Anafilaxia
Uma droga, uma via, um tempo: adrenalina intramuscular na coxa, agora. Anti-histamínico e corticoide não abrem via aérea nem sustentam pressão — e esperar a urticária aparecer é o atraso que mata.
Serve para a anafilaxia do adulto no pronto-socorro, na enfermaria e na UTI. Doses pediátricas são por peso e não estão nesta página. Gestação exige decúbito lateral e obstetrícia junto, mas não muda a indicação nem a dose da adrenalina.
Confira antes de copiar qualquer item: idade, peso aferido e o peso usado na dose, alergias, gestação/lactação, comorbidades, medicamentos prévios e a última dose, creatinina e ClCr, função hepática, ECG/QTc, eletrólitos, glicemia, acesso disponível, a apresentação padronizada na sua farmácia e o destino/nível de monitorização. Nada aqui substitui o protocolo institucional nem o julgamento de quem está com o paciente.
A ordem é a da prescrição real: confirmar e estratificar, o que muda desfecho primeiro, as condutas condicionais, e a rotina que sustenta o resto — dieta, cuidados, profilaxias. Dose sempre visível; o porquê, a evidência e as controvérsias em "por quê & armadilhas".
Item por item
A adrenalina IM na coxa é a única intervenção que muda mortalidade na anafilaxia, e o erro dominante não é a dose — é a demora. A dose está escrita aqui em mg e mL com a concentração de propósito: a confusão entre 1 mg/mL e 0,1 mg/mL é a origem clássica do erro de dez vezes.
O deltoide absorve pior que a coxa, e a via subcutânea absorve mal no paciente vasoconstrito e chocado. Coxa, intramuscular, agulha adequada ao panículo.
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.A anafilaxia redistribui volume massivamente para o extravascular — o paciente precisa de litros, não de "um soro". E a posição é tratamento: existem relatos de parada ao sentar ou levantar pacientes em anafilaxia, pelo colapso do retorno venoso num leito vascular dilatado.
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.A infusão EV existe porque a IM repetida tem teto, e não porque ela seja melhor: adrenalina EV mal titulada causa isquemia miocárdica, arritmia e crise hipertensiva. Por isso a barreira aqui é de competência e de monitorização, não de indicação.
O paciente em uso de betabloqueador é o cenário clássico de refratariedade — os receptores beta estão ocupados, e é aí que o glucagon, que age por via independente, tem lugar.
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.| Droga | Dose adulto | Observações |
|---|---|---|
| Difenidramina 1ª geração · a mais usada por via parenteral | 25–50 mg IM ou EV lento (em 5 min, diluída) | a opção quando não há via oral · sedação importante — atrapalha a vigilância das 4–6 h de observação e pode mascarar rebaixamento por hipoperfusão |
| Prometazina 1ª geração · cuidado | 25 mg IM profunda | ⚠ Evitar a via EV — há relatos de necrose tecidual, gangrena e amputação por irritação química, independentemente da via parenteral; se for inevitável, nunca acima de 1 mg/mL e em veia calibrosa · também hipotensa, o que é péssimo aqui |
| Hidroxizina 1ª geração · VO | 25–50 mg VO | sedativa; alternativa quando só há via oral e não há anti-H1 moderno |
| Dexclorfeniramina 1ª geração · muito disponível no Brasil | 2 mg VO ou 5 mg IM/EV lento | sedação moderada; apresentação em gotas e comprimidos facilita a alta |
| Cetirizina / loratadina / fexofenadina 2ª geração · preferidas quando existirem | cetirizina 10 mg VO · loratadina 10 mg VO · fexofenadina 180 mg VO | não sedam — é a vantagem que importa: o paciente permanece avaliável durante a observação |
| Anti-H2 — famotidina | 20 mg EV em 2 min ou VO | adjuvante ao anti-H1 para sintoma cutâneo; evidência fraca, mas inofensivo |
O corticoide sobreviveu por décadas na prescrição de anafilaxia com a promessa de prevenir a reação bifásica — promessa que os dados não confirmaram. Ele não é proibido, mas deixou de ser automático, e principalmente deixou de ser motivo para atrasar a adrenalina enquanto alguém dilui hidrocortisona.
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.A reação bifásica é o motivo da observação, e ela é imprevisível o bastante para que o tempo saia de fatores de risco, não de uma regra fixa. O item que mais muda o futuro do paciente não é a hora de observação: é sair com autoinjetor, saber usá-lo e ter consulta marcada.
European Resuscitation Council / Resuscitation Council UK — Guidelines 2025: Special Circumstances (anafilaxia) · Cardona V, et al. World Allergy Organization Anaphylaxis Guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472 · Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176.O jejum prolongado é a prescrição mais barata de escrever e uma das mais caras de sustentar: cada dia sem aporte custa massa muscular num paciente que vai precisar dela para desmamar, sentar e andar. A pergunta de visita não é "está em jejum?", é "por que ainda está, e até quando?".
Estes itens não competem com a doença principal — eles decidem se o paciente sai da UTI com a doença resolvida e o corpo inteiro, ou resolvido e com uma lesão por pressão em sacro que vai custar meses. Lesão por pressão, pneumonia por aspiração e fraqueza adquirida na UTI são as três complicações que a prescrição previne com linhas que ninguém lê.
A cabeceira elevada é o exemplo perfeito: é gratuita, tem efeito documentado sobre pneumonia associada à ventilação, e é a primeira coisa que se perde quando o leito é abaixado para um procedimento e ninguém sobe de volta.
Os dois fatores de risco independentes clássicos vêm do estudo de Cook: ventilação mecânica prolongada e coagulopatia. Fora deles, o sangramento clinicamente importante é raro o suficiente para que o dano da supressão ácida — pneumonia e colite por C. difficile — comece a pesar mais.
A armadilha real não é começar, é não parar. A indicação some quando o paciente extuba e a coagulação normaliza; a prescrição, não. É assim que um inibidor de bomba iniciado numa UTI vira uso crônico de anos, com a hipomagnesemia que ele causa aparecendo lá na frente, sem que ninguém ligue os dois.
Cook DJ, Fuller HD, Guyatt GH, et al. Risk factors for gastrointestinal bleeding in critically ill patients. N Engl J Med. 1994;330(6):377–381 — os dois fatores independentes. Os fatores menores vêm de consensos posteriores; não há escore validado único.O escore de Pádua foi construído justamente para separar quem se beneficia de quem só recebe: no estudo original, os pacientes de alto risco sem profilaxia tiveram cerca de 11% de TEV, contra pouco mais de 2% nos de baixo risco. É essa diferença que justifica prescrever — e que explica por que prescrever para todo mundo dilui o benefício e soma sangramento.
Duas armadilhas de plantão. A primeira é a dose fixa em quem não a comporta: no ClCr abaixo de 30 a enoxaparina acumula, e a dose profilática vira quase terapêutica. A segunda é a soma silenciosa — o paciente que já recebe heparina plena por outro motivo e ganha mais 40 mg de enoxaparina porque "está internado".
Barbar S, Noventa F, Rossetto V, et al. A risk assessment model for the identification of hospitalized medical patients at risk for venous thromboembolism: the Padua Prediction Score. J Thromb Haemost. 2010;8(11):2450–2457.O que não prescrever
Esperar o rash aparecer. Anti-histamínico ou corticoide antes da adrenalina. Adrenalina por via subcutânea — absorve mal no vasoconstrito. Bolus EV de adrenalina 1 mg/mL no atendimento comum. Deixar o paciente sentar ou levantar abruptamente. Ranitidina como parte do pacote. E prometer que o corticoide previne a reação bifásica — a evidência não sustenta.
A observação é estratificada, não cronometrada igual para todos. E o que muda o próximo episódio não acontece no PS: autoinjetor prescrito e treinado, plano escrito, gatilho identificado e alergologia marcada. Sem isso, o paciente volta — e da segunda vez pode não chegar.
Levar o caso ao assistente de conduta