Edema agudo de pulmão
O paciente está se afogando: os três primeiros itens valem mais que todos os outros juntos — VNI, vasodilatador e diurético, começados em minutos, na dose que resolve.
Serve para o EAP cardiogênico com pressão preservada ou elevada — o paciente congesto, taquidispneico, com estertores e história cardiológica. Se há hipotensão ou má perfusão, o problema mudou de nome (choque cardiogênico) e mudou de página: o raciocínio está no módulo de Hemodinâmica. E o EAP quase sempre tem um gatilho — achá-lo é metade da prescrição.
As doses seguem as diretrizes de insuficiência cardíaca (AHA/ACC/HFSA 2022, ESC 2021, SBC 2021) e não substituem o protocolo do seu serviço nem a padronização da farmácia — diluição de vasodilatador e biblioteca de bomba são locais por natureza. Confirme apresentação e concentração antes de cada prescrição.
A ordem é a do raciocínio: primeiro o tripé que tira o paciente do afogamento (VNI + vasodilatador + diurético), depois as decisões que definem o rumo (fenótipo e gatilho), o manejo dos remédios de casa e o suporte. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A pressão positiva faz duas coisas ao mesmo tempo: recruta alvéolo inundado (melhora a troca) e reduz pré e pós-carga do VE (melhora a hemodinâmica) — por isso a VNI no EAP reduz necessidade de intubação e mortalidade, e é terapia de primeira linha, não último recurso. A armadilha é a fisionomia enganosa: o paciente "brigando com a máscara" nos primeiros minutos costuma melhorar quando a pressão faz efeito; o que não pode é confundir agitação de hipoxemia com intolerância e desistir cedo — nem o contrário, insistir em VNI num paciente que já falhou.
ESC 2021 · AHA/ACC/HFSA 2022 — VNI precoce no EAP.ex. de preparo: 50 mg em SG 5% qsp 250 mL = 200 mcg/mL → 20 mcg/min = 6 mL/h
O EAP hipertensivo é, antes de tudo, uma crise de pós-carga: o volume total muitas vezes está normal, só está no lugar errado — redistribuído para o pulmão. Por isso o vasodilatador vem junto (ou antes) do diurético, e por isso dose homeopática de nitrato não trata: 10 mcg/min aliviam a consciência de quem prescreve, não o pulmão de quem afoga. Titule pela PA de verdade. O nitroprussiato tem seu lugar — insuficiência mitral aguda, pós-carga refratária — mas exige o aparato que o teu serviço tiver: é decisão institucional, não item de rotina.
ESC 2021 · AHA/ACC/HFSA 2022 · SBC — vasodilatador no EAP com PA preservada/elevada.O erro mais comum com furosemida no congesto não é excesso — é timidez: 20 mg em quem toma 80 por dia em casa é dose que o néfron nem percebe (o DOSE testou justamente 2,5× a dose domiciliar, com mais descongestão e sem dano renal relevante). A segunda armadilha é prescrever e não olhar: diurético se titula pela diurese das próximas horas, não pela do dia seguinte. E no EAP hipertensivo puro, redistributivo, o diurético é coadjuvante do vasodilatador — o paciente pode nem estar hipervolêmico.
DOSE (Felker GM, et al. N Engl J Med. 2011;364(9):797–805) — os braços foram 1× e 2,5× a dose oral prévia, não mg/kg · ESC 2021 — 20–40 mg EV no virgem de diurético e ao menos a dose oral equivalente no usuário crônico · AHA/ACC/HFSA 2022.A prescrição automática "hipotensão = noradrenalina + dobutamina" é exatamente o reflexo que as diretrizes atuais pedem para abandonar: inotrópico se escolhe pelo fenótipo (baixo débito confirmado, não pressão baixa isolada), depois de olhar mecanismo — VD falhando? valva aguda? tamponamento? A dose e a diluição da noradrenalina e da dobutamina vivem numa página só, revisada, em drogas vasoativas — aqui não se duplica dose. O que esta página exige é o gesto anterior: perceber que o paciente saiu do EAP "quente" e entrou no choque.
AHA/ACC/HFSA 2022 · ESC 2021 — inotrópico por fenótipo, não por PA isolada.EAP tratado sem gatilho identificado volta — às vezes na mesma noite. O ECG na chegada não é burocracia: isquemia e arritmia são os dois gatilhos que mudam a prescrição inteira nas próximas horas. E a insuficiência mitral aguda (cordoalha rota, endocardite) é o gatilho traiçoeiro: EAP fulminante com coração "pequeno" no raio-X — é o POCUS que denuncia.
ESC 2021 · AHA/ACC/HFSA 2022 — busca ativa do precipitante.Suspender o betabloqueador de todo EAP é reflexo antigo com dado contra: a retirada abrupta em quem usa cronicamente piora desfecho, e a descompensação "quente" tolera a manutenção. A régua é perfusão, não a existência do edema. Já a alta hospitalar é o momento-chave dos dois: paciente que sai sem betabloqueador e IECA reintroduzidos tende a nunca mais recebê-los — a internação é a janela de otimizar, não só de secar.
Jondeau G, et al. B-CONVINCED: beta-blocker continuation vs. interruption in patients hospitalized for a decompensation episode. Eur Heart J. 2009;30(18):2186–2192 — manter foi tão seguro quanto e preservou o uso em 3 meses · ESC 2021 · AHA/ACC/HFSA 2022.Comer de máscara é broncoaspirar. E a restrição hídrica é ferramenta, não dogma: no paciente descongestionando bem com diurético, restrição agressiva acrescenta sede e pouco mais — individualize com o balanço na mão. Aporte calórico fixo "de rotina" segue sendo decisão da nutrição, não da folha pronta.
ESPEN 2023 · diretrizes de IC — manejo individualizado.IC descompensada é fator de risco maior para TEV — a profilaxia é rotina do paciente clínico internado. O detalhe que escapa: se o gatilho do EAP pediu anticoagulação plena (FA, SCA), a profilaxia sai — dupla heparina é sangramento de graça.
Diretrizes de tromboprofilaxia do paciente clínico internado.Profilaxia de úlcera virou item de kit — e IBP sem indicação tem custo (interações, infecção, prescrição que nunca mais é suspensa). A indicação clássica é o paciente grave com fator de risco: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia à frente. EAP que resolve em VNI e sobe para enfermaria em 24 h não precisa levar omeprazol de lembrança.
Vômito dentro da máscara de VNI é emergência de via aérea — trate a náusea cedo e mantenha a equipe avisada. Ondansetrona prolonga QT; metoclopramida pede cautela no idoso.
Mesma regra das outras páginas: 140–180 mg/dL, correção pelo protocolo institucional (escala fixa universal não), e hipoglicemia tratada com rechecagem obrigatória em 15 min. A dose de glicose depende da ampola da tua farmácia — a conta do exemplo é transparente de propósito.
ADA 2026 — Standards of Care, cap. 16.O EAP é das poucas emergências em que a prescrição certa muda o paciente na primeira hora — e isso só é útil se alguém estiver medindo. Diurese horária é o feedback do diurético; a PA, do vasodilatador; a frequência respiratória e a gasometria, da VNI. Paciente que não melhora em 60 minutos não precisa de mais uma dose do mesmo: precisa de reavaliação do fenótipo, do gatilho e da via aérea.
ESC 2021 · AHA/ACC/HFSA 2022.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Morfina de rotina — associada a mais intubação e mortalidade; ansiedade do afogamento se trata com VNI e vasodilatador. Dobutamina automática por pressão baixa isolada, sem fenótipo. Furosemida tímida no usuário crônico. Vasodilatador no hipotenso/má perfusão. Volume EV "de rotina" no paciente congesto. E suspender betabloqueador por reflexo em quem está quente e perfundido.
Se o paciente esfriou — PAS caindo, lactato subindo, extremidades frias — a página mudou: o raciocínio do choque está nos padrões hemodinâmicos e as doses na página de drogas vasoativas. Se o gatilho foi coronariano, a prescrição continua na SCA com supra ou sem supra. E se a VNI está falhando, os parâmetros do ventilador estão no módulo de Ventilação Mecânica.
Levar o caso ao assistente de conduta