Meningite bacteriana aguda comunitária
Antibiótico na primeira hora, sem esperar tomografia nem punção — em dose meníngea, com dexametasona junto e ampicilina se houver risco de Listeria.
Serve para a meningite bacteriana comunitária do adulto. Não cobre meningite neonatal, pós-neurocirúrgica ou de dispositivo (derivação, cateter), tuberculosa nem fúngica — todas com microbiologia, esquema e duração próprios.
Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.
A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".
Item por item
A ordem dos exames é a única coisa que importa aqui, e a TC é onde ela costuma se perder: o exame demora, o transporte demora mais, e o paciente volta do tomógrafo tendo perdido a hora em que o antibiótico mudaria o desfecho. Daí a regra ser negativa em vez de positiva — não é "quem precisa de TC", é quem pode puncionar direto, que é a maioria. A gasometria venosa entra pela mesma lógica de economia: responde pH, bicarbonato e lactato numa punção que a enfermagem já vai fazer, sem esperar o gasômetro arterial.
A punção lombar depois do antibiótico ainda é útil: a celularidade, a proteína, a glicose e a PCR permanecem informativas por horas, e a PCR não depende de bactéria viável. O que não se recupera é o tempo — e a mortalidade da meningite bacteriana escala com ele.
Regra de imagem: Hasbun R, Abrahams J, Jekel J, Quagliarello VJ. Computed Tomography of the Head before Lumbar Puncture in Adults with Suspected Meningitis. N Engl J Med. 2001;345(24):1727–1733 — as seis características clínicas e o valor preditivo negativo de ~97% na ausência delas · Tunkel AR, Hartman BJ, Kaplan SL, et al. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis (IDSA). Clin Infect Dis. 2004;39(9):1267–1284 — critérios adotados acima · van de Beek D, Cabellos C, Dzupova O, et al. ESCMID guideline: diagnosis and treatment of acute bacterial meningitis. Clin Microbiol Infect. 2016;22(Suppl 3):S37–S62 — critérios mais restritivos que os da IDSA; divergência declarada · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.O benefício da dexametasona é maior na meningite pneumocócica e depende de ela estar presente quando a lise bacteriana libera a carga inflamatória — daí a exigência de ser antes ou junto. Dada depois, ela perde o motivo de existir e mantém os efeitos adversos.
World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.A dose meníngea existe porque a barreira hematoencefálica limita a penetração: metade da dose entrega concentração liquórica insuficiente mesmo com bactéria sensível. É um dos erros de prescrição mais silenciosos — o antibiótico está certo, a dose não.
A ampicilina é o item mais esquecido do esquema. Listeria é intrinsecamente resistente às cefalosporinas, então esquecê-la em um paciente de risco significa não tratar a bactéria que ele tem.
World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.As durações são orientativas e individualizadas: complicação (empiema subdural, abscesso, ventriculite), resposta lenta ou imunossupressão prolongam.
O aciclovir é a decisão de maior assimetria da página, e por isso ela merece regra explícita nas duas direções. Errar para menos custa caro: na encefalite herpética não tratada a mortalidade passa de 70%, e o atraso importa em dias — na série clássica, começar o aciclovir mais de 2 dias após a admissão triplicou a chance de desfecho ruim em 6 meses. Errar para mais também cobra: nefrotoxicidade somada à vancomicina num paciente que já tem sepse e hipoperfusão renal. A saída não é coragem nem cautela, é critério — o gatilho é encefalopatia, não meningite, e a diretriz manda começar antes da PCR em quem preenche o quadro.
Aciclovir: Tunkel AR, Glaser CA, Bloch KC, et al. The Management of Encephalitis: Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2008;47(3):303–327 — definição de encefalite, início empírico antes da PCR e dose de 10 mg/kg 8/8 h · Raschilas F, Wolff M, Delatour F, et al. Outcome of and Prognostic Factors for Herpes Simplex Encephalitis in Adult Patients. Clin Infect Dis. 2002;35(3):254–260 — atraso > 2 dias associado a triplicar o risco de desfecho ruim em 6 meses · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.A restrição hídrica na meningite é uma herança que causou dano: reduzir volume num paciente com pressão de perfusão cerebral limítrofe troca edema por isquemia. A hiponatremia aqui se investiga e se trata pelo mecanismo, como em qualquer lugar.
Levetiracetam: Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, et al. Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019;381(22):2103–2113 — ataque de 60 mg/kg com teto de 4.500 mg, o esquema testado · Manutenção: a dose de 1.000–1.500 mg 12/12 h iniciada 10–12 h após o ataque vem de protocolos institucionais e da prática neurointensivista, não de ensaio randomizado — declarado como tal · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.A audiometria é o item que mais escapa: a perda auditiva pós-meningite é frequente, especialmente na pneumocócica, e a janela para reabilitação — inclusive implante coclear, quando há ossificação coclear — é curta. Encaminhar na alta muda o resultado funcional.
World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Esperar TC ou punção lombar para iniciar o antibiótico. Ceftriaxona 2 g uma vez ao dia — na meningite a dose é 12/12 h. Omitir ampicilina em quem tem fator de risco para Listeria. Manter vancomicina sem epidemiologia que a justifique ou depois de a sensibilidade permitir retirá-la. Aciclovir universal. Anticonvulsivante profilático. Restrição hídrica de rotina. E dexametasona iniciada tarde sem discutir se ainda faz sentido.
A reavaliação é neurológica e horária nas primeiras 24 h: Glasgow, pupilas, crises e sinais de hipertensão intracraniana. Deterioração apesar do antibiótico correto pede imagem — empiema subdural, abscesso, hidrocefalia, infarto venoso. E não esqueça o que acontece fora do leito: notificação, quimioprofilaxia de contatos e audiometria.
Levar o caso ao assistente de conduta