Procedimentos — Neuroeixo
Punção Lombar
Acesso ao espaço subaracnoide — indicações, quando fazer TC antes, técnica, interpretação do LCR e complicações.
Acesso ao espaço subaracnoide lombar para análise do LCR e medição da pressão de abertura. Na UTI, a indicação mais urgente é suspeita de meningite bacteriana — o diagnóstico microbiológico no LCR define o antibiótico e a duração do tratamento. Não atrase o antibiótico esperando a PL.
01
Indicações
- Suspeita de meningite bacteriana, viral ou fúngica
- Hemorragia subaracnóidea com TC negativa (xantocromia no LCR até 14 dias)
- Encefalite (incluindo autoimune), Guillain-Barré, esclerose múltipla
- Hipertensão intracraniana benigna (medição + alívio terapêutico)
- Meningite por criptococos com HIC (PL terapêutica repetida — reduz mortalidade)
- Administração intratecal de quimioterápicos ou antibióticos
02
Quando fazer TC antes da PL?
TC obrigatória antes:
- Déficit neurológico focal novo
- Papiledema ao fundo de olho
- Rebaixamento do nível de consciência (GCS < 14)
- Crise convulsiva recente (< 1 semana)
- Imunodeprimido
Pode puncionar sem TC:
- Meningismo sem déficit focal, sem papiledema, GCS ≥ 14
- Nesse caso: antibiótico empírico imediato + PL logo após (sem esperar TC)
03
Contraindicações
- Lesão expansiva intracraniana com efeito de massa (risco de herniação) — fazer TC primeiro
- Infecção de pele no sítio de punção
- Plaquetas < 20.000/mm³ (ou < 50.000 se anticoagulado)
- Anticoagulação plena com heparina não fracionada nas últimas 4–6h (HBPM: 24h)
- Instabilidade hemodinâmica grave
04
Material
Agulha espinal 20–22G (atraumática — ponta Quincke ou Sprotte)
Manômetro de LCR + extensão em T
4 tubos numerados para coleta
Lidocaína 1% + seringa
Campo estéril + clorexidina aquosa (não alcoólica na coluna)
Estilete de reposição
05
Técnica passo a passo
Decúbito lateral (preferencial para pressão)
Joelhos fletidos ao peito, coluna em máxima flexão ("posição fetal"). Cabeça alinhada com o resto do corpo no plano horizontal. Única posição que fornece pressão de abertura confiável.
Joelhos fletidos ao peito, coluna em máxima flexão ("posição fetal"). Cabeça alinhada com o resto do corpo no plano horizontal. Única posição que fornece pressão de abertura confiável.
Sentado (preferencial para obesos)
Sentado na beira do leito, inclinado para frente abraçando um travesseiro. Mais fácil de palpar as apófises em obesos. Não mede pressão de abertura com confiabilidade — se precisar da pressão, deite após puncionar.
Sentado na beira do leito, inclinado para frente abraçando um travesseiro. Mais fácil de palpar as apófises em obesos. Não mede pressão de abertura com confiabilidade — se precisar da pressão, deite após puncionar.
- 1Identificar o espaço L3–L4 ou L4–L5. Referência: linha de Tuffier — linha imaginária entre os topos das cristas ilíacas passa pelo processo espinhoso de L4. O espaço L3–L4 é imediatamente acima.
- 2Antissepsia com clorexidina aquosa (alcoólica é neurotóxica — não usar na coluna). Campo estéril. Anestesia local em pele e subcutâneo.
- 3Inserir a agulha espinal com o bisel orientado paralelamente às fibras da dura-máter (longitudinal = perpendicular ao eixo horizontal no decúbito lateral). Avançar com o estilete no lugar, ligeiramente em direção ao umbigo (~15° de ângulo cranial).
- 4Ao cruzar a dura, sente-se uma "queda" de resistência (pop). Remover o estilete — LCR deve gotejar. Se não goteja: girar a agulha 90°, ou o bisel está no ligamento.
- 5Pressão de abertura: Conectar o manômetro antes de coletar. Deixar o LCR subir e estabilizar (~1 min). Normal: 6–20 cmH₂O (até 25 em obesos). Acima de 20: HIC. Acima de 30: HIC grave.
- 6Coletar nos 4 tubos numerados:
Tubo 1 — microbiologia (Gram, cultura, painel viral)
Tubo 2 — bioquímica (glicose, proteína)
Tubo 3 — citologia (contagem e diferencial)
Tubo 4 — reserva ou citologia oncológica - 7Recolocar o estilete antes de retirar a agulha — reduz a taxa de cefaleia pós-PL.
- 8Repouso em decúbito dorsal por 1 h (benefício não comprovado, mas ainda recomendado como conforto). Repouso prolongado não previne cefaleia.
06
Interpretação do LCR — resumo
| Parâmetro | Normal | Bacteriana | Viral | Fúngica/TB |
|---|---|---|---|---|
| Aspecto | Cristalino | Turvo/purulento | Cristalino | Cristalino/xantocrômico |
| Leucócitos | < 5/mm³ | > 1.000 (PMN) | 10–1.000 (mono) | 10–500 (mono) |
| Glicose | 60–70% da glicemia | < 40 mg/dL (< 50%) | Normal | Baixa |
| Proteína | 15–45 mg/dL | > 200 mg/dL | Normal ou levemente ↑ | ↑↑ |
| Pressão | < 20 cmH₂O | ↑↑ | Normal ou ↑ | ↑↑ (cripto) |
07
Complicações & pitfalls
Cefaleia pós-PL10–30% com agulha de corte (Quincke); < 5% com atraumática (Sprotte). Tratamento: repouso, hidratação, analgésicos, cafeína. Persistente (> 72h): blood patch epidural.
Herniação transtentorialRisco real em HIC não diagnosticada. Prevenção: TC antes se déficit focal ou papiledema.
Sangramento / hematoma espinalRaro (< 0,1%). Investigar se dor radicular nova após PL.
Infecção (meningite iatrogênica)Raro. Usar máscara durante o procedimento — gotícula do operador é a principal fonte.
PL traumáticaAgulha lesa vasos do epidural → LCR com sangue. Diferencia de HSA: sangue clarea do tubo 1 para o 4 (traumática) vs. xantocromia uniforme (HSA).
O que não fazer
- Usar clorexidina alcoólica na pele da coluna → risco de aracnoidite química
- Bisel perpendicular às fibras da dura → mais trauma = mais cefaleia
- Medir pressão com paciente sentado → valor falsamente elevado, não confiável
- Não numerar os tubos → impossível diferenciar PL traumática de HSA
- Retardar antibiótico esperando TC + PL → cada hora sem antibiótico aumenta a mortalidade em meningite bacteriana