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Trombose venosa profunda

A prescrição mais moderna da TVP cabe no bolso do paciente: a imensa maioria trata em casa, com DOAC, andando. O trabalho do plantão é responder duas perguntas — quem não pode ir — e escolher o anticoagulante pelo paciente, não pelo hábito.

Serve para a TVP de membro inferior confirmada — da panturrilha sintomática que vai para casa com a receita à phlegmasia que aciona a cirurgia vascular. O tratamento é um só (anticoagular); a arte está em onde tratar e com o quê — e é isso que esta página organiza. O irmão embólico tem página própria: TEP sintomático associado muda a estratificação, não esta prescrição.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Condutas seguem CHEST 2021 (2ª atualização de TEV) e ASH 2020, e não substituem o protocolo do seu serviço. O preço do DOAC ainda decide condutas no SUS — a página traz o caminho com varfarina bem feito exatamente para esse cenário, sem tratá-lo como segunda classe.

Como usar.

A ordem é a do raciocínio: confirmar, decidir casa ou hospital (a pergunta que define o caso), escolher o anticoagulante pelo paciente — geral, câncer, gestante, rim, SAF —, o internado e suas exceções, e a duração, que é prescrição tanto quanto a dose. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".

Item por item

Confirmar antes de anticoagular — probabilidade, D-dímero, ultrassom
a perna inchada tem dez diagnósticos; só um deles leva meses de anticoagulante
Escore de Wells (TVP) primeiro · probabilidade baixa → D-dímero: negativo exclui, sem imagem · probabilidade moderada/alta ou D-dímero positivo → USG com compressão do membro
Sintoma respiratório junto (dispneia, dor pleurítica, taquicardia)? → estratificar como TEP — é a mesma doença em outro endereço, e é o TEP que define gravidade
USG indisponível agora + probabilidade alta + sangramento improvável → 1ª dose de anticoagulante antes da imagem é legítima — documentar o raciocínio
Por quê & armadilhas

A TVP é diagnóstico que compromete meses: quem sai desta página sai com 3 a 6 meses de anticoagulação e um rótulo que influencia o resto da vida (item 09) — celulite, cisto de Baker roto e ruptura de fibras não merecem esse pacote. O D-dímero só serve para excluir em probabilidade baixa: positivo não confirma nada (sobe com infecção, pós-operatório, gestação, idade). E a exceção do fim é deliberada: com probabilidade alta, atrasar a primeira dose até o ultrassom de segunda-feira é o erro maior — uma dose de anticoagulante custa menos que uma noite de trombo crescendo.

CHEST 2021 · ASH 2020 — diagnóstico dirigido por probabilidade.
Casa ou hospital? — a maioria vai para casa hoje
internar TVP é exceção com nome e sobrenome; o padrão é a receita e a orientação
Tratamento ambulatorial = padrão (DOAC, item 03) se: sem TEP de risco, sem sangramento ativo/alto risco, função renal conhecida e adequada, e paciente que entende e consegue seguir o tratamento
TVP distal isolada (panturrilha) — vigiar ou anticoagular?
A vigilância existe, mas é a exceção. A diretriz permite ultrassom seriado por 2 semanas (≈ D0, D7 e D14) no lugar da anticoagulação — recomendação fraca — e para quem tem, ao mesmo tempo: sintomas leves, nenhum fator de extensão da lista abaixo e garantia de que volta para os exames
Anticoagule — não vigie — se houver qualquer um: câncer ativo · TEV prévio · não provocada · paciente internado · D-dímero muito elevado · trombo extenso (> 5 cm de comprimento, > 7 mm de diâmetro ou múltiplas veias) · trombo encostando na trifurcação poplítea · trombofilia · imobilidade persistente · sintomas intensos
Se optar por vigiar: não estendeu em 2 semanas → não anticoagular (recomendação forte) · estendeu dentro das veias distais → anticoagular · estendeu para proximal → anticoagular (recomendação forte)
Se optar por tratar: mesmo regime da proximal e — este é o dado novo — por 3 meses, não 6 semanas: encurtar o curso dobrou a recorrência no ensaio que comparou os dois
!
Na prática de beira-leito, a maioria dos pacientes de UTI e de enfermaria já está fora da janela da vigilância — internado, com câncer, imóvel ou com trombo extenso são todos critérios de anticoagular. Vigilância seriada é conduta de ambulatorial de baixo risco que você tem certeza de que volta: sem essa certeza, o "seriado" vira um único ultrassom feito e nenhum controle — que é pior que qualquer uma das duas condutas.
Interna quem tem: TEP associado com critério de internação (estratificação) · phlegmasia / TVP ílio-femoral maciça (item 07) · alto risco de sangramento (plaquetopenia, coagulopatia, hepatopatia, cirurgia recente) · ClCr < 30 mL/min somado a outro risco · dor incapacitante · contexto social que inviabiliza tratar em casa
Por quê & armadilhas

A pergunta que essa vigilância levanta é justa: trocar anticoagulante por ultrassom parece deixar um trombo sem tratamento. O raciocínio por trás é que a TVP distal isolada de baixo risco tem história natural benigna — no ensaio que randomizou justamente esses pacientes, a heparina de baixo peso não reduziu extensão nem embolia em comparação com placebo, e aumentou sangramento. Ou seja, não é "vigiar em vez de tratar por economia": é não expor a sangramento quem não ganha nada com a droga. O que torna a estratégia perigosa não é o conceito, é o cenário errado — paciente de risco, ou paciente que não volta para o segundo exame. Fora dessa janela estreita, anticoagular é a conduta certa, e se você anticoagular, o curso é de 3 meses.

Este é o item que mais mudou em vinte anos e o que o plantão menos atualizou: a TVP não complicada tratada em casa tem o mesmo desfecho da internada — com menos infecção hospitalar, menos custo e o paciente na própria cama. A internação "para observar" não observa nada que a receita não faça; o que ela faz é expor um paciente anticoagulado ao hospital. A armadilha inversa também existe: mandar para casa a phlegmasia ("é só uma TVP grande") ou o ClCr de 22 com rivaroxabana no bolso. A lista de exceções é curta de propósito — é para conferir, não para decorar.

Domicílio: Stevens SM, Woller SC, Baumann Kreuziger L, et al. Chest. 2021;160(6):e545–e608 · ASH 2020 · TVP distal isolada: CHEST 2021 (mantido na atualização de 2024) — ultrassom seriado por 2 semanas em vez de anticoagulação na ausência de sintomas graves e de fatores de risco de extensão (recomendação fraca, certeza moderada); sem extensão, não anticoagular (forte, moderada); extensão para proximal, anticoagular (forte, moderada) · Ensaio que sustenta não tratar o baixo risco: Righini M, et al. CACTUS. Lancet Haematol. 2016;3(12):e556–e562 — nadroparina não reduziu extensão nem TEP e aumentou sangramento · Duração quando se opta por tratar: Ageno W, et al. RIDTS. BMJ. 2022;379:e072623 — 3 meses superiores a 6 semanas de rivaroxabana na recorrência.
População geral: DOAC direto, sem heparina antes — atenção às duas fases
apixabana ou rivaroxabana começam sozinhas; a dose de ataque tem prazo de validade
Apixabana 10 mg VO 12/12 h por 7 dias → 5 mg VO 12/12 h · ou rivaroxabana 15 mg VO 12/12 h por 21 dias → 20 mg VO 1×/dia (com alimento) — duração no item 09
Dabigatrana e edoxabana existem, mas exigem 5 dias de heparina/enoxaparina antes — na prática, ficam para quem já saiu do parenteral, não para começar no PS
Na receita, escrever as duas fases com datas ("15 mg 12/12 h até __/__, depois 20 mg 1×/dia") — a transição é o ponto onde o tratamento ambulatorial quebra
Por quê & armadilhas

Os DOACs venceram a varfarina no TEV por praticidade com a mesma eficácia e menos sangramento maior — e apixabana e rivaroxabana têm o desenho que o PS precisa: começam sem parenteral. Mas o preço da conveniência é a fase de ataque: os primeiros dias pedem dose dobrada porque é quando o trombo mais recorre, e o erro clássico do ambulatório é o paciente que "continuou os 15 mg de 12/12" por três meses (anticoagulação dupla crônica) ou que "já passou direto para 20" na primeira semana (subtratamento no período mais perigoso). A receita com datas escritas não é zelo burocrático — é a prescrição inteira. Atenção às doses daqui: são as do TEV, diferentes das da FA.

CHEST 2021 — DOAC preferido sobre varfarina no TEV · EINSTEIN · AMPLIFY.
As quatro populações que mudam a escolha — câncer, gestante, rim, SAF
antes de repetir a receita do item 03, conferir se o paciente é um destes quatro
Câncer ativo: apixabana 10 → 5 mg 12/12 (menor sangramento com eficácia igual) ou enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12 h — a varfarina não está proibida: segue como alternativa quando acesso, interação, rim ou contraindicação inviabilizam as duas primeiras — preferir enoxaparina se tumor gastrointestinal/geniturinário não ressecado (DOAC sangra mais nesses sítios) · varfarina não é opção aqui
Gestante: enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12 h — a HBPM é a preferida; a HNF também serve em situações selecionadas (rim muito ruim, parto iminente, necessidade de reversão rápida). DOAC e varfarina não se usam no anteparto; no pós-parto e na amamentação, a varfarina é compatível conforme protocolo · seguimento conjunto com obstetrícia; o manejo periparto é planejado, não improvisado
ClCr < 30 mL/min: rivaroxabana e dabigatrana fora · apixabana/edoxabana fora se ClCr < 25 · o caminho seguro: HNF ou varfarina (item 05) — o rim muda agente e dose; a internação se decide com os outros riscos juntos, não pelo ClCr sozinho
SAF (antifosfolípide), prótese valvar mecânica, estenose mitral reumática: varfarina — DOACs falharam ou não foram testados nesses três; não é preferência, é veto
Por quê & armadilhas

O item 03 cobre a maioria — este cobre quem o item 03 machucaria. A gestante é a lacuna mais perigosa do plantão (rivaroxabana atravessa a placenta; varfarina é teratogênica — a enoxaparina não atravessa e por isso reina sozinha). No câncer, o detalhe é o sítio: o tumor de trato digestivo sangra sob DOAC de um jeito que a enoxaparina poupa. Na SAF, o ensaio que comparou rivaroxabana com varfarina foi interrompido por excesso de trombose arterial no braço do DOAC — é dos raros lugares onde a droga velha é comprovadamente melhor. E o rim lembra o óbvio esquecido: DOAC é droga de eliminação renal prescrita, muitas vezes, sem ninguém olhar a creatinina.

CHEST 2021 — TEV e câncer, populações especiais · ASH 2020 · CARAVAGGIO · TRAPS (SAF).
Varfarina bem feita — a ponte tem regra dupla, não uma
quando ela é a escolha (item 04) ou a realidade (custo): fazer direito muda tudo
Iniciar juntos: varfarina 5 mg VO 1×/dia + enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12 h · começar com 2,5 mg se: > 70 anos, amiodarona em uso, hepatopatia, desnutrição
Suspender a enoxaparina só com AS DUAS condições: mínimo 5 dias de sobreposição E INR ≥ 2 em duas medidas com ~24 h de intervalo — uma sem a outra não basta
Alvo INR 2–3 · dosar INR a partir do 3º dia · após estabilizar: controle mensal, com plano escrito de para onde o paciente leva o resultado
Por quê & armadilhas

A regra dupla existe porque o INR mente no início: a varfarina derruba primeiro o fator VII (meia-vida curta), que sobe o INR antes de a anticoagulação real existir — e derruba junto as proteínas C e S, criando uma janela pró-trombótica nos primeiros dias. O INR de 2,4 no terceiro dia é cosmético: suspender a enoxaparina nessa hora, como o hábito manda, deixa o paciente descoberto exatamente quando o trombo mais cresce. Os 5 dias são o tempo de os fatores II e X caírem de verdade. É a parte da varfarina que não está no INR — e é a que evita a "TVP que progrediu apesar do INR terapêutico".

CHEST 2021 · ASH 2020 — sobreposição mínima de 5 dias + INR ≥ 2.
Parenteral do internado: enoxaparina — e as duas exceções com nome
rim manda para HNF; HIT manda para fondaparinux
1ª escolha: enoxaparina 1 mg/kg SC 12/12 h — sem bolus, sem "dose de ataque": a dose de TEV é esta e completa
ClCr < 30 → HNF EV, nomograma de TEV: bolus 80 UI/kg → infusão 18 UI/kg/h, TTPa 6/6 h até o alvo (1,5–2,5× o basal) — preparo, tabela de ajuste e armadilhas na página do TEP, que é a fonte única do nomograma
HIT (plaquetopenia por heparina, atual ou prévia) → fondaparinux SC 1×/dia — uso off-label nessa indicação em algumas jurisdições, com hematologia e protocolo institucional junto: < 50 kg → 5 mg · 50–100 kg → 7,5 mg · > 100 kg → 10 mg — e NENHUMA heparina, nem no flush do cateter
Por quê & armadilhas

Dois esclarecimentos que evitam erro de dose. Primeiro: o nomograma de HNF do TEV é 80/18 — mais agressivo que o da SCA (60/12) — e as tabelas que misturam os dois produzem pacientes subanticoagulados; na dúvida, a página do TEP tem o esquema completo, e esta página não o duplica de propósito. Segundo: a HIT é o cenário em que a resposta reflexa ("troca por enoxaparina") mata — a enoxaparina cruza-reage com o anticorpo da HIT; o fondaparinux não. E a suspeita de HIT tem gatilho simples: plaquetas caindo > 50% entre o 5º e o 10º dia de qualquer heparina — contar plaquetas é parte da prescrição de heparina, não exame de rotina dispensável.

CHEST 2021 · Raschke 1993 (nomograma por peso) — TEV 80/18.
Phlegmasia e a ílio-femoral maciça — a TVP que é emergência vascular
perna azul, tensa, dolorosa, pulso sumindo: aqui o telefonema vem antes da bomba
Reconhecer: phlegmasia cerulea dolens = membro cianótico + edema tenso + dor intensa ± comprometimento arterial — é isquemia por congestão venosa, com membro (e vida) em risco
Fazer agora: acionar cirurgia vascular · anticoagulação plena com HNF EV (80/18 — desligável se o paciente for para procedimento) · membro elevado · analgesia real (opioide se preciso) · volume se hipotenso (o membro sequestra litros)
Com a vascular: trombólise dirigida por cateter / trombectomia é decisão do especialista para phlegmasia e ílio-femoral extensa selecionada — não é conduta de plantão isolado
Depois do procedimento — quando entram AAS e clopidogrel
Só anticoagulação (sem antiagregante) é o padrão de quem não recebeu stent: trombectomia ou trombólise isoladas não criam, por si, indicação de antiplaquetário
Com stent venoso (ílio-femoral, May-Thurner, oclusão crônica recanalizada): a prática mais usada é anticoagulação plena + antiagreganteAAS 100 mg/dia isolado, ou AAS + clopidogrel 75 mg/dia por 1–3 meses nos casos de maior risco de trombose do stent (extensão até a VCI, oclusão crônica, mau influxo, stent longo), seguidos de AAS isolado
Anticoagulação: mantida por 6–12 meses após o stent na maioria dos serviços — indefinida se TEV recorrente, trombofilia ou câncer ativo · a duração da TVP em si segue o item 09; o stent só a prolonga, nunca a encurta
Some o risco antes de somar as drogas: anticoagulante + duplo antiagregante é sangramento de verdade. Escreva no prontuário a data de parada do clopidogrel no dia em que o prescreve — o esquema que ninguém revisa é o que sangra em três meses
!
Este é o ponto mais frágil da página, e ele vai declarado: não existe diretriz de sociedade que estabeleça o esquema antitrombótico após stent venoso. O que existe são séries retrospectivas — nas quais a patência do stent foi melhor com antiagregante somado à anticoagulação do que com anticoagulação isolada — registros internacionais e revisão de painel de especialistas. Trate como prática consensual de baixa evidência: a escolha é do cirurgião vascular que implantou, e a prescrição de enfermaria só a reproduz.
Por quê & armadilhas

Sobre o antiagregante: a lógica é a mesma do stent arterial, mas transplantada para um leito de baixa pressão e fluxo lento, onde a fibrina pesa mais que a plaqueta — por isso a anticoagulação continua sendo a base e o antiplaquetário é adjuvante da patência, não substituto. E é por isso também que ele não se justifica em quem não tem corpo estranho na veia: sem stent, o antiagregante só adiciona sangramento.

A phlegmasia é a única TVP em que "anticoagular e observar" pode custar o membro: a oclusão venosa total sobe a pressão no compartimento até estrangular o influxo arterial — gangrena venosa, choque pelo sequestro de volume, amputação. É rara o bastante para nunca ter sido vista e grave o bastante para não poder ser perdida. A HNF entra no lugar da enoxaparina pela mesma lógica da dissecção: paciente que pode estar no centro cirúrgico em duas horas precisa de anticoagulante que desliga. E a trombólise dirigida, que na TVP comum não se indica (o ATTRACT enterrou o uso rotineiro), aqui vira ferramenta de salvamento — a exceção que confirma a regra do item seguinte.

Antitrombótico após stent venoso: Kishore S, Khaja MS, Thornburg B, et al. Antithrombotic Therapy After Venous Interventions — AJR Expert Panel Narrative Review. AJR Am J Roentgenol. 2022;219(2):175–187 — inexistência de diretriz de sociedade, AAS/clopidogrel como agentes preferidos e prática de 6–12 meses de anticoagulação · Endo M, Jahangiri Y, Horikawa M, et al. Antiplatelet Therapy is Associated with Stent Patency After Iliocaval Venous Stenting. Cardiovasc Intervent Radiol. 2018;41(11):1691–1698 — patência superior com antiagregante somado à anticoagulação (retrospectivo) · Stevens SM, et al. Chest. 2021;160(6):e545–e608 — trombólise dirigida reservada a TVP com ameaça de membro.
O kit do internado — e a ordem mais importante: andar
deambulação precoce é prescrição; repouso absoluto é mito com data de validade vencida
Deambulação precoce assim que anticoagulado e a dor permitir — escrever na prescrição, porque a enfermaria ainda prescreve o contrário · membro elevado quando sentado/deitado ajuda o edema
Dieta conforme quadro · analgesia: dipirona 1 g VO/EV 6/6 h se dor — AINE não (sangramento somado ao anticoagulante) · antiemético se náusea: ondansetrona 4–8 mg EV — ondansetrona prolonga QT: corrigir K e Mg, e considerar ECG em cardiopata, bradiarritmia, QT longo ou uso de outro prolongador (amiodarona)
Omeprazol 40 mg 1×/dia só com indicação (não é carimbo de internação) · glicemia se diabético/crítico: alvo 140–180 mg/dL · NÃO somar profilaxia de TEV — anticoagulação plena já é toda a proteção
Por quê & armadilhas

O repouso absoluto "para o trombo não soltar" é a prescrição zumbi desta doença: morreu na evidência há vinte anos (deambular anticoagulado não aumenta embolia — e a imobilidade que a prescrição impõe é literalmente o fator de risco que causou a TVP) e continua aparecendo em papeleta. O resto do kit segue as regras da casa: dipirona no lugar do AINE que sangraria sobre o DOAC, omeprazol com indicação em vez de reflexo, insulina com alvo em vez de escadinha cega. E a dupla proibida de sempre: paciente em dose plena com enoxaparina 40 mg "profilática" por cima é erro de conciliação que a farmácia deveria devolver — mas é o prescritor que não pode escrever.

CHEST — deambulação precoce · consenso de cuidado do internado anticoagulado.
Rotular a TVP e dar prazo — provocada, não provocada, e o dia de reavaliar
a pergunta "por que este paciente trombosou?" vale mais que qualquer trombofilia de painel
Provocada por fator transitório maior (cirurgia, imobilização, trauma): anticoagular 3 meses e parar — prolongar só adiciona sangramento
Não provocada (ou fator persistente): mínimo 3–6 meses e reavaliação formal — candidata a extensão com dose reduzida: apixabana 2,5 mg 12/12 h ou rivaroxabana 10 mg 1×/dia após os 6 meses iniciais · câncer ativo: enquanto o câncer estiver ativo
Alta com: receita com fases e datas (item 03) · sinais de alarme escritos (dispneia súbita = TEP; sangramento) · retorno ambulatorial marcado — a decisão dos 3 meses precisa de um dono · painel de trombofilia: não no evento agudo
Por quê & armadilhas

O rótulo provocada/não provocada é a decisão mais barata e mais consequente da doença: define se o anticoagulante dura 3 meses ou anos, e se escreve no dia do diagnóstico, quando a história está fresca — não na consulta de revisão, quando "acho que ele tinha operado" vira chute. A TVP não provocada recorre ~10% ao ano sem tratamento; a dose estendida reduzida corta essa recorrência com sangramento próximo do placebo — mas só se alguém reavaliar: a receita sem retorno marcado vira anticoagulação eterna por inércia ou interrupção por conta própria. E o painel de trombofilia no agudo é duplamente inútil — o trombo e a heparina falseiam os resultados, e o resultado raramente muda a conduta dos primeiros meses.

CHEST 2021 — duração por fator provocador; extensão com dose reduzida · AMPLIFY-EXT · EINSTEIN-CHOICE.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Dieta conforme o quadro — via oral se desperta, deglute e não há procedimento previsto · zero se rebaixado, instável ou com via aérea em risco, reavaliando cedo · sonda enteral se o jejum passar de 48–72 h
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — fisioterapia motora e respiratória desde o primeiro dia, conforme tolerância
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% na maioria dos adultos · 88–92% se houver DPOC ou risco de hipercapnia. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Individualizar sempre: o escore diz se há indicação, não se este paciente deve receber.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho na TVP.

Repouso absoluto no leito — imobilidade é causa de TVP, não tratamento. Internação "para observar" a TVP não complicada. AINE por cima do anticoagulante. Profilaxia de TEV somada à dose plena. Trombólise (sistêmica ou dirigida) na TVP comum — reservada à ameaça de membro, com a vascular. Filtro de veia cava em quem pode ser anticoagulado. DOAC sem olhar a creatinina — e qualquer DOAC ou varfarina na gestante. Meia elástica "de rotina" para prevenir síndrome pós-trombótica — não previne (SOX); trate o edema sintomático, não o protocolo. D-dímero de controle para "ver se curou". E suspender a enoxaparina no primeiro INR ≥ 2 — a regra é dupla (item 05).

Prescreveu — e agora?

O paciente de casa sai com receita datada, alarmes escritos e retorno marcado — a prescrição só termina na reavaliação dos 3 meses. Dispneia no meio do caminho é a página do TEP. E a phlegmasia que você reconheceu no item 07 é o telefonema mais importante desta página.

Levar o caso ao assistente de conduta
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