Profilaxia Antibiótica Cirúrgica
Timing, dose por peso, repique e a hora de suspender
Os quatro princípios de ouro
A infecção de sítio cirúrgico é uma das infecções associadas à assistência mais comuns e mais caras. Para o intensivista, acertar aqui previne infecção — e, principalmente, evita a complicação sistêmica do antibiótico usado em excesso.
- 1O momento exato. O antibiótico deve ser iniciado e concluído dentro de 60 minutos antes da incisão. Exceção: vancomicina e fluoroquinolonas (ex.: ciprofloxacino) precisam iniciar 120 minutos antes, porque o gotejamento é mais lento.
- 2Dose pelo peso. Cefazolina é a droga principal da profilaxia, e a dose acompanha o peso para garantir nível tecidual adequado: < 120 kg → 2 g IV; ≥ 120 kg → 3 g IV.
- 3Repique intraoperatório. Obrigatório se a cirurgia durar mais que duas meias-vidas da droga — para a cefazolina, repique a cada 4 horas. Também é mandatório em perda sanguínea excessiva (> 1500 mL) ou em situações que encurtam a meia-vida, como grandes queimados.
- 4Quando suspender. A profilaxia termina com o fechamento da ferida. Dreno não justifica manter antibiótico. Se houver justificativa institucional para estender, a duração total nunca deve ultrapassar 24 horas.
Vancomicina: quando, e por que nunca sozinha
Vancomicina não é droga de rotina em profilaxia cirúrgica. Está indicada apenas para colonização comprovada por MRSA, alto risco para MRSA, surto na instituição, ou alergia grave mediada por IgE a beta-lactâmico.
Guia rápido por sistema cirúrgico
A cefazolina é o agente de escolha para quase todos os procedimentos — eficácia, segurança e baixo custo. As exceções abaixo são o que vale decorar.
| Cirurgia | Droga | Repique | Pós-operatório |
|---|---|---|---|
| Cardíaca bypass, troca valvar, marca-passo, dispositivos de assistência |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Única cirurgia em que estender até 24 h é historicamente aceito nos protocolos — e nunca além disso. |
| Torácica não cardíaca e vascular lobectomia, pneumonectomia, revascularização arterial, amputação por isquemia |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV ampicilina-sulbactam 3 g IV (na torácica) |
Cefazolina 4/4 h Amp-sulbactam 2/2 h |
Suspender imediatamente ao final da cirurgia |
| Neurocirurgia craniotomia eletiva, derivação liquórica, bomba intratecal |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Suspender imediatamente ao fechamento |
| Gastroduodenal, vias biliares e delgado não obstruído | Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Encerra com o fechamento |
| Colorretal, apêndice e delgado obstruído | Cefazolina + metronidazol 500 mg IV | Cefazolina 4/4 h Metronidazol sem repique |
Exige cobertura de anaeróbios — é o que muda em relação ao trato alto. |
| Ortopédica coluna, fratura de quadril, fixadores, próteses articulares |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Procedimentos limpos menores em mãos, pés ou joelhos sem corpo estranho dispensam antibiótico. |
| Geniturinária aberta ou laparoscópica |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Cistoscopia com manipulação e biópsia de próstata: ciprofloxacino 500 mg VO ou 400 mg IV, ou sulfametoxazol-trimetoprima. |
| Ginecológica e obstétrica histerectomia, cesariana |
Cefazolina 2 g ou 3 g IV | 4/4 h | Encerra com o fechamento |
| Cabeça e pescoço | Limpa com prótese: cefazolina Limpa-contaminada: cefazolina + metronidazol ou ampicilina-sulbactam 3 g IV |
Cefazolina 4/4 h Amp-sulbactam 2/2 h |
Cirurgia limpa sem prótese não precisa de antibiótico. |
| Mama | Oncológica (mastectomia, dissecção axilar): cefazolina | 4/4 h | Limpas e estéticas (mamoplastia redutora, lumpectomia) sem fator de risco: não há indicação de profilaxia. |
| Percutâneos | Endoprótese / endograft: cefazolina 2 g ou 3 g IV dose única | — | Angiografia, acesso venoso central e filtro de veia cava não precisam de profilaxia de rotina. |
Profilaxia acabou, tratamento começou
- Prescrever a cefazolina "na indução" sem garantir que a infusão terminou antes da incisão.
- Usar 2 g de cefazolina em paciente com 130 kg.
- Esquecer o repique de 4/4 h em cirurgia longa, ou após perda > 1500 mL.
- Manter o antibiótico enquanto o dreno estiver no lugar.
- Estender profilaxia além de 24 h em qualquer cirurgia.
- Trocar cefazolina por vancomicina achando que é cobertura mais ampla.
- Deixar de cobrir anaeróbio em colorretal, apêndice ou delgado obstruído.
- Prescrever profilaxia para passagem de CVC, angiografia ou filtro de veia cava.
- Chamar de profilaxia o antibiótico que, na verdade, virou tratamento de víscera rota.
Profilaxia é dose certa na hora certa: prolongar não protege mais, seleciona. Encerrado o tempo previsto, o paciente segue para o manejo do pós-operatório. E se a suspeita virar infecção estabelecida, a decisão deixa de ser profilática e passa a ser terapêutica — outra pergunta, que começa pelo risco que já havia sido estratificado.
Levar o caso ao assistente de conduta