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Estado hiperosmolar hiperglicêmico

Doença de osmolalidade e volume, não de cetose — e o cérebro que se adaptou à osmolalidade alta importa mais que o número da glicose.

Serve para o estado hiperosmolar hiperglicêmico do adulto. Não cobre pediatria nem gestação. Se houver cetonemia com acidose, o paciente tem quadro misto e o fluxo correto é o da cetoacidose.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

EHH: glicose muito alta, osmolalidade alta, sem acidose
se houver cetonemia e acidose, o fluxo é o da CAD — não este
Glicose ≥ 600 mg/dL
Osmolaridade efetiva e gap osmolar o critério e o acompanhamento
Osmolalidade efetiva > 300 mOsm/kg (ou total > 320)
Beta-hidroxibutirato < 3,0 mmol/L ou cetonúria < 2+
pH ≥ 7,3 e bicarbonato ≥ 15 mmol/L
Quadro misto: beta-hidroxibutirato ≥ 3, pH < 7,3 ou bicarbonato < 18 → classificar como CAD/EHH misto e usar a dose de insulina da CAD (0,1 UI/kg/h)
Osmolalidade efetiva = 2 × Na + glicose (mg/dL) ÷ 18 — usar a mesma fórmula em toda a internação, para não comparar números diferentes
Por quê & armadilhas

A diferença entre CAD e EHH não é acadêmica: ela muda a dose de insulina, a velocidade de correção e o que se vigia. O EHH é uma doença de osmolalidade e volume; a CAD é de cetose. Tratar EHH com a agressividade da CAD derruba a osmolalidade rápido demais e o cérebro paga.

O misto é comum e frequentemente ignorado: o paciente idoso com infecção pode ter os dois. Na dúvida, a regra do consenso é usar o fluxo da CAD, porque subtratar a cetose custa mais.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Cristaloide isotônico — o déficit aqui é maior que na CAD
e a reavaliação vale mais que a velocidade
Sem IC/DRC: cristaloide isotônico 500–1.000 mL/h nas primeiras 2–4 h, depois individualizar
Idoso, IC, DRC ou diálise: etapas de ~250 mL com reavaliação — é a população típica do EHH
Não trocar automaticamente para SF 0,45% porque o sódio subiu no começo: cada 100 mg/dL de queda da glicose sobe o sódio em ~1,6 mEq/L — é o esperado, e é sinal de que o tratamento funciona. Hipotônico só se a osmolalidade não estiver caindo apesar de balanço hídrico positivo adequado e insulina correndo direito
Qual sódio olhar: conduza a hidratação pelo sódio medido e pela tendência da osmolalidade; use o corrigido para interpretar se existe hiponatremia verdadeira sob a hiperglicemia — ele informa o raciocínio, não dispara a troca de soro
Tetos que valem mais aqui do que na CAD: glicemia não deve cair mais que 90–120 mg/dL/h · sódio não mais que 10 mEq/L em 24 h · osmolalidade não mais que 3 a 8 mOsm/kg/h — no EHH a osmolalidade de partida é maior, e a queda rápida é o mecanismo do edema cerebral
Glicose < 250 mg/dL: acrescentar SG 5–10%
Por quê & armadilhas

O sódio "corrigido" que sobe nas primeiras horas assusta e leva à troca precipitada por hipotônico — exatamente o movimento que acelera a queda da osmolalidade e traz o risco de edema cerebral. O sódio subindo com a glicose caindo é o comportamento esperado.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). — no EHH, vazão fixa de 0,05 UI/kg/h (0,1 UI/kg/h no quadro misto com cetonemia significativa, pH < 7,30 ou bicarbonato < 18); a elevação inicial do sódio não indica fluido hipotônico, e o SF 0,45% entra apenas se a osmolalidade não estiver caindo apesar de balanço positivo adequado e insulina apropriada; queda de glicemia de até 90–120 mg/dL/h, sódio não mais que 10 mmol/L em 24 h e osmolalidade entre 3,0 e 8,0 mOsm/kg/h
As três velocidades que não se ultrapassa
aqui o teto vale mais do que a meta — o cérebro se adaptou à osmolalidade alta
Glicose: não cair mais que 90–120 mg/dL/h
Sódio corrigido pela glicemia ler o sódio que sobe
Sódio: não cair mais que 10 mmol/L em 24 h
Osmolalidade: cair 3–8 mOsm/kg/h
Controles: glicemia 1/1–2/2 h; eletrólitos, creatinina e osmolalidade 4/4 h; diurese horária, balanço e exame neurológico seriado
Por quê & armadilhas

O paciente com EHH conviveu dias a semanas com osmolalidade alta e o cérebro gerou osmóis para não murchar. Corrigir rápido inverte o gradiente e enche o neurônio de água — é a mesma física da hiponatremia corrigida depressa, no sentido oposto. Piora do sensório durante a melhora laboratorial é o sinal a temer.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Insulina em meia-dose — 0,05 UI/kg/h, e só depois do volume
no EHH puro; no misto, a dose é a da CAD
EHH puro ou cetonemia de 1 a < 3 mmol/L sem acidose: insulina regular 0,05 UI/kg/h EV em bomba
CAD/EHH misto: 0,1 UI/kg/h (fluxo da CAD)
Iniciar após a reposição volêmica inicial, conforme protocolo — insulina antes do volume derruba a osmolalidade rápido demais
Potássio, fósforo e bicarbonato: mesmas regras da CAD — inclusive K < 3,5 adia a insulina
Por quê & armadilhas

A meia-dose existe porque o alvo é diferente: no EHH não há cetose para desligar, e a insulina serve para trazer a glicose devagar enquanto o volume faz o trabalho principal. Dose cheia aqui acelera o deslocamento de água e potássio sem ganho.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Quando acabou — e a transição
o alvo é cognitivo e osmolar, não só glicêmico
Resolução: osmolalidade < 300, glicose < 250, diurese > 0,5 mL/kg/h e melhora cognitiva
Transição: basal-bolus SC com sobreposição de 1–2 h antes de desligar a infusão (mesma regra da CAD) — análogo de longa ação 0,15–0,3 UI/kg, ou NPH dividida em 12/12 h onde for o que existe · quem já usava insulina em casa retoma o esquema próprio
Procurar o precipitante: infecção é o mais comum; também IAM, AVC, fármaco novo e abandono de tratamento
Por quê & armadilhas

O critério cognitivo é o que diferencia: um paciente com osmolalidade corrigida e ainda torporoso não está resolvido — ou a correção foi rápida demais, ou existe outra coisa (AVC, infecção do SNC, sedativo acumulado). O EHH é uma doença de idoso, e o sensório é o melhor monitor que existe à beira do leito.

Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032).
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Zero enquanto rebaixado — o EHH interna com alteração do sensório e risco de aspiração · liberar VO com triagem de disfagia quando desperta
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — mobilização precoce assim que o sensório permitir — a população do EHH é idosa e perde funcionalidade rápido
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96%, se houver hipoxemia — o EHH não hiperventila como a CAD. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
O EHH é alto risco trombótico — desidratação, hiperosmolalidade, idade e imobilidade somam. Ainda assim, não é indicação de anticoagulação plena: profilaxia pelo escore, com o rim vigiado.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Tratar apenas a glicose e ignorar volume e osmolalidade. Corrigir sódio e osmolalidade rápido demais. Trocar para SF 0,45% só porque o sódio subiu no início. Usar 0,05 UI/kg/h no quadro misto — ali a dose é a da CAD. Volume alto sem reavaliação no idoso, cardiopata ou renal. E declarar resolução com o paciente ainda torporoso.

Prescreveu — e agora?

A resolução do EHH é cognitiva antes de ser laboratorial. Paciente com osmolalidade normalizada e sensório inalterado precisa de outra explicação — AVC, infecção do SNC ou correção rápida demais. Depois, a pergunta é o precipitante, que na maioria é infecção. Se houve crise convulsiva, o manejo é o da crise epilépticasem anticonvulsivante profilático só porque houve distúrbio metabólico.

Levar o caso ao assistente de conduta
Consenso ADA/EASD/AACE/DTS/JBDS — Hyperglycemic Crises in Adults With Diabetes. Diabetes Care. 2024;47(8):1257–1275 (doi:10.2337/dci24-0032). Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.