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Anafilaxia

Uma droga, uma via, um tempo: adrenalina intramuscular na coxa, agora. Anti-histamínico e corticoide não abrem via aérea nem sustentam pressão — e esperar a urticária aparecer é o atraso que mata.

Serve para a anafilaxia do adulto no pronto-socorro, na enfermaria e na UTI. Doses pediátricas são por peso e não estão nesta página. Gestação exige decúbito lateral e obstetrícia junto, mas não muda a indicação nem a dose da adrenalina.

Antes de prescrever qualquer item desta página.

Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.

Como usar.

A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".

Item por item

Reconhecer e dar adrenalina IM — sem esperar a pele
comprometimento agudo de via aérea, respiração ou circulação, com ou sem urticária
Adrenalina 1 mg/mL (1:1.000) — 0,5 mg = 0,5 mL IM na face anterolateral da coxa, imediatamente
Repetir a cada 5 min enquanto persistir problema de via aérea, respiração ou circulação
Não existe contraindicação absoluta à adrenalina IM na anafilaxia — nem idade, nem cardiopatia, nem gestação, nem disfunção renal ou hepática
Até 20% dos casos não têm lesão de pele. Esperar urticária para tratar é o atraso mais comum e mais letal
Remover o gatilho (parar a infusão, retirar o ferrão) e chamar ajuda
Por quê & armadilhas

A adrenalina IM na coxa é a única intervenção que muda mortalidade na anafilaxia, e o erro dominante não é a dose — é a demora. A dose está escrita aqui em mg e mL com a concentração de propósito: a confusão entre 1 mg/mL e 0,1 mg/mL é a origem clássica do erro de dez vezes.

O deltoide absorve pior que a coxa, e a via subcutânea absorve mal no paciente vasoconstrito e chocado. Coxa, intramuscular, agulha adequada ao panículo.

European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.
Posição, oxigênio e volume — e o perigo de levantar o paciente
sentar ou levantar abruptamente na anafilaxia já causou parada
Deitar com as pernas elevadas · se houver dispneia intensa, posição confortável com as pernas estendidas · gestante em decúbito lateral esquerdo
Não deixar levantar nem sentar abruptamente — a perda súbita do retorno venoso no paciente vasodilatado pode causar parada
Oxigênio se hipoxemia ou choque · monitor, oximetria, PA frequente · dois acessos EV ou intraósseo
Cristaloide isotônico 500–1.000 mL rápido no adulto em choque, reavaliando PA, perfusão e congestão — repetir conforme resposta
Salbutamol 5 mg nebulizado se broncoespasmo persistir — adjuvante, nunca substituto da adrenalina
Por quê & armadilhas

A anafilaxia redistribui volume massivamente para o extravascular — o paciente precisa de litros, não de "um soro". E a posição é tratamento: existem relatos de parada ao sentar ou levantar pacientes em anafilaxia, pelo colapso do retorno venoso num leito vascular dilatado.

European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.
Refratária: infusão EV — só com experiência e monitorização
depois de duas doses IM adequadas sem melhora
Definição prática: persistência dos problemas A/B/C após duas doses IM adequadasanafilaxia refratária
Acionar intensivista/anestesista e iniciar infusão EV de adrenalina — apenas por profissional experiente, em bomba e com monitorização contínua
Exemplo de preparo (se o serviço adota o do RCUK): 1 mg em 100 mL de SF 0,9% = 10 mcg/mL, iniciando 0,5–1,0 mL/kg/h e titulando pela resposta
Esse preparo exige dupla checagem e a calculadora do serviço antes de usar. Nunca usar bolus EV de adrenalina 1 mg/mL no atendimento comum
Beta-bloqueado que não responde: glucagon pode ser considerado pelo protocolo toxicológico/local, com via aérea protegida e antiemético — não improvisar dose se o serviço não padroniza
Por quê & armadilhas

A infusão EV existe porque a IM repetida tem teto, e não porque ela seja melhor: adrenalina EV mal titulada causa isquemia miocárdica, arritmia e crise hipertensiva. Por isso a barreira aqui é de competência e de monitorização, não de indicação.

O paciente em uso de betabloqueador é o cenário clássico de refratariedade — os receptores beta estão ocupados, e é aí que o glucagon, que age por via independente, tem lugar.

European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.
Anti-histamínico e corticoide — depois, e para menos do que se imagina
nenhum dos dois trata via aérea ou choque
Anti-H1 — só após estabilização, e apenas para os sintomas de pele (urticária, prurido, angioedema cutâneo). Use o que o seu serviço tem; a escolha muda o perfil de efeito adverso, não o desfecho da anafilaxia:
DrogaDose adultoObservações
Difenidramina 1ª geração · a mais usada por via parenteral25–50 mg IM ou EV lento (em 5 min, diluída)a opção quando não há via oral · sedação importante — atrapalha a vigilância das 4–6 h de observação e pode mascarar rebaixamento por hipoperfusão
Prometazina 1ª geração · cuidado25 mg IM profundaEvitar a via EV — há relatos de necrose tecidual, gangrena e amputação por irritação química, independentemente da via parenteral; se for inevitável, nunca acima de 1 mg/mL e em veia calibrosa · também hipotensa, o que é péssimo aqui
Hidroxizina 1ª geração · VO25–50 mg VOsedativa; alternativa quando só há via oral e não há anti-H1 moderno
Dexclorfeniramina 1ª geração · muito disponível no Brasil2 mg VO ou 5 mg IM/EV lentosedação moderada; apresentação em gotas e comprimidos facilita a alta
Cetirizina / loratadina / fexofenadina 2ª geração · preferidas quando existiremcetirizina 10 mg VO · loratadina 10 mg VO · fexofenadina 180 mg VOnão sedam — é a vantagem que importa: o paciente permanece avaliável durante a observação
Anti-H2 — famotidina20 mg EV em 2 min ou VOadjuvante ao anti-H1 para sintoma cutâneo; evidência fraca, mas inofensivo
O ponto que nenhuma dessas linhas muda: anti-histamínico não trata via aérea, broncoespasmo nem choque — ele age em minutos a horas e só nos receptores da pele. A escolha entre 1ª e 2ª geração é sobre quanto o paciente vai dormir enquanto você o observa, não sobre eficácia na anafilaxia
Corticoide não é rotina para prevenir reação bifásica — a evidência não sustenta. Considerar somente após a ressuscitação, em quadro refratário ou com asma/choque persistente
Nenhum dos dois substitui ou adia a adrenalina — dar anti-histamínico primeiro é o erro mais frequente registrado em óbitos por anafilaxia
Por quê & armadilhas

O corticoide sobreviveu por décadas na prescrição de anafilaxia com a promessa de prevenir a reação bifásica — promessa que os dados não confirmaram. Ele não é proibido, mas deixou de ser automático, e principalmente deixou de ser motivo para atrasar a adrenalina enquanto alguém dilui hidrocortisona.

European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.
Quanto tempo observar — e o que sai com o paciente
a alta é estratificada, não por relógio único
Observação mais curta pode bastar se houve resposta rápida a uma dose precoce, resolução completa, treinamento e suporte garantidos
Observação prolongada se: múltiplas doses de adrenalina, asma grave associada, reação bifásica prévia, absorção contínua do alergênio (via oral), apresentação noturna ou acesso difícil ao serviço
Triptase pode ser colhida na janela do serviço — sem atrasar o tratamento
Alta com: autoinjetor conforme disponibilidade, treinamento de uso, plano escrito, identificação do gatilho e encaminhamento à alergologia
Por quê & armadilhas

A reação bifásica é o motivo da observação, e ela é imprevisível o bastante para que o tempo saia de fatores de risco, não de uma regra fixa. O item que mais muda o futuro do paciente não é a hora de observação: é sair com autoinjetor, saber usá-lo e ter consulta marcada.

European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.
Dieta
a primeira linha da prescrição que todo mundo escreve no automático
Zero até estabilização completa — risco de edema de via aérea e de vômito · reintroduzir dieta sem o alergênio suspeito, com o gatilho anotado em prontuário e na alta
Jejum tem data e hora — escrever o motivo e quando reavaliar. "Jejum" sem prazo vira desnutrição de terceira semana
Disfagia: triagem antes da primeira colher em qualquer rebaixamento, AVC ou pós-extubação — falhou, sonda; a medicação também passa por ela
Por quê & armadilhas

O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".

Cuidados de enfermagem — a rotina que evita a segunda doença
decúbito, pele, cabeceira e oxigênio: o que não aparece na evolução até virar problema
Sinais vitais e rotina de UTI 2/2 h (espaçar conforme estabilidade) · balanço hídrico e diurese registrados
Cabeceira 30–45° — reduz aspiração e pneumonia associada à ventilação · abaixar só com motivo escrito (choque, procedimento)
Mudança de decúbito 2/2 h + avaliação diária da pele nas proeminências (sacro, calcâneo, occipital, trocânter) · colchão de redistribuição de pressão no imóvel
Curativos inspecionados por turno; datar a troca · higiene oral com antisséptico no intubado · olhos lubrificados no sedado
Fisioterapia — não se aplica na fase aguda; reavaliar se houver internação prolongada
Oxigênio conforme necessidade: SpO₂ 90–96% — na anafilaxia com hipoxemia, oxigênio de alto fluxo enquanto a adrenalina age. Oxigênio é droga: tem alvo, tem dose e tem excesso
Por quê & armadilhas

Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.

A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.

Profilaxia de úlcera de estresse — só com indicação
não é carimbo de internação: sem fator de risco, o dano supera o benefício
Com indicação: inibidor de bomba de prótons — omeprazol ou pantoprazol 40 mg EV ou VO 1×/dia, conforme padronização do serviço
Reavaliar a indicação todo dia — ela costuma sumir antes da alta da UTI, e a prescrição costuma continuar.
O preço de prescrever sem indicação: mais pneumonia associada à ventilação, mais C. difficile, e a prescrição crônica que sai junto na receita de alta
Há indicação de profilaxia? fator maior ou 2 menores
Por quê & armadilhas

Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.

A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.

Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.
Profilaxia de TEV — pelo risco, não pelo tempo de internação
"internou, prescreve" é o erro nos dois sentidos: sobra em quem não precisa e falta em quem precisa
Farmacológica, com indicação e sem sangramento: enoxaparina 40 mg SC 1×/dia · ClCr < 30: enoxaparina 20 mg SC 1×/dia ou HNF 5.000 UI SC 8/8–12/12 h, conforme protocolo
Mecânica (compressão pneumática intermitente) quando a farmacológica está contraindicada — sangramento ativo, plaquetopenia grave, pós-operatório neurocirúrgico recente — ou somada a ela no altíssimo risco
Não somar profilaxia a quem já está em anticoagulação plena — é dose dupla sem ganho
Anafilaxia isolada não é indicação de profilaxia. Ela entra se a internação se prolongar por outro motivo — aí, pelo escore.
Escore de Pádua calcular o risco de TEV
Por quê & armadilhas

O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.

Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".

Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.

O que não prescrever

Erros que pioram o desfecho.

Esperar o rash aparecer. Anti-histamínico ou corticoide antes da adrenalina. Adrenalina por via subcutânea — absorve mal no vasoconstrito. Bolus EV de adrenalina 1 mg/mL no atendimento comum. Deixar o paciente sentar ou levantar abruptamente. Ranitidina como parte do pacote. E prometer que o corticoide previne a reação bifásica — a evidência não sustenta.

Prescreveu — e agora?

A observação é estratificada, não cronometrada igual para todos. E o que muda o próximo episódio não acontece no PS: autoinjetor prescrito e treinado, plano escrito, gatilho identificado e alergologia marcada. Sem isso, o paciente volta — e da segunda vez pode não chegar.

Levar o caso ao assistente de conduta
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176. Fatores de risco de sangramento digestivo: Cook DJ, et al. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 · Escore de Pádua: Barbar S, et al. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.