Perioperatório · Antes da sala

Avaliação e Preparo Pré-Operatório

ASA, capacidade funcional, fragilidade e o que realmente adia uma cirurgia

Não adiar se PA <180/110 mmHg
Baixa capacidade funcionaldobra o risco
Suplementação nutricional7–14 dias
Conceito: a avaliação pré-operatória não é um carimbo de autorização — é uma janela para otimizar o paciente. Por isso a pergunta útil não é "pode operar?", e sim "o que dá para corrigir no tempo que existe, e o que não muda desfecho nenhum se eu adiar?". Paciente hígido em procedimento de baixo risco pode ser avaliado no mesmo dia; o paciente de UTI é o extremo oposto — exige avaliação detalhada, planejamento do pós-operatório e tempo para intervir antes da sala.
SWEITZER B, PFEIFER K. Preoperative evaluation for noncardiac surgery in adults. UpToDate, 2025.
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Risco global: ASA, escada e calculadora

A estimativa de risco não serve só para decidir se opera. Ela dita o planejamento do pós-operatório — vaga de UTI, monitorização, expectativa de desmame — e é onde a conversa com a equipe cirúrgica começa.

Classificação ASA O padrão para categorizar risco global. O paciente de UTI cai quase sempre em ASA III (doença sistêmica grave), IV (doença sistêmica grave que ameaça a vida de forma constante) ou V (moribundo, não sobrevive sem a cirurgia). Correlação direta com complicações, admissão em UTI e mortalidade.
Capacidade funcional O teste da escada: quem não sobe dois lances de escada ou não caminha quatro quarteirões sem parar tem o dobro de complicações pós-operatórias graves. O METS trial mostrou que esse condicionamento é preditor de mortalidade mais forte que os fatores de risco cardíaco convencionais — daí a recomendação do questionário DASI para quantificar.
ACS NSQIP Surgical Risk Calculator Combina o risco intrínseco do procedimento com 20 fatores específicos do paciente, usando dados reais de milhares de hospitais. Previsão de complicações e mortalidade bem mais exata que a avaliação subjetiva à beira do leito.
HLATKY MA et al. A brief self-administered questionnaire to determine functional capacity (the Duke Activity Status Index). Am J Cardiol 64(10):651–654, 1989.
Por que a escada pesa tanto? Subir dois lances exige que coração, pulmão e músculo trabalhem juntos sob demanda súbita de oxigênio — exatamente o que a cirurgia impõe. É um teste de esforço barato, e ele integra reservas que nenhum exame isolado mede. Quando o paciente já está acamado na UTI, essa informação vem da história antes da internação, não do estado atual.
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Fragilidade pesa mais que idade

Acima de 65 anos o risco sobe, mas idade cronológica isolada é um marcador grosseiro. Fragilidade é o preditor forte.

Clinical Frailty Scale
até 5×
o risco de complicações, mortalidade e perda de independência no paciente frágil — motivo pelo qual o rastreio ativo de fragilidade substituiu o corte por idade.
Disfunção cognitiva prévia
delirium
declínio cognitivo e demência são frequentemente subdiagnosticados e aumentam fortemente o risco de delirium pós-operatório. Avaliar de rotina no idoso, antes da sala.
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Cardiovascular: o que adia de verdade

Esta é a seção onde mais se adia cirurgia sem ganho. Vale separar o que tem evidência de mudar desfecho do que só atrasa o procedimento.

CondiçãoCondutaPor quê
Hipertensão com PA < 180/110 mmHg Não adiar Não há evidência de que normalizar completamente a PA antes da cirurgia reduza complicações. Adiar por número isolado custa tempo e não entrega benefício.
Insuficiência cardíaca descompensada Adiar sempre que possível IC dá risco de morte pós-operatória significativamente maior que doença coronariana sem IC. Aqui o adiamento compra estabilização real.
Lesões estenóticas — estenose aórtica, estenose mitral Altíssimo risco Ventrículo com obstrução fixa à ejeção não aumenta débito sob demanda e não tolera queda de pré-carga nem taquicardia — exatamente o que a indução anestésica provoca.
Lesões regurgitantes — insuficiência aórtica ou mitral Tipicamente bem toleradas A vasodilatação da anestesia reduz a pós-carga e, com ela, a fração regurgitante — o oposto do que acontece na estenose.
Bradicardia sintomática, TV, BAV 2º grau Mobitz II ou BAVT Adiar para avaliação e marca-passo Exceto em emergência. São ritmos que podem degenerar sob anestesia, com pouca margem de resgate em decúbito e campo cirúrgico montado.
THOMPSON A et al. 2024 AHA/ACC/ACS/ASNC/HRS/SCA/SCCT/SCMR/SVM Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery. Circulation 150(10):e351–e452, 2024.
A armadilha da pressão alta na véspera A PA de 170/100 na visita pré-anestésica frequentemente é dor, ansiedade, bexiga cheia ou abstinência da medicação de casa — não hipertensão descontrolada. Trate a causa, não o número, e não cancele a cirurgia por ele.
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Pulmonar: rastrear apneia, contar cigarro

Apneia obstrutiva do sono Aumenta risco de via aérea difícil, de complicações cardiovasculares e de dificuldade no desmame ventilatório. Todo paciente deve ser rastreado com o questionário STOP-Bang.
Tabagismo Aumenta complicações pulmonares, infecção da ferida operatória e admissão em UTI. Registrar e abordar, mesmo quando a cirurgia não pode esperar.
CHUNG F et al. Society of Anesthesia and Sleep Medicine Guidelines on Preoperative Screening and Assessment of Adult Patients With Obstructive Sleep Apnea. Anesth Analg 123(2):452–473, 2016.
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Anemia: mesmo a leve conta

Anemia pré-operatória, mesmo leve, associa-se a aumento de mortalidade em 30 dias após cirurgia não cardíaca de grande porte. Em cirurgia eletiva, o procedimento deve ser adiado até que a causa seja diagnosticada e corrigida — com ferro ou eritropoietina, conforme o mecanismo.

Anemia não é só o número. Ela é, quase sempre, a manifestação de outra coisa: perda oculta, doença inflamatória, deficiência nutricional, doença renal. Transfundir na véspera corrige a hemoglobina e não corrige nenhuma delas — e a transfusão perioperatória tem seu próprio custo. Por isso a recomendação é diagnosticar e tratar, não transfundir e operar.

E, na mesma linha: o planejamento da profilaxia de trombose venosa profunda e embolia pulmonar é indispensável e começa aqui, não no pós-operatório.

Profilaxia de TEV, transfusão e anticoagulação no manejo perioperatório
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Renal, hepático, nutricional e metabólico

SistemaO que importaO que fazer
Renal Doença renal crônica prévia é o preditor mais forte de disfunção renal pós-operatória. Conhecer a função basal, evitar nefrotóxico e contraste desnecessário, planejar volume.
Hepático Doença hepática grave está intimamente ligada a maior risco cirúrgico, sobretudo em cirurgia de grande porte. Estratificar antes de aceitar procedimento eletivo de porte.
Nutricional Mais de 50% dos idosos submetidos a cirurgia de grande porte estão desnutridos; desnutrição é preditor forte de mortalidade e morbidade. Triagem e suplementação oral por 7 a 14 dias antes de grande cirurgia eletiva.
Diabetes Controle glicêmico ruim associa-se diretamente a mais infecção de sítio cirúrgico. Otimizar antes; no jejum e no pós-operatório, ver o ajuste das drogas crônicas.
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A regra dos exames pré-operatórios

Na UTI o paciente já tem dezenas de exames colhidos, o que torna fácil pedir mais um "já que está lá". A regra das diretrizes é clara e vale ainda mais aqui.

Evite exame de rotina
sem critério
Bateria de exames sem indicação clínica não melhora resultado cirúrgico — encarece o cuidado e atrasa o procedimento. E cada exame a mais é um achado incidental a mais para explicar.
Peça quando
muda a conduta
Sintoma novo ou instável, ou resultado que altera a conduta ou a técnica anestésica. Creatinina se vai receber contraste iodado ou tem DRC conhecida; ECG se há suspeita de arritmia nova ou o paciente tem IC.
Boa prática na UTI: ECG na admissão, para conhecer o ritmo basal do paciente — principalmente em quem tem alto risco de arritmia. Não é exame de rotina pré-operatório; é linha de base para comparar quando o monitor apitar às 3h.
O que não fazer
Confirme no protocolo do seu serviço. Critérios de adiamento, calculadoras adotadas e a rotina de exames pré-operatórios variam entre instituições e entre equipes cirúrgicas. Esta página é material de apoio ao raciocínio — não substitui o protocolo institucional nem o julgamento clínico à beira do leito.
SWEITZER B, PFEIFER K. Preoperative evaluation for noncardiac surgery in adults. UpToDate, 2025. THOMPSON A et al. 2024 AHA/ACC/ACS/ASNC/HRS/SCA/SCCT/SCMR/SVM Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery. Circulation 150(10):e351–e452, 2024. AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. ACS NSQIP Surgical Risk Calculator. Chicago: ACS, 2017. HLATKY MA et al. A brief self-administered questionnaire to determine functional capacity (the Duke Activity Status Index). Am J Cardiol 64(10):651–654, 1989. CHUNG F et al. Society of Anesthesia and Sleep Medicine Guidelines on Preoperative Screening and Assessment of Adult Patients With Obstructive Sleep Apnea. Anesth Analg 123(2):452–473, 2016.