Tromboembolismo pulmonar
O TEP não tem uma prescrição — tem várias, e quem escolhe é a categoria: quem vai para casa com DOAC, quem interna anticoagulado, quem já pisca hemodinamicamente e quem trombolisa agora.
Serve para o TEP agudo confirmado (ou com probabilidade alta o bastante para tratar enquanto se confirma). A primeira pergunta não é "qual heparina" — é "em que categoria este paciente está?": é isso que decide alocação (casa, enfermaria, UTI), anticoagulante e se a terapia avançada entra em cena. A AHA/ACC 2026 trocou massivo/submassivo e o quarteto da ESC por cinco categorias, A a E, e esta página foi reescrita nelas.
As doses seguem a diretriz de TEP da AHA/ACC 2026 (com a ESC 2019 onde ela ainda acrescenta) e não substituem o protocolo do seu serviço nem a padronização da farmácia. Atenção especial à HNF: circula por aí tabela de SCA (60 U/kg + 12) colada em capítulo de TEP — no TEV o esquema clássico é outro (80 U/kg + 18).
A ordem é a do raciocínio: categorizar, anticoagular pelo caminho certo, e reservar suporte agressivo e terapia avançada para quem precisa. As classes de recomendação aparecem nas referências de cada item — razoável, pode ser considerada e dano não são sinônimos. Dose sempre visível; o porquê em "por quê & armadilhas".
Item por item
O espectro do TEP vai do paciente que podia ter ido para casa ao que morre na próxima hora — tratar os dois igual erra nos dois sentidos: interna (e às vezes sangra) quem não precisava, e subestima o que descompensa na enfermaria sem monitor.
A classificação nova existe porque as antigas embrulhavam gente diferente no mesmo pacote. "Submassivo" e "intermediário-alto" juntavam o paciente com troponina positiva e VD normal ao que já estava com lactato subindo e pressão oscilando — e a evidência de trombólise nesses dois é oposta. As categorias A–E separam três coisas que a ESC misturava: quem tem escore de gravidade elevado (C), quem já pisca hemodinamicamente mas ainda compensa (D, o "choque normotenso"), e quem falhou (E). A categoria D é a novidade que mais muda plantão: é o paciente que a régua antiga chamava de estável, e que hoje tem indicação formal de considerar terapia avançada.
O modificador R resolve a outra lacuna: o TEP que mata por hipoxemia, não por choque. Antes ele não tinha onde ser registrado. E a categoria não é carimbo — o paciente migra entre categorias conforme é reavaliado, e a designação segue sempre o achado mais grave.
AHA/ACC 2026 — AHA/ACC Acute PE Clinical Categories (Figura 2); categoria A tem alta do PS e categoria B tem alta precoce (mensagens 2 e 3) · ESC 2019 (classificação anterior, ainda vigente na Europa).A armadilha do DOAC no TEV é pular a fase de ataque: rivaroxabana que começa direto em 20 mg ou apixabana em 5 mg trata o rótulo, não o trombo — as doses dobradas das primeiras semanas fazem o papel da heparina dos esquemas antigos. O contrário também confunde: dabigatrana e edoxabana não têm fase oral de ataque e exigem os 5 dias de heparina antes. São dois desenhos de estudo diferentes — misturá-los gera subdose ou heparina desnecessária.
AHA/ACC 2026 — anticoagular todo TEP sem contraindicação absoluta (Classe 1, B-R); DOAC sobre antagonista da vitamina K (Classe 1, B-R; mensagem 8); alta domiciliar na categoria A e alta precoce na B (mensagens 2 e 3) · EINSTEIN-PE · AMPLIFY · RE-COVER · Hokusai-VTE.A mudança de 2026 que mais contraria o hábito: "paciente grave = heparina não fracionada em bomba" deixou de ser a regra. A AHA/ACC recomenda HBPM sobre HNF em quem precisa de anticoagulante parenteral inicial — categorias C1 a E1 — porque a HBPM reduziu recorrência de TEV e sangramento maior. A HNF sobrevive por motivos práticos, não por potência: quando pode ser preciso desligar em minutos (trombólise, cateter, cirurgia), quando o rim não depura, e no paciente em ECMO. Fora isso, escolher HNF "porque é grave" troca previsibilidade por TTPa perseguido a noite inteira.
E a confusão que já saiu impressa por aí: 80 U/kg + 18 U/kg/h é a dose do TEV; 60 U/kg + 12 U/kg/h é a da SCA — no infarto anda junto trombolítico e antiplaquetário duplo, por isso a dose é menor. Colar a tabela de um no capítulo do outro subdosa o TEP.
AHA/ACC 2026 — HBPM sobre HNF nas categorias C1–E1 (Classe 1, B-R; mensagem 7) e anticoagular na suspeita C2+ com imagem indisponível (Classe 2a, C-EO); dose reduzida de HBPM no IMC > 40 (Classe 2b) · Raschke 1993 (nomograma) · ESC 2019.Quatro exceções que valem decorar porque cada uma inverte a primeira escolha: no câncer, o DOAC (Caravaggio) empatou com a HBPM em eficácia com menos incômodo — mas o tumor de trato digestivo sangra mais com anti-Xa oral; no rim falido, quase tudo acumula; na gestação, DOAC atravessa placenta e varfarina é teratogênica — sobra HBPM; e na SAF o TRAPS mostrou mais trombose arterial com rivaroxabana — é o raro cenário moderno em que a varfarina ganha por eficácia.
AHA/ACC 2026 — varfarina na SAF trombótica (Classe 1, A) e DOAC no anticorpo único (Classe 2b, B-R); DOAC na obesidade (Classe 2a, B-NR) e dose reduzida de HBPM no IMC > 40 (Classe 2b, B-NR); DOAC no tumor cerebral (Classe 2b, C-LD) · Caravaggio (NEJM 2020) · TRAPS · ESC 2019.A varfarina começa pró-trombótica: ela derruba a proteína C antes dos fatores da coagulação, e por isso os primeiros dias sem heparina são os mais perigosos. A regra tem duas condições simultâneas — INR no alvo e cinco dias de sobreposição — e quem solta a heparina no primeiro INR 2,1 do terceiro dia cumpriu só metade dela.
Diretrizes de TEV — transição heparina→varfarina.O instinto de "abrir soro" mata no TEP: o VD já está dilatado contra uma pós-carga fixa, e cada 500 mL a mais desvia o septo e rouba enchimento do VE — volume aqui é dose de remédio, não gotejo aberto. Repare que a diretriz de 2026 rebaixou o volume a "pode ser considerado", e só quando há suspeita clínica de pré-carga baixa; o vasopressor é que subiu para recomendação forte no choque. A noradrenalina faz o que o volume não faz: sobe a PA que perfunde a coronária direita do VD isquêmico.
A sedação merece o mesmo respeito que a trombólise. O VD em falência sobrevive porque o tônus simpático o segura — e quase todo sedativo desliga exatamente isso. Em série de embolectomia cirúrgica, 19% e 28% dos pacientes precisaram de reanimação após a indução anestésica, mesmo estando hemodinamicamente estáveis na hora. Por isso a diretriz classifica sedação profunda e ventilação invasiva sem indicação como dano, e exige que o resgate esteja montado antes da indução, não depois. Se dá para oxigenar com alto fluxo, oxigene com alto fluxo.
AHA/ACC 2026 — vasopressor/inotrópico no choque D2–E2 (Classe 1, C-LD); volume em D1–2 com pré-carga baixa suspeitada (Classe 2b, C-LD); vasodilatador pulmonar inalatório C2–E (Classe 2b, B-R); cateter nasal de alto fluxo (Classe 2a, C-LD); suporte pronto antes de sedar (Classe 1, C-LD); sedação profunda/VM sem indicação (Classe 3: Dano, C-LD); ECMO VA no E2 (Classe 2a, B-NR) e anticoagulação em ECMO (Classe 1, B-NR).A escolha entre trombólise sistêmica, cateter, trombectomia e cirurgia não é decisão de folha de prescrição — e as evidências que separam essas opções são fracas o suficiente para que a estrutura local pese tanto quanto o artigo. É por isso que a diretriz de 2026 colocou o PERT como recomendação Classe 1 e como uma das dez mensagens principais: onde ele existe, o tempo até a anticoagulação e até a terapia avançada cai. Num serviço sem PERT, o item acionável é anterior à emergência — saber de véspera para quem ligar às 3 da manhã.
AHA/ACC 2026 — avaliação por PERT nas categorias C–E (Classe 1, B-NR; mensagem 6).| Absolutas | Relativas |
|---|---|
| AVC hemorrágico ou AVC de origem desconhecida (qualquer época) | AIT nos últimos 6 meses |
| AVC isquêmico nos últimos 6 meses | Anticoagulação oral em uso |
| Neoplasia de sistema nervoso central | Gestação ou 1ª semana pós-parto |
| Trauma maior, cirurgia ou TCE nas últimas 3 semanas | Punção em sítio não compressível |
| Diátese hemorrágica | Reanimação traumática |
| Sangramento ativo | Hipertensão refratária (PAS > 180 mmHg) |
| Doença hepática avançada | |
| Endocardite infecciosa | |
| Úlcera péptica ativa |
Vale saber o tamanho da evidência antes de tratá-la como certeza: no TEP de alto risco ela se resume a quatro ensaios pequenos, 224 pacientes no total — daí a recomendação em E1–E2 ser "razoável" (Classe 2a) e não forte. O que esses estudos mostram é desobstrução rápida e melhora do VD; o preço é 9,9% de sangramento grave e 1,7% de hemorragia intracraniana. Diante de parada iminente esse preço se paga; diante de troponina positiva com pressão normal, não.
É aqui que a classificação nova muda a decisão de plantão. O velho "intermediário-alto" virava uma discussão única, resolvida pelo PEITHO com um não. As categorias separam esse grupo: o C2–C3 segue sem indicação (e de A1 a C2 a trombólise é classificada como dano), mas o D1–D2 — hipotensão que já apareceu, ainda que transitória, ou má perfusão instalada — passou a ter indicação explícita de considerar. Reconhecer que o paciente saiu de C e entrou em D é a habilidade que essa diretriz cobra.
AHA/ACC 2026 — trombólise sistêmica em E1–2 (Classe 2a, C-LD), D1–2 (Classe 2b, C-LD), C3 incerta (Classe 2b, C-LD), dose reduzida (Classe 2b, C-LD) e A1–C2 (Classe 3: Dano, B-R) · PEITHO (NEJM 2014).As três terapias percutâneas e cirúrgicas ocupam exatamente a mesma faixa de categorias da trombólise sistêmica — e nenhuma demonstrou superioridade de eficácia sobre ela. O argumento a favor é outro e está escrito na diretriz: reduzir sangramento, e no caso da cirurgia, reduzir hemorragia intracraniana. Ou seja, a pergunta prática não é "qual funciona mais", é "este paciente pode receber trombolítico sistêmico?". Se pode e não há equipe, trombolise. Se não pode e há equipe, o cateter existe para isso.
Duas armadilhas específicas. A primeira: dose menor de trombolítico no cateter não é mais segura — abaixo de 5 mg por artéria pulmonar não houve redução de sangramento nem de deterioração, então é subdose sem prêmio. A segunda: embolectomia cirúrgica no E2 sem suporte circulatório não é recomendada — no choque refratário e na parada, a sequência que a diretriz desenha passa pelo ECMO VA antes, não pela mesa direto.
AHA/ACC 2026 — CDL em E1 (Classe 2a, C-LD), D1–2 (Classe 2b, B-NR), C2–3 incerta, A–C1 sem benefício, dose < 5 mg/AP sem benefício (B-NR) · trombectomia mecânica em E1 (Classe 2a, B-NR), D1–2 (Classe 2b), A–C1 sem benefício · embolectomia cirúrgica em E1 (Classe 2a, B-NR), D1–2 (Classe 2b, C-LD), A–C3 e E2 sem suporte mecânico sem benefício · mensagem 5.A dor pleurítica do infarto pulmonar é real e limita a respiração — trate. Só não trate com AINE em cima de anticoagulação plena: é somar antiagregação plaquetária e lesão de mucosa a quem já sangra fácil. Dipirona resolve a maioria; febre baixa nos primeiros dias pode ser do próprio infarto pulmonar, mas febre alta persistente pede procurar outra causa.
Duas heranças antigas caem aqui: a profilaxia de TEV (redundante — e perigosa — sobre anticoagulação plena) e o repouso absoluto: uma vez anticoagulado e estável, deambular é seguro e o repouso prolongado só adiciona risco. O débito urinário no grave não é burocracia — é o marcador mais simples de que o VD está dando conta do débito.
ADA 2026 (glicemia hospitalar) · diretrizes de TEV.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Trombólise sistêmica das categorias A1 a C2 — classificada como dano: sangramento maior e hemorragia intracraniana sem ganho. Cateter ou trombectomia mecânica de A a C1 e embolectomia cirúrgica de A a C3 — sem benefício sobre anticoagular. Embolectomia cirúrgica no E2 fora de suporte circulatório. Alteplase < 5 mg por artéria pulmonar na trombólise dirigida — não reduz sangramento nem deterioração. Sedação profunda e ventilação invasiva sem indicação nas categorias C a E — também classificadas como dano. Volume liberal no VD falido. Dobutamina "sempre associada" sem baixo débito documentado. HNF só "porque é grave" — a preferida de C1 a E1 é a HBPM. HNF com dose de SCA (60/12) — no TEV é 80/18. DOAC sem fase de ataque (rivaroxabana 20 direto, apixabana 5 direto). DOAC na gestação e na SAF trombótica. AINE + anticoagulação plena. Profilaxia de TEV somada à plena. E repouso absoluto prolongado.
O internado em categoria C precisa de olhos: piora de perfusão, lactato subindo ou síncope nova significa que ele migrou para D — e D tem indicação de considerar terapia avançada. O suporte do VD instável é raciocínio de choque obstrutivo — padrões hemodinâmicos e drogas vasoativas. E a decisão de quanto tempo anticoagular (3 meses × indefinido) merece consulta dedicada — provocado, não provocado, câncer e trombofilia mudam a resposta.
Levar o caso ao assistente de conduta