Sepse e choque séptico
A sepse se trata com relógio: antibiótico na primeira hora, volume com juízo, noradrenalina sem esperar o soro acabar — e um foco que alguém precisa controlar, não só cobrir. A prescrição boa é a que corre nas primeiras horas e emagrece nos dias seguintes.
Serve para a sepse com disfunção orgânica e o choque séptico — do reconhecimento no pronto-socorro à prescrição da UTI. Esta página organiza a sequência e as decisões; as ferramentas profundas do site fazem o resto: os esquemas empíricos por foco vivem no infecto, as doses com PK/PD (ataque, infusão estendida, ajuste renal) no PK/PD e dose, e as diluições de vasoativas nas drogas vasoativas. Aqui nada disso se duplica — se linka.
Condutas seguem a Surviving Sepsis Campaign 2026 e o ILAS, e não substituem o protocolo de sepse do seu serviço — se o hospital tem protocolo gerenciado com gatilho e horário, ele manda. A epidemiologia local (CCIH) decide o empírico melhor do que qualquer tabela nacional.
A ordem é a do relógio: reconhecer e colher sem atrasar, o pacote da primeira hora (antibiótico pelo foco, volume com juízo, nora precoce), o choque que não resolve (hidrocortisona, foco, inotrópico) e a internação inteira — do kit do crítico ao desescalonamento, que também é prescrição. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A sepse mata pelo tempo que leva para ser nomeada: o idoso "confuso, afebril, com pressão boa" que na verdade está hipotenso para ele é o diagnóstico perdido clássico — disfunção orgânica nova em quem tem infecção suspeita é sepse até prova em contrário, com ou sem febre. A cultura antes do antibiótico dobra a chance de identificar o germe (e é o que permite desescalonar no item 08) — mas a hierarquia é explícita: se a coleta vai atrasar a primeira dose, a dose vence. O lactato não é enfeite de gasometria: é o triagem-de-gravidade mais barato do hospital, e a sua queda nas primeiras horas é a melhor prova de que a ressuscitação está funcionando.
SSC 2026 — sepse é diagnóstico clínico, sem biomarcador isolado; NEWS/NEWS2/MEWS/SIRS sobre qSOFA na triagem; hemocultura antes do antibiótico, sem atrasá-lo · ILAS.Cada hora de atraso do antibiótico no choque séptico custa mortalidade — é dos poucos números da UTI que sobreviveram a todas as reanálises. Os dois erros de dose são espelhados: o subtratamento renal da primeira dose (ajustar o ataque pela creatinina é dar dose de manutenção a um paciente com volume de distribuição inchado — a primeira dose é sempre cheia) e a vancomicina sem ataque por peso. E um erro de sistema: prescrever "ceftriaxona" sem pensar o foco é jogar dados — o abdome precisa de anaeróbio coberto, o pulmão hospitalar de antipseudomonas, o cateter de cobertura para MRSA. O empírico por foco do infecto existe exatamente para essa decisão; esta página não o repete porque tabela duplicada é tabela desatualizada.
SSC 2026 — choque, sepse provável ou definida: 1 h (forte); sepse possível sem choque: investigação limitada no tempo e antibiótico em até 3 h · ILAS.O volume da sepse tem duas mortes possíveis: a de menos (hipoperfusão mantida por timidez) e a de mais (o pulmão branco do 3º dia, construído bolsa a bolsa no 1º). A saída é tratar os 30 mL/kg como abertura, não como meta cega — dados em etapas, com alguém olhando o paciente entre elas.
Vale saber o tamanho da recomendação antes de tratá-la como lei: os 30 mL/kg são recomendação condicional, com evidência de baixa certeza, e vêm de estudos observacionais — não existe ensaio comparando volumes de abertura. Tanto que a SSC e a ESICM discordam na preposição: a SSC sugere pelo menos 30 mL/kg, a ESICM sugere até 30 mL/kg. O que as duas concordam é no que vem depois — reavaliação frequente para não errar nem por falta nem por excesso. Por isso a segunda metade da ressuscitação não se prescreve em bloco: mede-se a volemia. Elevação passiva de pernas ou prova de fluido, lendo volume sistólico e suas variações, ganha do exame físico e da PVC isolados — e o dano do excesso não é teórico: ventilação prolongada, progressão de lesão renal e mais mortalidade.
O balanceado ganhou do SF 0,9% por menos acidose hiperclorêmica e sinal de menos lesão renal nos grandes ensaios. E a armadilha mais brasileira: o "SF 0,9% 2000 mL correr em 24 h" que sobrevive na prescrição depois que a ressuscitação acabou — no séptico de 48 h, positivar balanço sem indicação é prescrever o edema que a fisioterapia vai passar a semana drenando. A SSC 2026 foi além e passou a sugerir remoção ativa de fluido depois da fase aguda: não basta parar de dar, às vezes é preciso tirar.
SSC 2026 — cristaloide balanceado; medida dinâmica sobre exame físico e estáticas; liberal ou restritiva por paciente e serviço; remoção ativa de fluido pós-ressuscitação.| Dose | Por hora | Bomba a 0,2 UI/mL | Quando |
|---|---|---|---|
| 0,01 UI/min | 0,6 UI/h | 3 mL/h | início possível em quem tem PA limítrofe |
| 0,02 UI/min | 1,2 UI/h | 6 mL/h | degrau intermediário |
| 0,03 UI/min | 1,8 UI/h | 9 mL/h | a dose das diretrizes — entra e fica |
| 0,04 UI/min | 2,4 UI/h | 12 mL/h | teto — acima disso é resgate, não rotina |
As duas esperas que matam no choque séptico são a do soro ("vamos ver se responde aos 30 mL/kg primeiro") e a do cateter ("nora só com central"). As duas caíram: hipotensão prolongada é dano de órgão por minuto, a nora periférica diluída em veia boa é segura por horas nos estudos — e o paciente que "estabilizou" com PAM 58 não estabilizou, acostumou a equipe. A vasopressina entra cedo no refratário não por ser mais potente, mas por atacar outro receptor (o séptico tem deficiência relativa dela) e poupar a escalada adrenérgica. E a dopamina não aparece nesta página por decisão: mais arritmia, nenhuma vantagem — a regra da casa desde a página do choque cardiogênico.
SSC 2026 — nora 1ª linha (forte); vasopressina ao escalonar em vez de subir a nora; adrenalina se PAM inadequada apesar das duas; início periférico; PAM 65 com faixa de ±5 mmHg, e 60–65 nos ≥ 65 anos · Dose da vasopressina: Surviving Sepsis Campaign 2021 — 0,03 UI/min, dose fixa, associada quando a noradrenalina está entre 0,25 e 0,5 mcg/kg/min; doses acima de 0,03–0,04 UI/min são explicitamente reservadas a resgate no choque refratário a múltiplos vasopressores · Faixa de segurança (< 0,04 UI/min) e ausência de ajuste por peso conforme os ensaios de referência (VASST) · As colunas em mL/h são calculadas para 20 UI/100 mL (0,2 UI/mL) — refazer para a diluição do seu serviço.Vale ser explícito sobre a incerteza, porque ela muda o modo de prescrever. Os dois maiores ensaios saíram em direções diferentes — um mostrou redução de mortalidade com hidrocortisona associada a fludrocortisona, o outro não mostrou diferença em 90 dias com hidrocortisona isolada — e o que sobrevive às metanálises é a reversão mais rápida do choque, não a sobrevida. Por isso a recomendação é uma sugestão de baixa certeza, e por isso a pergunta certa na visita não é "está no protocolo?", e sim "este paciente está escalando vasopressor apesar de volemia e foco resolvidos?". Se está, o corticoide é razoável e barato. Se a nora está estável em 0,08 e caindo, ele só adiciona hiperglicemia.
O corticoide do choque séptico é tratamento de choque, não de infecção: a dose baixa restaura a resposta vascular às catecolaminas no paciente cuja suprarrenal não acompanha a demanda — e os ensaios convergem em encurtar o tempo de choque, com efeito em mortalidade discutível mas custo baixo. As armadilhas são duas: a dose (200 mg/dia de hidrocortisona não é "pulso" — metilprednisolona 1 g aqui é erro, não potência) e o gatilho (dar na entrada "para ajudar" trata quem não precisa; guardar para "quando estiver morrendo" chega tarde — o gatilho é a nora que passa de 0,25 e não faz menção de descer).
SSC 2026 — corticoide EV no choque séptico: recomendação condicional, baixa certeza de evidência (é o que sustenta o "não há consenso claro" desta página) · Gatilho: Surviving Sepsis Campaign 2021 — noradrenalina ou adrenalina ≥ 0,25 mcg/kg/min mantida por pelo menos 4 h após o início · Os dois ensaios que divergem: Annane D, et al. APROCCHSS — hidrocortisona + fludrocortisona, mortalidade em 90 dias 43,0% vs 49,1%. N Engl J Med. 2018;378(9):809–818 · Venkatesh B, et al. ADRENAL — hidrocortisona em infusão contínua, sem diferença de mortalidade em 90 dias, com reversão mais rápida do choque. N Engl J Med. 2018;378(9):797–808.A sepse que "não responde a antibiótico de amplo espectro" quase nunca é germe exótico — é foco não controlado: a coleção que ninguém puncionou, o rim obstruído que ninguém desobstruiu, o cateter de três semanas que ninguém quis tirar "porque o acesso é difícil". Nenhum carbapenêmico esteriliza pus com pressão dentro. O item existe como pergunta de horário porque o controle de foco tem o mesmo relógio do antibiótico — cada hora de colangite obstruída sob "cobertura" é cultura crescendo em meio fechado. E a reavaliação estruturada das 4 hipóteses evita o reflexo mais caro da UTI: escalar o antibiótico como resposta a qualquer piora, quando o problema era mecânico.
SSC 2026 — avaliação rápida do foco (boa prática) e controle precoce, idealmente em até 6 h do diagnóstico.Depois que o drama hemodinâmico passa, é este item que separa a UTI que devolve o paciente andando da que devolve a fraqueza adquirida: intestino alimentado cedo é barreira que não transloca; sedação leve com despertar diário é dias a menos de tubo; o alvo 140–180 existe porque o controle "intensivo" (80–110) matou por hipoglicemia no NICE-SUGAR — a escadinha de insulina sem alvo escrito continua sendo prescrição de suporte sem projeto. E a sedação profunda "para descansar" é o mito mais caro da VM: o paciente não descansa — acumula delirium, miopatia e dias de ventilador.
SSC 2026 — nutrição enteral precoce (< 72 h); IBP em quem tem risco de sangramento GI; insulina a partir de ≥ 180 mg/dL (forte); transfusão restritiva (forte) · Adigbli 2024 (metanálise de dados individuais).O empírico largo da primeira hora é um empréstimo tomado contra a microbiota do paciente e do hospital — e empréstimo se paga: o meropenem que ninguém reavaliou vira a KPC do mês que vem, na mesma UTI, às vezes no mesmo paciente. O desescalonamento não é ato de economia, é o segundo tempo do mesmo tratamento — e os ensaios de duração são unânimes: cursos curtos curam igual com menos resistência, menos C. difficile, menos flebite. A armadilha cultural é tratar o espectro largo como "segurança" e o estreitamento como "risco": é o contrário, e a prescrição diária sem "D_/_" é o jeito mais seguro de um antibiótico de 7 dias durar 14.
SSC 2026 — desescalonar com cultura e sensibilidade (forte) ou com cultura final negativa; duração mais curta com foco controlado · ILAS.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Atrasar o antibiótico esperando cultura, imagem ou vaga de UTI. Ajustar a primeira dose pela creatinina — o ataque é sempre cheio. Dopamina. Amido (HES) — nefrotóxico, enterrado. Esperar o central para começar noradrenalina. 30 mL/kg cegos no cardiopata/renal — e soro de manutenção depois que a ressuscitação acabou. Controle glicêmico intensivo (alvo < 110). Bicarbonato para embelezar o pH — reservado ao pH < 7,2 com LRA, tratando a causa. Corticoide em dose de pulso — a dose é 200 mg/dia de hidrocortisona, com gatilho. Sedação profunda "para descansar". Transfundir acima de Hb 7 sem sangramento/isquemia ativa. E manter o espectro máximo sem reavaliação com data — o item 08 é prescrição, não sugestão.
As primeiras horas desta página são metade do tratamento; a outra metade está nas ferramentas profundas: empírico por foco para acertar o esquema, PK/PD para acertar a dose, drogas vasoativas para a bomba, e o módulo de hemodinâmica quando o choque não se comportar como séptico puro.
Levar o caso ao assistente de conduta