Exacerbação grave de asma
O tórax silencioso não é melhora e o CO₂ normal não é estabilidade. Broncodilatador repetido, corticoide cedo, magnésio só no grave — e a alta que decide a próxima crise.
Serve para a exacerbação de asma no adulto, do PS à sala crítica. Doses pediátricas são por peso e não estão aqui. Gestante com crise de asma trata com as mesmas drogas — a hipoxemia materna é o risco maior —, com obstetrícia junto.
Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.
A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".
Item por item
A ausculta é o pior parâmetro isolado nesta doença: o tórax silencioso não é melhora, é ausência de fluxo. Os sinais que valem são de trabalho e de sensório — o paciente que para de brigar para respirar está exausto, não confortável.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.O PaCO₂ que "normalizou" na asma grave é um dos sinais mais enganosos da medicina de urgência: o asmático em crise hiperventila, então CO₂ normal significa que ele já não consegue mais manter o esforço. É gatilho de UTI, não de alívio.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.| Droga | Apresentação | Dose por nebulização | Em gotas |
|---|---|---|---|
| Ipratrópio | solução 0,25 mg/mL (20 gotas ≈ 1 mL) | 0,5 mg | 40 gotas |
| Ipratrópio — dose menor, onde padronizada | 0,25 mg/mL | 0,25 mg | 20 gotas |
| Salbutamol | solução 5 mg/mL (20 gotas ≈ 1 mL) | 2,5–5 mg | 10–20 gotas |
| Resposta na 1ª hora | O que fazer com o salbutamol |
|---|---|
| Boa — PFE > 60–80% do previsto/melhor pessoal, mantido por 3–4 h, sem esforço | Nenhuma dose adicional é necessária — passa a SN (se necessário). Alta possível; nada de manter horário fixo "para garantir" |
| Parcial — melhorou mas os sintomas persistem | 4–10 jatos a cada 3–4 h, reavaliando antes de cada dose |
| Ruim — sintomas que voltam rápido, PFE baixo | 6–10 jatos a cada 1–2 h, ou mais frequente · reavalie a indicação de magnésio (item seguinte), de UTI e de suporte ventilatório |
O pMDI com espaçador entrega tanto quanto a nebulização em quem consegue coordenar, com menos aerossol e menos tempo. A nebulização segue indicada para quem não coopera — e aí vale lembrar que nebulizar com oxigênio entrega FiO₂ alta sem querer.
O lactato que sobe durante o tratamento costuma ser efeito do salbutamol, não sinal de choque. Interpretá-lo como piora leva a escalonamento desnecessário.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.Separar os ramos evita os dois erros simétricos: subtratar o grave com dose de moderado e sobrecarregar o moderado com dose de sala vermelha, com a taquicardia e a hipocalemia que vêm junto.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.| Droga | Dose no adulto | Como dar | Observação |
|---|---|---|---|
| Hidrocortisona a dose que a diretriz nomeia | 200 mg/dia em doses fracionadas — na prática, 50 mg EV 6/6 h | EV lento, diluída em 50–100 mL | meia-vida curta obriga a fracionar · retém sódio e água (cuidado no cardiopata) |
| Metilprednisolona | 40 mg/dia EV — 40 mg 1×/dia ou 20 mg 12/12 h | EV em bolus lento | equipotente aos 50 mg de prednisolona, sem efeito mineralocorticoide |
| Hidrocortisona — carga inicial usual | 100–200 mg EV na 1ª dose | bolus lento | prática de emergência; o que a diretriz fixa é a dose diária, não a carga |
O corticoide não alivia a crise na primeira hora; ele evita a recaída dos próximos dias. Por isso "precoce" é o adjetivo que importa — dar na chegada, não na decisão de internar: o efeito começa em 4 a 6 horas, e cada hora de atraso é uma hora a menos de benefício dentro da mesma internação.
A escolha da via é onde mais se erra por reflexo. O venoso parece mais potente e não é: a absorção oral do corticoide é praticamente completa, e os ensaios que compararam as duas vias na asma aguda encontraram eficácia semelhante. Puncionar veia para dar corticoide em quem consegue engolir é gastar tempo e acesso — e o tempo, aqui, é o próprio remédio. O venoso existe para quem não pode engolir, não para quem está mais grave.
Entre hidrocortisona e metilprednisolona a diferença prática é de logística e de sódio, não de eficácia. A hidrocortisona tem meia-vida curta e precisa de quatro doses ao dia — quatro oportunidades de atraso na enfermagem — e carrega atividade mineralocorticoide que retém sódio e água, o que pesa no cardiopata. A metilprednisolona resolve em uma ou duas doses e não retém nada. Onde as duas existem, a metilprednisolona costuma ser a escolha mais confortável; onde só há hidrocortisona, ela funciona igual — desde que fracionada de verdade, e não "200 mg uma vez ao dia".
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar. · Corticoide sistêmico: Global Initiative for Asthma — Global Strategy for Asthma Management and Prevention, 2025 — corticoide sistêmico em todas as exacerbações exceto as mais leves, idealmente dentro de 1 h da chegada (Evidência A); a via oral é tão eficaz quanto a venosa e é preferida por ser mais rápida, menos invasiva e mais barata; a via venosa fica para quem está dispneico demais para engolir, vomitando ou em VNI/intubação; dose diária no adulto equivalente a 50 mg de prednisolona em tomada única matinal ou 200 mg de hidrocortisona em doses fracionadas; curso de 5–7 dias, com efeito clínico a partir de 4–6 h · Dose alta não é melhor: Manser R, Reid D, Abramson MJ. Corticosteroids for acute severe asthma in hospitalised patients. Cochrane Database Syst Rev. 2001;(1):CD001740 — sem benefício de doses acima de 50–100 mg/dia de prednisolona ou equivalente · Equivalências de potência conforme tabela farmacológica clássica (hidrocortisona 20 mg = prednisona 5 mg = metilprednisolona 4 mg = dexametasona 0,75 mg).O magnésio é o último item farmacológico antes da via aérea, e serve ao paciente que já recebeu broncodilatador em ciclos e corticoide e continua ruim. Usado cedo demais e em todo mundo, ele só adiciona hipotensão.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.| Situação | Manutenção | Resgate |
|---|---|---|
| Asma leve, sem tratamento prévio | nenhuma | 1 inalação SN |
| Pós-crise que precisou de PS o caso desta página | 1 inalação 12/12 h | + 1 inalação SN |
| Já usava manutenção, ou crise grave | 2 inalações 12/12 h | + 1 inalação SN |
| Combinação | Apresentações usuais | Posologia |
|---|---|---|
| Budesonida-formoterol | 200/6 · 400/12 | 1 inalação 12/12 h (2 inalações 12/12 h se dose média/alta) |
| Beclometasona-formoterol | 100/6 · 200/6 (partícula extrafina) | 1–2 inalações 12/12 h |
| Fluticasona-salmeterol | pMDI 50/25 · 125/25 · 250/25 — DPI 100/50 · 250/50 · 500/50 | 1 inalação (DPI) ou 2 jatos (pMDI) 12/12 h |
| Fluticasona furoato-vilanterol | 100/25 · 200/25 | 1 inalação 1×/dia — a vantagem é a dose única |
| ICS (dose diária total, adulto) | Baixa | Média | Alta |
|---|---|---|---|
| Budesonida | 200–400 mcg | > 400–800 | > 800 |
| Beclometasona (partícula extrafina) | 100–200 mcg | > 200–400 | > 400 |
| Beclometasona (partícula padrão) | 200–500 mcg | > 500–1.000 | > 1.000 |
| Fluticasona propionato | 100–250 mcg | > 250–500 | > 500 |
| Fluticasona furoato | 100 mcg | — | 200 mcg |
Este é o item de maior impacto populacional da página. A alta com apenas broncodilatador de resgate é o padrão que sustenta as mortes por asma: alívio sem controle da inflamação, e a próxima crise vem pior. Trocar isso na porta do PS vale mais que qualquer ajuste de dose na sala.
Global Initiative for Asthma — GINA 2026 Strategy Report (ginasthma.org). Conteúdo parafraseado; a versão vigente do relatório deve ser conferida antes de publicar.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Antibiótico sem infecção documentada. Sedativo em paciente que respira — sedar asma grave sem via aérea é parada anunciada. Adrenalina para asma isolada, sem anafilaxia. Magnésio nebulizado. VNI sem vigilância, ou sedação para o paciente tolerá-la. Atrasar a intubação no exausto. E alta com SABA isolado.
Reavaliar em 1 h com trabalho respiratório, SpO₂ e PFE/VEF₁. Piora do sensório, exaustão, CO₂ subindo ou hipoxemia refratária são critério de UTI, não de mais uma nebulização. Na alta, o que decide o futuro é o corticoide inalatório iniciado e a técnica conferida — não a dose de resgate.
Levar o caso ao assistente de conduta