Trombose venosa profunda
A prescrição mais moderna da TVP cabe no bolso do paciente: a imensa maioria trata em casa, com DOAC, andando. O trabalho do plantão é responder duas perguntas — quem não pode ir — e escolher o anticoagulante pelo paciente, não pelo hábito.
Serve para a TVP de membro inferior confirmada — da panturrilha sintomática que vai para casa com a receita à phlegmasia que aciona a cirurgia vascular. O tratamento é um só (anticoagular); a arte está em onde tratar e com o quê — e é isso que esta página organiza. O irmão embólico tem página própria: TEP sintomático associado muda a estratificação, não esta prescrição.
Condutas seguem CHEST 2021 (2ª atualização de TEV) e ASH 2020, e não substituem o protocolo do seu serviço. O preço do DOAC ainda decide condutas no SUS — a página traz o caminho com varfarina bem feito exatamente para esse cenário, sem tratá-lo como segunda classe.
A ordem é a do raciocínio: confirmar, decidir casa ou hospital (a pergunta que define o caso), escolher o anticoagulante pelo paciente — geral, câncer, gestante, rim, SAF —, o internado e suas exceções, e a duração, que é prescrição tanto quanto a dose. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
A TVP é diagnóstico que compromete meses: quem sai desta página sai com 3 a 6 meses de anticoagulação e um rótulo que influencia o resto da vida (item 09) — celulite, cisto de Baker roto e ruptura de fibras não merecem esse pacote. O D-dímero só serve para excluir em probabilidade baixa: positivo não confirma nada (sobe com infecção, pós-operatório, gestação, idade). E a exceção do fim é deliberada: com probabilidade alta, atrasar a primeira dose até o ultrassom de segunda-feira é o erro maior — uma dose de anticoagulante custa menos que uma noite de trombo crescendo.
CHEST 2021 · ASH 2020 — diagnóstico dirigido por probabilidade.A pergunta que essa vigilância levanta é justa: trocar anticoagulante por ultrassom parece deixar um trombo sem tratamento. O raciocínio por trás é que a TVP distal isolada de baixo risco tem história natural benigna — no ensaio que randomizou justamente esses pacientes, a heparina de baixo peso não reduziu extensão nem embolia em comparação com placebo, e aumentou sangramento. Ou seja, não é "vigiar em vez de tratar por economia": é não expor a sangramento quem não ganha nada com a droga. O que torna a estratégia perigosa não é o conceito, é o cenário errado — paciente de risco, ou paciente que não volta para o segundo exame. Fora dessa janela estreita, anticoagular é a conduta certa, e se você anticoagular, o curso é de 3 meses.
Este é o item que mais mudou em vinte anos e o que o plantão menos atualizou: a TVP não complicada tratada em casa tem o mesmo desfecho da internada — com menos infecção hospitalar, menos custo e o paciente na própria cama. A internação "para observar" não observa nada que a receita não faça; o que ela faz é expor um paciente anticoagulado ao hospital. A armadilha inversa também existe: mandar para casa a phlegmasia ("é só uma TVP grande") ou o ClCr de 22 com rivaroxabana no bolso. A lista de exceções é curta de propósito — é para conferir, não para decorar.
Domicílio: Stevens SM, Woller SC, Baumann Kreuziger L, et al. Chest. 2021;160(6):e545–e608 · ASH 2020 · TVP distal isolada: CHEST 2021 (mantido na atualização de 2024) — ultrassom seriado por 2 semanas em vez de anticoagulação na ausência de sintomas graves e de fatores de risco de extensão (recomendação fraca, certeza moderada); sem extensão, não anticoagular (forte, moderada); extensão para proximal, anticoagular (forte, moderada) · Ensaio que sustenta não tratar o baixo risco: Righini M, et al. CACTUS. Lancet Haematol. 2016;3(12):e556–e562 — nadroparina não reduziu extensão nem TEP e aumentou sangramento · Duração quando se opta por tratar: Ageno W, et al. RIDTS. BMJ. 2022;379:e072623 — 3 meses superiores a 6 semanas de rivaroxabana na recorrência.Os DOACs venceram a varfarina no TEV por praticidade com a mesma eficácia e menos sangramento maior — e apixabana e rivaroxabana têm o desenho que o PS precisa: começam sem parenteral. Mas o preço da conveniência é a fase de ataque: os primeiros dias pedem dose dobrada porque é quando o trombo mais recorre, e o erro clássico do ambulatório é o paciente que "continuou os 15 mg de 12/12" por três meses (anticoagulação dupla crônica) ou que "já passou direto para 20" na primeira semana (subtratamento no período mais perigoso). A receita com datas escritas não é zelo burocrático — é a prescrição inteira. Atenção às doses daqui: são as do TEV, diferentes das da FA.
CHEST 2021 — DOAC preferido sobre varfarina no TEV · EINSTEIN · AMPLIFY.O item 03 cobre a maioria — este cobre quem o item 03 machucaria. A gestante é a lacuna mais perigosa do plantão (rivaroxabana atravessa a placenta; varfarina é teratogênica — a enoxaparina não atravessa e por isso reina sozinha). No câncer, o detalhe é o sítio: o tumor de trato digestivo sangra sob DOAC de um jeito que a enoxaparina poupa. Na SAF, o ensaio que comparou rivaroxabana com varfarina foi interrompido por excesso de trombose arterial no braço do DOAC — é dos raros lugares onde a droga velha é comprovadamente melhor. E o rim lembra o óbvio esquecido: DOAC é droga de eliminação renal prescrita, muitas vezes, sem ninguém olhar a creatinina.
CHEST 2021 — TEV e câncer, populações especiais · ASH 2020 · CARAVAGGIO · TRAPS (SAF).A regra dupla existe porque o INR mente no início: a varfarina derruba primeiro o fator VII (meia-vida curta), que sobe o INR antes de a anticoagulação real existir — e derruba junto as proteínas C e S, criando uma janela pró-trombótica nos primeiros dias. O INR de 2,4 no terceiro dia é cosmético: suspender a enoxaparina nessa hora, como o hábito manda, deixa o paciente descoberto exatamente quando o trombo mais cresce. Os 5 dias são o tempo de os fatores II e X caírem de verdade. É a parte da varfarina que não está no INR — e é a que evita a "TVP que progrediu apesar do INR terapêutico".
CHEST 2021 · ASH 2020 — sobreposição mínima de 5 dias + INR ≥ 2.Dois esclarecimentos que evitam erro de dose. Primeiro: o nomograma de HNF do TEV é 80/18 — mais agressivo que o da SCA (60/12) — e as tabelas que misturam os dois produzem pacientes subanticoagulados; na dúvida, a página do TEP tem o esquema completo, e esta página não o duplica de propósito. Segundo: a HIT é o cenário em que a resposta reflexa ("troca por enoxaparina") mata — a enoxaparina cruza-reage com o anticorpo da HIT; o fondaparinux não. E a suspeita de HIT tem gatilho simples: plaquetas caindo > 50% entre o 5º e o 10º dia de qualquer heparina — contar plaquetas é parte da prescrição de heparina, não exame de rotina dispensável.
CHEST 2021 · Raschke 1993 (nomograma por peso) — TEV 80/18.Sobre o antiagregante: a lógica é a mesma do stent arterial, mas transplantada para um leito de baixa pressão e fluxo lento, onde a fibrina pesa mais que a plaqueta — por isso a anticoagulação continua sendo a base e o antiplaquetário é adjuvante da patência, não substituto. E é por isso também que ele não se justifica em quem não tem corpo estranho na veia: sem stent, o antiagregante só adiciona sangramento.
A phlegmasia é a única TVP em que "anticoagular e observar" pode custar o membro: a oclusão venosa total sobe a pressão no compartimento até estrangular o influxo arterial — gangrena venosa, choque pelo sequestro de volume, amputação. É rara o bastante para nunca ter sido vista e grave o bastante para não poder ser perdida. A HNF entra no lugar da enoxaparina pela mesma lógica da dissecção: paciente que pode estar no centro cirúrgico em duas horas precisa de anticoagulante que desliga. E a trombólise dirigida, que na TVP comum não se indica (o ATTRACT enterrou o uso rotineiro), aqui vira ferramenta de salvamento — a exceção que confirma a regra do item seguinte.
Antitrombótico após stent venoso: Kishore S, Khaja MS, Thornburg B, et al. Antithrombotic Therapy After Venous Interventions — AJR Expert Panel Narrative Review. AJR Am J Roentgenol. 2022;219(2):175–187 — inexistência de diretriz de sociedade, AAS/clopidogrel como agentes preferidos e prática de 6–12 meses de anticoagulação · Endo M, Jahangiri Y, Horikawa M, et al. Antiplatelet Therapy is Associated with Stent Patency After Iliocaval Venous Stenting. Cardiovasc Intervent Radiol. 2018;41(11):1691–1698 — patência superior com antiagregante somado à anticoagulação (retrospectivo) · Stevens SM, et al. Chest. 2021;160(6):e545–e608 — trombólise dirigida reservada a TVP com ameaça de membro.O repouso absoluto "para o trombo não soltar" é a prescrição zumbi desta doença: morreu na evidência há vinte anos (deambular anticoagulado não aumenta embolia — e a imobilidade que a prescrição impõe é literalmente o fator de risco que causou a TVP) e continua aparecendo em papeleta. O resto do kit segue as regras da casa: dipirona no lugar do AINE que sangraria sobre o DOAC, omeprazol com indicação em vez de reflexo, insulina com alvo em vez de escadinha cega. E a dupla proibida de sempre: paciente em dose plena com enoxaparina 40 mg "profilática" por cima é erro de conciliação que a farmácia deveria devolver — mas é o prescritor que não pode escrever.
CHEST — deambulação precoce · consenso de cuidado do internado anticoagulado.O rótulo provocada/não provocada é a decisão mais barata e mais consequente da doença: define se o anticoagulante dura 3 meses ou anos, e se escreve no dia do diagnóstico, quando a história está fresca — não na consulta de revisão, quando "acho que ele tinha operado" vira chute. A TVP não provocada recorre ~10% ao ano sem tratamento; a dose estendida reduzida corta essa recorrência com sangramento próximo do placebo — mas só se alguém reavaliar: a receita sem retorno marcado vira anticoagulação eterna por inércia ou interrupção por conta própria. E o painel de trombofilia no agudo é duplamente inútil — o trombo e a heparina falseiam os resultados, e o resultado raramente muda a conduta dos primeiros meses.
CHEST 2021 — duração por fator provocador; extensão com dose reduzida · AMPLIFY-EXT · EINSTEIN-CHOICE.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Repouso absoluto no leito — imobilidade é causa de TVP, não tratamento. Internação "para observar" a TVP não complicada. AINE por cima do anticoagulante. Profilaxia de TEV somada à dose plena. Trombólise (sistêmica ou dirigida) na TVP comum — reservada à ameaça de membro, com a vascular. Filtro de veia cava em quem pode ser anticoagulado. DOAC sem olhar a creatinina — e qualquer DOAC ou varfarina na gestante. Meia elástica "de rotina" para prevenir síndrome pós-trombótica — não previne (SOX); trate o edema sintomático, não o protocolo. D-dímero de controle para "ver se curou". E suspender a enoxaparina no primeiro INR ≥ 2 — a regra é dupla (item 05).
O paciente de casa sai com receita datada, alarmes escritos e retorno marcado — a prescrição só termina na reavaliação dos 3 meses. Dispneia no meio do caminho é a página do TEP. E a phlegmasia que você reconheceu no item 07 é o telefonema mais importante desta página.
Levar o caso ao assistente de conduta