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Meningite bacteriana aguda comunitária

Antibiótico na primeira hora, sem esperar tomografia nem punção — em dose meníngea, com dexametasona junto e ampicilina se houver risco de Listeria.

Serve para a meningite bacteriana comunitária do adulto. Não cobre meningite neonatal, pós-neurocirúrgica ou de dispositivo (derivação, cateter), tuberculosa nem fúngica — todas com microbiologia, esquema e duração próprios.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

Antibiótico e dexametasona sem esperar TC ou punção
o atraso é o que muda mortalidade, não a ordem dos exames
Antibiótico idealmente dentro de 1 h da chegadanão aguardar TC nem punção lombar
Colher duas hemoculturas antes, se isso não atrasar
TC de crânio antes da punção — não é obrigatória
Punção lombar precoce quando segura. Não existe evidência que sustente TC de crânio universal antes da punção: o estudo que definiu a regra mostrou que, na ausência das características de risco abaixo, o valor preditivo negativo para achado que contraindique a punção é de ~97% — a TC nesses pacientes só custa tempo
Peça a TC antes apenas se houver: imunossupressão · doença do SNC prévia (lesão de massa, AVC, infecção focal) · crise convulsiva na última semana · rebaixamento importante do nível de consciência · déficit neurológico focal (incluindo paresia de olhar, campo visual, disfasia, paresia de membro) · papiledema
Nada disso adia o antibiótico. Se vai fazer TC: hemocultura → antibiótico + dexametasona → TC → punção, nessa ordem. TC pedida "para liberar a punção" com o antibiótico esperando na bancada é o erro que a diretriz existe para impedir
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Sobre o protocolo do seu serviço: muitas instituições exigem TC antes de toda punção, por cultura local e receio médico-legal, e há divergência real entre diretrizes — as europeias e britânicas são mais restritivas que as americanas na indicação de imagem, de modo que a mesma paciente é "indicação de TC" por um critério e não por outro. Siga o protocolo da casa se ele existir; o que não se negocia é a ordem: antibiótico primeiro, imagem depois.
Precaução por gotículas se meningococo for possível — manter até 24 h de tratamento efetivo
Exames: hemograma, eletrólitos, função renal e hepática, glicose, lactato, coagulograma · gasometria venosa — pH, bicarbonato e lactato em uma punção só, sem arterial: identifica a acidose metabólica da sepse meningocócica, orienta reposição e serve de linha de base para a reavaliação
Glicemia capilar no mesmo momento da punção — sem ela a relação glicose liquórica/glicemia, que é o achado mais discriminante do líquor bacteriano, não pode ser calculada
Por quê & armadilhas

A ordem dos exames é a única coisa que importa aqui, e a TC é onde ela costuma se perder: o exame demora, o transporte demora mais, e o paciente volta do tomógrafo tendo perdido a hora em que o antibiótico mudaria o desfecho. Daí a regra ser negativa em vez de positiva — não é "quem precisa de TC", é quem pode puncionar direto, que é a maioria. A gasometria venosa entra pela mesma lógica de economia: responde pH, bicarbonato e lactato numa punção que a enfermagem já vai fazer, sem esperar o gasômetro arterial.

A punção lombar depois do antibiótico ainda é útil: a celularidade, a proteína, a glicose e a PCR permanecem informativas por horas, e a PCR não depende de bactéria viável. O que não se recupera é o tempo — e a mortalidade da meningite bacteriana escala com ele.

Regra de imagem: Hasbun R, Abrahams J, Jekel J, Quagliarello VJ. Computed Tomography of the Head before Lumbar Puncture in Adults with Suspected Meningitis. N Engl J Med. 2001;345(24):1727–1733 — as seis características clínicas e o valor preditivo negativo de ~97% na ausência delas · Tunkel AR, Hartman BJ, Kaplan SL, et al. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis (IDSA). Clin Infect Dis. 2004;39(9):1267–1284 — critérios adotados acima · van de Beek D, Cabellos C, Dzupova O, et al. ESCMID guideline: diagnosis and treatment of acute bacterial meningitis. Clin Microbiol Infect. 2016;22(Suppl 3):S37–S62 — critérios mais restritivos que os da IDSA; divergência declarada · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Dexametasona junto com — ou logo antes de — a primeira dose
depois que o antibiótico já correu por horas, a janela fecha
Dexametasona 10 mg EV imediatamente antes ou junto da primeira dose antibiótica, depois 10 mg EV 6/6 h por até 4 dias
Não atrasar o antibiótico para conseguir a dexametasona
Antibiótico iniciado há menos de 12 h: ainda pode ser considerada · depois disso, discutir com infectologia
Continuar ou suspender conforme o organismo isolado, o líquor e o protocolo local
Vigiar glicemia e eventos adversos
Por quê & armadilhas

O benefício da dexametasona é maior na meningite pneumocócica e depende de ela estar presente quando a lise bacteriana libera a carga inflamatória — daí a exigência de ser antes ou junto. Dada depois, ela perde o motivo de existir e mantém os efeitos adversos.

World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Ceftriaxona em dose meníngea, mais o que o risco exigir
a dose da meningite é o dobro da dose habitual
Ceftriaxona 2 g EV 12/12 hdose meníngea; a dose de 2 g uma vez ao dia não serve aqui
Acrescentar vancomicina EV (ataque por peso, manutenção por AUC e função renal) quando a epidemiologia local indicar prevalência relevante de pneumococo resistente — e retirar quando a sensibilidade permitir
Acrescentar ampicilina 2 g EV 4/4 h se houver risco de Listeria: idade avançada, gestação, imunossupressão, transplante, neoplasia, HIV avançado, diabetes, doença renal terminal, cirrose ou uso nocivo de álcool
⚠ O corte de idade varia entre protocolos (a OMS 2025 destaca > 60 anos; muitos serviços usam ≥ 50). Documente qual o seu serviço adota — não misture os dois silenciosamente
Alergia grave a beta-lactâmico ou resistência especial: infectologia — não improvisar esquema que deixe pneumococo ou Listeria descoberto
Por quê & armadilhas

A dose meníngea existe porque a barreira hematoencefálica limita a penetração: metade da dose entrega concentração liquórica insuficiente mesmo com bactéria sensível. É um dos erros de prescrição mais silenciosos — o antibiótico está certo, a dose não.

A ampicilina é o item mais esquecido do esquema. Listeria é intrinsecamente resistente às cefalosporinas, então esquecê-la em um paciente de risco significa não tratar a bactéria que ele tem.

World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Descalonar pela cultura — durações orientativas
individualizar por complicação e resposta
Meningococo: 5–7 dias · H. influenzae: 7–10 dias · Pneumococo: 10–14 dias
S. agalactiae: 14–21 dias · Listeria: 21 dias
Descalonar por cultura e PCR assim que disponíveis
Aciclovir — quando cobrir herpes, e quando não
Não é parte universal do esquema de meningite bacteriana. O gatilho não é "meningite"; é encefalite — e a diferença está no parênquima
Cubra empiricamente (aciclovir junto do antibiótico, antes da PCR) quando houver encefalite: alteração do nível ou do conteúdo da consciência por ≥ 24 h sem outra causa, somada a febre e a qualquer um destes — crise convulsiva (sobretudo focal), déficit focal, alteração de comportamento/personalidade, líquor com pleocitose linfocítica, EEG ou RM com padrão temporal
Dose: aciclovir 10 mg/kg EV 8/8 h (peso ideal no obeso), infundido em 1 h, com hidratação generosa — a nefrotoxicidade é por cristalúria e é dose e velocidade dependente · ajuste renal obrigatório · vigiar creatinina a cada 24–48 h e neurotoxicidade (mioclonia, confusão) na disfunção renal
Quando suspender: PCR para HSV negativa no líquor em quadro de baixa suspeita e alternativa diagnóstica estabelecida · PCR colhida muito precocemente (< 72 h) pode ser falso-negativa: em suspeita alta, repetir em 3–7 dias antes de retirar
Meningite linfocítica benigna do jovem, sem encefalopatia, não é indicação — nessa, o aciclovir só adiciona nefrotoxicidade a quem já vai receber vancomicina
Por quê & armadilhas

As durações são orientativas e individualizadas: complicação (empiema subdural, abscesso, ventriculite), resposta lenta ou imunossupressão prolongam.

O aciclovir é a decisão de maior assimetria da página, e por isso ela merece regra explícita nas duas direções. Errar para menos custa caro: na encefalite herpética não tratada a mortalidade passa de 70%, e o atraso importa em dias — na série clássica, começar o aciclovir mais de 2 dias após a admissão triplicou a chance de desfecho ruim em 6 meses. Errar para mais também cobra: nefrotoxicidade somada à vancomicina num paciente que já tem sepse e hipoperfusão renal. A saída não é coragem nem cautela, é critério — o gatilho é encefalopatia, não meningite, e a diretriz manda começar antes da PCR em quem preenche o quadro.

Aciclovir: Tunkel AR, Glaser CA, Bloch KC, et al. The Management of Encephalitis: Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2008;47(3):303–327 — definição de encefalite, início empírico antes da PCR e dose de 10 mg/kg 8/8 h · Raschilas F, Wolff M, Delatour F, et al. Outcome of and Prognostic Factors for Herpes Simplex Encephalitis in Adult Patients. Clin Infect Dis. 2002;35(3):254–260 — atraso > 2 dias associado a triplicar o risco de desfecho ruim em 6 meses · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Crise, hipertensão intracraniana e sódio
as três coisas que pioram enquanto o antibiótico funciona
Crise convulsiva: benzodiazepínico em dose plena · persistindo ou em status, levetiracetam 60 mg/kg EV em 10–15 min — máximo de 4.500 mg, que é o teto do ensaio que validou a dose (peso acima de 75 kg já bate no teto) — sequência completa na crise epiléptica
Manutenção depois do ataque: levetiracetam 1.000–1.500 mg EV/VO 12/12 h, iniciada 10–12 h após a dose de ataque — não antes, sob risco de somar pico com pico · ajuste renal: reduzir a partir de ClCr < 50 e dose suplementar após hemodiálise · manter enquanto durar a fase aguda e reavaliar a necessidade com o neurologista
Sem anticonvulsivante profilático universal só porque o quadro é grave
Hipertensão intracraniana/herniação: osmoterapia sob protocolo (ver hipertônica no neurocrítico) — não de horário fixo
Não restringir fluidos rotineiramente abaixo da manutenção — a hiponatremia se trata pelo mecanismo (ver hiponatremia)
Vigiar: Glasgow e pupilas, crises, sódio, diurese, perfusão e sinais de hipertensão intracraniana · EEG se alteração persistente do sensório
Por quê & armadilhas

A restrição hídrica na meningite é uma herança que causou dano: reduzir volume num paciente com pressão de perfusão cerebral limítrofe troca edema por isquemia. A hiponatremia aqui se investiga e se trata pelo mecanismo, como em qualquer lugar.

Levetiracetam: Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, et al. Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus (ESETT). N Engl J Med. 2019;381(22):2103–2113 — ataque de 60 mg/kg com teto de 4.500 mg, o esquema testado · Manutenção: a dose de 1.000–1.500 mg 12/12 h iniciada 10–12 h após o ataque vem de protocolos institucionais e da prática neurointensivista, não de ensaio randomizado — declarado como tal · World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Notificação, contatos e a audiometria que se esquece
a doença não termina na alta do paciente
Meningococo: notificação compulsória e quimioprofilaxia de contatos próximos conforme a vigilância local
Precaução por gotículas mantida até 24 h de tratamento efetivo
Avaliação auditiva antes da alta ou logo depois — a perda auditiva é a sequela mais comum e a mais tratável se detectada cedo
Seguimento de sequelas cognitivas, motoras e epilépticas
Por quê & armadilhas

A audiometria é o item que mais escapa: a perda auditiva pós-meningite é frequente, especialmente na pneumocócica, e a janela para reabilitação — inclusive implante coclear, quando há ossificação coclear — é curta. Encaminhar na alta muda o resultado funcional.

World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Zero enquanto rebaixado ou com risco de crise · triagem de disfagia antes da primeira oferta quando desperta
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — mobilização assim que o sensório e a estabilidade permitirem; fisioterapia respiratória se houver rebaixamento prolongado
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% · atenção à via aérea no rebaixado — Glasgow em queda é indicação de proteção, não de mais oxigênio. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Meningite internada com imobilidade costuma pontuar — mas avalie o risco de sangramento e o estado neurológico antes.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Esperar TC ou punção lombar para iniciar o antibiótico. Ceftriaxona 2 g uma vez ao dia — na meningite a dose é 12/12 h. Omitir ampicilina em quem tem fator de risco para Listeria. Manter vancomicina sem epidemiologia que a justifique ou depois de a sensibilidade permitir retirá-la. Aciclovir universal. Anticonvulsivante profilático. Restrição hídrica de rotina. E dexametasona iniciada tarde sem discutir se ainda faz sentido.

Prescreveu — e agora?

A reavaliação é neurológica e horária nas primeiras 24 h: Glasgow, pupilas, crises e sinais de hipertensão intracraniana. Deterioração apesar do antibiótico correto pede imagem — empiema subdural, abscesso, hidrocefalia, infarto venoso. E não esqueça o que acontece fora do leito: notificação, quimioprofilaxia de contatos e audiometria.

Levar o caso ao assistente de conduta
World Health Organization — Guidelines on Meningitis Diagnosis, Treatment and Care. Genebra: OMS, 2025 · NICE NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease: recognition, diagnosis and management. 2024 · ACEP Clinical Policy: Seizures. 2024. Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.