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Pneumonia adquirida na comunidade grave

Beta-lactâmico com macrolídeo, microbiologia colhida para poder desescalar, e ampliação só com fator de risco validado. O corticoide é a parte em que as diretrizes ainda discordam.

Serve para o adulto imunocompetente com PAC grave. Não cobre pneumonia hospitalar ou associada à ventilação, imunossupressão profunda (neutropenia, transplante, HIV avançado), abscesso e empiema — todos exigem esquema e investigação próprios.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

PAC grave pelos critérios ATS/IDSA
um critério maior, ou três ou mais menores
A conta é simples e a calculadora a faz por você: 1 critério maior (ventilação mecânica invasiva ou choque com vasopressor) ou ≥ 3 critérios menoresUTI · deterioração progressiva indica UTI mesmo sem fechar a conta
Critérios ATS/IDSA marcar e ver se é UTI CURB-65 outra pergunta: se interna
Por quê & armadilhas

Os escores de gravidade (CURB-65, PSI) foram feitos para decidir internação, não para identificar quem vai para a UTI. Os critérios ATS/IDSA existem porque a mortalidade da PAC grave é dirigida por falência de órgão, não por extensão radiológica — e é por isso que um paciente com infiltrado modesto, PaO₂/FiO₂ de 200, ureia alta e confusão é mais grave que outro com "pneumonia extensa" na radiografia e nenhum órgão falhando.

O grupo que mais se perde é o dos três menores sem nenhum maior: sem tubo e sem vasopressor, o paciente ainda conversa, ainda parece "estável para enfermaria" — e é justamente o que descompensa de madrugada. Marcar os critérios na calculadora leva vinte segundos e transforma uma impressão em contagem, que é o que sustenta o pedido de vaga.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
Culturas sem atrasar a primeira dose
colher é o que permite descalonar depois
Duas hemoculturas · amostra respiratória (escarro, aspirado traqueal ou lavado) · PCR viral (influenza e painel conforme sazonalidade)
Antígenos urinários para pneumococo e Legionella quando indicados na PAC grave
Swab/PCR nasal de MRSA — o valor preditivo negativo alto permite retirar a cobertura cedo
Nada disso atrasa a primeira dose de antimicrobiano
Por quê & armadilhas

A microbiologia na PAC grave serve menos para acertar o empírico e mais para desescalonar — e é por isso que ela precisa ser colhida antes da primeira dose, mesmo sabendo que a maioria virá negativa. O swab de MRSA é o exemplo mais prático: um resultado negativo retira vancomicina em 48 h.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
Beta-lactâmico + macrolídeo — o regime preferido no grave
monoterapia com fluoroquinolona não é opção na PAC grave
Preferido: ceftriaxona 2 g EV 24/24 h + azitromicina 500 mg EV ou VO 24/24 h
Alternativas de beta-lactâmico: ampicilina/sulbactam 1,5–3 g EV 6/6 h ou cefotaxima 1–2 g EV 8/8 h
Alternativa ao macrolídeo: beta-lactâmico + fluoroquinolona respiratórianão fluoroquinolona isolada
Cobertura de atípicos é obrigatória na PAC grave, inclusive quando o beta-lactâmico for ampliado
Monitorar: azitromicina — QT e função hepática; ceftriaxona — cautela na disfunção renal somada à hepática
O que a atualização de 2025 mudou (e o que não mudou)
Teste viral positivo não retira o antibiótico no grave: no internado com PAC grave, manter o antibiótico empírico mesmo com influenza, SARS-CoV-2 ou VSR detectado — recomendação forte · no internado não grave e no ambulatorial com comorbidade, a sugestão também é manter · só o ambulatorial sem comorbidade tem sugestão de não prescrever
Duração: na PAC grave, 5 dias ou mais contados a partir da estabilidade clínica — recomendação forte · o encurtamento para menos de 5 dias vale para o não grave e o ambulatorial (mínimo de 3), não para o paciente de UTI
Não mudou: beta-lactâmico + macrolídeo no grave, cobertura obrigatória de atípico, e MRSA/Pseudomonas só com fator de risco — a atualização de 2025 remete explicitamente à diretriz de 2019 para a escolha dos agentes
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Uma ressalva de governança, porque muda como ler a diretriz: a atualização de 2025 é da ATS isolada. A IDSA não a endossou — a divergência foi justamente sobre como conduzir o paciente com teste viral positivo — e publicou posicionamento próprio anunciando diretriz separada. Ou seja: onde esta página escreve "ATS 2025", leia uma sociedade, não as duas. Nos pontos em que as duas concordam (esquema empírico, atípicos, MRSA/Pseudomonas), a base segue sendo a de 2019.
Por quê & armadilhas

A combinação beta-lactâmico + macrolídeo tem sinal consistente de benefício na PAC grave, e a hipótese que melhor explica não é só cobrir atípicos: é o efeito imunomodulador do macrolídeo. Por isso ele não é dispensável quando o beta-lactâmico é ampliado — trocar ceftriaxona por piperacilina/tazobactam não cobre Legionella.

Sobre duração, o erro de leitura mais comum agora é importar para a UTI a manchete do "curso mais curto". O encurtamento validado é do paciente não grave; na PAC grave a recomendação é forte para 5 dias ou mais, e — a parte que mais se perde — a contagem começa na estabilidade clínica, não na primeira dose. Contar cinco dias num paciente ainda febril, taquipneico e dependente de oxigênio é subtratar com aval de diretriz.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
MRSA e Pseudomonas — só com fator de risco validado
ampliar sem risco é dano sem ganho
MRSA — só com risco validado (colonização/infecção prévia, teste compatível, epidemiologia local): vancomicina com dose de ataque por peso e manutenção por AUC 400–600 e função renal, ou linezolida 600 mg EV/VO 12/12 h
Pseudomonas — só com risco validado: piperacilina/tazobactam 4,5 g EV 6/6 h, cefepima 2 g EV 8/8 h ou meropenem 1 g EV 8/8 h (função renal normal; infusão e ajuste conforme farmácia)
O que conta como "fator de risco validado"
O mais forte: isolamento prévio do próprio germe em via respiratória — MRSA ou Pseudomonas já cultivados nesse paciente
Secundário, e só na PAC grave: internação com antibiótico endovenoso nos últimos 90 dias — a ser pesado contra a epidemiologia local, não aplicado como regra automática
Ampliou? Colha cultura e swab nasal para MRSA na mesma hora — é o que permite desescalar em 48 h. Ampliação sem plano de retirada é ampliação permanente
Residir em instituição de longa permanência, sozinho, não justifica ampliar. A diretriz de 2019 recomenda abandonar a categoria "pneumonia associada a cuidados de saúde" (HCAP) — recomendação forte — e a atualização de 2025 não a ressuscitou: quem mora em ILPI, faz hemodiálise ou teve internação recente é tratado como PAC comum, salvo os fatores acima
Alergia grave a beta-lactâmico documentada: definir com infectologia — levofloxacino 750 mg 24/24 h ± aztreonam 2 g 8/8 h é uma possibilidade, conforme perfil, função renal, QT e epidemiologia
Retirar cedo quando cultura e swab permitirem
Por quê & armadilhas

A retirada do conceito de HCAP foi uma das correções mais úteis da diretriz de 2019: ele levava a ampliar espectro em uma população que, na maioria, tinha pneumonia comunitária comum — com mais toxicidade, mais resistência e sem ganho de mortalidade. O erro que ele institucionalizava era de raciocínio: transformar contato com o sistema de saúde em presença de germe resistente, quando o que prediz resistência é ter tido o germe, não ter frequentado o hospital.

Vale registrar que essa retirada resistiu à revisão de 2025 — que voltou a mexer em duração, corticoide, imagem e antibiótico no paciente com teste viral positivo, e deixou HCAP enterrado. A conduta correta no idoso da ILPI com pneumonia continua sendo ceftriaxona com macrolídeo, e não piperacilina/tazobactam com vancomicina "porque veio de casa de repouso".

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
Inalatórios no paciente sem DPOC e sem asma
a prescrição mais automática da enfermaria — e a que menos tem evidência
Não é conduta de rotina. Sem doença obstrutiva de base, o broncodilatador inalatório não tem ensaio que mostre benefício em pneumonia — não acelera a resolução, não melhora oxigenação de forma sustentada e não reduz tempo de internação
Quando é razoável usar — sempre como teste, não como horário fixo: broncoespasmo audível (sibilos difusos) · tempo expiratório prolongado com trabalho respiratório · obstrução demonstrada em quem tem doença de base ainda não diagnosticada · pneumonia deflagrando hiper-reatividade pós-viral
Como usar quando indicado: salbutamol 4–8 jatos por espaçador (equivale a 2,5 mg nebulizado, com menos taquicardia e menos aerossol) 4/4–6/6 h · ± ipratrópio 0,5 mg · reavaliar em 1 h — melhorou o sibilo e o trabalho respiratório? mantém e reavalia todo dia. Não melhorou? suspende
Prefira espaçador à nebulização em doença respiratória transmissível: nebulizar gera aerossol e obriga precaução adicional, sem ganhar eficácia
Preço do "por via das dúvidas": taquicardia e arritmia num paciente séptico, hipocalemia somada à do estresse e à do beta-agonista, tremor que atrapalha a fisioterapia e piora transitória da relação V/Q por vasodilatação em área consolidada — a saturação pode cair depois da inalação
E o LABA + corticoide inalatório? — quase sempre é continuar, não iniciar
Não existe indicação de iniciar ICS-LABA para tratar pneumonia. Nenhuma diretriz de PAC recomenda, e o mecanismo não fecha: broncodilatador de longa duração e corticoide inalatório tratam inflamação e obstrução crônicas de via aérea, não alvéolo consolidado. Quem começa "para ajudar o pulmão" está prescrevendo por analogia
O que se faz de verdade é continuar o que o paciente já usa: asmático e DPOC internados por pneumonia mantêm a manutenção — suspender ICS-LABA na internação é o erro mais comum e provoca exacerbação somada à pneumonia. Reveja apenas a técnica (paciente dispneico usa mal o dispositivo — considere espaçador) e a via: quem não consegue coordenar o inalador recebe broncodilatador de curta duração por espaçador ou nebulização enquanto durar a fase aguda, e retoma a manutenção assim que possível
Doses e opções de ICS-LABA e de dupla/tripla broncodilatação estão nas páginas de asma e de DPOC — esta página não repete o que é de lá
Se o paciente é DPOC e usa corticoide inalatório, a pneumonia é motivo para reavaliar o ICS — não para suspender no ato, mas para marcar a conversa: o ICS aumenta o risco de pneumonia em DPOC (cerca de 40% em uso prolongado nas revisões sistemáticas, maior com fluticasona), e a retirada em quem não é exacerbador frequente reduz esse risco sem aumentar exacerbação. A decisão pesa eosinófilo e histórico de exacerbações, é do pneumologista, e vai escrita no sumário de alta — do contrário, ninguém revê
Mucolítico e "inalação para soltar secreção" não substituem fisioterapia — não há evidência que sustente nebulização de rotina com esse fim; o que mobiliza secreção é umidificação adequada, hidratação, mobilização e fisioterapia respiratória
Por quê & armadilhas

Vale entender por que o reflexo é tão forte e ainda assim errado. Pneumonia faz falta de ar, e falta de ar no hospital chama nebulização — só que o mecanismo é diferente: no broncoespasmo o problema é fluxo, e o beta-agonista resolve; na pneumonia o problema é alvéolo cheio e shunt, e nenhuma dose de salbutamol abre alvéolo consolidado. O paciente sente alívio subjetivo pelo fluxo frio no rosto e pela sensação de estar sendo tratado, e o serviço lê isso como resposta.

O dado que mais informa a decisão não vem da pneumonia, vem da lesão pulmonar aguda, onde a hipótese de que o beta-agonista aceleraria a reabsorção de edema alveolar foi testada duas vezes e falhou nas duas: o ensaio com salbutamol inalatório não melhorou dias livres de ventilação nem mortalidade, e o ensaio com salbutamol endovenoso foi interrompido por segurança — mortalidade em 28 dias de 34% contra 23% no placebo. Nenhum dos dois é pneumonia, mas juntos desmontam o raciocínio fisiopatológico que sustentava a prescrição em alvéolo inundado.

A regra prática, então: inalatório em pneumonia é tratamento de sibilo, e sibilo se ausculta. Existe? Trate e reavalie em uma hora. Não existe? A inalação não é neutra — ela taquicardiza, derruba potássio e ocupa a equipe de enfermagem seis vezes ao dia com uma prescrição que ninguém revisa até a alta.

ICS-LABA: nenhuma diretriz de PAC recomenda iniciar corticoide inalatório ou broncodilatador de longa duração para tratar pneumonia; a conduta descrita é manter a terapia de manutenção de quem já tem asma ou DPOC · ICS e risco de pneumonia no DPOC: Crim C, Calverley PMA, Anderson JA, et al. Pneumonia risk in COPD patients receiving inhaled corticosteroids alone or in combination — TORCH study results. Eur Respir J. 2009;34(3):641–647 — maior taxa de pneumonia com fluticasona isolada ou combinada (84 e 88 por 1.000 pacientes-ano) do que com salmeterol ou placebo (52 por 1.000); revisões sistemáticas posteriores estimam aumento de cerca de 40% do risco com uso ≥ 1 ano, maior com fluticasona; a retirada do ICS em pacientes sem história de exacerbações frequentes reduz pneumonia sem aumentar exacerbações (diretriz da European Respiratory Society sobre retirada de ICS no DPOC, Eur Respir J. 2020;55(6):2000351) · Ausência de indicação de rotina: Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 — broncodilatador reservado a doença obstrutiva com broncoespasmo; a atualização de 2025 não introduziu recomendação de inalatório na PAC · Falha do beta-agonista em alvéolo inundado: National Heart, Lung, and Blood Institute ARDS Clinical Trials Network. Randomized, Placebo-controlled Clinical Trial of an Aerosolized β2-Agonist for Treatment of Acute Lung Injury (ALTA). Am J Respir Crit Care Med. 2011;184(5):561–568 — sem benefício em dias livres de ventilação ou mortalidade · Smith FG, Perkins GD, Gates S, et al. BALTI-2. Lancet. 2012;379(9812):229–235 — salbutamol EV interrompido por excesso de mortalidade (34% vs 23%) · Nota de evidência: não existe ensaio randomizado de broncodilatador inalatório especificamente em PAC sem doença obstrutiva; a conduta acima é extrapolação declarada, e por isso a página a trata como teste terapêutico com reavaliação, não como prescrição fixa.
Oseltamivir quando há influenza — mesmo depois de 48 h
no internado grave, a janela clássica não se aplica
Influenza confirmada ou alta suspeita em PAC grave: oseltamivir 75 mg VO/enteral 12/12 h (função renal normal), ajustado à função renal
Iniciar mesmo após 48 h de sintomas no internado grave
Manter o antibacteriano — coinfecção bacteriana é comum e o S. aureus pós-influenza é agressivo
Por quê & armadilhas

O corte de 48 horas vem dos estudos em ambulatório. No internado grave a replicação viral persiste e o benefício se mantém — por isso a recomendação separa os dois cenários.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
Corticoide na PAC grave — a evidência atual, com a discordância declarada
não há molécula nem dose universal nas diretrizes
ATS 2025: sugere corticoide sistêmico na PAC grave — recomendação condicional, baixa certeza, excluindo influenza
E recomenda o contrário na PAC não grave: não administrar corticoide sistêmico — recomendação forte. É a metade da recomendação que costuma ser esquecida, e a que mais evita dano
SCCM 2024 é mais favorável na PAC bacteriana grave — as duas não coincidem plenamente
Se o serviço adotar, reproduzir um protocolo validado — com critérios de inclusão, exclusões e plano de duração escritos. Não criar esquema solto
As doses, para quando a decisão já foi tomada
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Leia as doses abaixo com a moldura do card inteiro: a recomendação é condicional, de baixa certeza, e de uma sociedade — a IDSA não endossou a atualização de 2025. Isso significa que o corticoide aqui é decisão ponderada, paciente a paciente, e não item de protocolo automático. As doses existem para que, tendo decidido dar, você reproduza um esquema testado em vez de improvisar — não para facilitar a decisão de dar.
EsquemaDoseDuraçãoDe onde vem
Hidrocortisona — CAPE COD o mais reproduzido200 mg/dia EV em infusão contínua (ou 50 mg EV 6/6 h) nos 4 primeiros diasreavaliar no 4º dia: melhorou → desmame com total de 8 dias · não melhorou → manter e desmamar com total de 14 diasensaio randomizado que reduziu mortalidade em 28 dias na PAC grave em UTI
Metilprednisolona0,5 mg/kg 12/12 h (≈ 40 mg/dia para 70 kg)5 diasesquema alternativo de outros ensaios — menos reproduzido; use apenas se for o padronizado no serviço
O critério do 4º dia do CAPE COD, se o seu protocolo o adotar: PaO₂/FiO₂ > 200, respiração espontânea e SOFA do dia 4 igual ou menor que o do dia 1 → curso curto (8 dias). Não preencheu → curso longo (14 dias)
Quem ficou de fora do ensaio — e por isso não herda o resultado: influenza confirmada · choque séptico já em vasopressor na inclusão (esse paciente pertence ao corticoide da sepse, que é outra indicação e outro gatilho) · corticoide crônico em dose alta · infecção ativa não controlada
Se o paciente tem outro motivo para receber corticoide — exacerbação de DPOC ou de asma concomitante, insuficiência adrenal, doença reumatológica em atividade, choque séptico refratário — a decisão fica muito mais fácil: ali existe indicação própria, com evidência própria, e o benefício na pneumonia vira ganho secundário. É o cenário em que dar corticoide deixa de ser uma aposta
Se der: vigiar glicemia (o efeito adverso mais frequente e mais subestimado — protocolo de insulina pronto), sangramento digestivo, delirium e superinfecção · escrever a data de término no dia em que prescreve
Não usar automaticamente em influenza, pneumonia viral, diabetes descontrolado ou sangramento digestivo recente
Por quê & armadilhas

Esta é a recomendação mais instável da página, e a página diz isso em vez de escolher um lado. O CAPE COD mostrou redução de mortalidade em PAC grave, mas a população era selecionada e a exclusão de influenza importa — em pneumonia por influenza o corticoide tem sinal de dano.

Vale explicitar o que "baixa certeza" significa na prática, porque a expressão anestesia. Significa que o intervalo de confiança do benefício é largo, que ensaios anteriores não reproduziram o achado, que a população do CAPE COD era de UTI com critérios de gravidade específicos — e que aplicar o esquema a um paciente de enfermaria com pneumonia extensa mas sem os critérios do ensaio é extrapolação, não seguimento de diretriz. A pergunta que ordena a decisão não é "a diretriz permite?", é: este paciente se parece com os do ensaio, e existe algum outro motivo para ele receber corticoide? Se a resposta às duas for não, a inércia é uma escolha defensável.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941. · Esquema de hidrocortisona: Dequin PF, Meziani F, Quenot JP, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941 — hidrocortisona 200 mg/dia EV nos dias 1 a 4, com decisão no 4º dia (PaO₂/FiO₂ > 200, respiração espontânea e SOFA do dia 4 ≤ o do dia 1) entre curso total de 8 ou 14 dias com desmame preestabelecido; excluíram-se pacientes em vasopressor por choque séptico na inclusão e com PCR positiva para influenza · Força da recomendação: Jones BE, et al. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — corticoide sistêmico sugerido na PAC grave (condicional, baixa qualidade) e fortemente não recomendado na PAC não grave; atualização da ATS sem endosso da IDSA.
48 horas: descalonar, encurtar e trocar para VO
o antibiótico que não é reavaliado vira o problema seguinte
Reavaliar em 24–48 h com clínica, culturas e swab — descalonar o que sobrou
Duração: mínimo usual de 5 dias e estabilidade clínica sustentada · bacteremia, complicação (empiema, abscesso) ou patógeno específico exigem mais
Troca EV → VO quando estável, afebril e absorvendo
Procalcitonina não decide o início do antibiótico na PAC grave
Por quê & armadilhas

Cinco dias com estabilidade sustentada é o padrão moderno, e a maior parte dos cursos longos vem de inércia, não de indicação. Mas "estabilidade sustentada" é a parte que se esquece: contar cinco dias num paciente que ainda está taquipneico e febril é subtratar.

Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Via oral se desperta e deglute · triagem de disfagia se houve rebaixamento ou intubação recente · sonda enteral precoce se o jejum se prolongar
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia respiratória e mobilização precoce — a PAC grave é causa clássica de fraqueza adquirida na UTI
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria · 88–92% se houver DPOC associado — o alvo segue a doença de base. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
PAC grave internada costuma pontuar (infecção aguda, insuficiência respiratória, mobilidade reduzida) — confira e individualize.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Ceftriaxona ou macrolídeo isolados na PAC grave. Monoterapia com fluoroquinolona no grave. Cobrir MRSA ou Pseudomonas sem fator de risco validado. Ampliar por residência em instituição de longa permanência — o conceito de HCAP foi abandonado. Esquecer atípicos ao ampliar o beta-lactâmico. Anaerobicida por aspiração sem abscesso ou empiema. Negar antibiótico inicial por procalcitonina. E corticoide automático na pneumonia por influenza.

Prescreveu — e agora?

Reavaliar em 24–48 h é o item que separa boa prescrição de rotina: descalonar com o swab de MRSA e as culturas, encurtar para o mínimo com estabilidade sustentada, e trocar para via oral. Deterioração apesar do esquema adequado pede procurar complicação — empiema, abscesso, TEP — antes de ampliar espectro.

Levar o caso ao assistente de conduta
Metlay JP, Waterer GW, Long AC, et al. Diagnosis and Treatment of Adults with Community-acquired Pneumonia. An Official Clinical Practice Guideline of the American Thoracic Society and Infectious Diseases Society of America. Am J Respir Crit Care Med. 2019;200(7):e45–e67 · Jones BE, Ramirez JA, Oren E, et al. Diagnosis and Management of Community-acquired Pneumonia. An Official American Thoracic Society Clinical Practice Guideline. Am J Respir Crit Care Med. 2025;212(1):24–44 — atualização da ATS sem endosso da IDSA (Klompas M, et al. IDSA Position Statement. Clin Infect Dis. 2025;82(4):622–624) · Martin-Loeches I, et al. ERS/ESICM/ESCMID/ALAT guidelines for severe CAP. Eur Respir J. 2023;61(4):2200735 · Dequin PF, et al. Hydrocortisone in Severe Community-Acquired Pneumonia (CAPE COD). N Engl J Med. 2023;388(21):1931–1941. Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.