Procedimentos — Abdome

Paracentese

Punção da cavidade peritoneal — diagnóstica (PBE, SAAG) e terapêutica (LVP com reposição de albumina).

TécnicaZ-track
ReposiçãoAlbumina se LVP > 5 L
Risco de sangramento< 0,3%

Punção da cavidade peritoneal para análise ou drenagem de ascite. Procedimento de baixíssimo risco — a taxa de sangramento clinicamente relevante é < 0,3% mesmo em coagulopatia, e a maioria das "correções" de coagulação pré-procedimento não tem suporte em evidência.

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Indicações

Diagnóstica Ascite de primeira apresentação (investigar etiologia)
Suspeita de PBE: febre, dor abdominal, piora de encefalopatia, deterioração renal
Todo cirrótico internado — paracentese diagnóstica na admissão
Terapêutica Ascite volumosa com desconforto respiratório ou abdominal significativo
Ascite refratária ao tratamento clínico
Peritonite bacteriana espontânea (coleta + tratamento)
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Contraindicações & coagulopatia

Contraindicações relativas

Coagulopatia e plaquetopenia no cirrótico: INR elevado e plaquetas baixas são a norma no cirrótico. A taxa de sangramento após paracentese não aumenta com INR até 8 ou plaquetas > 20.000. Não transfundir PFC ou plaquetas rotineiramente. O EASL e o AASLD são explícitos nesse ponto.
EASL Clinical Practice Guidelines for decompensated cirrhosis. J Hepatol 69(2):406–460, 2018. Grabau CM et al. Performance standards for therapeutic abdominal paracentesis. Hepatology 2004. PMID: 15368437 Maher R et al. Risk of bleeding after abdominal paracentesis: systematic review. Liver Int 2024. PMC11331248
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Sítios de punção

Quadrante inferior esquerdo (preferencial)
2–4 cm súpero-medial à espinha ilíaca ântero-superior esquerda, lateral ao músculo reto abdominal. Parede mais fina, maior acúmulo de líquido, evita artéria epigástrica inferior.
Linha média (alternativa)
2 cm abaixo do umbigo, na linha alba. Avascular — menor risco de sangramento. Evitar em gestantes e em quem tem circulação colateral visível na linha média (caput medusae).
⚙ USG pré-procedimento é recomendado para confirmar a janela ascítica e identificar estruturas vasculares. Em ascite volumosa de cirrótico típico, o QIE é seguro sem USG em mãos experientes.
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Material

Agulha 20–22G ou cateter 14–18G (diagnóstica) Kit de paracentese com cateter e extensão (terapêutica) Seringa 20–60 mL Sistema de drenagem / frascos a vácuo Frascos para análise (citologia, cultura, bioquímica) Albumina 20% para reposição (LVP > 5 L) Lidocaína 1% + campo estéril + clorexidina
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Técnica passo a passo

  1. 1Posicionar em decúbito dorsal leve com a cabeça elevada (~30°). Se possível, lado esquerdo levemente mais baixo para deslocar o líquido para o QIE.
  2. 2USG para confirmar a janela ascítica no sítio escolhido. Marcar o local.
  3. 3Antissepsia + campo estéril. Anestesia local com lidocaína 1% em pele e subcutâneo. Não é necessário anestesiar profundo — o peritônio tem sensibilidade limitada.
  4. 4Técnica em Z (Z-track): Traccionar a pele 2 cm lateralmente com a mão não dominante, inserir a agulha perpendicular ao abdome, soltar a pele ao retirar a agulha. Cria um trajeto oblíquo que se fecha naturalmente e evita vazamento persistente de ascite.
  5. 5Avançar aspirando suavemente. Ao retornar líquido, manter a posição e conectar a extensão/sistema de drenagem.
  6. 6Diagnóstica: Colher 30–60 mL para análise. Enviar para: contagem de células (neutrófilos > 250/mm³ = PBE), proteínas, albumina (calcular SAAG), LDH, cultura em frasco de hemocultura à beira do leito (maior sensibilidade).
  7. 7Terapêutica (LVP — large-volume paracentesis): Drenar até secar ou até 10–15 L. Não há limite de volume por sessão — o limite é a quantidade disponível.
  8. 8Retirar a agulha, curativo compressivo. Posicionar o paciente sobre o lado oposto ao sítio por 30 min para minimizar vazamento.
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Reposição de albumina

LVP > 5 litros: albumina obrigatória. Administrar 8 g de albumina por litro retirado acima de 5 L, na forma de albumina 20% IV. Sem reposição, o paciente desenvolve disfunção circulatória pós-paracentese (DCPP): vasodilatação esplâncnica descompensada, queda do débito cardíaco, hiponatremia e síndrome hepatorrenal em até 20% dos casos.

Exemplo: Paracentese de 9 L → repor albumina para (9 − 5) = 4 L extras → 4 × 8 = 32 g de albumina (160 mL de albumina 20%).
EASL Clinical Practice Guidelines for decompensated cirrhosis. J Hepatol 2018. Bernardi M et al. Albumin infusion in patients undergoing large-volume paracentesis: a meta-analysis. J Hepatol 2012. PMID: 22469631
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SAAG — como interpretar

SAAG (albumina sérica − albumina do líquido)InterpretaçãoExemplos
≥ 1,1 g/dLHipertensão portalCirrose, ICC, Budd-Chiari, trombose porta
< 1,1 g/dLSem hipertensão portalCarcinomatose peritoneal, TB, pancreatite, síndrome nefrótica
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Pitfalls

O que não fazer