Neurocrítico · Patologias

Hemodinâmica e Manejo Aprofundado da PIC

Metas pressóricas por etiologia, escolha de vasoativos e algoritmo de tratamento da hipertensão intracraniana

PIC de tratamento> 20–22 mmHg
Regra de ouronão subir PAM às cegas
Conceito essencial. Um cérebro com autorregulação prejudicada é "passivo à pressão" — a PPC (PAM − PIC) passa a depender quase exclusivamente da prescrição na bomba. O intensivista atua como o sistema nervoso autônomo do paciente: PAS para evitar sangramento ou PAM para evitar isquemia, dependendo estritamente da doença de base. Aplicar a mesma meta para todos os neurocríticos é letal.
A regra de ouro: não aumente a PAM empiricamentei. Sem monitor de PIC (logo sem saber a PPC), aumentar a pressão com vasopressores de forma empírica é perigoso e contraindicado, a não ser que haja sinal iminente de piora da PIC.
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Método BEST TRIP — guiando sem monitor de PIC i

Em locais com recursos limitados, o manejo se baseia em avaliação clínica e de imagem de alta intensidade.

  1. 1Exame clínico frequente. Pupilas e Glasgow (ou FOUR) de hora em hora. Use sedativos de meia-vida curta (propofol) para "acordar" o paciente brevemente.
  2. 2TC seriada. TC de vigilância (geralmente 6h) e repetir imediatamente a qualquer piora neurológica.
  3. 3Tratamento presuntivo. Pupila assimétrica, decorticação/descerebração ou queda do nível de consciência = assuma PIC alta/PPC baixa. Entre com cabeceira 30º, bólus de salina hipertônica 23,4% ou manitol, e hiperventilação breve.
Sinais de herniação iminente (assimetria pupilar, pupilas fixas e dilatadas, decorticação/descerebração, Tríade de Cushing)i → assuma PIC extremamente alta. Nesse cenário de emergência absoluta, mantenha PAM mais alta, em torno de 80–100 mmHg, para evitar isquemia global irreversível.
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Metas hemodinâmicas por etiologia

1. TCE moderado a grave iO cérebro traumatizado morre por isquemia secundária — hipotensão evitada a todo custo. PAS ≥ 100 mmHg (50–69 anos); ≥ 110 mmHg (15–49 ou > 70 anos). PPC 60–70 mmHg — não forçar acima de 70 com vasopressores (não melhora desfecho, aumenta risco de SARA). Não subir PAM às cegas: se a PIC já está alta, o volume extra causa hiperemia e a PIC explode.
2. AVCH (hemorragia intraparenquimatosa) iO hematoma se expande nas primeiras horas, rasgando o tecido cerebral — baixar a pressão rapidamente freia o sangramento. PAS 150–220: reduzir rapidamente para ~140 mmHg (idealmente na 1ª hora). PAS > 220: reduzir agressivamente para < 220 e depois gradual para 140–160. Não reduzir abaixo de 130 (isquemia peri-hematoma/LRA). O controle de expansão não mantém a pressão alta — o alvo é reduzi-la. A janela crítica de crescimento do hematoma e deterioração clínica engloba as primeiras 24–36h; nesse período, o controle rigoroso da PA na UTI é fundamental para evitar a expansão do sangramento.
3. HSA aneurismática — pré-clipagem iAneurisma exposto — picos de pressão causam ressangramento letal. Meta: PAS < 160 mmHg ou PAM < 110 mmHg (PAS < 140 em pacientes muito despertos).
3. HSA — pós-clipagem (vasoespasmo/DCI)Se houver isquemia cerebral tardia (geralmente D4–D14), o vaso está estreitado — a conduta se inverte e pensa-se em hipertensão induzida, usando vasopressores em degraus (noradrenalina) para forçar o fluxo através do vaso espasmado. Avalie a melhora clínica a cada novo degrau de PAM; o controle em PAMs altas durará enquanto o vasoespasmo estiver causando déficit no paciente. Hipervolemia (Triplo-H) está proscrita.
4. AVCI — candidato a reperfusão iA penumbra isquêmica perde a autorregulação — o corpo sobe a pressão para tentar empurrar sangue pelos vasos colaterais. PAS ≤ 185 e PAD ≤ 110 antes da agulha; < 180/105 nas 24h seguintes.
4. AVCI — sem terapia de reperfusãoHipertensão permissiva: tolera-se pressões de até 220/120 mmHg na fase aguda. Trate a PA apenas se PAS > 220 ou PAD > 140, e reduza com muita cautela (~15% em 24h) — se for nitroprussiato, usar a menor dose possível, evitando sempre que der. Essa tolerância deve ser mantida até 48–72h após o início do AVC. Se trombolisou: manter < 180/105 por ≥ 24h. Se houver estenose de grande artéria, a redução da PA após esses 3 dias deve ser ainda mais lenta (7–14 dias).
5. Hematoma subdural (HSD) iSangramento venoso sob tensão — foco em manter o cérebro perfundido. PAS > 100 mmHg; tratar hipertensão apenas se PAS > 220, alvo < 160 mmHg.
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Escolha das drogas na beira-leito i

ClasseAgentesUso
Vasoativos segurosNicardipina, Clevidipina, Labetalol1ª linha para baixar PA sem subir PIC — ação rápida e segura
VasopressoresNoradrenalina, FenilefrinaCombater hipotensão ou induzir hipertensão no vasoespasmo
Grande armadilhaNitroprussiato, NitroglicerinaVasodilatadores de capacitância cerebral — evitar a todo custo (exceção: nitroprussiato intratecal para vasoespasmo refratário)
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Algoritmo em degraus — PIC > 20–22 mmHg i

Degrau 0 — medidas básicas obrigatóriasCabeceira 30º, mento alinhado. Normotermia estrita (paracetamol 1g de horário + resfriamento físico se T > 38ºC). Euvolemia exclusivamente com SF 0,9%.
Degrau 1 — primeira linha de resgateBolus e ↑ infusão de propofol/fentanil (RASS −4 a −5). DVE em drenagem contínua (nivelada 20 cm acima do trágus) se disponível. Osmoterapia: salina hipertônica 23,4%/20% (30–60 mL via central, 10 min) ou manitol 20% (1–1,5 g/kg, 2ª linha).
Degrau 2 — ponte temporáriaHiperventilação aguda: PaCO₂ 30–35 mmHg. Causa vasoconstrição e isquemia local — usar apenas minutos a horas enquanto prepara osmóticos ou leva ao bloco. Hiperventilação crônica é contraindicada.
Degrau 3 — refratariedade absolutaCraniectomia descompressiva (retalho > 12×15 cm). Reduz PIC e mortalidade imediata, com grande taxa de sequelas. Coma barbitúrico (Pentobarbital) guiado por EEG como alternativa/complemento.
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Hipertensão induzida — quando aumentar a PAM ativamente i

Cenário específico onde vasos cerebrais sofrem constrição severa e o tecido dependente entra em isquemia — a única forma de forçar sangue pelo vaso estenosado é aumentar a força motriz sistêmica.

Isquemia cerebral tardia (DCI) / vasoespasmoIndicação clássica, D4–D14 pós-HSA. Pré-requisito absoluto: aneurisma já tratado (clipado/embolizado) — risco extremo de ressangramento se desprotegido.
Trauma raquimedular (TRM)PAM rigorosamente entre 85–90 mmHg, contínua nos primeiros 5–7 dias após a lesão.
TCE com herniação iminentePAM 80–100 mmHg com fluidos e vasopressores, garantindo perfusão enquanto medidas cirúrgicas/osmóticas são tomadas.
  1. 1Garantir euvolemia com cristaloides isotônicos antes de subir a PAM.
  2. 2Vasopressores em degraus (noradrenalina ou fenilefrina) elevando a PAM progressivamente.
  3. 3Avaliação seriada. Exame neurológico a cada degrau até o déficit focal melhorar/resolver — define o alvo individualizado de PAM.
A falácia do Triplo-Hi. Hipervolemia de rotina é contraindicada — não previne isquemia e pode causar edema pulmonar/cerebral. Hoje: euvolemia + hipertensão induzida em casos selecionados.
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Vasopressores, inotrópicos e o arsenal do vasoespasmo (HSA) i

Nimodipino — protetor padrão-ouroObrigatório em toda HSA aneurismática: 60 mg VO/SNG a cada 4h por 21 dias, iniciado nas primeiras 48h. Embora seja um vasodilatador, não há evidências de que previna ou reverta o vasoespasmo angiográfico — apesar disso, comprovadamente reduz a isquemia cerebral tardia e a mortalidade (NNT de 13 para evitar um desfecho ruim). Acredita-se que atue por neuroproteção direta (reduzindo excitotoxicidade pelo cálcio) ou dilatação de microartérias invisíveis na angiografia.
Noradrenalina / Fenilefrina1ª linha para induzir hipertensão no vasoespasmo sintomático (aneurisma já protegido). Aumentam a PAM de forma confiável para forçar a perfusão cerebral, sem causar vasodilatação venosa intracraniana que pioraria a PIC.
Milrinone — resgate inotrópicoInibidor da PDE-III, reservado como suporte inotrópico para refratários apenas a vasopressores. Além de melhorar o débito cardíaco, possui efeito vasodilatador cerebral direto — pode ajudar a reverter o espasmo diretamente no vaso. Infusão contínua 0,375–0,75 mcg/kg/min (evita-se a dose de ataque clássica da cardiologia — causa hipotensão abrupta devastadora para o cérebro). Em casos focais/difusos refratários, também pode ser infundido intra-arterialmente via angiografia.
Pitfalls i
Síntese para o plantãoi. Trauma: hidrate com SF 0,9% e segure PAS > 110 mmHg. AVCH: nicardipina/labetalol para PAS < 140 mmHg na 1ª hora. Nunca puxe nitroprussiato para um neurocrítico. Pupila dilatou e o paciente descerebrou? Eleve a cabeceira, hiperventile temporariamente, salina hipertônica 23,4% 30 mL em bólus (ou manitol) e chame o neurocirurgião. Na HSA: nimodipino 60 mg 4/4h sempre por sonda/oral; vasoespasmo com hemiparesia → noradrenalina em degraus, associando milrinone se refratário.