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Exacerbação grave de asma

O tórax silencioso não é melhora e o CO₂ normal não é estabilidade. Broncodilatador repetido, corticoide cedo, magnésio só no grave — e a alta que decide a próxima crise.

Serve para a exacerbação de asma no adulto, do PS à sala crítica. Doses pediátricas são por peso e não estão aqui. Gestante com crise de asma trata com as mesmas drogas — a hipoxemia materna é o risco maior —, com obstetrícia junto.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

Avaliar e separar: moderada, grave ou ameaça à vida
fala, posição, musculatura acessória, SpO₂ e sensório dizem mais que a ausculta
Sinais de ameaça à vida: sonolência, confusão, cianose, tórax silencioso, exaustão → chamar ajuda avançada e preparar via aérea
Grave: fala em palavras, sentado inclinado à frente, uso de musculatura acessória, FR alta, SpO₂ < 90%, PFE/VEF₁ baixo
Moderada: fala em frases, sem sinais de exaustão — ramo próprio, com doses menores (item 04)
Descartar os imitadores: anafilaxia, pneumotórax, TEP, pneumonia, insuficiência cardíaca, obstrução de via aérea alta
Por quê & armadilhas

A ausculta é o pior parâmetro isolado nesta doença: o tórax silencioso não é melhora, é ausência de fluxo. Os sinais que valem são de trabalho e de sensório — o paciente que para de brigar para respirar está exausto, não confortável.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Oxigênio titulado — 92 a 95%, não o máximo
na asma o alvo é normoxemia, não hiperóxia
Titular para SpO₂ 92–95% no adulto
Ameaça à vida: alto fluxo inicialmente enquanto organiza via aérea e gasometria, evitando hiperóxia prolongada
Gasometria na grave ou na ameaça à vida — PaCO₂ normal ou alta numa crise grave é sinal de exaustão, não de estabilidade
Por quê & armadilhas

O PaCO₂ que "normalizou" na asma grave é um dos sinais mais enganosos da medicina de urgência: o asmático em crise hiperventila, então CO₂ normal significa que ele já não consegue mais manter o esforço. É gatilho de UTI, não de alívio.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Grave: salbutamol + ipratrópio, repetidos na primeira hora
preferir espaçador se o paciente coopera; nebulizar se não
1ª hora — a dose de ataque
Se coopera — pMDI com espaçador: salbutamol 100 mcg/jato, 4–10 jatos + ipratrópio 20 mcg/jato, 4 jatos, repetindo até 3 ciclos a cada 20 min na primeira hora · espaçador tem eficácia igual à do nebulizador (Evidência A) e é a via mais custo-efetiva — nebulizar não é "mais forte", é só mais lento e mais caro
Como dar os jatos: um de cada vez, agitando o frasco entre eles, com 15–30 s de intervalo — "10 jatos" não é uma rajada de 10; é a repetição de uma técnica que precisa funcionar dez vezes
Se nebulização for necessária — em gotas, que é como vem na maioria dos serviços:
DrogaApresentaçãoDose por nebulizaçãoEm gotas
Ipratrópiosolução 0,25 mg/mL (20 gotas ≈ 1 mL)0,5 mg40 gotas
Ipratrópio — dose menor, onde padronizada0,25 mg/mL0,25 mg20 gotas
Salbutamolsolução 5 mg/mL (20 gotas ≈ 1 mL)2,5–5 mg10–20 gotas
Como montar: as duas drogas no mesmo copo, completando com SF 0,9% até 3–5 mL de volume total (abaixo disso o nebulizador não gera aerossol direito) · fluxo de O₂ a 6–8 L/min
Ritmo na crise grave: até 3 ciclos a cada 20 min na primeira hora, depois espaçando conforme resposta · confira o rótulo: existem apresentações de ipratrópio a 0,02% e frascos com conta-gotas diferentes, e a conta de "20 gotas por mL" não vale para todas
Depois da 1ª hora — reavaliar, e a dose sai da resposta
Reavalie ao fim da primeira hora com: fala e trabalho respiratório · ausculta · SpO₂ · FC · PFE (pico de fluxo) comparado ao previsto ou ao melhor pessoal — o PFE é o que transforma impressão em número, e ele é o critério das diretrizes
Resposta na 1ª horaO que fazer com o salbutamol
Boa — PFE > 60–80% do previsto/melhor pessoal, mantido por 3–4 h, sem esforçoNenhuma dose adicional é necessária — passa a SN (se necessário). Alta possível; nada de manter horário fixo "para garantir"
Parcial — melhorou mas os sintomas persistem4–10 jatos a cada 3–4 h, reavaliando antes de cada dose
Ruim — sintomas que voltam rápido, PFE baixo6–10 jatos a cada 1–2 h, ou mais frequente · reavalie a indicação de magnésio (item seguinte), de UTI e de suporte ventilatório
Na enfermaria, a prescrição prática: salbutamol 4–8 jatos com espaçador de 4/4 h fixo enquanto houver esforço ou sibilo, + SN a cada 1–2 h para o intervalo · o ipratrópio não segue além da fase aguda: ele agrega nas primeiras horas e depois só soma boca seca — suspenda em 24–48 h
O desmame — como descalonar sem recair
A régua do desmame é o resgate, não o relógio. Espace um degrau quando o paciente ficar um intervalo inteiro sem precisar do SN, estiver sem esforço, sem sibilo audível e com SpO₂ estável em ar ambiente: 4/4 h → 6/6 h → SN
Antes de cada degrau, cheque três coisas: (1) precisou de dose extra nas últimas horas? · (2) o esforço voltou à noite ou na deambulação? · (3) o corticoide sistêmico está correndo há tempo suficiente (o efeito começa em 4–6 h)? — desmamar broncodilatador antes de o corticoide agir é a recaída clássica das primeiras 24 h
Critério de alta pelo inalatório: estável em SN a cada 4 h ou menos, com técnica conferida, por pelo menos 1 hora após a última dose · quem ainda precisa de 3/3 h não vai para casa
Piorar durante o desmame não é "voltar à estaca zero": é subir um degrau, reavaliar a causa (corticoide atrasado? técnica errada? outro diagnóstico?) e tentar de novo em algumas horas · taquicardia, tremor e hipocalemia são do salbutamol e aumentam com a frequência — se a FC sobe sem melhora respiratória, o problema não é falta de dose
Nebulização contínua apenas por protocolo de sala crítica
Monitorar FC e ritmo, potássio, glicemia e lactato em doses altas de beta-agonista
Por quê & armadilhas

O pMDI com espaçador entrega tanto quanto a nebulização em quem consegue coordenar, com menos aerossol e menos tempo. A nebulização segue indicada para quem não coopera — e aí vale lembrar que nebulizar com oxigênio entrega FiO₂ alta sem querer.

O lactato que sobe durante o tratamento costuma ser efeito do salbutamol, não sinal de choque. Interpretá-lo como piora leva a escalonamento desnecessário.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Moderada: dose menor, mesma lógica
não aplicar o esquema da crise grave a todo mundo
pMDI com espaçador: salbutamol 4–10 jatos, repetível a cada 20 min na primeira hora, conforme resposta
Ipratrópio não é obrigatório na crise moderada — ele agrega sobretudo na grave
Reavaliar em 1 h com PFE/VEF₁, SpO₂ e trabalho respiratório antes de decidir alta ou internação
Por quê & armadilhas

Separar os ramos evita os dois erros simétricos: subtratar o grave com dose de moderado e sobrecarregar o moderado com dose de sala vermelha, com a taquicardia e a hipocalemia que vêm junto.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Corticoide sistêmico precoce — e por via oral quando possível
a via oral é tão eficaz quanto a venosa; o que importa é a precocidade
Prednisona ou prednisolona 40–50 mg VO 1×/dia por 5–7 dias, o mais cedo possível
Não precisa de desmame se o curso for menor que 2 semanas
Quando a via oral não serve — hidrocortisona ou metilprednisolona
Só três situações justificam o venoso, e nenhuma delas é "a crise é grave": dispneia que impede engolir · vômitos · necessidade de VNI ou intubação. Fora disso, a via oral é tão eficaz quanto a venosa — e mais rápida, menos invasiva e mais barata
DrogaDose no adultoComo darObservação
Hidrocortisona a dose que a diretriz nomeia200 mg/dia em doses fracionadas — na prática, 50 mg EV 6/6 hEV lento, diluída em 50–100 mLmeia-vida curta obriga a fracionar · retém sódio e água (cuidado no cardiopata)
Metilprednisolona40 mg/dia EV — 40 mg 1×/dia ou 20 mg 12/12 hEV em bolus lentoequipotente aos 50 mg de prednisolona, sem efeito mineralocorticoide
Hidrocortisona — carga inicial usual100–200 mg EV na 1ª dosebolus lentoprática de emergência; o que a diretriz fixa é a dose diária, não a carga
Troque para VO assim que o paciente engolir — não há razão para completar os 5–7 dias na veia
Dose maior não é tratamento melhor. Não há evidência de benefício acima de 50–100 mg/dia de prednisolona (ou equivalente), e os ensaios que compararam doses altas com baixas na asma grave hospitalizada não mostraram vantagem. "Pulsoterapia" na crise de asma é hiperglicemia, insônia e miopatia sem ganho
Por quê & armadilhas

O corticoide não alivia a crise na primeira hora; ele evita a recaída dos próximos dias. Por isso "precoce" é o adjetivo que importa — dar na chegada, não na decisão de internar: o efeito começa em 4 a 6 horas, e cada hora de atraso é uma hora a menos de benefício dentro da mesma internação.

A escolha da via é onde mais se erra por reflexo. O venoso parece mais potente e não é: a absorção oral do corticoide é praticamente completa, e os ensaios que compararam as duas vias na asma aguda encontraram eficácia semelhante. Puncionar veia para dar corticoide em quem consegue engolir é gastar tempo e acesso — e o tempo, aqui, é o próprio remédio. O venoso existe para quem não pode engolir, não para quem está mais grave.

Entre hidrocortisona e metilprednisolona a diferença prática é de logística e de sódio, não de eficácia. A hidrocortisona tem meia-vida curta e precisa de quatro doses ao dia — quatro oportunidades de atraso na enfermagem — e carrega atividade mineralocorticoide que retém sódio e água, o que pesa no cardiopata. A metilprednisolona resolve em uma ou duas doses e não retém nada. Onde as duas existem, a metilprednisolona costuma ser a escolha mais confortável; onde só há hidrocortisona, ela funciona igual — desde que fracionada de verdade, e não "200 mg uma vez ao dia".

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar. · Corticoide sistêmico: Global Initiative for Asthma — Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2025 — corticoide sistêmico em todas as exacerbações exceto as mais leves, idealmente dentro de 1 h da chegada (Evidência A); a via oral é tão eficaz quanto a venosa e é preferida por ser mais rápida, menos invasiva e mais barata; a via venosa fica para quem está dispneico demais para engolir, vomitando ou em VNI/intubação; dose diária no adulto equivalente a 50 mg de prednisolona em tomada única matinal ou 200 mg de hidrocortisona em doses fracionadas; curso de 5–7 dias, com efeito clínico a partir de 4–6 h · Dose alta não é melhor: Manser R, Reid D, Abramson MJ. Corticosteroids for acute severe asthma in hospitalised patients. Cochrane Database Syst Rev. 2001;(1):CD001740 — sem benefício de doses acima de 50–100 mg/dia de prednisolona ou equivalente · Equivalências de potência conforme tabela farmacológica clássica (hidrocortisona 20 mg = prednisona 5 mg = metilprednisolona 4 mg = dexametasona 0,75 mg).
Sulfato de magnésio — só no grave que não respondeu
dose única, não é item de rotina
Sulfato de magnésio 2 g EV em 20 min, dose única, apenas na crise grave com resposta insuficiente ou hipoxemia persistente
Cautela em disfunção renal importante, bloqueio atrioventricular e hipermagnesemia
Magnésio nebulizado não — a evidência não sustenta o uso de rotina
Preparo conforme a apresentação do serviço (MgSO₄ 50%: 1 g = 2 mL — ver hipomagnesemia)
Por quê & armadilhas

O magnésio é o último item farmacológico antes da via aérea, e serve ao paciente que já recebeu broncodilatador em ciclos e corticoide e continua ruim. Usado cedo demais e em todo mundo, ele só adiciona hipotensão.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Alta: nunca com beta-agonista isolado
a crise trata sintoma; a alta trata a doença
Critérios: estabilidade por 1–2 h após o último salbutamol, SpO₂ ≥ 92% em ar ambiente, PFE/VEF₁ idealmente > 70%, plano e suporte seguros
Não liberar com SABA isolado. Todo paciente sai com esquema contendo corticoide inalatório — é o item de maior impacto desta página
Opção 1 — ICS-formoterol como manutenção E resgate (MART), a preferida
O mesmo inalador serve de manutenção e de alívio, o que resolve o problema de o paciente usar só o resgate. Use budesonida-formoterol 200/6 ou beclometasona-formoterol 100/6 (pMDI ou DPI):
SituaçãoManutençãoResgate
Asma leve, sem tratamento prévionenhuma1 inalação SN
Pós-crise que precisou de PS o caso desta página1 inalação 12/12 h+ 1 inalação SN
Já usava manutenção, ou crise grave2 inalações 12/12 h+ 1 inalação SN
Teto: 12 inalações no total por dia (manutenção + resgate somados) — a maioria usa muito menos · ⚠ o resgate do MART é o próprio ICS-formoterol, não o salbutamol: prescrever os dois juntos desfaz a lógica do esquema
Só formoterol serve de resgate — ele é LABA de início rápido. Salmeterol e vilanterol não podem ser usados SN
Opção 2 — ICS-LABA fixo + salbutamol de resgate
Quando usar: o serviço só tem combinação com salmeterol ou vilanterol · o paciente já está bem adaptado a esse esquema · dificuldade de entender a lógica do MART
CombinaçãoApresentações usuaisPosologia
Budesonida-formoterol200/6 · 400/121 inalação 12/12 h (2 inalações 12/12 h se dose média/alta)
Beclometasona-formoterol100/6 · 200/6 (partícula extrafina)1–2 inalações 12/12 h
Fluticasona-salmeterolpMDI 50/25 · 125/25 · 250/25 — DPI 100/50 · 250/50 · 500/501 inalação (DPI) ou 2 jatos (pMDI) 12/12 h
Fluticasona furoato-vilanterol100/25 · 200/251 inalação 1×/dia — a vantagem é a dose única
+ salbutamol 100 mcg, 2 jatos SN — e explique que o resgate não substitui a manutenção
Qual dose de ICS escolher na alta
ICS (dose diária total, adulto)BaixaMédiaAlta
Budesonida200–400 mcg> 400–800> 800
Beclometasona (partícula extrafina)100–200 mcg> 200–400> 400
Beclometasona (partícula padrão)200–500 mcg> 500–1.000> 1.000
Fluticasona propionato100–250 mcg> 250–500> 500
Fluticasona furoato100 mcg200 mcg
Regra prática pós-crise: quem não usava nada sai em dose baixa; quem já usava dose baixa e exacerbou sobe para média; quem já estava em dose média/alta e exacerbou precisa de reavaliação de aderência, técnica e diagnóstico antes de subir mais — e de encaminhamento ao pneumologista
Reduzir depois: a redução se faz em 2–3 meses de controle estável, no ambulatório — nunca na alta do PS, e nunca para "só SABA"
Sair com: técnica inalatória conferida, plano de ação escrito, corticoide oral completando o curso, gatilho identificado e retorno marcado
Por quê & armadilhas

Este é o item de maior impacto populacional da página. A alta com apenas broncodilatador de resgate é o padrão que sustenta as mortes por asma: alívio sem controle da inflamação, e a próxima crise vem pior. Trocar isso na porta do PS vale mais que qualquer ajuste de dose na sala.

Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Via oral se fala em frases e não há risco de via aérea · zero na crise grave ou em risco de intubação
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia respiratória não é rotina na crise aguda; entra na reabilitação e no manejo de secreção, se houver
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 92–95% na asma — hiperóxia não ajuda e pode piorar a relação ventilação-perfusão. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Asma isolada não indica profilaxia. Ela entra se a internação for prolongada ou houver imobilidade — pelo escore.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Antibiótico sem infecção documentada. Sedativo em paciente que respira — sedar asma grave sem via aérea é parada anunciada. Adrenalina para asma isolada, sem anafilaxia. Magnésio nebulizado. VNI sem vigilância, ou sedação para o paciente tolerá-la. Atrasar a intubação no exausto. E alta com SABA isolado.

Prescreveu — e agora?

Reavaliar em 1 h com trabalho respiratório, SpO₂ e PFE/VEF₁. Piora do sensório, exaustão, CO₂ subindo ou hipoxemia refratária são critério de UTI, não de mais uma nebulização. Na alta, o que decide o futuro é o corticoide inalatório iniciado e a técnica conferida — não a dose de resgate.

Levar o caso ao assistente de conduta
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar. Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.