prescrito em bloco: avaliar volemia com medida dinâmica — elevação passiva de pernas ou prova de fluido, lendo volume sistólico, variação do volume sistólico, pressão de pulso ou variação da pressão de pulso. Medida dinâmica ganha do exame físico e das estáticas (PVC) isoladas
Cardiopata, renal crônico, já congesto: alíquotas menores (250 mL) com freio explícito — os 30 mL/kg são orientação para o paciente médio, não sentença para todos
Perfusão persistindo ruim depois dos 30 mL/kg: não existe resposta única — estratégia liberal ou restritiva se decide pelo paciente (cardiopatia, IC prévia) e pelo serviço (leito monitorizado disponível para segurar com vasopressor)
Enchimento capilar entra como adjunto das outras medidas de perfusão, não como alvo isolado
Passada a fase aguda do choque: considerar remoção ativa de fluido — soro "de manutenção" no séptico que parou de responder é edema prescrito
Por quê & armadilhas

O volume da sepse tem duas mortes possíveis: a de menos (hipoperfusão mantida por timidez) e a de mais (o pulmão branco do 3º dia, construído bolsa a bolsa no 1º). A saída é tratar os 30 mL/kg como abertura, não como meta cega — dados em etapas, com alguém olhando o paciente entre elas.

Vale saber o tamanho da recomendação antes de tratá-la como lei: os 30 mL/kg são recomendação condicional, com evidência de baixa certeza, e vêm de estudos observacionais — não existe ensaio comparando volumes de abertura. Tanto que a SSC e a ESICM discordam na preposição: a SSC sugere pelo menos 30 mL/kg, a ESICM sugere até 30 mL/kg. O que as duas concordam é no que vem depois — reavaliação frequente para não errar nem por falta nem por excesso. Por isso a segunda metade da ressuscitação não se prescreve em bloco: mede-se a volemia. Elevação passiva de pernas ou prova de fluido, lendo volume sistólico e suas variações, ganha do exame físico e da PVC isolados — e o dano do excesso não é teórico: ventilação prolongada, progressão de lesão renal e mais mortalidade.

O balanceado ganhou do SF 0,9% por menos acidose hiperclorêmica e sinal de menos lesão renal nos grandes ensaios. E a armadilha mais brasileira: o "SF 0,9% 2000 mL correr em 24 h" que sobrevive na prescrição depois que a ressuscitação acabou — no séptico de 48 h, positivar balanço sem indicação é prescrever o edema que a fisioterapia vai passar a semana drenando. A SSC 2026 foi além e passou a sugerir remoção ativa de fluido depois da fase aguda: não basta parar de dar, às vezes é preciso tirar.

SSC 2026 — cristaloide balanceado; medida dinâmica sobre exame físico e estáticas; liberal ou restritiva por paciente e serviço; remoção ativa de fluido pós-ressuscitação.
Noradrenalina precoce — sem esperar o soro acabar, sem esperar o central
alvo PAM ≥ 65 mmHg; a bomba começa em veia periférica calibrosa
Noradrenalina se PAM < 65 persistir durante a expansão (não "depois dela") — titular pela PAM · diluição, conversão mcg/kg/min ⇄ mL/h e tabela completa nas drogas vasoativas, fonte única do site
Pode (e deve) começar em acesso periférico calibroso em fossa antecubital ou acima, com vigilância do sítio — providenciar o central em seguida, sem que ele atrase a droga
Refratário com nora subindo: associar vasopressina quando a nora passa de ~0,25–0,5 mcg/kg/min — associar, não escalar a nora indefinidamente · adrenalina é a 3ª linha · alvo de PAM maior que 65 só com motivo escrito (ex.: hipertenso crônico com LRA)
Vasopressina — diluição da casa e a régua da bomba
Diluição padrão: 20 UI em 100 mL de SF 0,9% ou SG 5% = 0,2 UI/mL · confira a apresentação da sua farmácia (ampolas de 20 UI/mL são as usuais) antes de usar a coluna de mL/h
DosePor horaBomba a 0,2 UI/mLQuando
0,01 UI/min0,6 UI/h3 mL/hinício possível em quem tem PA limítrofe
0,02 UI/min1,2 UI/h6 mL/hdegrau intermediário
0,03 UI/min1,8 UI/h9 mL/ha dose das diretrizes — entra e fica
0,04 UI/min2,4 UI/h12 mL/hteto — acima disso é resgate, não rotina
Não titula pelo peso — a dose é fixa em UI/min, igual para 50 e para 120 kg · não desmama primeiro: ao sair do choque, retire a noradrenalina antes; tirar a vasopressina primeiro costuma derrubar a PAM e custar mais nora
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Acima de 0,04 UI/min (12 mL/h nesta diluição) você saiu da faixa estudada e entrou em terapia de resgate — a vasoconstrição esplâncnica, digital e coronariana passa a cobrar preço (isquemia mesentérica e necrose de extremidade), sem ganho demonstrado. Chegou no teto e a PAM não sobe: a pergunta certa não é "mais vasopressina?", é foco não controlado, volemia, corticoide e disfunção miocárdica — itens 05, 06 e 07.
Por quê & armadilhas

As duas esperas que matam no choque séptico são a do soro ("vamos ver se responde aos 30 mL/kg primeiro") e a do cateter ("nora só com central"). As duas caíram: hipotensão prolongada é dano de órgão por minuto, a nora periférica diluída em veia boa é segura por horas nos estudos — e o paciente que "estabilizou" com PAM 58 não estabilizou, acostumou a equipe. A vasopressina entra cedo no refratário não por ser mais potente, mas por atacar outro receptor (o séptico tem deficiência relativa dela) e poupar a escalada adrenérgica. E a dopamina não aparece nesta página por decisão: mais arritmia, nenhuma vantagem — a regra da casa desde a página do choque cardiogênico.

SSC 2026 — nora 1ª linha (forte); vasopressina ao escalonar em vez de subir a nora; adrenalina se PAM inadequada apesar das duas; início periférico; PAM 65 com faixa de ±5 mmHg, e 60–65 nos ≥ 65 anos · Dose da vasopressina: Surviving Sepsis Campaign 2021 — 0,03 UI/min, dose fixa, associada quando a noradrenalina está entre 0,25 e 0,5 mcg/kg/min; doses acima de 0,03–0,04 UI/min são explicitamente reservadas a resgate no choque refratário a múltiplos vasopressores · Faixa de segurança (< 0,04 UI/min) e ausência de ajuste por peso conforme os ensaios de referência (VASST) · As colunas em mL/h são calculadas para 20 UI/100 mL (0,2 UI/mL) — refazer para a diluição do seu serviço.
Hidrocortisona quando a nora não desce — dose baixa, sem desmame heroico
não há consenso firme — o gatilho prático é a nora ≥ 0,25 mcg/kg/min que não cede
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Aqui não existe consenso claro, e a página não vai fingir que existe. A recomendação das diretrizes é fraca (sugestão), com baixa certeza de evidência: os grandes ensaios divergem, o benefício consistente é encurtar o tempo de choque e o efeito em mortalidade permanece discutível. Traduzindo para a beira do leito: corticoide no choque séptico é decisão ponderada, não automática — nem protocolo cego, nem proibição.
Quando ponderar de verdade: vasopressor em ascensão com noradrenalina acima de ~0,25 mcg/kg/min que não faz menção de descer, mantida pelo menos 4 h depois de iniciada, com volemia já corrigida e foco tratado. É o cenário em que o corticoide tem a melhor chance de mudar alguma coisa — e é o que o gatilho das diretrizes descreve
Se decidir dar: hidrocortisona 50 mg EV 6/6 h (200 mg/dia) — ou infusão contínua de 200 mg/24 h — enquanto o choque durar · retirar quando o vasopressor sair, sem necessidade de desmame lento na maioria
Sem cortisol sérico, sem teste de estímulo para decidir: a indicação é hemodinâmica, não laboratorial · não é dose de pulso: metilprednisolona 1 g aqui é erro de classe, não potência · vigiar hiperglicemia e hipernatremia, os efeitos que aparecem primeiro
Por quê & armadilhas

Vale ser explícito sobre a incerteza, porque ela muda o modo de prescrever. Os dois maiores ensaios saíram em direções diferentes — um mostrou redução de mortalidade com hidrocortisona associada a fludrocortisona, o outro não mostrou diferença em 90 dias com hidrocortisona isolada — e o que sobrevive às metanálises é a reversão mais rápida do choque, não a sobrevida. Por isso a recomendação é uma sugestão de baixa certeza, e por isso a pergunta certa na visita não é "está no protocolo?", e sim "este paciente está escalando vasopressor apesar de volemia e foco resolvidos?". Se está, o corticoide é razoável e barato. Se a nora está estável em 0,08 e caindo, ele só adiciona hiperglicemia.

O corticoide do choque séptico é tratamento de choque, não de infecção: a dose baixa restaura a resposta vascular às catecolaminas no paciente cuja suprarrenal não acompanha a demanda — e os ensaios convergem em encurtar o tempo de choque, com efeito em mortalidade discutível mas custo baixo. As armadilhas são duas: a dose (200 mg/dia de hidrocortisona não é "pulso" — metilprednisolona 1 g aqui é erro, não potência) e o gatilho (dar na entrada "para ajudar" trata quem não precisa; guardar para "quando estiver morrendo" chega tarde — o gatilho é a nora que passa de 0,25 e não faz menção de descer).

SSC 2026 — corticoide EV no choque séptico: recomendação condicional, baixa certeza de evidência (é o que sustenta o "não há consenso claro" desta página) · Gatilho: Surviving Sepsis Campaign 2021 — noradrenalina ou adrenalina ≥ 0,25 mcg/kg/min mantida por pelo menos 4 h após o início · Os dois ensaios que divergem: Annane D, et al. APROCCHSS — hidrocortisona + fludrocortisona, mortalidade em 90 dias 43,0% vs 49,1%. N Engl J Med. 2018;378(9):809–818 · Venkatesh B, et al. ADRENAL — hidrocortisona em infusão contínua, sem diferença de mortalidade em 90 dias, com reversão mais rápida do choque. N Engl J Med. 2018;378(9):797–808.
Controlar o foco — o antibiótico não drena abscesso
a pergunta das 6–12 h: existe pus, obstrução, tecido morto ou dispositivo para tirar?
Procurar ativamente foco drenável: abscesso (imagem dirigida), colangite com obstrução (via biliar), pielonefrite obstrutiva (duplo J/nefrostomia), fasceíte (desbridamento), empiema, cateter suspeito → retirar — meta: controle em 6–12 h, não "amanhã com a equipe da vez"
Sem melhora (lactato não cai, nora não desce, diurese parada): reavaliar as 4 hipóteses — foco não controlado · empírico errado · segunda infecção · outro choque junto (disfunção miocárdica da sepse → eco à beira do leito; dobutamina só com baixo débito documentado, como na página do choque)
Por quê & armadilhas

A sepse que "não responde a antibiótico de amplo espectro" quase nunca é germe exótico — é foco não controlado: a coleção que ninguém puncionou, o rim obstruído que ninguém desobstruiu, o cateter de três semanas que ninguém quis tirar "porque o acesso é difícil". Nenhum carbapenêmico esteriliza pus com pressão dentro. O item existe como pergunta de horário porque o controle de foco tem o mesmo relógio do antibiótico — cada hora de colangite obstruída sob "cobertura" é cultura crescendo em meio fechado. E a reavaliação estruturada das 4 hipóteses evita o reflexo mais caro da UTI: escalar o antibiótico como resposta a qualquer piora, quando o problema era mecânico.

SSC 2026 — avaliação rápida do foco (boa prática) e controle precoce, idealmente em até 6 h do diagnóstico.
O kit do séptico crítico — nutrição precoce, profilaxias, glicemia com alvo
o suporte que não aparece no boletim mas decide a semana
Nutrição enteral precoce (24–48 h, trófica e progredindo) mesmo com vasopressor em dose estável — dieta zero é para o choque em escalada de droga, não para todo paciente com bomba correndo · via e meta com a nutrição
Profilaxia de TEV: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia (HNF 5.000 UI 8/8 h se ClCr < 30) · omeprazol 40 mg 1×/dia com indicação (VM > 48 h, coagulopatia, choque) · cabeceira 30–45° se VM
Glicemia: alvo 140–180 mg/dL com insulina — protocolo do serviço, sem perseguir normoglicemia · febre: antitérmico para conforto (dipirona 1 g); febre em si não é emergência a "zerar" · sedoanalgesia se VM: analgesia primeiro, alvo leve (RASS 0/−1), reavaliada todo dia
Por quê & armadilhas

Depois que o drama hemodinâmico passa, é este item que separa a UTI que devolve o paciente andando da que devolve a fraqueza adquirida: intestino alimentado cedo é barreira que não transloca; sedação leve com despertar diário é dias a menos de tubo; o alvo 140–180 existe porque o controle "intensivo" (80–110) matou por hipoglicemia no NICE-SUGAR — a escadinha de insulina sem alvo escrito continua sendo prescrição de suporte sem projeto. E a sedação profunda "para descansar" é o mito mais caro da VM: o paciente não descansa — acumula delirium, miopatia e dias de ventilador.

SSC 2026 — nutrição enteral precoce (< 72 h); IBP em quem tem risco de sangramento GI; insulina a partir de ≥ 180 mg/dL (forte); transfusão restritiva (forte) · Adigbli 2024 (metanálise de dados individuais).
Reavaliar em 48–72 h: desescalonar, dar prazo — antibiótico também tem alta
o espectro largo foi empréstimo da primeira hora; a cultura veio para cobrá-lo
Rodada de 48–72 h com as culturas na mão: germe identificado → estreitar para o alvo · culturas negativas + evolução boa → descer do espectro máximo · diagnóstico alternativo confirmado → suspender (a coragem que mais falta)
Duração com data na prescrição: com foco controlado, preferir o curso mais curto — escrever "D3/7" na prescrição diária torna a data uma decisão, não um esquecimento
Não existe "7 dias para a maioria". A duração sai do foco, do microrganismo, do hospedeiro e da resposta — endocardite, osteomielite, abscesso não drenado e S. aureus em corrente sanguínea não cabem em uma semana · procalcitonina ajuda a encurtar onde disponível, como apoio e não juiz
Detalhes por droga e foco — tempo, via oral sequencial, monitorização de vanco — no PK/PD e dose e no empírico por foco
Por quê & armadilhas

O empírico largo da primeira hora é um empréstimo tomado contra a microbiota do paciente e do hospital — e empréstimo se paga: o meropenem que ninguém reavaliou vira a KPC do mês que vem, na mesma UTI, às vezes no mesmo paciente. O desescalonamento não é ato de economia, é o segundo tempo do mesmo tratamento — e os ensaios de duração são unânimes: cursos curtos curam igual com menos resistência, menos C. difficile, menos flebite. A armadilha cultural é tratar o espectro largo como "segurança" e o estreitamento como "risco": é o contrário, e a prescrição diária sem "D_/_" é o jeito mais seguro de um antibiótico de 7 dias durar 14.

SSC 2026 — desescalonar com cultura e sensibilidade (forte) ou com cultura final negativa; duração mais curta com foco controlado · ILAS.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na sepse.

Atrasar o antibiótico esperando cultura, imagem ou vaga de UTI. Ajustar a primeira dose pela creatinina — o ataque é sempre cheio. Dopamina. Amido (HES) — nefrotóxico, enterrado. Esperar o central para começar noradrenalina. 30 mL/kg cegos no cardiopata/renal — e soro de manutenção depois que a ressuscitação acabou. Controle glicêmico intensivo (alvo < 110). Bicarbonato para embelezar o pH — reservado ao pH < 7,2 com LRA, tratando a causa. Corticoide em dose de pulso — a dose é 200 mg/dia de hidrocortisona, com gatilho. Sedação profunda "para descansar". Transfundir acima de Hb 7 sem sangramento/isquemia ativa. E manter o espectro máximo sem reavaliação com data — o item 08 é prescrição, não sugestão.

Prescreveu — e agora?

As primeiras horas desta página são metade do tratamento; a outra metade está nas ferramentas profundas: empírico por foco para acertar o esquema, PK/PD para acertar a dose, drogas vasoativas para a bomba, e o módulo de hemodinâmica quando o choque não se comportar como séptico puro.

Levar o caso ao assistente de conduta
Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2026. Crit Care Med. 2026;54(4):725–812 (doi:10.1097/CCM.0000000000007075) · publicação simultânea em Intensive Care Med. 2026;52(5):863–936 (doi:10.1007/s00134-026-08361-1). Adigbli D, Li Y, Hammond N, et al. A Patient-Level Meta-Analysis of Intensive Glucose Control in Critically Ill Adults. NEJM Evid. 2024;3(8):EVIDoa2400082 (doi:10.1056/EVIDoa2400082). Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS). Guia Prático de Terapia Antimicrobiana na Sepse. 2022. NICE-SUGAR Study Investigators. Intensive versus conventional glucose control in critically ill patients. N Engl J Med. 2009;360(13):1283–1297.